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O amor na Festa de São Vito

No domingo passado, fui à festa de São Vito. A festa, já tradicional no calendário da cidade de São Paulo, acontece no bairro do Brás.

Músicas incríveis: cantores se revezam no palco, com canções conhecidas do repertório italiano. Temos muito em comum com a Itália. Nossos gestos durante a fala, nossa irreverência nos comentários, nosso jeito brincalhão de viver a vida. Bailarinos também se apresentam. E muita, mas muita comida.

Comi um macarrão delicioso. E uma Ficazza de entrada. E uma outra entrada com berinjelas e cebolas muito bem temperadas. E também uma deliciosa Ficazzella. Ah, ia me esquecendo de que comi, ainda, polenta com queijo. Vou deixar a sobremesa para contar em uma outra ocasião. Mas não foram poucos os deliciosos doces que ornaram nossa mesa.

Andei um pouco pela festa e conversei com muitas pessoas que estavam ali, em família, para aproveitar a alegria, o prazer da convivência. Conheci muitos voluntários que todos os finais de semana deixam seus afazeres para trabalhar na festa que tem, também, como finalidade ajudar uma creche cuidada com muito carinho por professores e voluntários da comunidade.

Dentre as tantas histórias que lá ouvi, uma foi especial pelo tempo de um amor que foi se transformando e permanecendo. É a história da Neide e do Modesto. Casados há 56 anos, namoraram outros seis. E continuam contando histórias um sobre o outro. Em um determinado momento, ele me disse de uma viagem que fizeram à cidade de Polignano, na Itália. Contou da emoção, das lágrimas que brotaram dos olhos em um amanhecer repleto de gratidão de sua amada. Ela contou histórias sobre ele e sobre o quanto ele gosta de contar histórias. Um falava delicadamente do outro. Quase que em segredo. “É a melhor companheira que a vida podia ter me dado”, “É um homem bom, maravilhoso”. Perguntei sobre brigas. Disfarçaram quase que me explicando que essas coisas não contam. Ficaram no tempo os estranhamentos. Sobreviveram a eles. E chegaram aos tempos da cumplicidade. Fiquei fascinado com os dois. Quanta história! Quantas lágrimas regando cicatrizes e acalmando os dias que ainda viriam! E vieram. E os afetos foram amadurecendo e decidindo que o melhor era permanecer.

Casais assim servem de exemplo em tempos em que o descarte parece mais fácil do que os encaixes. Pessoas perfeitas não existem. Existe a complementaridade. O respeito. Os dois, Neide e Modesto, mais de uma vez, falaram em respeito. E muitas vezes em amor.

Esqueci-me de dizer que comi um delicioso Riccitelli. Saí de lá bem alimentado. De deliciosas iguarias. De histórias de amor.

Fica a sugestão para visitar a festa de São Vito que vai até o dia 5 de julho. Há 97 anos, nossos irmãos italianos reúnem-se em torno da Paróquia de São Vito, santo de muitos devotos na Itália, protetor dos jovens, dos artistas e daqueles que, por um acidente de percurso, tornaram-se dependentes de droga. Santo conhecido por acudir aqueles que padecem de doenças nervosas. Tradição trazida pela comunidade italiana de nossa cidade que se mobiliza todos os anos para a grande festa. Festa alegre! Colorida!

Vale a pena saborear as comidas preparadas pelas “mammas” de São Vito, senhoras de cabelos brancos e largo sorriso, que comandam as enormes panelas fumegantes. Mulheres incríveis que sorvem o prazer do cozer, do fazer, do conviver.

E quem sabe você consiga encontrar o adorável casal de que falei ou algum outro ou ouvir alguma história de uma das “mammas”.

No dia seguinte, tive que dobrar o tempo da corrida para gastar as calorias. Mas o melhor é que, até hoje, estou revivendo o que vivi. Viva São Vito! 

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97ª Festa de São Vito

Quando: De 23 de maio até 5 de julho de 2015.

Todos os sábados e domingos, a partir das 19h

Onde: Praça de alimentação – Rua Polignano A Mare, 255, Brás

Cantina – Rua Fernandes Silva, 96, Brás

Quanto: Praça de alimentação – R$ 5 couvert artístico

Cantina – Sábado R$ 65; Domingo R$ 30

Mais informações: www.associacaosaovito.com.br

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/05/2015

 

Lembra de mim?

Ouço com alguma frequência esta pergunta: “Lembra de mim?”.  Às vezes, lembro. Às vezes, não, como todo mundo. Fico um pouco preocupado em responder que não lembro. Acho deselegante, afinal, a pessoa vem com tanta expectativa que não me parece correto desapontá-la. Mas também não gosto de mentir. Então, fico revirando minha caixa de memórias para tentar identificar o meu interlocutor. Exatamente como na divertida crônica de Luis Fernando Veríssimo: O grande Edgar. Só que, nessa história, a confusão era ainda maior, pois o interpelado não era quem o interpelador pensava que fosse.

