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Avenida Paulista

Quando cheguei a São Paulo, vindo do interior, gostava de passar pela Avenida Paulista para contemplar a grandeza da cidade que adotei como minha. Era aluno da PUC, dava aulas em alguns colégios e faculdades e ia me encontrando nas novas tribos da capital. Os teatros, cinemas, museus, restaurantes. O vaivém de pessoas. Arlequinal, como poetizou Mário de Andrade. Pulsante. Gigante.

Lembro que, nessa época, era sucesso nas rádios uma linda composição de Eduardo Gudin, Paulista. Na voz de Vania Bastos ou Leila Pinheiro, eu sentia a cidade em mim:

“Na Paulista os faróis já vão abrir…
 E um milhão de estrelas 
prontas pra invadir, os jardins 
onde a gente aqueceu uma paixão…
 Manhãs frias de abril.”

Quando eu passava pela Avenida, sempre imaginava os tempos de ontem, da cidade antiga, de outras pessoas que também ali gastaram sua existência. Dos gritos políticos aos encontros de amor. Caminhantes defendendo a liberdade ou o direito de encontrar alguém para aquecer os sonhos nas “manhãs frias de abril”. Eu ficava ressabiado com o mês escolhido para falar do frio. Por que não junho ou julho? Talvez porque o compositor, ou alguém que o inspirou, tivesse alguma história habitada no mês de abril. Eu nasci em abril.

Segue a canção:
“
Se a avenida exilou seus casarões,
 quem reconstruiria nossas ilusões?
 Me lembrei de contar pra você, nessa canção,
 que o amor conseguiu…

O que teria o amor conseguido? Com que dificuldades? 

Você sabe quantas noites eu te procurei,
 nessas ruas onde andei?
 Conta onde passeia hoje esse seu olhar…
 Quantas fronteiras ele já cruzou, 
no mundo inteiro de uma só cidade?”

São Paulo não é apenas uma cidade. O mundo inteiro passa por aqui. Todos os dias é dia de lágrimas. Todos os dias é dia de sorriso. Nascem e morrem pessoas. Chegadas e partidas. Celebrações e lamentos. Cruzando os  quarteirões e rasgando os céus na cidade que tem a vocação para ser de todos.

No domingo passado, estava na Paulista, como tantos outros, celebrando o povo que tomava posse da avenida. Na ciclovia, nas calçadas, nas ruas proibidas aos carros, os faróis abriam e fechavam sem impedir que a Paulista fosse de todos.
Em que cidade sonhamos morar? Que futuros nascem nas nossas aspirações de hoje? Como será a convivência amanhã? Conseguiremos diminuir o fosso que separa a cidade rica da cidade pobre? A que oferece oportunidades da que não oferece? A que dá condições de que os seus protagonizem histórias de sucesso e a que fecha os olhos à dor dos outros que não encontraram o caminho porque ninguém a eles estendeu as mãos?

No domingo, estavam todos na Paulista. Sem desperdícios de reparações entre as tristes divisões da nossa cidade. Salve Castro Alves: “A praça é do povo como o céu é do condor”. De todo o povo. A Paulista é também do povo. Símbolo da pujança e dos movimentos que não param em nossa cidade. Coração que acolhe os choros e ri os risos. Uma avenida que tem sentimentos.


”Se os seus sonhos imigraram sem deixar
nem pedra sobre pedra pra poder lembrar…
 Dou razão, é difícil hospedar no coração
 sentimentos assim.”

Sou grato por viver em São Paulo e por ver que a cidade, embora com enormes problemas, é maior do que eles todos. Por sua gente valente. De razão e de sentimentos.

Ocupemos, civilizadamente, a Paulista como símbolo de tempos que ousamos sonhar. Uma cidade melhor. Mais educada e mais acolhedora. Nos concretos que ousamos construir, há metáforas abstratas de sentimentos que somos capazes de sentir.

