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A menina que saiu do Maranhão para conquistar o Brasil e o mundo tem a consciência de que nasceu para cantar. Cantou, menina, em sua terra natal. Fez-se professora para agradar ao pai e nunca deixou de professar a crença de que sua voz é um presente de Deus. Cantou para o papa João Paulo II e se emocionou. Emociona plateias de todas as idades que iniciaram histórias de amor ou afogaram mágoas de dor ouvindo sua voz, suas canções.
O samba é seu companheiro. Canta as escolas de samba por saber que, em cada uma delas, moram gentes e sonhos. É Mangueira, sempre, no coração. Tradições de poetas, ritmistas, artistas do povo que aguardam a avenida para desfilar os seus sonhos, para contar o enredo que marca suas histórias.
A história de Alcione é digna. É ciosa de sua obrigação social, obrigação que todo mundo tem, a da generosidade, da doação, do cuidado com o outro. Ama a sua terra, o Maranhão, e as outras terras que lhe abriram as portas das oportunidades. É grata a Jair Rodrigues, o artista que a viu cantando, acreditou em seu talento e a fez gravar seu primeiro disco. Ela, que trabalhava em uma loja de discos, e que, na noite, oferecia sua voz e sua emoção.
Alcione tem temperamento forte, determinação, mas mais forte é a braveza de uma guerreira que nasceu para cuidar. Cuida dos sobrinhos, dos amigos – a saudade do genial Emílio Santiago, dos admiradores. É respeitosa com o seu público e sente gratidão pelas pessoas que saem de suas casas para a verem cantar.
São Paulo recebe, novamente, esta genial cantora. Alcione, a voz que emociona. Alcione, a menina que veio ao mundo para cantar com eterna alegria.
“Nasci pra fazer esse povo cantar
Se faltava alegria, acabou de chegar
Manda a tristeza pra outro lugar
Que o samba não pode parar”.
(trecho da música Eterna Alegria)
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Entrevista:
Gabriel Chalita: Na canção “Obrigada”, você agradece as pessoas que saem de casa para vê-la cantar. Depois de tantos anos de carreira, o que a inspira no início de cada show?
Alcione: É a paixão pelo que faço, a gratidão a Deus, aos meus pais, ao meu público, a minha família. Enfim, a tudo que a música pôde me dar de bom.
Gabriel Chalita: Você é uma das maiores cantoras brasileiras. Quais conselhos você pode dar àqueles que cantam bem, que sonham em construir uma carreira e que já tiveram tantas portas fechadas?
Alcione: Porta fechada é pra bater! Não desista, tenha responsabilidade, viva para isso, respeitando seu público, os profissionais de sua área e cuide de sua saúde.
Gabriel Chalita: Você acha que o resultado da grande interpretação vem mais da emoção ou da técnica?
Alcione: Acho que é da emoção, porque a técnica é importante, mas é a emoção que move o mundo. E cantar é um dom de Deus também…
Gabriel Chalita: Qual a sua relação com a cidade de São Paulo? O que esta cidade já lhe deu? Quais emoções você viveu por aqui?
Alcione: São Paulo é uma cidade cuja tradução é trabalho. O povo de São Paulo tem uma tradição como trabalhador, por isso se diz que esta cidade não para. Já vivi muitas e belas emoções em São Paulo.
Gabriel Chalita: Quando você olha para trás, o que foi mais penoso e o que foi mais prazeroso em sua trajetória?
O mais penoso foi me separar dos meus pais e irmãos, no início da carreira. Deixar a minha cidade de São Luís para trás. Porém, o melhor de tudo foi poder, com essa distância, construir uma trajetória, uma carreira, levando conforto e tranquilidade para todos os meus. Isso não tem preço!
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ALCIONE
THEATRO NET SÃO PAULO
Dia 11 de novembro, às 21h
A cantora maranhense Alcione é atração do Palco Petrobras Premmia no próximo dia 11 de novembro, às 21h. Marrom, como é conhecida mundialmente, interpreta músicas de seu CD “Eterna Alegria” no Theatro Net São Paulo, na Vila Olímpia.
SOBRE O SHOW
Três anos após lançar os discos “Ao Vivo na Mangueira e Jam Session”, ambos de 2011, Alcione volta aos palcos paulistas em grande estilo. Com o show intitulado “Eterna Alegria, ao Vivo”, a cantora resgata um trabalho que ostenta o mesmo título do seu último álbum gravado em estúdio e serviu-lhe de base para este novo produto, numa reedição de parceria entre Marrom Music e a Biscoito Fino.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/11/2014 | Foto: Divulgação
Conheci duas senhoras numa missa. Logo que cheguei, uma delas me abriu um sorriso, dando-me boas vindas. Disse que eu era lindo. Eu retribuí. Ela disse que já era velha. Respondi que a beleza não se esvai com o tempo. Ela concordou, sorrindo, e me informou que ia completar 93 anos. A amiga já fizera 90. Contou-me que toma meia taça de vinho tinto toda noite por sugestão médica. A de 90 disse que faz o mesmo. A de 93 reagiu, dizendo que ela tomava a taça inteira e que ocultava isso do médico. A amiga riu e explicou que nem tudo deve ser dito.
Uma pessoa, no banco de trás, tossiu. A senhora de 93 ofereceu uma pastilha. Explicou-me que sempre carrega pastilhas para aliviar sua tosse e a dos outros. A missa começou. A 1a leitura era do Livro da Sabedoria sobre a honra da velhice: “mas os cabelos brancos são uma vida sensata. A de 90 olhou para a de 93 e disse, baixinho: “Viu? Estão falando da gente!”. E brincou: “E eles nem sabem que disfarçamos a brancura dos cabelos”. A missa prosseguiu. Rezaram, cantaram, comungaram e ensinaram a estar em comunhão. Ao final, conversamos um pouco mais. Confidenciaram-me o segredo de viver tanto e tão bem. A de 93 disse que havia optado pela alegria e que, por isso, “dava banho” na alma, não permitindo que nenhuma sujeira permanecesse. Nem raiva, nem ressentimento, nem frustração pelo que não acontecera. “Até porque muita coisa ainda há de acontecer, pois não tenho pressa nenhuma de morrer”. A de 90 acrescentou: “Ela sempre foi muito namoradeira”. A de 93 não se fez de rogada: “E tem graça viver sem amor”?
Belos cabelos brancos têm aquelas duas. Amigas desde a escola. Casaram. Vieram os filhos. Foram-se os maridos. Choraram o tempo certo. Deles se lembram, mas sem dor. O ritmo diminuiu. Perderam forças físicas. Tomam mais cuidado para não cair. Sabem mais de tropeços do que antes. Mas o essencial é que elas continuam achando que viver é bom demais.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/11/2014
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