De qualquer forma, quando sou surpreendido com a fatal pergunta, costumo sorrir, esperando  que a pessoa diga, naturalmente, de onde nos conhecemos. Algumas me salvam nessas embaraçosas situações, dizendo: “Lembra de mim? Fui seu aluno na PUC!”.  Ufa, fica mais fácil.

Dia desses, um homem me abordou e demorou a dizer de onde nos conhecíamos. Ele falou: “Professor, não tem como o senhor se lembrar de mim. Fui seu aluno no Colégio Friburgo, em Santo Amaro, há mais de 20 anos. Eu era um adolescente e nunca mais me esqueci de suas aulas”. Contou-me algumas histórias que eu contava, lembrou-me de alguns projetos. Fiquei comovido. Disse-me ele que tinha muitos medos e que eu fui significativo em sua transformação.

Sou muito grato por esse ofício de ser professor. Não sei com quantos alunos, em todos esses anos, tive a honra de conviver. Sei do poder que temos quando entramos em uma sala de aula e nos deparamos com mulheres e homens carentes de espaços e de orientação para que protagonizem a própria história. Lembro-me de professores inesquecíveis que me alimentaram de futuro e que me ajudaram a compreender que eu poderia fazer escolhas corretas. Ao final da conversa, agradeci o carinho e disse-lhe que, agora, seria eu a não me esquecer de sua gratidão. Coisas da vida. Como diria Guimarães Rosa, “Mestre não é aquele que ensina, mas quem de repente aprende”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/05/2015

Chaplin, o musical, a inspiração, o talento

Estreou, no Theatro Net São Paulo, “Chaplin, o musical”.  Só essa notícia já mereceria uma comemoração. Musicais ajudam a cidade a solidificar, cada vez mais, sua vocação como Capital da Cultura. São Paulo, que já foi considerada a locomotiva do Brasil pela sua indústria, vai se firmando, hoje, em outras áreas. A cultura é uma delas. Peças de teatro, cinemas, museus, exposições, saraus literários em todos os cantos da cidade, e tantas outras manifestações culturais, agradam os paulistanos e atraem turistas de dentro e fora do Brasil. Mas a estreia de “Chaplin” tem outros ingredientes que merecem ser degustados com prazer.

Chaplin é um dos maiores artistas de todos os tempos. Fazia emocionar sem nada falar. Na delicadeza dos seus gestos, dizia o que era necessário. Brincava com o cotidiano. Cotidiano duro teve o menino que nasceu em Londres, que viu o pai humilhar a mãe, que viu a mãe se acabando, que foi criado em um reformatório, que fugiu da polícia e assim segue o seu doloroso início. Sobrevivente dos solavancos, estreou no cinema e foi construindo uma carreira que conquistou o mundo. Ator, diretor, produtor, homem carente de dizeres que melhorassem o mundo. Errou, certamente, como erramos todos nós. Seus erros, entretanto, exilaram-no, roubaram dele o que o fez ser amado. E todos esses percursos surgem de forma correta neste musical. Em “O Grande Ditador” Chaplin, enfim, fala. O cinema estava mudando. E o seu texto traz para o contexto daqueles tempos um alento de esperança:

“Desculpem-me, mas eu não quero ser um Imperador, esse não é o meu objetivo. Eu não pretendo governar ou conquistar ninguém.

Gostaria de ajudar a todos, se possível, judeus, gentios, negros, brancos. Todos nós queremos ajudar-nos uns aos outros, os seres humanos são assim. Todos nós queremos viver pela felicidade dos outros, não pela miséria alheia. Não queremos odiar e desprezar o outro. Neste mundo há espaço para todos e a terra é rica e pode prover para todos.

O nosso modo de vida pode ser livre e belo. Mas nós estamos perdidos no caminho. 

A ganância envenenou a alma dos homens, e barricou o mundo com ódio; ela colocou-nos no caminho da miséria e do derramamento de sangue.

Nós desenvolvemos a velocidade, mas sentimo-nos enclausurados:

As máquinas que produzem abundância têm-nos deixado na penúria.

O aumento dos nossos conhecimentos tornou-nos céticos; a nossa inteligência, empedernidos e cruéis.

Pensamos em demasia e sentimos bem pouco:

Mais do que máquinas, precisamos de humanidade;

Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura.

Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”

Trecho do filme “O grande ditador”, de Charles Chaplin. Tradução: Fernando Barroso.

A outra notícia boa é que a montagem brasileira de “Chaplin, o musical” é simplesmente genial. Jarbas Homem de Mello é Chaplin. Que perfeição! É o ator se entregando à personagem. E emocionando. O elenco todo está muito bem. Direção, direção musical, coreografia, figurino, cenografia. Enfim, aplausos ao talento do artista brasileiro e à coragem e determinação dos produtores. Este musical é produzido por Claudia Raia e Sandro Chaim.

Quem puder vá ao teatro. Esta peça é uma homenagem não só ao genial Charles Chaplin, mas à genialidade do que somos capazes de fazer por aqui.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/05/2015

 

 

 

Onde anda a verdade?

