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A bondade e os outros lados

“Vi amigos padres animados com a possibilidade de andarem armados, ouvi discursos preconceituosos, percebi atitudes pouco bondosas com os que são ou pensam diferentes.”
Acabei de celebrar os meus 30 anos de padre.

Meu Deus!, o tempo faz o que quer. Vai escapulindo do seu jeito e, quando percebemos, já se foi. Eu era um jovem de 24 anos quando chorei de emoção ao saber que ali entregava a minha vida para celebrar o Amor todos os dias, para acolher os calvários tantos que chegariam até mim, para transformar ódio em bondade. Quantas cerimônias de despedidas presidi, quantos abraços acolhedores em vidas despedaçadas pelas partidas. Poderia desfilar histórias de mães que enterraram filhos, de mulheres que disseram “adeus” aos maridos, de inconsoladas separações. Estava eu ali, presente. O consolo vem da oração e do afeto. Há momentos em que o melhor é apenas estar. Palavras ditas apressadas não encontram o berço preparado para o nascedouro. A morte e a vida são as matérias-primas de um padre. A fé nos alimenta, e as obras do viver nos garantem autenticidade.

Desde que me lembro de algo desejar, lembro-me do desejo de ser padre. Era muito menino quando, coroinha, tocava os sinos nas celebrações. Gostava de ajudar nas cerimônias, sofria com as dores dos dias santos que antecediam a Páscoa. Adolescente, levava a comunhão aos doentes, ensinava nas catequeses, compartilhava os textos bíblicos. No seminário, ouvia as canções sagradas, antigas ou novas, que nos levavam a um lugar de elevação. A primeira missa, os primeiros afazeres de um padre. As dúvidas. A certeza.

E foi com esse recordar que acordei no dia dos festejos. Uma linda missa. Amigos de tantas paróquias por onde passei. Bispos, padres, pastores. Sempre dialoguei muito bem com outras religiões.

E no almoço, momento das conversas livres, um sentimento estranho foi tomando conta de mim. Vi amigos padres animados com a possibilidade de andarem armados, ouvi discursos preconceituosos, percebi atitudes pouco bondosas com os que são ou pensam diferentes.

Ao meu lado, um pastor mais velho parecia viver as mesmas preocupações. Ficamos em silêncio, ouvindo os desatinos: “Tem que matar mesmo, esses bandidos não têm conserto”, “Essa gente vem à Igreja pedir coisas, acha que é pronto-socorro”. E uma das últimas pérolas foi: “Detesto pobre”.

Uma tristeza foi me fazendo companhia. O velho pastor pegou na minha mão e disse, sem nada dizer, que era assim mesmo, que a nossa fé estava depositada em Deus e não nos homens, que foi isso que lemos nas Sagradas Escrituras e isso que aprendemos.

Depois da troca de olhares, me fortaleci e resolvi dizer que não me agradava o que diziam. Religião não é desligamento, é religação. Um padre mais jovem me interrompeu dizendo que a Igreja já apoiou a pena de morte muitas vezes. E eu expliquei que a Igreja erra e se desculpa pelos erros. Ele insistiu. Eu lembrei que a Igreja também torturou, também abusou de inocentes, também feriu as leis do amor.

Não houve brigas, mas terminei inquieto aquela refeição. Deitei para descansar, olhei para o crucifixo e agradeci. Jesus não teve preconceitos, amou indistintamente. Imagine, naquela época, abraçar um leproso, conversar com uma mulher pecadora, acolher um estrangeiro. É Nele que devo me inspirar.

Dormi e sonhei.

O sonho foi lindo. Voltei a ser criança e minha mãe, que já se foi, levou-me a um jardim de bondades. Havia uma placa e tudo. E as cores serviam para embelezar, e as diferenças para exibir criatividade, e o amor para lembrar a razão pela qual nascemos. Acordei sorrindo. A vida não é um sonho, mas sonhadores fazem toda a diferença. Ao lado da minha cama, alguns textos do Papa Francisco, o homem simples que fala da Casa Comum e do acolhimento.

Publicado no dia 20 de janeiro, no jornal O Dia (RJ).

A bondade e os outros lados

Acabei de celebrar os meus 30 anos de padre.

Meu Deus!, o tempo faz o que quer. Vai escapulindo do seu jeito e, quando percebemos, já se foi. Eu era um jovem de 24 anos quando chorei de emoção ao saber que ali entregava a minha vida para celebrar o Amor todos os dias, para acolher os calvários tantos que chegariam até mim, para transformar ódio em bondade. Quantas cerimônias de despedidas presidi, quantos abraços acolhedores em vidas despedaçadas pelas partidas. Poderia desfilar histórias de mães que enterraram filhos, de mulheres que disseram “adeus” aos maridos, de inconsoladas separações. Estava eu ali, presente. O consolo vem da oração e do afeto. Há momentos em que o melhor é apenas estar. Palavras ditas apressadas não encontram o berço preparado para o nascedouro. A morte e a vida são as matérias-primas de um padre. A fé nos alimenta, e as obras do viver nos garantem autenticidade.

