Author page: Dev In Station Tecnologia LTDA

Uma Rosa nasceu

Minha filha nasceu. Rosa é seu nome. Enfeitar a vida é seu destino. Olho para a mulher que amo e agradeço. Está linda entre os lençóis do hospital e um travesseiro pouco confortável. Faz gesto de um incômodo sem reclamar. Apenas me olha. Os nossos olhares dizem tanto!

Ainda está com dor, certamente. Mas o olhar nos conduz a tempos que ainda chegarão. Aos que teimam em dizer que o tempo esvazia o balde do amor, tenho a dizer que buscaram em fonte errada. Continuo e continuarei olhando para a mulher que amo com o desejo de eternidade.

Enquanto beijo a menina, viajo pelo tempo do nosso primeiro encontro. Um dia de sol. Um pedido de informação em uma praia de multidão. Como foi que nos vimos? Não sei. Como foi que nos unimos? Quem sabe? O destino existe?

No dia do nosso casamento, quando os meus joelhos beijaram o chão, eu agradeci. Na saída da Igreja, o luar dispensava outras formas de iluminação. E foi assim que prosseguimos.

Rosa era também o nome da minha sogra. Viveu para ver o nosso casamento e depois partiu. A menina é o despertar de amanhãs que nos invade. Corre pela casa anunciando alegria. Ri de coisas simples e ensina que é nelas que deveríamos morar. Sempre.

Gosta de livros e de balas. A preferida é uma de doce de leite que faz com que ela suspire fundo expressando algum êxtase de prazer. A mãe é comedida. Balas em excesso não fazem bem. Eu sou mais permissivo. Finjo que não vejo e rio. No rio da vida, algumas pequenas distrações não perturbam o curso.

Já havíamos vencido o almoço, quando Rosa, olhando-me com olhos pidonhos, pediu a bala. A mãe meneou a cabeça, mas concordou. “Apenas uma”, autorizou.

Saímos nós dois. Rosa e eu. Pequenininha de mãos dadas. Os cabelos bem penteados. Uma pulseirinha cor de rosa, um saltitar de compreensão de uma vida nos seus inícios.

Na comunidade em que, a violência ainda teima em permanecer, os homens ainda engatinham na arte de compreender a beleza da paz. E, mais uma vez, houve um corre-corre. Peguei minha Rosa no colo e a protegi como pude. Os tiros vinham de onde nem se sabia. Abaixei. Escondi. E ouvi um grito de dor. Uma bala perdida atingiu uma criança. A mãe chorava o choro doído da injusta morte. Mais uma. Mais uma criança partindo prematuramente. Mais uma dor mostrando sua face. Meu Deus. Apertei ainda mais forte a que nasceu com o destino de enfeitar a vida e agradeci. Fui com ela abraçar a mãe e o seu luto. Fiz o que pude. Chorei junto.

A mulher que amo veio ao nosso encontro. Preocupada. Chorou tanto. Teve medo de ser sua filha. Teve culpa de pensar assim. Minha filha nos consolava quando, enfim, cumprimentamos o tapete com os nossos corpos. Ficamos assim no chão. Sem chão. Com vontade de mudar dali. Com vontade de mudar ali.

A mãe da menina que morreu também havia ido comprar uma bala para sua filha. Uma bala que apenas adoça e faz rir.

Rosa, sentada no sofá, nos observava. “Calma, papai, calma, mamãe. Eu vou crescer e vou cuidar de todo mundo. E ninguém mais vai fazer maldade”.

Uma brisa de ingenuidade e esperança nos trouxe de volta o riso. Convidei-a com braços a deitar conosco. No chão da vida. Abraçamo-nos sem nada dizer. E ali mesmo descansamos da realidade.

Um dia, a vida será bela.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 25/11/2018

Vida de artista

“Foi assim que começou o meu dia”, conta Roseane, para sua mãe. “Acordei cedo. O dia me acordou esquisito. Exigente de que, antes do necessário, eu me levantasse. Os pensamentos roubaram-me a paz. Tantas incertezas. Sabe como é a vida de artista. Dura.