Bons tempos os nossos em que as mídias sociais surgiram para democratizar a informação e aproximar as pessoas. Com alguns toques, podemos divulgar uma ideia, um evento, um chamamento a uma causa. Em pouco tempo, milhões de pessoas poderão se conectar com o que se quer apresentar. De lançamento de livros a defesa de conceitos. Desde a mobilização para uma caminhada em defesa de algum ideal até a venda de móveis ou imóveis. E tantas outras benesses. Podemos pesquisar sobre pessoas com as quais vamos nos encontrar. Sobre temas. É muita mudança em pouco tempo. Esse é o lado bom. Mas há um outro lado e, sobre esse, é preciso nos debruçarmos com alguma frequência, pois se refere a um valor que é essencial para a vida em sociedade: a verdade.

Onde anda a verdade nestes tempos virtuais? Quantas histórias absurdas são acessadas por pessoas, de todos os cantos, que acreditam no que é absolutamente mentiroso? Desde o erro até a perversidade. O erro pode ser um texto atribuído a Clarice Lispector, por exemplo, e que ela nunca tenha escrito. E de um em um, a mentira vai ficando verdadeira. Pode ser que o primeiro a afirmar tenha feito não por maldade, mas por descuido. E há o perverso. Aquele que quer destruir a imagem de alguém e que cria histórias mentirosas para que os que sofrem com a ausência de senso crítico as divulguem. Tenho escutado as mais absurdas histórias de pessoas que leram no Facebook ou no Twitter, ou em algum blog, alguma informação sobre alguém e resolveram acreditar e decidiram espalhar. Cenários ruins para quem preza a verdade.  

Podemos criticar, opinar, convergir ou divergir; tudo isso enriquece a democracia. Mas inventar é tosco, desonesto e só colabora para que o erro se sobreponha ao correto. Antes de espalhar o que se lê, não custa um pouco de cuidado. Estamos falando de vidas humanas e de seus ideais. De pessoas e de biografias que têm sentimentos e serviços prestados a uma causa. Um pouco de cuidado não faz mal a ninguém.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/05/2015

 

Entrevista concedida por Gabriel Chalita ao “The Guardian”

Education in Brazil: Laying the foundations for change

Q&A Gabriel Chalita – Education Secretary for the City of Sao Paulo

Born and raised in the state of Sao Paulo, Gabriel Chalita was named the city’s education secretary in January 2015. A prolific writer, professor, lawyer and politician, Chalita’s experience in the field of education made him the ideal candidate to steer the huge and diverse metropolis towards lasting reform in the sector. Fully behind the recently-published National Education Plan, recognition of the value of teachers is at the heart of his thinking. The Report Company met with him to find out more.

The Report Company: What is your assessment of the progress being made in education in Brazil?

Gabriel Chalita: Education in Brazil has improved a lot conceptually and the country now knows that we have to educate all children. That is a very important idea. We have also improved legislation, and I presided over the education commission in Congress. We now have a National Education Plan. This is a major achievement for the ideas of inclusion, diversity, of educating all children, of providing services for children between 0 and 3 years of age – which no one spoke of before – and of providing education for everyone, youths and adults alike. Until very recently, daycare centres were not considered a part of educational policy. Today, however, we are aware that children need to be educated from the outset.

Now that we have put all the children in school, built a lot of new schools and changed the financing of education, our great challenge is quality. How can we make them learn?

I believe we have a number of obstacles. Firstly, we have to invest more in the teaching career. Teachers need to be valued in their hearts, minds and wallets. That means improved, continuous training, helping them to give better classes, listening to teachers, telling them how important the teaching profession is and a salary policy that communicates to young people that a teaching career is financially attractive. The latter improved a little with the new minimum wage for teachers, but it is still a long way from being realistic.

Secondly, we have to increase the time children spend in school, which means developing full-time education. I had the experience of building 500 schools when I was the state secretary of education, but we also need a more encompassing, more intelligent curriculum which unites theory and practice. I got to know schools in places like China, Korea and Finland and it is amazing how music education has come back today. Sports are also extremely important. Can you imagine a child these days sitting in a chair listening to teachers speak for a whole day? Finally, families need to participate more in order to complement the work taking place in school.

TRC: What do you see as the timeline for change in Brazil’s education sector?

GC: The National Education Plan is to be applied over a period of ten years. If everything that was put forward is realised, there will be a significant improvement in education in ten years. There are very objective, realistic assumptions and goals there: 50 percent of schools in a full-time regimen, at least 25 percent of students in a full-time regimen, and a percentage of teachers that need to have masters and doctorates. We have established very clear goals but the plan is not mandatory. There is no penalty. If the country gets behind it, though, we can easily have a very different educational reality in ten years’ time.

What I achieved at state level and what I will try to replicate here is training teachers as trainers. Educational consultants – who often only have experience at university – have no idea what teachers have to deal with in the classroom. The other day, I was talking to a teacher who told me, “of course I agree with inclusive education, but I have no idea what to do when a student with a disability I’m not familiar with arrives in my class”. Inclusion is a complex problem and people need to be involved in the process. Keeping close to the teachers is crucial.

TRC: On a more regional level, what is Sao Paulo’s education plan for the coming years?