Desde que me lembro de algo desejar, lembro-me do desejo de ser padre. Era muito menino quando, coroinha, tocava os sinos nas celebrações. Gostava de ajudar nas cerimônias, sofria com as dores dos dias santos que antecediam a Páscoa. Adolescente, levava a comunhão aos doentes, ensinava nas catequeses, compartilhava os textos bíblicos. No seminário, ouvia as canções sagradas, antigas ou novas, que nos levavam a um lugar de elevação. A primeira missa, os primeiros afazeres de um padre. As dúvidas. A certeza.

E foi com esse recordar que acordei no dia dos festejos. Uma linda missa. Amigos de tantas paróquias por onde passei. Bispos, padres, pastores. Sempre dialoguei muito bem com outras religiões.

E no almoço, momento das conversas livres, um sentimento estranho foi tomando conta de mim. Vi amigos padres animados com a possibilidade de andarem armados, ouvi discursos preconceituosos, percebi atitudes pouco bondosas com os que são ou pensam diferentes.

Ao meu lado, um pastor mais velho parecia viver as mesmas preocupações. Ficamos em silêncio, ouvindo os desatinos: “Tem que matar mesmo, esses bandidos não têm conserto”. “Essa gente vem à Igreja pedir coisas, acha que é pronto-socorro”. E uma das últimas pérolas foi: “Detesto pobre”.

Uma tristeza foi me fazendo companhia. O velho pastor pegou na minha mão e disse, sem nada dizer, que era assim mesmo, que a nossa fé estava depositada em Deus e não nos homens, que foi isso que lemos nas Sagradas Escrituras e isso que aprendemos.

Depois da troca de olhares, me fortaleci e resolvi dizer que não me agradava o que diziam. Religião não é desligamento, é religação. Um padre mais jovem me interrompeu dizendo que a Igreja já apoiou a pena de morte muitas vezes. E eu expliquei que a Igreja erra e se desculpa pelos erros. Ele insistiu. Eu lembrei que a Igreja também torturou, também abusou de inocentes, também feriu as leis do amor.

Não houve brigas, mas terminei inquieto aquela refeição. Deitei para descansar, olhei para o crucifixo e agradeci. Jesus não teve preconceitos, amou indistintamente. Imagine, naquela época, abraçar um leproso, conversar com uma mulher pecadora, acolher um estrangeiro. É Nele que devo me inspirar.

Dormi e sonhei.

O sonho foi lindo. Voltei a ser criança e minha mãe, que já se foi, levou-me a um jardim de bondades. Havia uma placa e tudo. E as cores serviam para embelezar, e as diferenças para exibir criatividade, e o amor para lembrar a razão pela qual nascemos. Acordei sorrindo. A vida não é um sonho, mas sonhadores fazem toda a diferença. Ao lado da minha cama, alguns textos do Papa Francisco, o homem simples que fala da Casa Comum e do acolhimento.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 20/01/2018

Nelson Gonçalves, o amor e o tempo

Os comentários na porta do teatro são instigantes:

“Eu brincava na rua ouvindo Nelson Gonçalves, tempo bom”.

“É a mais linda voz que o Brasil já teve”.

“As músicas que ele cantava eram músicas de verdade, tinham história. Uma letra melhor do que a outra”.

Os cabelos brancos vão se misturando aos jovens que esperam a porta se abrir. Já sentados, um vídeo com o jovem Nelson Gonçalves inaugura a noite de emoção. Canta ele “Naquela mesa” e “A Volta do Boêmio”. E a orquestra vai se ajeitando, e os dois jovens atores, Guilherme Logullo e Jullie, vão arrumando os seus camarins em cena. E cantam juntos “Quando eu me chamar saudade”, no palco central. E revelam o medo de Nelson de ser esquecido.

Há um desfile de canções e de textos para trazer Nelson Gonçalves ao palco. Há um confessionário de dramas humanos, de corações partidos, de medos acumulados que contracenam com um coração que beija o alto, que contempla o luar e que não desiste de amar.

A diretora Tania Nardini preocupou-se com cada quadro. Tudo é pensado para o embate entre o Nelson razão e o Nelson emoção. Há até uma luta de boxe, foi ele um lutador de boxe, em que músicas com intenções diferentes brigam no ringue das decisões. Quem vence? Melhor assistir.

A direção musical de Tony Luchhesi é primorosa. Agrada aos românticos de todas as idades.

Loggulo, um dos mais notáveis artistas do musical brasileiro, mostra uma elegância ímpar no bailar dos diferentes ritmos cantados por Nelson. Do tango à valsa, passando por delicados movimentos de amor.

Jullie está à altura. A voz celestial em um corpo de menina que vive inteira o Nelson dos “nãos”. Quantos “nãos” teve Nelson que enfrentar em sua vida de sonhador! Reprovado em concursos de calouros, criticado por Ari Barroso, foi ele persistente o suficiente para encontrar o seu lugar de iluminuras.