Teimosa, resolvi dormir. E nada de sentir o nada. Apenas um martelar de inconformismos. Fiquei brigando comigo mesma em pensamento. Dizendo o que deveria ter dito em uma ocasião. E em outra. Ensaiando o que direi se voltar a encontrar. Tudo isso antes do senhor Sol dar o ar da graça.

Comi sobressaltada. Mirela se ajeitava para ir à escola, e eu a olhava com gratidão. Minha filha. Um ensaio de lucidez aos 9 anos de idade. Será melhor do que eu, quando chegar o momento das decisões. Nova briga comigo mesma. Devia ter dito isso. Devia ter retrucado. Não devia ter dito aquilo. E o dia se seguiu. Cansativo. Nada de novo. Nem a comida. Há algum tempo tenho brigado com os sabores. Nada me realiza. Desde que o Junior se foi. E eu queria que ele tivesse ido. Havia um sufocamento com a sua presença. Há um sufocamento com a sua ausência. Consegue me entender?

Quando ele estava comigo, eu dizia para mim mesma: e estando, me faltas. E agora que ele me falta eu digo para mim mesma: e agora?”.

Roseane para um pouco. A mãe apenas ouve. E espera.

“Sabe, mãe, fui à casa do Gui, ler um texto novo de teatro. Uma peça adaptada do Suassuna. Li como se deve, mas longe. Enquanto comíamos pipoca e bebíamos café, olhava para a Pedra da Gávea. Quieta. Gigante. E eu cheia de pequenas agitações. Mirela foi comigo. Atenta a tudo. Quando acabou, eu estava em êxtase. Que texto! Percebi que minha personagem poderia ter a grandeza da Pedra. Chega de belezas. Chega de fazer papel de mulher linda. Quero viver sem maquiagem. Ficar feia mesma. Mas sem maquiagem.

Foi quando Mirela me olhou e disse, sem peneira alguma: ‘Mamãe. é impossível você ficar feia! você é linda demais!’.

Ela falou como brisa que espanta qualquer calor, ela falou com a liberdade de quem nem precisaria estar ali.

Mamãe, estando, ela nunca me falta. E talvez seja isto que eu precise neste momento: compreender. Antes de desligar o dia.”.

A mãe de Roseane olhou para os lindos olhos da filha. Aproximou-se um pouco mais e brincou com os seus cabelos cacheados.

Roseane era realmente linda. Sem maquiagem. Vez ou outra, é melhor ficar assim. Enquanto elas celebravam o silêncio, Mirela entrou.

Três mulheres, três gerações, três corpos de resistência. O sofrer irá moldando o amar também e também as dúvidas todas que fazem parte do existir.

Na Pedra da Gávea, a Lua sorria como cúmplice das cenas de amor, de qualquer forma de amar.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 18/11/2018

O baile de Isadora

Quando pode, Isadora vai ao baile. Quando pode, porque tem ela o dever/prazer de cuidar dos netos. Tem ela as atribuições de abrir e fechar a Igreja e de preparar tudo para que os que buscam oração se sintam acolhidos.

Isadora já completou muitos anos de vida, anos intensos. Enterrou alguns dos seus. Chorou o inconformismo da perda. Em seu coração, Isadora gostaria de que tudo fosse eterno. A felicidade é uma estrela distante de ser compreendida se perdemos quem amamos.

Um filho se foi. O marido, também. E, também, os pais. E a única irmã. Mas há os filhos que restaram. Dois. Um casado e outro solteiro. O casado tem 5 filhos. Netos que enfeitam de aroma a árvore da vida de Isadora.

Gosta Isadora de baile. Dança a dança da amizade com amigos que também sabem viver a vida. Prefere as músicas antigas. No intervalo de uma dança e outra, enquanto beberica uma bebida qualquer, comenta ela das letras. Cada uma tem uma história. “Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”. Ela repete a letra para as amigas. E exclama: “Quem foi o gênio que compôs isso?”. E prossegue distribuindo vida em potes de sorrisos. E abraços. E cumprimentos com exclamações a quem havia desaparecido e ressurgiu. “O que houve? Faz tempo que você não vem. Que bom que veio!”