Que cada um faça a sua parte. A cidade é de todos. Que os faróis da gentileza, do respeito e da generosidade estejam sempre abertos. Quem ganha somos todos nós.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/07/2015

O território sagrado da saudade

Estava em um evento numa escola quando crianças, lindamente, apresentavam-se cantando “Que Nem Jiló”, de Luiz Gonzaga: “Se a gente lembra só por lembrar/ O amor que a gente um dia perdeu/ Saudade inté que assim é bom/ Pro cabra se convencer/ Que é feliz sem saber/ Pois não sofreu”. O coral tinha uma dança e foi envolvendo a plateia. Alunos e professores cantavam juntos. Bonito de se ver. Bonito de se viver. Foi quando uma professora me disse da saudade do amor que se foi. Eu ouvi, no meio do burburinho bom, sua história de despedida. “Por que as pessoas vão embora?”, disse sem talvez desejar uma resposta. “Por que não dá para voltar no tempo?”. Como outros professores falavam comigo, eu tentava dar atenção. E pensava no que dizer. Ela me deu um abraço forte e agradeceu por ouvir seu desabafo. Eu lhe disse que a saudade ocupava um território sagrado dentro de nós. Que o fato de não podermos voltar no tempo não significa que não possamos reviver, nas nossas lembranças, os tempos bons. E agradecer. 

Pessoas que amamos partem. Faz parte da vida. Partem por razões diversas. Partem involuntariamente, porque a eternidade chegou prematura. E a morte cobra a sua dor. Partem porque resolveram que ficar não era bom e quiseram experimentar outros enlaces. A angústia de ser trocado incomoda. Mas passa. O tempo ajuda a reorganizar os sentidos. O compositor diz mais ou menos isso em sua canção: “Porém se a gente vive a sonhar/ Com alguém que se deseja rever/ Saudade, entonce, aí é ruim/ Eu tiro isso por mim/ Que vivo doido a sofrer”. Ela contou que seu amado partira por decisão e que, um dia, quis voltar, mas ela disse “não”. Mas não sabe se fez o certo. E completou: “Vou ficar com a canção do Gonzaga, “Saudade, o meu remédio é cantar”. Sorriu e se foi. Boa dica.

Remoer o passado não nos ajuda muito. Amplia as dores que já vivemos. Por outro lado, lembrar o que foi bom e partir em busca de mais, “cantando”, porque assim deve ser, já que a arte inspira a viver melhor, é um bom refrão. “Saudade, o meu remédio é cantar”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 03/07/2015

 

A força do bem

Tenho vivido momentos de profunda beleza na minha vida de educador. Em cada creche que tenho a oportunidade de inaugurar, ao lado do prefeito Fernando Haddad, vejo os olhos de esperança e a gratidão de pais que sabem que os seus filhos terão as oportunidades essenciais para o desenvolvimento de suas habilidades. Vejo as crianças sorrindo ainda surpresas com as novas descobertas. E vejo os professores ávidos por exercerem o ofício da generosidade. 

Professores ciosos da responsabilidade com a vida e com a história dessas crianças. Professores que se multiplicam para cuidar, para apresentar a novidade do aprender, para estimular, para caminhar juntos. Que bela profissão! Que escolha feliz!

Convivo, também, como todas as pessoas, com algumas que amanhecem aborrecidas pela vida sem significados. Detestam a felicidade dos outros. Praguejam contra o sucesso. E agem como seres venenosos, prontos para encontrar vítimas inocentes. São violentos com armas ou com palavras. São covardes que pensam em alimentar-se com a dor alheia. Mas não percamos muito tempo com esses seres infelizes. Não podem ter eles autorização para destruir nossa paz.

É preciso acreditar na força do bem. É preciso ter olhos de ver a bondade que nos surpreende a cada dia. Se há médicos insensíveis, há outros que fazem da sua profissão um permanente alívio na dor e na insegurança de tantos. Se há passageiros deselegantes nos ônibus e nos metrôs, há aqueles que cedem o seu lugar aos mais velhos, que se preocupam com as pessoas com deficiência, que cuidam para que ninguém seja atropelado em momentos de mais movimento. Se há injustiça na justiça, há operadores do direito que jamais negligenciam do poder e da responsabilidade que têm com a história de vida dos que a eles se achegam. Se há filhos que abandonam os pais, há outros que deles cuidam sem pestanejar. Ao contrário, amam sem economias aos que, sem economias, os amaram. 

Fala-se muito de policiais truculentos. E há. Mas é preciso reconhecer o caráter de tantos que não negligenciam os valores básicos do respeito e da retidão na profissão de cuidar da segurança de seus concidadãos. E assim acontece em outras áreas. Em outras profissões. Em outras relações.

Como é bom encontrar pessoas boas! Como é bom com elas conviver. É um combustível de esperança que nos recarrega para prosseguir. Gentis criaturas que nos sinalizam que, se há escuridão, no caminho logo à frente há luz. E é por isso que não se pode parar.