Logullo traz o Nelson brigando com um relógio, suplicando ao tempo que passe mais rapidamente. Viveu ele tempos de prisão. As drogas roubaram instantes preciosos de sua vida, e o próprio Nelson, em vida, fez questão de revelar o seu calvário para ajudar os outros a não caírem nas mesmas teias do horror.

O tempo da peça vai passando. A plateia vai passando do riso ao silêncio, do silêncio ao canto, do canto à emoção.

O final é surpreendente. Os aplausos pedem um pouco mais. Uma senhora diz que “Esses moços” lembra o seu marido que já partiu. Uma outra fala de um adeus e da música “Devolvi”.Os jovens comentam sobre o amor. Uma menina olha para o seu namorado e revela “que bom que encontrei você”.

O amor nos retira da multidão e nos dá o poder da unicidade. Faz toda diferença saber que alguém nos ama. E assim as pessoas vão saindo do teatro. Algumas cantarolando, outras abraçadas, outros brincando de olhar.

Em tempos de pouca atenção ao outro, de fragilidades das relações humanas é bom relembrar os que gastaram a vida alimentando de vida a vida das pessoas.

Viva Nelson Gonçalves, viva o artista brasileiro.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 13/01/2019

Algum encontro

Remexo em minha bolsa. Não sei por que guardo tanta coisa. Toda vez é isso. Mesmo quando troco de bolsa, é um tal de despejar o que nem sei de uma na outra. E quando saio, e quando preciso de alguma coisa, fico remexendo. Há coisas que nem uso mais. Há, inclusive, bilhetes já sem validade. Há receitas que já foram utilizadas. Maquiagens mais velhas e mais novas. Espelho. Fotografias que vão se acumulando. Cartões que recebo. E paro por aqui. Mas tem mais.

A mulher espera que eu encontre. Sorrio desajeitada. Hei de encontrar. Há outras pessoas esperando. Não sei se dou a vez e se jogo tudo no balcão. E aí encontro. Uma carteira pequena com um cartão de crédito, é só disso que eu preciso. Ela percebe minha agitação e sugere que eu me acalme. E diz, sem acreditar, que com ela acontece a mesma coisa. Quando se tem muito de guardado, tem-se uma certa dificuldade. Excessos trazem peso e nos impedem de encontrar o que precisamos.

Enquanto procuro, remexo em minhas procuras tantas que não deram em nada. As minhas exigências me transformaram em mulher solitária. Tenho temperamento difícil, eu sei, mas os outros são piores. E, além do mais, não são confiáveis. Fui traída por amores e por amigos. E fui acumulando decepções. Os que chegam agora me encontram armada, sem paciência para o improviso. E logo partem. Melhor assim.

No início, quando eu era mais desprevenida, fizeram de mim um alguém sem grandes considerações. Considerei os desprezos e as mentiras e acumulei tudo. E tudo está em mim.

Deixo que quem está atrás passe na minha frente e faça logo o seu pagamento enquanto prossigo na busca. Talvez tenha esquecido em casa. Não. Não é possível. Lembro quando troquei de bolsa.

Troquei de amigos algumas vezes. Conviver não é para amadores. Amei e fui desprezada. Gastei-me em atenção e recebi ausências. Sou daquelas que se põem em prontidão quando o assunto é necessidade. Punha, melhor dizendo. Agora, prefiro a prudência.

Encontrei, enfim, o cartão. Já posso pagar. A mulher me dá um outro sorriso, talvez aliviada. Talvez minha procura a tenha incomodado. Um homem chega em minha direção. “Vera, há quanto tempo”. Concentro-me um pouco para acreditar. “Você continua igual, que saudade, como foi difícil te encontrar”. Fecho a bolsa, fico alguns instantes sem reação, e solto algum dizer desconectado. “Você mora aqui perto? Posso te acompanhar? Tem tempo para um café?” Frases e mais frases saem de sua ansiedade. Respondo “sim” a todas. Foi ele um amor no passado. Na época, fechei as portas. Gostava de um outro. De um outro que não gostava de mim. E soube apenas do casamento dele. Dos dois, aliás. Será que ele enviuvou?

Enquanto caminhamos, encontro sentimentos que, na época, eu não encontrava. Tenho vontade de dizer que, se ele quiser, eu quero. Fico pensando na chave de casa, jogada na bolsa também. Vai ser difícil encontrar para abrir? Talvez. Agora só sei que gosto do jeito que ele fala e me olha.

Tantos anos depois…

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 06/01/2019

O direito de nascer

“Estou falando do que nasce, e do direito de nascer, estou falando dos sonhos que sonhamos e que não desperdiçamos por aí. Estou falando dos que não aprenderam sequer a beleza do sonho. Quem sonha aqui?”
O direito de nascer “Era esse o nome de uma novela antes de vocês nascerem. No tempo em que conheci a avó de vocês. A novela era boa, mas o que importa, agora, é o nome, apenas”.