E outra canção. “Naquela mesa ele sentava sempre e me dizia sempre o que é viver melhor. Naquela mesa ele contava histórias…”. Isadora para no tempo e viaja para o colo de seu pai. Um contador de histórias, um iluminador de histórias alheias. Como ele gostava dessa canção. Em casa, desde sempre, ele reunia as duas filhas para cantarolar. “Afinado e de bom gosto”, diz Isadora para o amigo que ensaia outra dança.

O baile vai chegando ao fim. Tudo muito simples, tudo muito saboroso. O sabor das poucas comidas que alimentam Isadora é percebido no prazer que ela tem em degustar. O presente é um presente. O passado vem, vez em quando, para permitir a saudade que cumpra o seu papel. O futuro será bom, é só isso que ele tem a dizer sobre o amanhã. Já o presente, é como um baile com boas músicas, com dançarinos decididos a marcar de alegria cada movimento. Com amigos que sabem que um sorriso desinteressado vale mais que desejos desnecessários sobre um futuro que nem sabemos.

Quando chega em casa, Isadora, antes de dormir, faz sua oração. “Obrigada Senhor, por mais um dia, por mais um dia bom”. E adormece sorrindo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 11/11/2018

A dor que dói mais

Ana Clara está com muita dor. Já foi ao posto de saúde do vilarejo em que mora várias vezes. Não sabem dizer de onde vem a vermelhidão, nem o inchaço, nem as saliências que tornam uma das pernas quase que inútil. Os remédios caseiros já foram usados, os prescritos pelo médico que vez ou outra aparece, também. E nada.

Junior é o esposo. É ele quem leva a mulher e dela cuida. É ele quem trabalha e os alimenta. Ana Clara teve que deixar o emprego. Já faz semanas que essa perna a mantém assim, desesperançada. O marido decidiu ir com ela à capital. Moram longe os dois. O acesso é de barco. O barco leva alguns dias. A passagem custa mais do que podem pagar. E tem ainda que levar algum dinheiro. E saber se serão atendidos ou não. Não há ninguém por lá, onde moram, que tenha algum recurso que possa ser oferecido, mesmo como empréstimo. Pelo menos ninguém com a generosidade necessária.

Há algum tempo, Junior realizou o sonho de comprar uma moto. Moto simples. Usada. A marca está, inclusive, apagada. Mas serve a moto para as distâncias necessárias do ir e vir. Junior é entregador. Ganha pouco, mas aprecia o que faz. Gosta de trabalhar na liberdade do vento em região tão quente. Cuida da moto como algo precioso para o sustento e para o prazer.

Pois bem, no jantar de ontem, tomaram a decisão. Junior vai vender a moto. É a única forma de conseguir algum dinheiro para cuidar do seu amor. Ana Clara ainda argumentou que esperasse um pouco. Quem sabe o novo remédio resolveria. Resolveu ele que o tempo da espera já passou. Que era preciso por fim àquela dor. Ana Clara disse ao marido que doeria nele ter de vender a moto. Ela sabe quanto foi difícil para ele comprar. Demorou 2 anos pagando, mês a mês, as prestações. Ele olhou para mulher e perguntou: “Você tem dúvida de onde dói mais? Ficar sem a moto ou saber da sua dor?

O cabelo de Ana Clara estava molhado. Ela sentada em um sofá simples com uns panos de enfeite. A perna esticada em um suporte improvisado. Tudo muito bonito em um cômodo pequeno desse interior grande do Brasil. A conversa de ontem foi encerrada com um beijo e um toque delicado de boa noite. Dormiram os dois em um quarto esfriado por um ventilador ranhento. Mas o importante é que estavam juntos. Ali. Encostando, de vez em quando, um no outro. Acariciando e distribuindo beijos adormecidos.