Dia desses, conversando com uma mulher que trabalha em uma escola, contou-me de sua alegria em preparar a refeição para as crianças. Disse do prazer em ver aquelas meninas e meninos se juntando, felizes, para comer. O prazer em alimentar os afetos dos filhos dos outros, já que o seu único filho ela perdera, vítima de uma doença que chegou e que nem deu tempo para despedidas. Com lágrimas nos olhos, ela me disse que era preciso prosseguir. 

Outro dia, uma professora que colocava os seus alunos pequeninos para dormir, um a um, contou-me da emoção que sente ao saber que, ali, eles estavam protegidos. Lamentou sobre crianças espancadas em lares doentes. E disse querer dedicar a vida às crianças porque já havia se desiludido demais com os adultos. 

Viveu a violência na própria casa e em casas alheias.

Aprendemos com os exemplos de bondade, mas também aprendemos com os perversos. Nas cenas cotidianas, se prestarmos atenção, recolheremos histórias que poderão iluminar as nossas.

Gosto de observar as pessoas e de me permitir o poder do encantamento.  Desde criança, a violência sempre me horrorizou. A falta de educação, de gentileza, as palavras ditas em tom errado, a mentira, o engodo. Cuidei para que esses não fossem os meus referenciais e para me convencer que ser bom é o melhor caminho para se chegar à felicidade. 

Sou grato aos professores que tive nas escolas em que estudei e aos professores da vida que me abrem os olhos, quando esses se cansam. Que me mostram as mãos enrugadas, mas valentes. Que me provam que o amor existe. Em cada canto. E que resistem aos que querem emudecer a bondade. Não conseguirão jamais. Basta olhar para o passado. De quem a humanidade se orgulha? Dos jogadores de pedra ou dos construtores do templo precioso que é o ser humano?

Fazer o bem vale a pena. O bem é durável, frutifica. O bem é amoroso, alimenta. Uma vida inteira. Várias vidas. Ensinou-nos Francisco de Assis, o que jamais deixou de acreditar no Amor, o que iluminou e ilumina as manhãs mais cinzentas desta nossa casa maior: “Apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras”. Que o Irmão Sol nos aqueça!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/06/2015

 

Sobre a paciência

Uma das frases que ficaram na minha caixa de memórias dentre tantas outras ditas pelo meu saudoso pai é: “Tenha paciência, meu filho”. Meu pai era um homem paciente. Era um homem generoso. O tempo foi seu bom companheiro. Ele envelheceu com sabedoria. E fez de tudo para que nós pudéssemos compreender que a paciência nos ajudaria a navegar, com mais leveza, a nossa nau.

Vejo com perplexidade o tanto de irritação que assalta as pessoas. De coisas corriqueiras a ações covardes. Da buzina desnecessária ao desrespeito com a demora de alguém. Da tentativa de levar vantagem furando a fila ao ataque nada correto nas redes sociais. O outro me irrita por alguma razão. Será que a irritação vem do outro ou das ausências de pensamento, de reflexão, de enredo da minha própria vida? A incapacidade de conviver com pessoas diferentes me torna um ser violento. Assistimos, recentemente, a cenas bárbaras de pedras jogadas em seres humanos. Irmãos nossos. Até onde vai a nossa intolerância! A que ponto chegamos! Nos tempos de absolutismos, senhores podiam valer-se da vida de seus servos. O ódio religioso, social, político, entre outros, já martirizou mulheres e homens bons. Não tiveram a paciência sequer de tentar entender as razões das acusações. Lançaram ao fogo ou pregaram na cruz ou lançaram fora a cabeça ou apenas fizeram desaparecer os que pareciam representar algum perigo.

