Ana é do interior do Ceará. Ouvi sua história na viagem que fiz com Laércio que me levou de Fortaleza até Itapipoca. Belo povo o de Itapipoca. Bebi a água da esperança naquele chão encantado. Milhares de professores professando a crença nas consequências do que fazem. Educar com olhos de ver. Nenhum aluno pode passar despercebido. Nenhum aluno pode ser deixado de lado. A cada um deve ser dado o poder de ser o condutor da própria história.
Histórias são composições do cotidiano. Entoamos cantos diversos nos cantos que frequentamos. Ana frequentou uma escola como tantas outras crianças, mesmo naquele tempo em que a maior parte estava fora.
Era uma menina que não conseguia ser alfabetizada. Não por falta de esforço. Ia sempre. Sem falta. Mesmo em dias de humilhação. E esses dias não eram poucos.
Um dia, alguns meninos que se achavam no direito de brincar fazendo do outro um brinquedo empurraram Ana de um barranco. Ela rolou por alguns metros e parou em um pé de espinhos. E se feriu. No corpo e nos afetos. Ferida, teve tempo de algum choro e de se levantar para ir à escola. Não perderia aula. Mesmo sangrando. A professora era nova. Olhou-a com preocupação. Como deve ocorrer com todos os alunos, sangrando ou não. Olhou-a e quis entender. Balbuciou Ana alguma coisa para justificar o injustificável. Ela não conseguia ler, e isso dava a eles o direito da chacota. A professora acolheu sua dor e olhou-a com respeito.
E percebeu que Ana não havia sido alfabetizada por uma razão simples, ela não enxergava. Providenciou uma consulta. Ana tinha 13 graus de miopia. E nem ela e nem os seus familiares sabiam disso. Desde menina, ela via desse jeito. Desde menina, ela não via.
Os óculos abriram o futuro para aquela menina. Guimarães Rosa deve ter ouvido histórias semelhantes para criar Miguilim. O menino que tem sua vida mudada quando chega o doutor e lhe coloca óculos. Metáfora do que precisa ser visto, das cicatrizes que vêm depois que o sangue deixa de jorrar. Da vida dura do sertão ou até do mar. Onde há gente, há gente que olha e gente que finge não ver, e há gente que tenta destruir.
Conta Rosa que “Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou mais longe, o gado pastando perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis na primeira vereda. O Mutum era bonito! Agora ele sabia”.
Assim foi com Ana. Ana viu as letras, viu os números, os olhos de seus irmãos. Seus irmãos. Fez-se irmã. Pelos olhos atentos e acolhedores de sua professora.
Ana estudou muito. Virou professora, também. Depois, diretora. É freira. Irmã Ana faz da sua vida um serviço aos seus irmãos. Repete, na sua vida, o que aquela professora lhe fez. Olhou os seus olhos e viu que eles precisavam ver. E um mundo novo se abriu. Gosto dessas histórias e gosto de reproduzi-las. São inspiradoras. Nos livros e na vida. Vida longa é essa. Ou não. Mas o mesmo Guimarães nos ensinava que o que importa não é a chegada ou a partida, é a travessia.
Atravessemos como Irmã Ana. Se cairmos em espinhos empurrados por desavisados, levantemos. Há de haver uma professora em nossa vida que nos olhe nos olhos e que nos ajude a ver. A ver o que estava embaçado. A ver a travessia que se ressignifica quando somos cuidados ou quando cuidamos de alguém. Belos olhos os da professora. Belos olhos os de Irmã Ana.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/11/2015

Lygia Fagundes Telles foi homenageada, na última quinta-feira, na Academia Paulista de Letras, dentro da programação do EMIL – Encontro Mundial da Invenção Literária. Mais de 120 autores dos quatro cantos da Terra e de todos os cantos de nosso país participam desse evento que termina hoje. Conferências, diálogos, debates, saraus, contação de histórias trazendo o universo do livro e dos autores. A obra e os criadores. Sentimentos que nascem das tramas da vida e percorrem as páginas dos livros. E o caminho inverso, também.
Crianças não deveriam ser tristes. Não deveriam experimentar a dor antes de criarem anticorpos na alma para isso. Com o tempo, vamos criando esses anticorpos. Combatemos os vírus da frustração, da desilusão, da traição e tantos outros com o tempo e com as experiências acumuladas de uma vida dual. Dual: bem e mal, bondade e perversidade, verdade e mentira, humanidade e sua ausência.
Já sofri a dor da perda. Já enterrei amores. Já chorei as ausências. E não foram poucas. Partes nossas se vão. Difícil recompô-las. Elas se vão sofridas acompanhar os que gostaríamos que, por aqui, permanecessem. Encontrar palavras para o consolo não é fácil. Talvez não seja possível. Racionalizar o que acontece com os nossos mortos é quase ingenuidade. Como saber? As religiões não dão detalhes. Nem poderiam. Ou se tem fé ou não se tem. E, mesmo tendo, não tem a fé o poder da cicatrização imediata. Não estanca a saudade que barulhenta nos lembra, o tempo todo, do que perdemos. É uma perda, sim. Não há como negar. Perdemos a presença, o colo, o abraço, as histórias. Perdemos e é assim que é. Guardamos, entretanto, o que vivemos. O passado não nos pode ser roubado. Mas, no momento da separação, o passado parece até atrapalhar. Cada foto, cada filme, cada viagem no caldeirão da memória nos queima. E voltamos ao choro. E voltamos à consciência de que os momentos de amor precisam encontrar outra canção. Quando a morte vem, com ou sem despedidas, a dor que permanece é aguda. Voltar para a casa, depois de um enterro, é quase que um corte no que somos e no que gostaríamos de continuar a ser.
Cássia é uma contadora de histórias. Professora dedicada, encontrou nas histórias um caminho para despertar sentimentos e atitudes. Muitas histórias começam com “Era uma vez”. Há, na esfera dos afetos, espaços para acolher essas histórias. Lembranças de embalos infantis ou adultos. De marcas que foram ficando. De pessoas, talvez, que nos surpreenderam com seus ditos fabulares ou reais. “Era uma vez” poderia, vez ou outra, não ser. Como é o caso da história contada por Cássia dia desses. Éramos um grupo de educadores sentados, atentos ao seu enredo. E ela começou. Poeticamente, entoou seu canto de misericórdia, lembrando a dor de um índio Pataxó que foi morto em Brasília.