Acordaram. A manhã seria de despedida. O comprador da moto já era conhecido. Pagaria menos do que Junior pagou, mas é o que menos importa. O que importa é providenciar logo a viagem. E cuidar do andar de sua esposa. E aliviar a dor do seu amor. E sentir-se útil tomando a decisão correta.

Tem barco saindo no fim da tarde. O dia é pequeno, mas suficiente para o que deve ser feito. A esposa olha orgulhosa do marido. Jovens. Apaixonados. Nascidos à beira de um grande rio e felizes por viverem ali. Juntos. Pena que faltem algumas coisas. Pena que as doenças existam. Pena que os generosos nem sempre têm o necessário.

Andando com dificuldade, ela arruma o que vão levar, enquanto ele resolve o resto. No barco, dormirão juntos, ouvindo os barulhos da noite e sonhando com dias sem dor.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 04/11/2018

A prudência de Fabiano

Fabiano comemorou há alguns dias seu aniversário de 80 anos. Recebeu dos seus filhos e da mulher um presente inesquecível. Um livro escrito por Pedro, o caçula da família. No livro, a trajetória do pai, seus sofrimentos e superações. A saída do interior e a chegada na capital. A faculdade tardia de Odontologia. O sonho realizado de trabalhar com a saúde, de devolver o sorriso às pessoas.

No consultório de Fabiano, havia sempre lugar para quem sofria com a dor ou com o preconceito. Dinheiro nunca foi o mais importante. Vindo da roça, de uma infância de privações, Fabiano abraçara a generosidade como uma companheira inseparável.

Em um dia que chegou depois de outro e antes de um que ainda virá, estava ele olhando as mensagens que pululavam no seu celular. Em tempos de política, elas se alvoroçaram ainda mais. Leu uma, duas, três mensagens de uma mesma senhora, amiga antiga. Defensora de um candidato, enviava textos depreciando o outro candidato. Fabiano sempre foi um homem elegante e, na elegância, pescou as melhores palavras para dizer algo a amiga.

“Prefiro ler livros a ler algumas barbaridades que vêm chegando em meu celular”, escreveu e enviou. A amiga respondeu de pronto “Ora, tenho que defender as minhas ideias”. Fabiano resolveu gastar algum tempo e escolheu trechos que jamais poderiam ser verdadeiros nas mensagens enviadas pela amiga. “Você acredita que isso seja verdade?”. Sem pausa, ela tascou: “Nem paro pra pensar nisso, só não quero que essa gente ganhe a eleição”. Ele tentou: “Não é melhor enviar textos que destacam a qualidade do seu candidato em vez de mentiras sobre o outro?”. A amiga, sem pensar, já se posicionou: “Prefiro terminar a conversa aqui para não perder o amigo”.

Fabiano se viu envolto em dúvidas sobre se agira corretamente ou não. Os ódios levam algum tempo para se racionalizarem. Nesses casos, não teria sido melhor nada responder? Mas como se as mentiras vão se propagando sem nenhum crivo de pensamento? Foi quando entrou sua esposa. Disse da amiga, dos textos, da mentira, do radicalismo. Disse do que fez. A mulher de Fabiano, farmacêutica de bairro, conversadeira de vocação, sorriu para o seu amor. Elogiou a prudência do homem com quem dividia a iluminadora tarefa de viver. E o convidou para comer um pão na chapa com manteiga lustrosa, e um queijo derretido, vindo da serra.

O café fumegante espalhava seu cheiro naquela cozinha cheia de prosas. Fabiano voltou ao tema das irracionalidades. Das ausências de argumentos verdadeiros. Das mentiras que marcam os desejos. Dos perigos dos radicalismos.A mulher concordou. Falou de um bate-boca na farmácia. A mentira chega sorrateira e fica. E expulsa o bom senso, o discernimento, a cordialidade.

Enquanto tomam o café e comem o pão, saboreiam o que têm. Um ao outro. Os olhares prosseguem românticos. Ele elogia o cabelo da esposa. Ela agradece com olhos de amor. Ele pergunta se ela tem algum tempo para descansarem antes dela voltar para a farmácia. Ela sorri repetindo a palavra: “descansarem…”.