Falamos, hoje, em dignidade da pessoa humana, em evolução, em respeito ao outro, em convivência pacífica. E, na prática, reproduzimos erros do passado. Meu pai nunca perdeu a fé. Era simples e grande. Foi se fazendo aos poucos. Foi construindo sua trajetória em cima do solo da dor e do afeto. Bebo dessa água e partilho da sua fé. Apesar de, muitas vezes, ficar impressionado com os estranhamentos que nos fazem tão pouco humanos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/06/2015

 

Canta São Paulo

Há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!
(Florbela Espanca)

São Paulo, a cidade que não para, precisa enfrentar os seus problemas e buscar soluções. O sonho de viver em uma cidade de paz não pode ser abortado. Quantos de nós não viemos de outras paragens para “fazer a vida” na cidade grande! Trouxemos no coração um misto de saudade da partida e de esperança na chegada, alimentados pelo desejo de encontrar, na metrópole, um canto que realizasse o nosso “sonho feliz de cidade”, traduzido na música Sampa, de Caetano Veloso. Confessa, ainda o artista, que é sempre um difícil começo e que, rapidamente, aprendemos a chamá-la de realidade. É assim a nossa cidade. De todos. De cada um. Muitos cantos. Muitas dificuldades. Mas muitos encantos. Acolhedora, gigante e desafiadora. Nessa mistura de gentes, vaivéns coloridos de passos apressados, na “dura poesia concreta” dos cantos e esquinas, convivemos. Conviver é mandatório para os cidadãos. E aprender a conviver é um dos desafios da educação.

Convictos de que a formação musical desenvolve habilidades fundamentais na formação de nossos jovens e crianças, lançamos, nesta semana, o “Canta São Paulo”, um projeto de parceria entre a Secretaria Municipal de Educação e a Secretaria Municipal de  Cultura, juntamente com o Theatro Municipal de São Paulo. O intuito é fazer com que todas as escolas de ensino fundamental tenham pelo menos um coral. Para isso, serão disponibilizadas 500 vagas aos professores da Rede Municipal de Ensino interessados em participar do curso de formação de orientadores musicais com prática coral de conjunto. Esses 500 orientadores musicais constituirão grupos corais nas escolas, formados por alunos de diferentes faixas etárias, pelas famílias, pela comunidade, por educadores. No final do próximo ano, um grande concerto com a participação de todos os alunos, professores, orientadores e tutores envolvidos será  apresentado à cidade. Além disso, os concertos do Coral Paulistano que já fazem parte da programação cultural dos Centros Educacionais Unificados (CEUs)  vão agregar os novos grupos Corais, que passarão a integrar os concertos como forma de treinamento e aproximação das famílias e comunidades.

Heitor Villa-Lobos, nosso genial musicista,  dizia que “É preciso fazer o mundo inteiro cantar. A música é tão útil quanto o pão e a água.” Era um de seus sonhos ensinar as crianças a cantar. Incomodado com o descaso da educação com a formação musical, apresentou um revolucionário projeto de Educação Musical ao grande educador Anísio Teixeira, na época secretário de Educação do Rio de Janeiro. O maestro foi convidado a executar seu projeto que incluía, exatamente, a criação do Canto Coral nas escolas. “A música é um fenômeno vivo da criação de um povo”, ensinava o maestro, magistralmente. Nem é preciso dizer que Villa-Lobos executou o projeto com enorme mestria. Chegou a organizar grandes encontros orfeônicos com até 40 mil alunos!

“A música é um elemento básico e insubstituível na formação espiritual de um povo. A sua função não se limita à importância da formação estética, mas a de assumir um caráter eminentemente socializador. Dentro desse conceito é que foi implantado o ensino da música e do canto orfeônico nas escolas brasileiras. Entretanto, para corresponder à sua verdadeira finalidade educacional, o canto orfeônico não deve limitar-se a uma simples exibição pública das qualidades musicais mais ou menos acentuadas da infância. Mas deve participar da vida cotidiana da escola, conferindo ao ambiente escolar uma impressão de sentimento cívico, de solidariedade e de disciplina”. (Villa-Lobos)

Resgatamos o sonho e o conceito do notável compositor e vamos torná-lo, mais uma vez, realidade.  O Canta São Paulo quer despertar crianças e jovens para a autoria e para o sentimento de coletividade. Fazer da música um pretexto para encontros entre família, escola e comunidade. Integrados. Juntos. Uma só voz, entoada por tantas vozes. Afinados. Parceiros.  A música ajuda a conviver, desenvolve a sensibilidade e as múltiplas inteligências que cada um possui. A música acalma a alma. Semeia paz.

Canto Orfeônico dirigido por Villa-Lobos, em 1942.