GC: Our biggest priority at the municipal level is not leaving children behind. When I said that all children are in school today, I meant in basic education, not pre-school. Sao Paulo has more than 100,000 children waiting for a place at a daycare centre. We have to address that by building new daycare centres, and there are many under construction. Secondly, there are a lot of institutions that are associated with us and that we will expand. Thirdly we have a plan to invite the private sector to donate around 100 daycare centres to us. This is a much faster and more straightforward route than the public process which needs to go through project planning, purchasing of the land, expropriation procedure if necessary, getting the approval for the project and so forth.

The second challenge is getting the children to learn. It makes no sense for children to go to school, finish a full cycle and come out the other end still not able to read or write. We want to invest heavily in teachers that provide literacy training; this is the first bottleneck. Improving things early makes it easier from then on. The problem comes when children go through years accumulating these losses. So we want to invest in the teachers at the earliest stages, who were not given their proper value. People thought that they were not important because they were just teaching small children. But the world sees it differently now – the earlier your effect, the more essential your work is.

TRC: How can you and your schools change people’s perceptions of education?

GC: What makes one school better than another is the people behind it; the head teacher, the participation of the families. At a meeting with school heads, I told them that they needed to be leaders, that is, they needed to be able to notice deficiencies and problems with students, with classrooms, with teachers and address them. We have radio, photography, dance programmes in schools. We are going to expand the cultural curriculum greatly. We already have very significant models. The challenge is expanding them; getting good experiences, good practices and replicating them elsewhere.

Sao Paulo has been through a water shortage. One very important issue is using crises like that to educate, in order for people to ration their use of water, for instance, and to be more aware of its value. Educating about that is one of the roles schools have to play. Some people think that schools should focus on teaching languages and maths. Yes, this is part of it, but participating in a school play will also help. We have to seek alternatives for the learning process.

Moreover, you need to evaluate learning all the time. Brazil has improved a lot in that respect. I don’t see it as punishment, but as diagnosis. Using that information, you can ask yourself: “why are these students having trouble in maths? What are we doing wrong? Why are they doing better in one region than another?”

Schools are not a place for teachers to simply throw knowledge at students; that is not the case anymore. Teachers are not learning facilitators nowadays, they are knowledge encouragers. They stimulate students to look for and develop their taste for knowledge. Students need to want to research, to look for information.

TRC: The private sector has also noticed the importance of education as an investment in the future of the country. What has been your experience there?

GC: When I was in the state ministry, Viviane Senna and I developed the Family School project, which opened schools on weekends for culture and sports. The project received awards from the UN and the whole world came to see it, because what we did was amazing. During these weekends, we addressed four elements of the educational process: arts, sports, health and income generation. Based on that, schools could choose what they wanted to do, together with university students.

We also developed the Partners of Education project with Jair Ribeiro and other entrepreneurs which was akin to schools being adopted. When I was in charge of Fundacao Casa, a correctional institute for troubled minors, the Bradesco Foundation also developed a project to train these youths. We even visited penitentiaries in London, because the idea behind them is very different there. At the time, we learned about several different educational systems and I believe a lot in these kinds of partnerships. There is a lot of good will out there; there are very serious people that really want to help.

TRC: How would you define your management style and what defines your administration?

GC: Dialogue and respect. As I get to know people from the system, I bring them closer. I have been working with the idea for some time that educators need to be educated. You may very well fight for your goals and ideals, but let us all be educated and polite. Show your employees, your students that you are polite. This attitude is fundamental to my administration.

Brazil is a very large country with a large population that mostly doesn’t speak English. It is evident that there are great prospects for growth, even if the government expands considerably its efforts in higher education, there is still a lot of room for private universities to flourish. I have no issue with that; this dialogue is very important. We have to praise private companies that invest in education, alongside public efforts. We need to be open. It would be wrong to want all education to be public, and there are excellent private universities today backed by listed companies that have grown and expanded. There are opportunities for growth in Brazil; we’re the land of hospitality.

Por: Gabriel Chalita (fonte: The Guardian) | Data: 19/05/2015

Bom domingo

Desde criança, ouço histórias de que o domingo, no final do dia, é sempre um pouco melancólico. “É um entardecer estranho!”, dizia uma jovem que sonhava com casamento e que morava na minha cidade. “É solitário, é como se a semana estivesse acabando e, com ela, acabassem as chances de algumas coisas novas acontecerem”, lamentava ela. Eu argumentava, dizendo que a semana acabava no sábado. Domingo era o início. E todo início nasce com alguma possibilidade. Lembro-me de um padre que falava sobre isso. Que dizia que era bom, depois da missa, ter retreta para alegrar a noite de domingo. Coisas do interior.

Ouvi gente dizendo que a melancolia do domingo vem da consciência de que o fim de semana acabou e de que tudo recomeça na segunda-feira. Ficava pensando eu, “Mas quando se trabalha no que se gosta, isso não é um problema”. O tempo foi passando, e eu fiquei com a impressão de que essa melancolia era coisa do interior. E de que, nas grandes cidades, com mais opções, o domingo era uma festa. Teatro, cinema, shopping, shows musicais, encontros interessantes. Foi quando, numa roda de amigos, ouvi alguns desabafos semelhantes àqueles da cidade de onde vim. Final de domingo é melancólico, final de domingo é quase uma dor.