Quem tem o privilégio de amar alguém, em um entardecer de um dia que chegou depois de outro e antes de um que ainda virá, não perde tempo com impropérios em mensagens de Whatsapp.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 28/10/2018

Professor, profissão esperança

Mariana é filha única. Seus pais trabalham muito e muito se preocupam com a educação de Mariana. Quando estão em casa, toda a atenção é dedicada à menina. Brincam, desenham, contam histórias. As histórias que contam abrem os universos que vivem dentro de Mariana. Ela se emociona, ri, chora, às vezes, e pede mais. Às vezes, pede que contem novamente a mesma história. É assim sempre. Renata, a mãe, diz que a decisão de ter um filho muda completamente a vida de um casal. E que, por isso, é preciso renunciar a muitos espaços para estar presente no ofício grandioso da maternidade. Rafael, o pai, tem dois empregos. Passa o dia entre uma coisa e outra. Mas todos os tempos livres são para a amada filha.

Pois bem, era o dia do professor. E Mariana acordou cedo, como de costume para ir à escola. A professora de Mariana chama-se também Mariana. E gosta do que faz. Com idades diferentes e nomes iguais, parecem viver uma plena sintonia. A escola é um espaço em que se realizam. A professora gosta de estar ali; a menina, também. A professora escolheu a profissão da esperança, a menina é a esperança que cresce todos os dias e que há de desabrochar para enfeitar um tempo imprevisível.

Os alunos preparam uma homenagem à professora. E coube a Mariana dizer algumas palavras. Ela ensaiou em casa, com os pais, na noite anterior. Foi ela quem decidiu o que dizer. Os pais apenas ajudaram na lapidação das palavras. Melhoraram juntos um traço aqui e um respiro ali. Os alunos entoaram um canto, desses que trazem o carinho em forma de canção, e o fizeram lindamente. Um coral é sempre um somatório de esforços e talentos banhados pela magia da música.

Depois da canção, a entrega das flores.

Olhando para as flores que já descansavam no colo da professora, a menina começou a sua oração. Falou dos plantios. Falou dos encontros. Falou do cuidado. Deu pausa. Sorriu. Recebeu de volta o sorriso. Prosseguiu. Lembrou o primeiro dia, a primeira aula, o primeiro “não”, os tantos “sins”. Lembrou a importância de estarem ali. Pausa e nova troca de olhares e de sorrisos.

E foi dizendo o que preparou. E encerrou desconcertando de emoção a professora. “Temos o mesmo nome, professora, e a mesma vocação”. A professora olhou aguardando a conclusão. “A senhora já é uma mestra e eu sou uma aprendiz. Mas, um dia, eu quero ser a Mariana mestra também. Quero ser professora como a senhora. Quero entrar e dar “bom dia” e fazer com que o dia seja bom. Quero terminar desejando que o próximo dia chegue logo para estar novamente ensinando. Professora, a senhora é nossa inspiração. Obrigada por compreender o bem que nos faz”. E prosseguiu a menina dizendo e mexendo a cabeça de um lado para o outro. Levemente. O cabelo acompanhava o movimento. O olhar era de sorriso.

Na Mariana professora, algumas lágrimas teimavam em revelar o que o sorriso já havia feito. Era um dia do sol.

À noite, a menina contou tudo com detalhes aos pais. Os dois, preocupados com tempos de tantos desentendimentos, deram uma pausa. Era preciso dar permissão as lágrimas que também resolveram visitá-los.

Rafael olhou sorrindo para Renata e confirmou: “Que delícia que é ter uma família”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 21/10/2018

A onda da intolerância

Dona Arlete estava com as mãos na massa, preparando o bolo para o aniversário da bisneta de 15 anos. Foi quando ouviu o comentário de um jornalista sobre uma notícia que a deixou chocada. Um homem assassinado na Bahia por divergências políticas, e o jornalista dizendo que essas coisas acontecem.