Orlando gostava das rodas de conversas com os seus netos e com os amigos de seus netos. “Prefiro conversar com criança”, dizia ele saboreando a própria sabedoria. E as crianças gostavam da conversa.

Falava Orlando de um tempo que há muito havia passado. Explicava como se faziam as ligações telefônicas e a importância que tinha uma telefonista. E as máquinas em que se derretiam os sentimentos nos barulhos do datilografar. E o gerente de banco que era mais humano. E os anoiteceres na calçada com a conversa espantando o calor. “O novo ano está chegando e o que vamos fazer nascer?”.

As crianças se entreolharam esperando quem falaria primeiro ou alguma nova explicação para a pergunta. “Vovô, está falando de bebê?”

“Estou falando do que nasce, e do direito de nascer, estou falando dos sonhos que sonhamos e que não desperdiçamos por aí. Estou falando dos que não aprenderam sequer a beleza do sonho. Quem sonha aqui?”

Rapidamente, as mãos se levantaram. E a conversa seguiu. Faltavam alguns instantes para o novo ano começar. A comida já alimentava os que tinham pressa. Os que bebiam para esquecer já se apresentavam. Mas o bom mesmo eram os ensinamentos do velho Orlando. “Já vivi muitos anos. Quando tinha a idade de vocês, aprendi que, no final de um ano, deveríamos fazer três pedidos. E escrever em um papel qualquer. E guardar em um livro sagrado. E aguardar que os pedidos se realizassem. Cresci um pouco e mudei os pedidos para propósitos. Três coisas que eu deveria fazer no nascituro ano. E assim se passaram muitos anos. E muito fiz, confesso a vocês. E, por fim, decidi escrever os meus sonhos. Quero que vocês façam o mesmo hoje. Esses pedaços de papel que vocês receberam é para iss o”.

“Vovô, é para escrever três pedidos, três propósitos ou três sonhos?”

“Vovô, qual a diferença?”

“É para mostrar depois?”

“Tem que ser para todo mundo ou só para mim”?

E cada criança ia fazendo a pergunta que quisesse. E Orlando observava com entusiasmo o desejo de aprender que toda criança tem. Quanto desperdício, pensava ele, quando educam erroneamente. Há uma inteligência em cada ser humano que tem o direito de nascer. Estão plenos de uma vida que quer brotar. Cuidar desse broto, é disso que se trata, é por isso que Orlando prefere as crianças.

“Vocês decidem. Mas eu proponho que escrevamos três sonhos para o mundo inteiro”.

“Vovô eu gostei da parte do que a gente vai fazer”.

“Então escreva, meu neto. O que importa é que as intenções sejam boas. Para o mundo ou para vocês mesmos, que fazem parte do mundo”.

Os olhos ávidos daquelas crianças. o papel no colo, o movimentar das canetas, os pensamentos ainda próximos das límpidas nascentes. Era mais um ano que se despedia. Era mais um ano que nascia. Orlando olhava seus rebentos e uma dupla sensação o invadia. O temor pelo amanhã e a certeza de que algo bom vai acontecer. Papéis preenchidos, Orlando sugere que sejam guardados nos bolsos e que, depois, sejam entregues aos livros para que recebam aqueles pedidos ou propósitos ou sonhos. Nos encontros dos escritos, milagres nascem.

Os fogos já avisavam aos céus que um novo ano chegara. Os abraços, alguns sinceros, encontravam aconchego, e as crianças brincavam de felicidade na casa do velho Orlando.

Publicado no dia 30 de dezembro de 2018, no jornal O Dia (RJ)

O direito de nascer

“Era esse o nome de uma novela antes de vocês nascerem. No tempo em que conheci a avó de vocês. A novela era boa, mas o que importa, agora, é o nome, apenas”.

Orlando gostava das rodas de conversas com os seus netos e com os amigos de seus netos. “Prefiro conversar com criança”, dizia ele saboreando a própria sabedoria. E as crianças gostavam da conversa.

Falava Orlando de um tempo que há muito havia passado. Explicava como se faziam as ligações telefônicas e a importância que tinha uma telefonista. E as máquinas em que se derretiam os sentimentos nos barulhos do datilografar. E o gerente de banco que era mais humano. E os anoiteceres na calçada com a conversa espantando o calor. “O novo ano está chegando e o que vamos fazer nascer?” .

As crianças se entreolharam esperando quem falaria primeiro ou alguma nova explicação para a pergunta. “Vovô, está falando de bebê?”

“Estou falando do que nasce, e do direito de nascer, estou falando dos sonhos que sonhamos e que não desperdiçamos por aí. Estou falando dos que não aprenderam sequer a beleza do sonho. Quem sonha aqui?”