“Dor”?! Perguntei um pouco chocado. “Dor do quê? Dor, por quê?” Ficaram se entreolhando e talvez imaginando que a minha pergunta não fizesse muito sentido. Que era óbvio que essa tristeza do crepúsculo dominical vinha sem ser convidada. Insisti. E eles ainda em silêncio. Então, uma amiga disse: “Vamos fazer compras?”, e outra retrucou: “Prefiro um cinema, o tempo passa mais rapidamente”.

Querer que o tempo passe mais rapidamente é não compreender sua grandeza. Cada tempo é tempo de existir sem descrenças, sem desistências. Sejam domingos sem luar ou quintas-feiras promissoras. Não importa. Reinventar as ações é prova de compreensão da vida. Cada dia tem o seu tempero.

Fiquei lembrando quantas pessoas que conheço e que aproveitam o domingo para fazer algum trabalho voluntário. Visitas a hospitais, asilos, abrigos, comunidades carentes. Contadores de histórias, fazedores de bolos ou de outras comidas. Operários das boas ações. Boas ações fazem aqueles que visitam amigos que, por alguma razão, sentem fome de gente e para quem só a solidão é presença frequente.

Para muitos, o domingo é um dia santo. Rezar nos preenche dos melhores sentimentos. Ajuda-nos a refletir sobre o que fizemos e sobre o que necessitamos para que nossa ventura na vida tenha um sentido. Muitos sentidos. Rezar ajuda-nos a ficar um pouco com as nossas feridas e com as lembranças de futuros com que sonhamos. 

Não é proibido sonhar aos domingos. Nem nos outros dias.

Fernando Pessoa, sob o heterônimo Álvaro de Campos, no início de seu poema “Tabacaria” surpreende-nos com dizeres benditos:

Não sou nada. Nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

À primeira vista, lendo esses versos, invade-nos uma sensação de vazio, de angústia, de descrença. Mais atentamente, percebemos que o eu poético confessa que pode não ser nada, mas pode ter sonhos. Só o que possui são muitos sonhos. Todos os sonhos do mundo! Que grandeza! Que bênção poder sonhar! É a presença que supre todas as ausências. É um mistério que o domingo ou qualquer outro dia pode não ver, se não desejar ver.

Que os pensamentos que vestem de tédio alguns domingos arrisquem momentos ricos de reflexão. A reflexão que agrega e não a que deprime. A reflexão de que a vida é útil, de que cada instante é precioso e de que os futuros são sempre bem-vindos. E nos desperte, também, “a sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro”. Quem sonha tudo pode. Até mesmo colorir de alegria todos os momentos de todos os dias. Não desperdicemos a vida, não apressemos o tempo, com lamúrias e queixumes. 

Bom domingo a todos! Recebamos felizes a chance de mais um início.

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Domingo

Veja, meu bem

Que hoje é domingo

Domingo eu não choro

Domingo eu não sofro

Domingo eu sou de paz

E alegria

Tristeza, hoje eu não estou

Saudade, volte outro dia

Domingo eu não sou boa

Companhia

(…)

Domingo a minha vida é o circo 

Eu sou a trapezista 

Alguém avise à dor 

Que não insista 

Tristeza, hoje eu não estou 

Saudade, volte outro dia. 

(Maria Bethânia/ Roque Ferreira)

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/05/2015

 

Maria e os pequenos

Dia 13 de maio, como acontece todos os anos, foi o dia em que cristãos de várias partes do mundo celebraram a festa de Nossa Senhora de Fátima. Ocorre que, em 13 de maio de 1917, Nossa Senhora apareceu a três crianças que pastoreavam um rebanho – Lúcia, Francisco e Jacinta -, na Cova da Iria, um bairro da freguesia de Fátima, em Portugal. E continuou a aparecer nos meses seguintes. Sempre no dia 13, com exceção do mês de agosto porque as crianças estavam presas. Nesse mês, ela apareceu no dia 19. Os homens da época desconfiaram das crianças. Por que Nossa Senhora escolheria crianças para trazer sua mensagem? E crianças pobres? Por que não revelaria seus segredos aos doutos das leis? Por que não falaria diretamente àqueles que tinham o poder de acabar com a guerra? A guerra que, em qualquer tempo, dilacera pessoas e sentimentos. A guerra que demonstra a incapacidade de solucionar conflitos com a inteligência. A guerra que apresenta nossa covardia. Quantas guerras se sucedem nas violentas relações entre as pessoas, inclusive dentro dos lares? Somos nós, adultos, que toleramos menos os nossos semelhantes. Nós, preenchidos por preconceitos e por pouca compaixão.

Maria escolheu os pequenos. As crianças, puras e verdadeiras. Os que não estavam viciados pelo poder. Os que tinham olhos de ver e mentes abertas para a luz que os iluminou. O clarão talvez cegasse os olhos céticos dos que se sentem acima do bem e do mal, senhores da razão. Os pequenos brincavam na terra. Riam. Corriam. E preenchiam-se uns dos outros, sem nenhuma preocupação em nada receber. Receberam a linda mensagem. Entraram para a história. Simples. Anunciadores de um anúncio. 