Dona Arlete sentou. O homem do rádio continuou noticiando outras coisas. Ela ficou com a imagem paralisada. Dona Arlete viveu a ditadura, chorou o desaparecimento do filho de uma estilista que ela conhecia. Acompanhou mães que imploravam para que os filhos não saíssem às ruas, que não enfrentassem o sistema. Que era perigoso.

Dona Arlete participou de um ou outro comício das “Diretas já”, festejou a volta da democracia, votou em partidos diferentes nas eleições, sempre escolhendo quem ela considerava melhor para administrar sua cidade, seu estado ou seu país, livremente. Mas matar alguém por discordar é coisa com que ela não concorda. Depois do susto da notícia e do comentário, ficou com raiva. Como um jornalista vulgariza a morte de alguém? Como? Pensou um pouco. Disse para si mesma que não iria permitir que a raiva a dominasse.

Respirou fundo. Voltou a preparar o bolo. Lembrou do marido, morto há muito tempo. Lembrou do quanto ele temia a intolerância. O marido teve o pai morto na guerra. Fugiu com a mãe. Filho de judeus, ele contava aos filhos como era doloroso imaginar o que o seu pai sofrera, o que o seu povo sofrera. Amava o Brasil por ser uma terra de acolhimentos. Dizia aos amigos que essa terra era abençoada por Deus, não apenas pelo clima, pela água em abundância, mas pelo povo que não era adepto a preconceitos. No Brasil, dizia o marido de Dona Arlete, pode ser dessa ou daquela religião, nascido nesse ou naquele lugar, torcer para um ou outro time, ser dessa ou daquela escola de samba, gostar mais desse ou daquele governante. No Brasil, tudo é paz.

Enquanto mexia a massa para o bolo, os olhos de Dona Arlete teimaram em derramar lágrimas. As lágrimas são um presente do Criador para nos lembrarmos da beleza dos sentimentos. Tem saudades do marido. Tem preocupação com o amanhã.

Filhos, netos, bisnetos. Dona Arlete já viveu muito e, por isso, é agradecida a Deus pelo dom da longevidade. Mas quer viver mais. Diz sempre que, se depender dela, prefere ficar por aqui, embora acredite que há um outro lugar lindo que abraça os que se vão. Deus não nos faria para acabarmos e ponto. É o que ela diz. Mas não tem pressa.

Dona Arlete muda a estação do rádio. Não quer ouvir o jornalista mais. Prefere uma música. Uma música calma para acalmar os seus sentimentos. O bolo vai ficar lindo, a festa também. A bisneta merece.

Enquanto pensa isso, fecha os olhos e reza do seu jeito. Pelo Brasil. Pelos brasileiros. Que uma luz ilumine os que andam encobertos pela raiva. Ela nunca viu nenhum país saindo de crise nenhuma com ódio.

Dona Arlete é uma mulher que ama amar, por isso gosta tanto de viver.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 14/10/2018

O voto de Sebastiana

Sebastiana é uma mulher de poucas palavras. Aprendeu que só se fala o necessário. Não gosta de opinar sobre a vida das pessoas, acha um desperdício de tempo e de energia. Gosta das suas coisas e dos seus amigos, ou melhor, dos seus amigos e das suas coisas. Não tem muitos amigos porque é da crença de que um amigo merece atenção especial. Se necessário, passa horas ouvindo alguma dor que incomoda um amigo seu. E, depois, diz o que deve ser dito, pensado, refletido.

Sebastiana acordou, tomou o café que ela mesma preparou e buscou na penteadeira a colinha que fez para levar até o colégio em que vota. São muitos cargos, muitos números diferentes, levar anotado facilita a vida, decide ela.

O voto de Sebastiana é dela. A escolha, ela não terceirizou. Ouviu comentários daqui e dali. Ficou surpresa com os xingamentos. Achou desnecessária a quantidade de brigas pessoais ou pelas redes novas que criaram para unir as pessoas.