Rapidamente, as mãos se levantaram. E a conversa seguiu. Faltavam alguns instantes para o novo ano começar. A comida já alimentava os que tinham pressa. Os que bebiam para esquecer já se apresentavam. Mas o bom mesmo eram os ensinamentos do velho Orlando. “Já vivi muitos anos. Quando tinha a idade de vocês, aprendi que, no final de um ano, deveríamos fazer três pedidos. E escrever em um papel qualquer. E guardar em um livro sagrado. E aguardar que os pedidos se realizassem. Cresci um pouco e mudei os pedidos para propósitos. Três coisas que eu deveria fazer no nascituro ano. E assim se passaram muitos anos. E muito fiz, confesso a vocês. E, por fim, decidi escrever os meus sonhos. Quero que vocês façam o mesmo hoje. Esses pedaços de papel que vocês receberam é para isso”.

“Vovô, é para escrever três pedidos, três propósitos ou três sonhos?”

“Vovô, qual a diferença?”

“É para mostrar depois?”

“Tem que ser para todo mundo ou só para mim”?

E cada criança ia fazendo a pergunta que quisesse. E Orlando observava com entusiasmo o desejo de aprender que toda criança tem. Quanto desperdício, pensava ele, quando educam erroneamente. Há uma inteligência em cada ser humano que tem o direito de nascer. Estão plenos de uma vida que quer brotar. Cuidar desse broto, é disso que se trata, é por isso que Orlando prefere as crianças.

“Vocês decidem. Mas eu proponho que escrevamos três sonhos para o mundo inteiro”.

“Vovô eu gostei da parte do que a gente vai fazer”.

“Então escreva, meu neto. O que importa é que as intenções sejam boas. Para o mundo ou para vocês mesmos, que fazem parte do mundo”.

Os olhos ávidos daquelas crianças. o papel no colo, o movimentar das canetas, os pensamentos ainda próximos das límpidas nascentes. Era mais um ano que se despedia. Era mais um ano que nascia. Orlando olhava seus rebentos e uma dupla sensação o invadia. O temor pelo amanhã e a certeza de que algo bom vai acontecer. Papéis preenchidos, Orlando sugere que sejam guardados nos bolsos e que, depois, sejam entregues aos livros para que recebam aqueles pedidos ou propósitos ou sonhos. Nos encontros dos escritos, milagres nascem.

Os fogos já avisavam aos céus que um novo ano chegara. Os abraços, alguns sinceros, encontravam aconchego, e as crianças brincavam de felicidade na casa do velho Orlando.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 30/12/2018

É quase natal

Amanhã é natal. Ou véspera do natal. Então, hoje também é véspera. É quase. Quase é o que ainda não chegou. Ou não aconteceu. Quase ganhou. Quase passou. Quase encontrou.

O natal é um momento de encontros.Na linda história do lindo menino, a humildade encontrou o aconchego necessário para permanecer. Era o tempo certo. O que aconteceu naquele tempo não ficou naquele tempo.

Os natais da minha infância tinham uma inocência que hoje me faz falta. Aprendi a acreditar na bondade e no humano jeito de Deus se manifestar. Em cada ação de amor, um traço do Criador no desenho de infinitas possibilidades que compõem o universo. Acalmava-me na bondade do meu pai. Deus habitava aqueles gestos serenos de compreensão. Palavras eram ditas com cuidado. Olhares eram distribuídos sem economias. E sorrisos. Nada de brigas. O tempo ensina o prazer de andar de mãos dadas.

Havia um irmão que cantarolava sem muito compreender o significado da sua alegria. Um avô que cantava em outra língua, a de sua terra natal. Devia ele ter a saudade que hoje tenho, mesmo sem ser avô. Uma mãe que se apressava para acalmar no momento certo, uma mãe cachoeira de afetos. Sem pausas nem preguiças.Havia uma Rosa, sempre há uma Rosa. Os perfumes da infância têm o poder da permanência.

Eu ainda não havia conhecido a perversidade. Confiava sem medo na espécie humana. Sonhava com o crescimento. Imaginava o que seria um dia. O dia chegou. Outros dias chegaram. Realizei alguns sonhos, outros mudaram sem que eu percebesse. Fui me alimentando do possível para prosseguir.

Se olho para os natais que já se foram, tenho necessidade de agradecer. As feridas que se criam não podem sustar os sorrisos. Quantas conquistas! Quantas manifestações de amor!

Os “quase isso”, “quase aquilo”, não chegaram a borrar o traçado. Tento continuar acreditando que os que agem por mal o fazem não por uma decisão, mas por uma ausência. Esqueceram-se de buscar, no sagrado que mora no interior de todo humano, o que há de mais divino, o amor. E toda a escolha que não é por amor não é escolha, é ausência. A liberdade não pode nos levar à escravidão. Os perversos, os que tramam contra um outro humano, irmão do mesmo barro, não encontram a paz.

“Você já viu alguém que faz o mal a outro alguém encontrar a felicidade?”, ensinava o meu pai.

O menino que no natal nasceu, quando cresceu, ensinou o que meu pai aprendeu. Amai a todos. Amai como decisão de vida, como vocação.