É preciso rezar mais e guerrear menos. Amar mais, compreender mais, para experimentar, já aqui, as delícias do Céu. Que é abertura e não fechamento. Abertos pela simplicidade, as crianças acolheram Nossa Senhora e sua mensagem. Os pequenos têm muito a nos ensinar.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/05/2015

Gabriel Chalita recebe o título de Cidadão Honorário do Município do Rio de Janeiro

Prezado vereador Willian Coelho, que preside esta sessão.

Agradeço a generosidade de Vossa Excelência e de seus pares em me conferir este título:

Cidadão carioca.

Cidadão é aquele que convive em sociedade e que tem consciência de seus direitos e deveres. Cidadão é o que cultiva as relações recíprocas como necessidade vital. Somos quem somos, porque outros preencheram nossas incompletudes ou, pelo menos, amenizaram-nas. Precisar do outro não diminui nossa liberdade. Amplia. O outro me eleva para que eu compreenda até onde posso chegar. Sozinho não enxergaria o longe, nem o alto, nem sequer o outro, irmão meu de espaço e tempo. O espaço é território, é a cidade. O tempo é senhor indomável. Pudéramos nós deter alguns instantes e apressar outros. Não temos esse poder. O poder que temos é o de dignificá-lo. O tempo. E de, no tempo que temos, construir espaços corretos, nascentes humanas de cachoeiras volumosas de amanhãs.

Construir cidades requer esforço coletivo. Escolhas. Renúncias. Coragem. Por isso cada cidade tem seu jeito de ser, de falar, de lidar com seus destroços e de reconstruir suas esperanças. 

Cidadão carioca, é esse o título que, honrosamente, hoje, recebo.

Carioca.

A semântica é generosa ao dar diversas explicações a essa palavra. E mais diversas ainda são as razões para amar esta cidade.

Minhas primeiras lembranças, por aqui, são da Tijuca e de Vila Isabel. São dos acordes de uma tia que tocava violino e das cordas vocais de um tio que me explicava o significado do nome das ruas do Rio de Janeiro. Tempos que o tempo roubou mais apressadamente do que gostaríamos. Saíamos da terra onde nasci, Cachoeira Paulista, do Vale do Paraíba banhado por duas serras encantadas, a da Mantiqueira e a do Mar, e vínhamos para a cidade grande, para a Cidade Maravilhosa, maravilharmo-nos com os cantos delicadamente perfeitos que serviram e ainda servem de inspiração para os poetas, amantes das gentes e das paisagens. 

Era menino ainda quando me banhava nos mares daqui e imaginava o amanhã sem afogadilhos. 

Família unida, aconchegávamo-nos ora aqui, ora em São Paulo. Cachoeira Paulista fica praticamente no meio do caminho. Apaixonei-me de forma diferente pelas duas. São Paulo, hoje, me acolhe tão generosamente que a ela sou grato todos os dias. E quanto ao Rio. Ah, o Rio de Janeiro!

Era ainda adolescente quando, destemido, avistei a cidade de uma asa delta. Perfeição demais. A Pedra da Gávea. O Morro da Urca. Os dois Irmãos. A Floresta da Tijuca. O Jardim Botânico. Fui crescendo e tecendo minha admiração, e dizendo sem economias:

“Rio de Janeiro, gosto de você

Gosto de quem gosta

Deste céu, desse mar,

Dessa gente feliz”

Assim compôs Antônio Maria, o pernambucano amigo de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, que o Brasil aprendeu a amar a partir desta cidade. 

Aqui, escrevi e escrevo boa parte de meus livros. Inspiro-me na Lagoa Rodrigo de Freitas e na mata do Corte do Cantagalo. Inspiro-me nas andanças pelas praias de Ipanema, do Leblon, de Copacabana. Nos teatros, nas livrarias, nas conversas na Academia Brasileira de Educação, da qual tenho a honra de ser membro.

Inspiro-me nas gentes desta terra, na “carioquice”, na alegria contagiante de quem se permite agradecer por ter nascido aqui ou por aqui viver. 

Quantas palestras proferi nesta cidade e em outras do chão fluminense! Quantas alegrias vivi ao conviver com professoras e professores que, ciosos do mister magistral de professar a crença no ser humano, alimentam de futuro os seus alunos!

Sou professor por decisão de vida. Por jamais, nem por distração, deixar de acreditar no ser humano. E sou escritor porque reverencio sua excelência “a palavra”. É ela quem nos proporciona privilégios, inclusive o de fazer declarações de amor. Como fez o incansável amante Vinícius de Moraes que não temeu o tempo ao esclarecer um jeito de amar: 

“Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.”

E que Tom Jobim disse de um outro jeito. De um gostar eterno que, independentemente de outras paixões, dá saudade, porque aguarda o nosso voltar, sempre.

“Cristo Redentor,

Braços abertos sobre a Guanabara.

Este samba é só porque,

Rio, eu gosto de você.”   