Fonte: Instituto de Educação Caetano de Campos
Site: http://www.boamusicaricardinho.com/villalobos_83.html

Canta São Paulo nasce oferecendo, pelo menos,  500 corais para esta cidade. Vozes de negros e brancos, mulheres e homens, irmãos de longe ou de perto, com gostos, palpites, opiniões diferentes que hão de cantar a vida. Somos educadores. Não acreditamos na violência combatendo a violência. Acreditamos na inteligência realizando o seu papel: convivendo em paz, cantando o canto do respeito, da vida, valor inegociável em qualquer canção, ação.

Em pouco tempo, essas vozes serão ouvidas. Preparamos, hoje, o futuro. Em nossas escolas. Em nossas esquinas. Em cada canto, um canto bom. Canta São Paulo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/06/2015

 

O mal existe?

A existência do mal foi um dos problemas filosóficos enfrentados por um dos mais importantes pensadores do cristianismo, Santo Agostinho. Agostinho abordou o tema dentro de uma lógica de premissas, para ele,  incontestáveis. As duas primeiras são: “Deus criou todas as coisas” e “Deus é plenamente bom”. Diante dessas assertivas, como encaixar a existência do mal? Se Deus é plenamente bom, não poderia ter criado o mal. Se Deus criou todas as coisas, nem o homem nem ninguém poderia ter criado o mal. Então, o mal não existe?

O mal essencial, talvez, não exista. Na perspectiva agostiniana, o mal é a ausência do bem, é a ignorância diante do que nos faz felizes ou não, como queria outro pensador chamado Aristóteles. Ignorar a bondade nos faz pessoas perversas. Ignorar a beleza da verdade nos faz pessoas despreocupadas com o uso da mentira. Ignorar o respeito ao outro nos faz insensíveis. E assim por diante. Na prática, o mal existe. E é fruto da liberdade do homem em fazer o correto ou se deixar levar por algo que, aparentemente, lhe traga alguma vantagem. O corrupto pratica um mal porque pega o que não lhe pertence. Sua ação é danosa à sociedade. O mentiroso também pratica um mal porque espalha inverdades que visam destruir pessoas ou conceitos. O que trai, o que dá mau exemplo, o que desconstrói histórias de vida, igualmente, pratica o mal.

Imaginemos um jornalista comprometido com o erro, com a mentira, com a injustiça, quanto de estrago ele é capaz de fazer! Assim, também, um pai de família que opta pela violência e não pelo afeto. Ou um motorista que dirija embriagado. Ou um promotor de justiça movido pelo ódio e não pela defesa da sociedade. Na vida, encontraremos pessoas assim. Os bons e os que desconhecem a felicidade serena dos que acreditam no amor. Tenho repetido que nunca vi um perverso ser feliz. São pessoas atormentadas que fazem da vida um tormento para si e para os outros. Gosto de Santo Agostinho e me inspiro nele. Vale a pena ser bom!  

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/06/2015

 

Deus e a ciência

Certa vez, uma jovem estudante enviou uma questão para um dos mais famosos cientistas de todos os tempos, Albert Einstein. A pergunta era direta: “Cientistas rezam”? E ela explicava que se tratava de uma curiosidade que os instigava, ela e o grupo de estudantes do qual fazia parte. Queriam saber se é possível, ao mesmo tempo, acreditar na ciência e na religião.

Einstein respondeu, também diretamente, sem rodeios. Explicou que os cientistas acreditam que tudo o que ocorre no que nós conhecemos, incluindo os fatos da vida humana, deve-se às leis da natureza. Os nossos sentidos são capazes de apreender sobre esses fatos. Entretanto, admite Einstein, o nosso conhecimento dessas forças é imperfeito. Por mais que a ciência evolua, ou quanto mais ela assim o faz, os cientistas que se dedicam seriamente ao seu estudo acabam se convencendo de que um Espírito infinitamente superior se manifesta nas leis do universo. O trabalho científico, conclui ele na carta, leva a um tipo especial de sentimento religioso. Que nada tem de ingênuo.

Com alguma frequência, vejo alguns intelectuais tentando demonstrar que a crença em Deus significa a ausência da real inteligência do homem. Que se trata de uma necessidade de criar Deus para justificar o injustificável e que, com todo o conhecimento disponível, com tudo o que a evolução foi capaz de nos trazer, torna-se desnecessária a existência de Deus.