Amanhã é natal. Os álbuns de fotografia teimam em nos lembrar de que há pessoas faltando. Os álbuns de fotografia não têm a consciência da eternidade. Os que se foram de alguma maneira continuam. Enquanto escrevo, posso lembrar os seus gestos, posso ouvir as suas vozes, posso reviver os nossos encontros.

Há algo de triste no natal. Muita gente diz isso. A tristeza exerce um necessário papel. De nos humanizarmos. De nos relembrarmos que precisamos de colo, de ombros, de dizeres.

Para aqueles que quase perdoaram, que quase alegraram alguém, que quase experimentaram o amor, ainda dá tempo. O menino sorri miraculosamente sempre que o traçado é capaz de fazer nascer a bondade.

Se tenho saudade do tempo em que acreditava, é só convidar aquele tempo para passar o natal comigo. No tempo que vivo hoje. Junto com os que gostam das mãos que tenho para caminhar.

Amanhã é natal. Ou quase. Quase não. É. Todo dia pode ser natal.

É quase natal

Amanhã é natal. Ou véspera do natal. Então, hoje também é véspera. É quase. Quase é o que ainda não chegou. Ou não aconteceu. Quase ganhou. Quase passou. Quase encontrou.

O natal é um momento de encontros.Na linda história do lindo menino, a humildade encontrou o aconchego necessário para permanecer. Era o tempo certo. O que aconteceu naquele tempo não ficou naquele tempo.

Os natais da minha infância tinham uma inocência que hoje me faz falta. Aprendi a acreditar na bondade e no humano jeito de Deus se manifestar. Em cada ação de amor, um traço do Criador no desenho de infinitas possibilidades que compõem o universo. Acalmava-me na bondade do meu pai. Deus habitava aqueles gestos serenos de compreensão. Palavras eram ditas com cuidado. Olhares eram distribuídos sem economias. E sorrisos. Nada de brigas. O tempo ensina o prazer de andar de mãos dadas.

Havia um irmão que cantarolava sem muito compreender o significado da sua alegria. Um avô que cantava em outra língua, a de sua terra natal. Devia ele ter a saudade que hoje tenho, mesmo sem ser avô. Uma mãe que se apressava para acalmar no momento certo, uma mãe cachoeira de afetos. Sem pausas nem preguiças.Havia uma Rosa, sempre há uma Rosa. Os perfumes da infância têm o poder da permanência.

Eu ainda não havia conhecido a perversidade. Confiava sem medo na espécie humana. Sonhava com o crescimento. Imaginava o que seria um dia. O dia chegou. Outros dias chegaram. Realizei alguns sonhos, outros mudaram sem que eu percebesse. Fui me alimentando do possível para prosseguir.

Se olho para os natais que já se foram, tenho necessidade de agradecer. As feridas que se criam não podem sustar os sorrisos. Quantas conquistas! Quantas manifestações de amor!

Os “quase isso”, “quase aquilo”, não chegaram a borrar o traçado. Tento continuar acreditando que os que agem por mal o fazem não por uma decisão, mas por uma ausência. Esqueceram-se de buscar, no sagrado que mora no interior de todo humano, o que há de mais divino, o amor. E toda a escolha que não é por amor não é escolha, é ausência. A liberdade não pode nos levar à escravidão. Os perversos, os que tramam contra um outro humano, irmão do mesmo barro, não encontram a paz.

“Você já viu alguém que faz o mal a outro alguém encontrar a felicidade?”, ensinava o meu pai.

O menino que no natal nasceu, quando cresceu, ensinou o que meu pai aprendeu. Amai a todos. Amai como decisão de vida, como vocação.

Amanhã é natal. Os álbuns de fotografia teimam em nos lembrar de que há pessoas faltando. Os álbuns de fotografia não têm a consciência da eternidade. Os que se foram de alguma maneira continuam. Enquanto escrevo, posso lembrar os seus gestos, posso ouvir as suas vozes, posso reviver os nossos encontros.

Há algo de triste no natal. Muita gente diz isso. A tristeza exerce um necessário papel. De nos humanizarmos. De nos relembrarmos que precisamos de colo, de ombros, de dizeres.

Para aqueles que quase perdoaram, que quase alegraram alguém, que quase experimentaram o amor, ainda dá tempo. O menino sorri miraculosamente sempre que o traçado é capaz de fazer nascer a bondade.

Se tenho saudade do tempo em que acreditava, é só convidar aquele tempo para passar o natal comigo. No tempo que vivo hoje. Junto com os que gostam das mãos que tenho para caminhar.

Amanhã é natal. Ou quase. Quase não. É. Todo dia pode ser natal.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 23/12/2018

Sobre a ingratidão

Tentei acordar. Não pude. Já estava acordado. Tentei imaginar que se tratava de um pesadelo. Era um pesadelo. Meu próprio filho. Abro a janela e o dia está cinzento. Torno a fechar. Prefiro ficar no silêncio do meu cômodo. Incomoda-me o barulho dos pensamentos. Eu jamais faria isso com meu pai. Jamais!