Compositores, sambistas, geniais arquitetos de gingados que encantam o mundo. E as Escolas de Samba capazes de popularizar, na Marquês de Sapucaí, temas que vão das óperas aos operários, de outras cidades e estados, de outros países e culturas, ao próprio Rio que, sem preguiça, acolhe a todas elas. 

Rio de Janeiro do genial Machado de Assis, fundador da Academia Brasileira de Letras. Menino pobre de nascimento e rico nos nascimentos que deu a personagens e ideias que ultrapassaram nossas fronteiras e fizeram o mundo reverenciar sua genial escrita. Rio de Cecília Meireles, a professora que fundou a primeira biblioteca infantil da cidade. A escritora que louvou a liberdade: 

Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.

Para ser cidadão, tem de ser livre. Para ser cidadão carioca, tem de ser romanticamente livre, apaixonadamente livre. 

No quarto centenário desta cidade, Manuel Bandeira rezou:

“Louvo o Padre, louvo o Filho

E louvo o Espírito Santo.

Louvado Deus, louvo o santo

De quem este Rio é filho.

Louvo o santo padroeiro

Bravo São Sebastião.

Que num dia de janeiro

Lhe deu santa defensão.

Louvo a cidade nascida

No morro Cara de Cão,

Logo depois transferida

Para o Castelo, de então

Descendo as faldas do outeiro,

Avultando em arredores,

Subindo a morros maiores,

Grande Rio de Janeiro!

Rio de Janeiro, agora

De quatrocentos janeiros…

Ó Rio de meus primeiros

Sonhos! (A última hora

De minha vida oxalá

Venha sob teus céus serenos,

Porque assim sentirei menos

O meu despejo de cá!)” 

É de cá que estamos falando. Da cidade que, agora, celebra não 400, mas 450 anos.  E de novo o tempo nos alertando de que prossegue, atropelando os espaços de nossa juventude. Mas gastar a vida por aqui tem mais sabor. Velhice? Não. Pôr do sol no Arpoador ou na Princesinha do mar ou no Vidigal. Ou emaranhado por algum amor que resolveu nos surpreender em qualquer estação de nossa vida.  

Já recebi, nesta terra, a Comenda Pedro Ernesto. O que já me fez sentir profundamente grato. Mas, hoje, posso dizer: “Sou cidadão carioca”. 

Livremente carioca. Agradecido pelo que já vivi e pronto para o que vem pela frente.

A arquitetura nascida do Criador foi um presente e a construída pelos homens também. O Rio continua em construção. Cidade dinâmica que desafia os seus governantes a dar a esta gente o que esta gente merece. O Centro renasce com obras que devolvem a esta cidade o coração pulsante que encanta quem por aqui quer fazer o seu canto. 

Um título de cidadania é um dizer carinhoso: “Venha fazer parte do que temos de melhor. Venha ser filho desta cidade”. E eu, humildemente, digo ‘sim’. Quero continuar a caminhar e a descobrir, na prosa despretensiosa, razões para dar as mãos. Do alto de Santa Teresa ou da Igreja de Nossa Senhora da Penha, digo “obrigado”. Obrigado, Nossa Senhora. Agradeço ao Seu Filho, o  Cristo Redentor, por ter me dado, nesta vida, mais do que eu fiz por merecer.

Nasci em uma família amorosa. Meu pai. Minha mãe. Meus irmãos. Fomos alimentados pela delicadeza do interior. E trago, em meu interior, esses ensinamentos de cultivar os afetos como uma doce obrigação, como uma servidão voluntária. Quero servir a esta cidade como servi e sirvo à cidade de São Paulo. Não há paradoxos nesses dois amores. Gigantes. Acolhedoras. Desafiadoras. Como disse, nasci no meio do caminho. Caminhos há para que as mãos dadas não estejam apenas no belo poema de Drummond, o mineiro apaixonado pelo Rio de Janeiro. 

“O presente é tão grande, não nos afastemos

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. 

Um cidadão preocupa-se com o outro cidadão. Assim como há a São Paulo pobre, também há um Rio de Janeiro pobre. Mulheres e homens invisíveis habitam nossas cidades. Nosso dever é olhar e enxergar o que ainda precisa ser feito. Cidadãos, somos todos. E nenhum fosso pode nos separar. É por isso que sou educador. Porque acredito no talento do ser humano e na partilha necessária de vidas e saberes para que cada um chegue onde precisa chegar. Não se trata de bens materiais. Trata-se de vocação. De um impulso vital que nos faz ir até onde nos levam nossos melhores intentos. Mas, para isso, precisamos que nos abram as portas das possibilidades. Ou que nos acendam a luz. Ou que nos retirem da multidão e nos digam: “Você também é um cidadão”.

Cidadãos cariocas e cidadãos de outras cidades que, hoje, aqui se achegam para esta prosa entre amigos. Desafiemos os descrentes da esperança. E os que têm preguiça de continuar a construção. A correta. A que não deixa ninguém para trás. A do caminhar de mãos dadas.

Esta cidade é mais do que um “espetáculo da natureza”, é a cidade “de uma gente de encantos mil”.