O papa Francisco, recentemente, falou sobre a convivência entre as teorias científicas e a fé. Buscar explicações para a evolução do mundo não significa desacreditar em uma Força Superior capaz de originar e de gerar a vida. Até hoje, a ciência não conseguiu chegar às razões primeiras de todas as coisas. Há um aspecto a ser considerado entre os ativistas ateus. O tanto que eles falam sobre Deus tentando fazer com que as pessoas deixem de acreditar. Se para eles, Deus não existe, por que gastar tanto tempo com Ele, então? Se alguns ateus criticam os fundamentalistas religiosos – e talvez tenham razão em fazê-lo –, precisam refletir se não estão se tornando fundamentalistas do ateísmo. Os radicalismos, os desrespeitos às crenças diferentes nos separam desnecessariamente. É possível e necessário conviver com as diferenças e aprender com esses convívios.

Desde muito cedo, afeiçoei-me às ciências sociais. Sou um leitor compulsivo. Gosto de estudar os clássicos e de reler teorias sobre temas que me instigam. A fé é um deles. Por um lado, há um caminho interessante a ser percorrido pelos filósofos e teólogos que gastaram a vida para nos dar explicações sobre a nossa presença no mundo. De onde viemos? O que fazemos por aqui? E para onde vamos? Por outro lado, enche-nos de esperança olharmos a fé das outras pessoas. A fé nascida na simplicidade e na experiência com a Bondade Infinita que nos ouve as dores e nos surpreende com milagres cotidianos. A experiência do homem com a natureza, a observação da vida nas suas mais variadas formas, o belo se manifestando em amanheceres e entardeceres frios ou quentes. E o agir humano. A manifesta caridade em mulheres e homens que, alimentados de fé, alimentam os seus irmãos.

É fato que há pessoas que não frequentam nenhuma religião e que praticam a caridade. Mas é fato, também, que a inspiração do que vem de Deus independe das religiões. As religiões deveriam nos religar ao Sagrado. Deveriam nos ajudar na ressignificação do que somos. A nossa relação com Deus repercute na nossa relação com os irmãos nossos.

Quão linda a prática e a oração de Madre Tereza de Calcutá. A mulher que nos ensinou que “quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las”. Ou Francisco de Assis que assim orou: “Apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras”.

Os livros nos abrem horizontes, a ciência nos garante mais segurança, autonomia. Retira-nos véus de ignorância sobre os mais variados temas. E é bom saber que os estudos nos trazem novidades constantes. E, ratificando ou retificando verdades, a ciência vai evoluindo. 

Mas, voltando a Einstein, o nosso conhecimento é pequeno demais para compreender a grandeza do universo e de tudo o que existe além do que conhecemos. É preciso humildade para ser cientista e para se ter fé.

Acreditar em Deus não é desacreditar no homem, é – ao contrário – valorizá-lo como a inteligência criada pelo Artista para dar continuidade à obra, livremente, respeitando apenas os limites do amor, como nos ensina Agostinho de Hipona.

Ciência e religião podem, sim, conviver, caminhar em harmonia. Uma ou outra despertam, invariavelmente, em nós, a esperança. O prazer da descoberta. A importância da busca. Einstein, cientista e homem comum, fez das pesquisas e das descobertas a sua fé: “Quando abro a porta de uma nova descoberta já encontro Deus lá dentro.”

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/06/2015

Inveja

Tenho um programa de televisão, todas as quintas-feiras, na Rede Vida. Chama-se “Caminhos” e vai ao ar às 23h. O tema desta semana foi “inveja”. Parte do programa é feito com os comentários, acerca do tema escolhido, de meus seguidores no Facebook. As participações são sempre muitas. Mas fiquei impressionado ao ler, em minha fan page, a quantidade de depoimentos sobre este horrendo vício que é a inveja. Pessoas que tiveram suas vidas destruídas. Perderam emprego. Adoeceram. Viram a família sendo arruinada por atitudes inexplicáveis de quem se dizia próximo, amigo.

Gostei de uma mulher, em especial, que deu uma explicação interessante sobre a diferença entre a inveja e a cobiça. A inveja, disse ela, é ainda pior do que a cobiça. A cobiça é desejar algo do outro para mim. A inveja é desejar destruir algo do outro. Ou destruir o outro. Na cobiça, eu quero o lugar dele, o que já não é correto. Na inveja, eu quero acabar com ele, mesmo que eu não possa ter o seu lugar. O que me incomoda é vê-lo feliz. Costumo dizer que o amigo verdadeiro não é apenas aquele que o ajuda nos momentos em que você mais precisa. Talvez isso seja fácil. O amigo verdadeiro é aquele que vibra com suas vitórias, porque não as inveja. A inveja é um caso sério de desamor, por si mesmo e pelos outros. O invejoso é, sem dúvida, atormentado. É mal resolvido. É ausente dos melhores sentimentos. Quem é generoso, paciente, bondoso, definitivamente, não é invejoso.