Meu pai morreu há algum tempo. Fui um filho com algumas ausências, lamento por isso. Hoje, estaria mais presente. Mas o tempo não nos avisa quando vai levar quem amamos. Morreu nos meus braços, meu pai.

Meu filho resolveu me interditar. Dinheiro. Não tenho muito, mas ele quer o que tenho. Criou uma teoria de que eu não tenho condições de decidir por mim mesmo. Arrumou testemunhas que nunca visitaram os meus sentimentos, mas que, de mim, falam como se conhecessem todas as minhas intenções.

Busca meu filho o que aquinhoei com tanto esforço. Um pouco veio do meu pai. O resto, acrescentei trabalhando. E é essa a minha história. A dele? Gosta de luxos, de exibicionismos e de pausas. As pausas entre os fazeres aliviam cansaços. As pausas sem os fazeres roubam a vida da vida. E foi assim que eu fui perdendo a admiração. É duro um pai dizer isso. Não posso admirar um filho que diz que não nasceu para o trabalho. Não posso admirar um filho que abraçou a mentira como cúmplice necessária para os seus malfeitos.

O erro foi meu? É assim que percorro meu interior. Culpando-me. Eduquei sem educar? Imaginei ter plantado bondade e aguardado o tempo dos desabrochamentos. E, hoje, ele diz a um e a outro que eu não tenho condições de compreender quem eu sou. Comigo não fala. Tentei contato, até porque é meu filho. A dor dos seus gestos não mata o que nos une. Há uma ponte que não pode ser desfeita, mesmo que o silêncio da ausência a torne deserta.

Minha mulher morreu não faz muito tempo. Ainda no luto de uma perda, perco o que imaginava ser a minha brisa no calor do entardecer. Quantos anos tenho pela frente? Já fiz 90. Helena ainda estava comigo. Preparou tudo. Surpreendeu-me mais uma vez. E depois se foi. Sem barulhos, deitada ao meu lado. E depois veio ele cumprindo a promessa de retirar de mim o que conseguisse.

Façam as contas. Meu filho não é um jovenzinho rebelde. É um homem desapegado de valores. É quase um velho. Quase, não, é um velho, mais velho do que eu, que ainda sonho.

Abro novamente a janela. E nada. De onde moro, quando não há nuvens potentes, consigo ver o pôr do sol. Helena e eu gostávamos do despedir do dia. Quando não havia sol, nos olhávamos. E pronto. É assim que fazem os girassóis, dizia minha avó, contadora de histórias. “Os girassóis se voltam sempre para o sol. Quando sol não há, eles se viram um para o outro buscando a energia que ficou”, consigo ouvir sua voz.

Tivemos um único filho. Quando remexo as fotos guardadas dentro de mim, tento encontrar onde foi que sua imagem começou a tremer. A mãe chorava o filho que se perdia dia a dia. Falamos disso. Mas era um homem feito. Com suas decisões incorretas e seu destino incerto. Agora ele me vê como um velho que está demorando para morrer. Quer usar o que um dia seria seu. Não. Nunca pensei em deserdá-lo. É meu único filho. Ele quer, também, a casa. Disse que eu ficarei mais feliz em um asilo. Que ando muito sozinho. Isso ele diz pela advogada. Não o vejo há algum tempo.

Abro, mais uma vez, a janela. Ah, o sol apareceu. Apareceu um pouco antes de partir. Veio se despedir de mim. Imagino Helena ao meu lado. Mãos dadas comigo.

Em pouco tempo, estaremos juntos novamente. É nisso que acredito. Como será o pôr do sol da eternidade? Haverá girassóis por lá?

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 16/12/2018

Os irracionais

Vivi em uma família por algum tempo. No início, eu era novidade. Era cuidado. Riam as mais diferentes risadas. Comentavam uma ou outra estripulia. E eu gostava. Queria ser sempre o centro. Pulava de um lado e de outro. E dividia, com justiça, o meu amor. Levavam-me para passear.

E foi assim que minha história começou a mudar. Achei que se tratava de mais um passeio. Mas era uma despedida.Os tempos de filhote já haviam se esgotado. Eu cresci. E eles se cansaram de mim. Difícil acreditar nisso. Eu me sentia da família. Mas foi isso que aconteceu. Quando me vi naquele lugar em que se deixam os carros e que depois se buscam, eu ainda fiquei esperando.

Os carros, talvez, tenham mais valor. Ninguém abandona. Já eu. Um cachorro que não era mais novidade, que talvez desse trabalho. Não sei. Sei que nunca deixei de fazer festa quando eles chegavam. Nunca deixei de estar quando me queriam. Deixaram de me querer e fiquei aqui. Sozinho.