Ouviu quem argumentava em favor desse ou daquele. Enquanto ouvia, dava desconto para as mentiras que falavam. Sebastiana nunca entendeu por que se busca história mentirosa para fazer com que a história que se quer contar pareça verdadeira. Na sua simplicidade, pensa que o melhor era só dizer o que se sabe. Uma amiga disse que essa história de colocar mentira no meio da verdade é a tal da fakenews ou da pós-verdade. Ela não compreendeu muito bem, mas sabe que a mentira não leva a lugar nenhum.

Na rua, em frente à casa em que mora, ouviu uma discussão em que um chamava o outro de burro por votar em um candidato que o outro não concordava. Ela apenas mexeu com a cabeça pensando que não é assim que se convence.

Para cada cargo, Sebastiana pesquisou do seu jeito. Ouviu o líder da sua Igreja pedindo que votasse em um. Ela gosta do seu líder, mas dá a ele o poder de ser apenas o seu líder religioso; no seu voto, manda ela. Ouviu um amigo do seu filho, que ela considera um filho, dizendo que o melhor era um outro candidato. Ouviu. Anotou. E pesquisou. Nem filho nem amigo de filho decide por ela.

Sebastiana ama o Brasil. Acha que há muita coisa errada, mas que há também muita coisa certa. Acompanha com desconfiança o que dizem as pessoas da imprensa. É difícil saber a verdade, reflete ela.

O filho de Sebastiana é professor de filosofia, o que lhe dá muito orgulho. Ela se lembra de uma vez em que ele estava conversando com o amigo sobre um filósofo que dizia que era preciso duvidar de tudo. Ela não se lembra mais do nome do filósofo, mas gosta do ensinamento.

O melhor é não ter radicalismos. Ser do contra e votar por ódio não é com ela. Ser a favor sem conhecer em quem se vai votar, também não.

O café de Sebastiana é simples, como tudo em sua vida. Nada de brigas nem de exageros. Viver é uma delícia, é essa a sua escolha. Em quem Sebastiana vai votar? Em quem ela decidiu que será melhor para cuidar do país que ela ama.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 07/10/2018

Um dia de sol

A praia é sempre um convite para um mergulho nas delicadezas da natureza.O caminhar contemplativo, o molhar os pés, acompanhados de outros pés ou não, o preencher o corpo com o sal que sobe e desce, que vai e vem, o deitar para esquecer ou desejar, o que foi ruim ou o que há ainda de surpreender. É assim o mar, com os mistérios de tantas vidas que se encontram, democraticamente, em suas águas.

Quem são as pessoas que vão e vem e que aproveitam uma pausa para respirar? Deveria ser lindo. Inda mais em um dia de sol. Mas nem sempre é. Pessoas são mais complexas do que as águas salgadas ou do que as areias que se deixam banhar por elas.

Era, então, um dia de sol. E o movimento trazia ondas de pessoas pela rua, pela calçada, pelos quiosques de alimentação. Foi quando vi uma briga. Não dessas assustadoras de arrastões. Não das que envolvem armas de fogo.Eram dois namorados. Penso eu. Jovens, ainda. Ele parecia ter se excedido na bebida, ela parecia disposta a revidar à altura.

E começaram a gritar. Algumas crianças correram assustadas. Faziam tranquilamente seus castelos de areia quando ouviram a deselegância. Um senhor tentava intervir. Ela ameaçava bater nele com uma garrafa vazia de alguma bebida. Ele gritava alto dizendo que sabia que ela o traía. E usando palavras pouco adequadas para quem diz amar.

Ela não deixava por menos. E o ameaçava dizendo que o corpo dela a ela pertencia e que era ela que decidia quem deveria ou não se deitar com ela. Ele chorava, gritando, dizendo que a amava. Ela, tentando jogar a garrafa, caiu. Ele caiu, também. Caíram os dois em suas dignidades.