“Jardim florido de amor e saudade

Terra que a todos seduz

Que Deus te cubra de felicidade

Ninho de sonho e de luz”. 

“Ninho de sonho e de luz”.

Voemos, então, sonhadores iluminados, exercendo o nosso ofício, cumprindo nossa vocação! Cidadãos! Livres! Responsáveis por aspergir em todos os cantos o canto da alegria; cariocas, enfim. 

É de Chico Buarque, o paulista-carioca, a confissão:

“Nas ondas do mar

Cidade maravilhosa

És minha.

O poente na espinha

Das tuas montanhas

Quase arromba a retina

De quem vê.

Cidade maravilhosa

És minha”

Obrigado!

Discurso proferido no Rio de Janeiro | 08/05/2015

Mulheres fortes

“Meu marido teve que escolher: a bebida ou eu”, disse-me uma mulher em um evento na periferia de São Paulo. “Expliquei para ele: Deus te deu uma mulher maravilhosa. Eu sou maravilhosa, mas se você acha que vou de bar em bar para te buscar, esqueça”. Tudo isso ao lado do marido, que concordava mexendo a cabeça. A mulher prosseguia explicando que, quando namoravam, já suspeitava que ele tinha umas atitudes inadequadas. Ela ameaçou não casar. Ele melhorou. Depois do casamento, voltou ao erro. “Comigo não pode sair da linha”. E o marido olhava com olhos apaixonados para a mulher que falava pelos dois. 

Uma outra senhora explicou que não tinha mais filhos nem netos na creche, mas como gostava muito do bairro, passava de vez em quando nas creches para ver se algo estava fora do lugar. “Está tudo em ordem. Se não tivesse, eu falaria. Eu tomaria providências”. Uma outra falou sobre o sistema de saúde. Disse o que funcionava e o que faltava. E assim, as líderes comunitárias foram desfilando suas opiniões, com uma autoridade impressionante. Havia homens na conversa, mas eram elas, as mulheres fortes da periferia, que falavam mais, que apontavam problemas e apresentavam soluções. Soluções de quem ama o lugar em que vive, de quem não admite violência, de quem busca fazer de cada canto da cidade um canto bom para se viver. Bem informadas. Guerreiras. Cientes de que o mundo mudou. São elas que chefiam as famílias e que protagonizam as mudanças necessárias para que a cidade não deixe ninguém para trás. Confiam na educação como o caminho mais eficaz para que os filhos tenham uma vida digna. Enfrentam as adversidades com valentia. Não querem ser Amélias. São as mulheres de verdade que assumem o comando da própria vida e avisam ao medo que “sexo frágil” é um termo que não existe em seus dicionários. 

Saio revigorado desses encontros. Aprendo muito. Admiro quem não se entrega. Quem luta por suas convicções e faz história. Fiquei imaginando a luta daquele homem para não perder seu grande amor. Como diz a canção: “Aquilo sim é que era mulher”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/05/2015

 

Dia do trabalho

Uma mulher me respondeu com um sorriso contagiante quando eu lhe dei um simples “tudo bem?”. A resposta foi intensa: “Graças a Deus! Sou muito feliz por trabalhar nesta escola”. Ela trabalha na limpeza da escola. Não mora tão perto. Acorda bem cedo. Pega mais de uma condução. Quando chega em casa, tem outra jornada com o marido e os filhos. E é feliz.

Tenho muito respeito pelos funcionários das escolas. Os que limpam os espaços em que educamos, os que preparam o alimento das crianças, os que cuidam para que tudo esteja em ordem para nós, professores, realizarmos nosso ofício. Sou muito feliz por ser professor. E escritor. E sempre que converso com jovens sobre profissões, tento ajudá-los a perceber que a melhor escolha é fazer aquilo que nos realize, que nos faça perceber que podemos ser úteis à sociedade. Não há profissões superiores ou inferiores. Todo trabalho é digno, quando feito honestamente. Mas é preciso ir além. É preciso ter o entusiasmo daquela mulher que encontrou naquela escola o seu canto de realização. Podemos lutar por nossos direitos, buscar melhores condições de trabalho. O papa Francisco disse, nesta semana, que é escandaloso mulheres ganharem menos que homens para exercer a mesma função.

Há ainda um longo caminho para valorizar as pessoas e as profissões, para dar dignidade a todos e acabar com preconceitos. Mas há um outro fator, de extrema importância, também, que é o encontro com nossa própria vocação, com o que, de fato, nos diga se estamos ou não no lugar certo. Como é ruim encontrar pessoas que detestam o próprio trabalho, que detestam o que fazem e que não encontram disposição para buscar novos caminhos. Vidas desperdiçadas. Sem sermos felizes naquilo que fazemos, dificilmente faremos algo de bom para outras pessoas. Com gestos amargurados, contaminamos o ambiente e a nós mesmos. Sempre é tempo de ressignificar nosso trabalho, de redescobrir a chama que nos faz iluminar pessoas com simples respostas como esta: “Graças a Deus! Sou muito feliz por trabalhar nesta escola”. Feliz dia do trabalho.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/05/2015