Alguns que não conheço me trouxeram água. E passaram a mão na minha cabeça para aliviar as minhas incompreensões. Por que me abandonaram? O que eu fiz contra eles? Outros me deram o que comer. Como não tinha o poder da escolha, resolvi ficar. Não queria incomodar. Decidi que só brincaria com quem quisesse brincar. E que, no restante do tempo, ficaria deitado, quieto, para não desistirem de mim mais uma vez. Não é fácil ser abandonado.

Foi quando alguns deles, ditos seres racionais, aproximaram-se com um sorriso diferente dos sorrisos que sempre gostei de brotar. E um pau de vassoura. Que estranho! Será que vieram fazer uma brincadeira diferente comigo? Mas e esses sorrisos sombrios?

Um me ofereceu o que comer. Comi, sem abanar o rabo. Com alguma preocupação, mas sem o poder de declinar. Comi e comecei a me sentir estranho. E, de repente, fiquei tonto. Não sei se do que comi ou se do bater intermitente da vassoura. Ouvi alguns “Fora daqui”, sequer tinha forças para obedecer. Comecei a ver o sangue se despedindo de mim. Comecei a parar de ver. Apenas vultos. Vultos de risos e de frases sem sentido. Que sentido tem tamanha violência?

Antes de partir, começo a sonhar com o dia em que cheguei àquela casa e com os risos bonitos que me acolheram. Escuto o meu choro doído ao perceber o abandono. E sinto algumas alegrias que tive com os carinhos de desconhecidos. E agora, entre uma paulada e outra, despeço-me, sem compreender.Ouvi tantas vezes que os humanos são os mais evoluídos dos animais. Que nós somos os irracionais.

Não há mais tempo para nada. Vêm, agora, recolher o que restou de mim. Vão limpar tudo. Porque outros humanos chegarão e não querem ser importunados.

O meu nome?Tenho tantos.

A minha história? Repete-se com mais frequência do que vocês imaginam. Morro sem perder a ternura, morro sabendo que fiz o que pude para fazer mais feliz a vida deles. Morro irracionalmente amando.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 09/12/2018

Cheiro de paz

A feira fica bem próxima de onde moro.

Tem gente que não gosta. Falam de barulho na montagem e de alguma sujeira depois que se vão. Falam de movimentos acima do normal. Eu gosto.Gosto de madrugar ouvindo gente trabalhando. O silêncio da noite me basta.

Levanto. Abro a janela. Aqueço-me com a luz ainda preguiçosa e dou o descanso por encerrado. E, depois, o banho cumprimenta meu corpo. E, depois, o café se ajeita em mim. Coisas simples. Leves. E parto para a feira.

Gosto do cheiro das frutas. Ah, como gosto. A laranja tem um perfume de lembranças de antes de viver na cidade grande. O limão, também. Não é sempre que tem fruta do conde. Gosto do nome e do formato. E do cheiro, naturalmente.

As conversas da feira também me agradam. Uma oferta de desconto. Um comentário sobre a chuva da semana que já foi. Um dizer sobre o que já está para sair da estação. As frutas mais caprichosas não nascem sempre. Em parte do ano, descansam. E outras vêm. Cada uma em sua época. Há as que estão sempre vindo. Não sei quem decide. As cores também me agradam. Tantas combinações.

Em algumas barracas, paro para experimentar. Com calma. Como se fosse uma oferenda. A natureza se oferecendo para alimentar de paz os seus filhos mais perturbados, os humanos. Tem gente que come sem sentir. Que mastiga sem mastigar. Que engole sem sorver as delícias do que nasceu para fazer nascer sensações especiais em nós.

O abacaxi da feira, de hoje, está doce. Como cada pedaço sentindo o seu cheiro e percebendo seu sabor. Agradeço. E compro um para levar para casa. A melancia também está convidativa. E, também, as ameixas. Preço bom.

Ouço uma história de uma mulher que deixou o marido depois de tanto sofrer. Há barulhos por todos os lados na casa das pessoas, e não são barulhos de trabalho nem de montagem de feira. Os violentos utilizam o “amor” como justificativa de seus plantios incorretos. Nada disso. Ninguém tem o direito de humilhar, e ninguém tem o dever de suportar. Meu marido trabalha nas estradas. Dirige seu caminhão e leva alimentos de um lado a outro. E, quando vem, me tranquiliza a alma. É bom se sentir amada. São anos de um amor que não se esgotou. E temos planos pela frente.

Vou comprar maracujá para fazer suco. É tão bom vê-lo virando o copo e não escondendo seu êxtase. E com a mão de poeta toca-me o corpo e me diz o que é estar de volta.

Há sonhos que demoram a se realizar. Há outros que chegam antes de serem sonhados. Foi numa barraca de feira que o vi pela primeira vez. Oferecendo-me morangos. Aceitei. Como não aceitaria?

Despeço-me das pessoas e volto para casa. Lugar onde sempre tenho o prazer de estar.

Lá, planto os sentimentos que compartilho. Lá, sinto o cheiro da vida que me faz tão bem. E, quando saio, saio inteira para oferecer os meus frutos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 02/12/2018