Estranhamentos em histórias de namoro há, mas não se resolvem em formas de espetáculo. Inda mais em dia de sol.Um casal chegou para ajudar. Ele, depois de ter caído na areia, parecia ter adormecido. Efeito do álcool, talvez. Ela, indignada, dizia que ele era um vagabundo. E foi assim que o casal conseguiu ajudá-los a ir embora. Percebi que eram conhecidos. Trataram-se pelo nome.

E o dia prosseguiu. Outras brigas devem ter ocorrido em outras praias ou naquela mesma. Outros sustos. Outras agressões.

Queria perguntar ao sol, que do alto avistava tudo, a sua opinião. As baixezas nos roubam instantes preciosos. Histórias de amor, de amor de verdade, não permitem que as ondas do mar retornem de sua chegada sem cumprir a sua finalidade. Rastros precisam ser apagados para que a jornada prossiga. Mas os caminhantes só conseguem prosseguir, se tiverem olhos de ver o espetáculo correto do ir e vir de gentes em uma praia em um dia de sol.

Ainda assisti ao sol se despedir. Outras pessoas, também. Algumas aplaudiram sorridentes.

Lembrei-me do casal.

E o dia descansou mais uma vez.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 30/09/2018

O apagar das luzes

Era um dia como outro qualquer. E a noite chegou. E, com a noite, a dor lancinante de quem perdeu o seu amor. Celina estava em pedaços. Quem já passou por isso sabe o quanto dói .

Rogério resolveu partir. E partiu partindo os mais lindos sentimentos de Celina. No dia do desfecho, só ele falou. Encheu-a de elogios, culpou-se a si mesmo, contou histórias que mais pareciam preparadas para uma saída delicada. E saiu. Ela ficou ouvindo o que ele disse, mesmo depois de ele não mais estar. E ficou ouvindo o que ele falava antes. As promessas de eternidade. O caminhar junto. A construção de uma história que atravessaria as estações e se manteria firme até o final, até o entardecer do existir dos dois.

Rogério escolheu uma outra mulher. Não foi isso o que ele disse. Foi isso o que ela entendeu.O chegar em casa, depois da tal conversa, foi difícil. As fotos ainda decoravam o ontem. Cheias de risos e de poses. Cheias de encantamento. Anos e anos de histórias. E, em um dia como outro qualquer, tudo se finda.

Celina tomou banho. Chorou o choro doído que desidrata os apaixonados. Enxugou apenas o corpo, a alma permaneceu como quis. Quisera ela ter o poder de esquecer tudo, quisera ela acender a luz e encerrar a noite de uma vez por todas. A noite tem o seu tempo. Envolta em pensamentos, não adormeceu. Uma amiga sugeriu que ela tomasse algum remédio para dormir. Preferiu resistir. Choraria o tempo certo. E depois prosseguiria.

Alguns dias se passaram. Sem conseguir se controlar, enviou algumas mensagens. Ele as respondeu, educadamente. Mas nada de esperanças.

“Há uma outra”, foi o que disse a amiga. A suspeita estava correta. Morava, Rogério, em uma casa em frente a uma praça. Era um sobrado onde tantas vezes eles fizeram amor. Pois bem, Celina resolveu ir até lá. Sentou-se em um banco onde pudesse ver sem ser vista. O entardecer já chamava a noite. Ao longe, ela viu os dois chegando. Ao longe, ela viu a luz do banheiro se acendendo. Era assim com ela também. E, de repente, o apagar das luzes. E o resto foi imaginação. Doida imaginação.

Que palavras ele estaria dizendo? Que promessas estaria fazendo? Que toques teria ela que foram mais convincentes que os seus?O choro não veio desta vez. Apenas um vazio e uma vontade de caminhar. E ela resolveu se levantar e ir. Enquanto caminhava, pensava com o luar, “Quanto tempo há de demorar para amanhecer”?

E um alívio, talvez provisório, trouxe uma brisa mansa que surpreendeu. A noite estava quente. Mas as temperaturas mudam quando menos se espera.

Já em casa, Celina arrumou-se em despedida do dia que se ia. E desejou um sono bom. O amanhã existe.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 23/09/2018