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Viajar com bagagem leve

Dizem que os viajantes mais experientes levam malas menores, mais leves, mais fáceis de serem transportadas. São mais prudentes do que aqueles que levam malas pesadas, que aumentam as dificuldades. É um problema colocá-las no bagageiro ou mesmo andar pela cidade até o local em que se vai hospedar. 

A vida é, também, uma viagem. Igualmente, temos nossas bagagens que vão acumulando com o tempo.

Algumas pessoas acumulam tanto peso que vivem perturbadas. E, acostumadas com a perturbação, não conseguem se livrar. Não conseguem mais se lembrar do que é viver com leveza, com liberdade.

Há acúmulos materiais. Pessoas que não conseguem doar roupas, livros, CDs, móveis etc. E, como não param de comprar, suas casas ficam abarrotadas do que não usam, do que não necessitam. Em tempos de campanha do agasalho, faz muito bem experimentar a generosidade e ajudar quem precisa.

Há outras bagagens que pesam a nossa existência, com as quais, infelizmente, nos acostumamos e não conseguimos nos livrar. O peso do ódio, do espírito de vingança, da mesquinhez, da arrogância, da ausência de compaixão. O amor não correspondido. A traição. Os malfeitos que nos fizeram. Atos que, evidentemente, nos despertaram tristeza e dor. Mas há o tempo da dor, e o tempo de, dela, libertar-se. Há o tempo da tristeza e o da superação. E a viagem precisa seguir seu curso.

Acumular esses mesquinhos sentimentos é fazer com que nossa trajetória seja pesada, é correr o risco de não ter forças para prosseguir com dignidade, é cair com facilidade. Assim como acontece com as malas de viagem, as exageradas.

Acumular o que não se usa requer mais espaço e mais trabalho, além de gerar mais problemas. E é desnecessário. Acumular sentimentos menores é ainda pior. É fazer com que nossa vocação para a liberdade, para a leveza, seja comprometida com estranhamentos de ontem. Vivamos o hoje com os olhos para o amanhã. E com pouca bagagem. Ou melhor, com a bagagem essencial.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/6/2014

A cultura do encontro

Desde que o mundo conheceu o novo papa, somos todos – católicos ou não – surpreendidos por sua sabedoria e simplicidade. Francisco é um homem de palavras exatas. De reflexões singelas e provocativas. Ocupa-se, incansavelmente, de nos atentar para as evidências que, na velocidade da vida moderna, deixamos de enxergar, de ponderar.

Em sua rede social, com 14 milhões de seguidores, o papa nos chama para o cuidado com os idosos: “Às vezes descartamos os idosos, mas eles são um tesouro precioso: descartá-los, para além de ser injusto, é uma perda irreparável”. Alerta-nos contra a cultura do descartável. Da injustiça. Convoca-nos, enfim, à missão de paz e bem. “Fazei-me instrumento de Vossa paz”, como disse o outro Francisco, o santo de Assis. O revolucionário do Amor.

Apenas o amor pelo próximo nos faz enxergar a face de Deus. Descartar nosso irmão é desconhecer nossa essência. Somos carentes uns dos outros. Em qualquer idade. No caso dos idosos, há uma razão a mais: é desperdício não aprender com sua sabedoria e experiência. Os idosos, assim como os jovens, constroem a sociedade, sustentam-na, alimentam-na em sua fonte de conhecimento, de histórias, de continuidade da família, de vir-a-ser. Edifiquemos a cultura da inclusão, do encontro, do acolhimento.

Pesquisas revelam que a população mundial vem envelhecendo, e a pirâmide etária, antes triangular, tende a se transformar. As pessoas estão vivendo cada vez mais. Além disso, nota-se uma participação mais ativa dos idosos, seja na continuidade do trabalho ou do estudo, seja na contribuição orçamentária às famílias. É evidente a importância da mudança do estereótipo do idoso e de sua inclusão.

Sigamos os exemplos da milenaridade das culturas que respeitam e dedicam a seus idosos posição de destaque no tecido social; amemos os que se empenharam em construir o que somos. Continuemos. Juntos. Sem descartar ninguém.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/6/2014

Chalita ministra aula inaugural para futuros integrantes da Guarda Civil Metropolitana

Os novos alunos do curso de formação da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo (GCM), oferecido pelo Centro de Formação em Segurança Urbana, assistiram, em sua aula inaugural, à palestra do professor Gabriel Chalita sobre “Inteligência Alpha”. Após uma abordagem repleta de referências filosóficas e experiências práticas, em que ressaltou a importância da proteção comunitária e preventiva, Chalita encerrou: “É uma honra conversar com mulheres e homens que cuidam de nossa gente”.

Esse curso de formação da Guarda Civil tem como missão capacitar e promover o aprimoramento de seus integrantes. Os novos alunos da GCM contarão, ao todo, com 600 horas de aulas presenciais e, quando formados, serão comandados pela inspetora Lindamir Magalhães Carneiro de Almeida, sob a supervisão do secretário de Segurança Urbana da Cidade de São Paulo, Dr. Roberto Porto.

Fonte: Assessoria de Imprensa | 13/6

O Brasil de todas as gentilezas

Em tempos de Copa do Mundo e de estrangeiros no Brasil, presenciei cenas que merecem ser compartilhadas.

Em São Paulo, uma senhora tentava, em português pausado, explicar onde ficava uma estação de metrô. O turista olhava sem entender, mostrava um papel com o nome da estação e perguntava em inglês. A senhora respondia com gestos. E sorria. Sorriso de quem desconhece o outro idioma, mas sabe das lições mais nobres da civilidade, da gentileza.

Vi, também, um taxista atendendo um visitante com um dicionário na mão e com uma impressionante disposição em atendê-lo. No aeroporto em Brasília, um jovem brasileiro, em bom inglês, dando sugestões de lugares para visitar.

Gente perguntando e gente ajudando a encontrar respostas. Convívio. Acolhimento. Somos marcados por problemas sociais, desigualdades gritantes, ações políticas que desconsideram sonhos e necessidades de nossa gente. Mas, ao mesmo tempo, somos um país marcado pela alegria, pelo respeito ao diferente. Formamo-nos a partir de tantos que aqui chegaram. Imigrantes corajosos, desafiadores do medo, construtores de futuro.

Este Brasil, com tantas contradições, é apaixonante. Bom seria que estivéssemos mais preparados para receber o estrangeiro. O turismo gera emprego, renda e é essencial para nosso reconhecimento internacional. Mas, se ainda nos falta muito, temos o essencial. A marca da cordialidade. O sentimento de ajudar.

Não há ingenuidade nesses relatos. Temos as chagas da violência. Nossas cidades carecem de infraestrutura. A desordem dos espaços urbanos gera mais violência e abandono. Mas essa é uma longa estrada que precisamos percorrer. Esses problemas não se resolvem com mágica, mas com competência e trabalho.

No entanto, a Copa está aí. Façamos o melhor. Independentemente de colorações partidárias, mostremos o Brasil de todas as gentilezas. Um país que não aprecia a guerra. Que não discrimina. Que recebeu de Deus uma natureza privilegiada. E gente. Gente que gosta de gente.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/6/2014