Diz São Paulo sobre o amor a que ele chama de caridade:  “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade”. Evidentemente a inveja dos outros nos incomoda, mas vale a pena refletir, se, vez ou outra, esse mal sentimento não nos toma de surpresa. Errar é parte da caminhada. Corrigir e prosseguir, também.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/06/2015

 

O menino da porteira

Histórias da nossa infância ajudam a compor o que somos. Revisitar o passado é abrir as portas de emoções que permaneceram e tentar compreendê-las. Tentar, porque as emoções são tinhosas, arredias até. Controlar as emoções é tarefa quase impossível. Talvez consigamos conviver com elas e decidir o que fazer depois que elas vêm. Mas impedi-las de vir, não sei se temos esse poder. O medo, a tristeza, a euforia, a paixão, a raiva, a alegria, esses e outros convivas do nosso sentir vêm. O depois depende da nossa razão, das nossas escolhas, da nossa maturidade. Sentir raiva independe de mim. Não permitir que a raiva faça com que eu destrua o outro depende de mim. Sentir medo não depende de mim. Permitir que o medo me paralise depende. A paixão surge como surge a capacidade de refletir sobre o outro, sobre o amanhã com o outro que agora me toma. Somos assim, frágeis e, ao mesmo tempo, detentores de algum poder que nos leva a não nos deixar dominar por uma parte do que somos. Se não podemos negar nossas emoções, talvez o melhor a fazer seja conviver com elas. Aproveitarmo-nos delas para construir relações saudáveis e abandonar as doentias.

Eu era menino ainda quando fui assistir ao filme “O menino da porteira”. Morávamos em Cachoeira Paulista, interior de São Paulo, e lá não havia cinema. Tínhamos uma casa em Caraguatatuba. Íamos nas férias. Era uma casa simples que tinha apenas um quarto grande, uma cozinha, uma varanda e dois banheiros. Dormíamos todos juntos. Meus pais, eu, meus três irmãos e a Rosa, uma mulher que ajudou a nos criar. Algumas vezes, iam também meus avós e tia Leila. Não sei como cabia todo mundo. Sei que era uma festa, desde os preparos para pegar a estrada até a chegada à praia. Minha mãe passava a noite cozinhando. Levávamos comida na praia. Eu nem dormia na véspera da viagem. Empolgação de criança. A casa ficava na rua do cinema. E foi a primeira vez que fui assistir a um filme.

Assisti a “O menino da porteira”, um dos maiores sucessos da bilheteria da época. Um filme baseado em uma canção. Uma linda canção de Tedy Vieira:
 
Toda vez que eu viajava pela estrada de ouro fino


De longe eu avistava a figura de um menino


Que corria abrir a porteira depois vinha me pedindo


“toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo


Quando a boiada passava e a poeira ia baixando


Eu jogava uma moeda e ele saía pulando

”

obrigado boiadeiro que Deus vá lhe acompanhando”


Pra aquele sertão afora meu berrante ia tocando (….)

Olhos fitos na tela, vivi profundas emoções. A beleza da tela grande. Do som. Das personagens. Da canção. Da história daquele boiadeiro. Tudo aquilo foi tomando conta de mim. Até o final do filme. Voltei para casa triste. Chorei. Fiquei deitado pensando nas despedidas. Não me lembro muito bem dos detalhes do que pensei, lembro que fiquei triste. E resolvi ir novamente ao cinema no dia seguinte e no outro e também no outro. Fui ver seguidas vezes o mesmo filme. E voltava chorando. Era um menino, já disse.

Quando minha mãe quis entender por que eu ia todos os dias, já que todos os dias eu voltava chorando, respondi algo de que me lembro bem: “Será que sempre o menino morre no final”? Minha mãe ainda se lembra dessa história. E de tentar me explicar que era apenas um filme. E que os filmes tinham sempre o mesmo final, independentemente da nossa vontade. A canção que inspirou o filme determinou este desfecho:

Pros caminhos desta vida muito espinho eu encontrei


Mas nenhum calor mais fundo do que isto que eu passei


Na minha viagem de volta, qualquer coisa eu cismei


Vendo a porteira fechada o menino não avistei



Apeei do meu cavalo num ranchinho à beira chão


Vi uma mulher chorando quis saber qual é a razão
”boiadeiro veio tarde, veja a cruz no estradão


Quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração”

Revisitando esses tempos de inocência, penso em quanto é importante para as crianças os cenários imaginativos das várias linguagens da arte. O cinema, a contação de histórias, as conversas, o território sagrado do brincar e do conviver. Os espinhos todos, nós encontramos e encontraremos na vida. Eles nos causam emoções doídas. Mas se tivermos a oportunidade de uma educação que nos ajude a compreender nossa trajetória e nos ajude a sermos dela protagonistas essas dores nos farão mais bem do que mal. Conhecermos o sofrimento nos ajuda a compreender o sofrimento dos outros e a termos compaixão. Vez ou outra, lembro as dores que já me incomodaram. Irmãos meus que morreram. Meu pai. Amigos que se foram. Dores da injustiça – como doem as injustiças! E me lembro desse filme e daquele menino que eu gostaria que tivesse sobrevivido àquela boiada. A homenagem do boiadeiro ao amigo que partiu, prematuramente, foi o respeito em não mais tocar o berrante naquelas bandas:

Lá pras banda de ouro fino levando gado selvagem


Quando passo na porteira até vejo a sua imagem


O seu rangido tão triste mais parece uma mensagem


Daquele rosto trigueiro desejando-me “boa viagem!”



A cruzinha no estradão do pensamento não sai


Eu já fiz um juramento que não esqueço jamais


Nem que o meu gado estoure que eu precise ir atrás


Neste pedaço de chão berrante eu não toco mais.

A homenagem que tento fazer aos sofrimentos que vivi é tentar compreender os sofrimentos do outro e ajudar o outro a prosseguir. Em outras palavras, é combater, a todo custo, a indiferença. Sou profundamente grato à família que tive e tenho. Aos amigos que fui acumulando. Aos que me estenderam a mão e compreenderam minhas imperfeições. E assim tento agir com os outros que encontro por aí e que de mim precisam. Que as nossas emoções infantis, as ingênuas, as puras, as dolorosas e as alegres nos ajudem a ressignificar nossa vida. O hoje se alimenta do ontem e nos ajuda a escrever o amanhã.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/06/2015

O hábito de ser cidadão

Uma senhora de 89 anos está no metrô. Em pé. Segura-se com dificuldade. Há espaço reservado para idosos. A lei garante e a placa sinaliza. Dois jovens estão sentados nesses espaços e fingem estar dormindo. Assim, a consciência pesa menos. Um homem abre o vidro de seu carro, em uma grande avenida, e joga na rua algum lixo que o incomoda. Fecha o vidro e prossegue.  E o pior. Há uma criança no carro. Sentada no banco da frente. Tudo errado. Um casal chega a um restaurante onde há uma fila de espera. O homem saca, discretamente, uma nota de vinte reais do bolso e entrega ao maitre para que providencie rapidamente uma mesa. Não gostam de esperar. Nem de respeitar os outros. Uma mãe para o carro em fila dupla esperando o filho sair da escola. Fala ao celular enquanto disfarça o estrago que faz no trânsito. Ignora as buzinas e o olhar atravessado dos outros motoristas. Um motorista fecha o cruzamento atrapalhando uma fila de carros. Buzinam de raiva. Ele finge que não é com ele. Tem pressa. E é folgado.

Quantos outros fatos do cotidiano poderíamos citar que demonstram o quanto estamos longe de exercer o hábito de ser cidadão? Cidadania não é um conceito distante. É prático. Trata de direitos e deveres. Trata do sagrado direito de ser respeitado e de respeitar. Com alguma frequência, lascamos frases como “Este país não tem jeito”, “Eita povo mal educado”, “O que falta é ética, é vergonha na cara”. Frases que dizem alguma coisa quando são coerentes com quem as diz.

Há um ditado antigo que reza: “As palavras comovem, mas os exemplos arrastam”. A construção da cidadania depende do exemplo cotidiano. De todos. Ou isso ou seremos uma sociedade hipócrita que exige do outro o que não é capaz de fazer. E mais ainda, será difícil formar uma geração cidadã com exemplos tão erráticos. Não se colhe laranjas de um abacateiro.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/06/2015