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Aos que aqui ficaram

O desamor matou mais uma vez. O ódio pareceu vitorioso no triste fim de vidas que buscavam alguma alegria. Era uma boate.

Poderia ser um clube. Uma escola. Um cinema. Um prédio de trabalho. Uma praça. Uma rua em que atletas corriam. Esses lugares também foram manchados por radicalismos criminosos.

Como virar a página? Como chorar a dor das famílias buscando algumas ações que garantam que outras famílias não enterrem seus mortos, vítimas desses horrores?

A palavra do Papa Francisco é sábia. Mais uma vez. A de Barack Obama, também. Já a de Donald Trump, lamentável. O discurso do ódio nunca conseguirá combater o ódio. Violência não se combate com violência.

As superficialidades só interessam aos demagogos. Precisamos de um aprofundamento nas causas que geram esses monstruosos crimes. Educamos para o respeito ou para o escárnio? Buscamos uma convivência harmoniosa ou uma disputa desenfreada por saber quem é o melhor? Damos o exemplo da tolerância ou nos julgamos acima dos que imaginamos diferentes de nós? E falo da tolerância no seu sentido mais pleno. A tolerância que significa respeito à riqueza do outro, daquele cuja diferença me ensina, me complementa, me faz melhor. Não é a tolerância em estado dicionário que denota suportar, aturar aquele que pensa, vive e ama diferente de mim. Esse é o significado da tolerância que alimenta o falso sentimento de superioridade em relação ao outro. Não há pessoas de primeira ou segunda categoria. É preciso educar para que se entenda que a diferença é a base da essência humana. Não há duas pessoas iguais no mundo. E a riqueza do homem reside nisso.

É preciso, portanto, cuidar da semeadura. Qual é a semente que se planta em casa e na escola? Pais que se agridem plantam qual semente? Pais que agem e falam com preconceito sobre o que veem nas mídias ou nas ruas plantam qual semente? Professores que desconhecem o significado da cooperação em uma sociedade baseada na competição plantam qual semente? Jornalistas ávidos por informações pouco cuidadosas, desconectadas da verdade, capazes de destruir vidas alheias, plantam qual semente? Programas de rádio e televisão cujo ódio pulula na boca de apresentadores que não têm nenhum compromisso com a verdade e com a ética plantam qual semente? Líderes religiosos que propagam o ódio a quem eles consideram pecadores plantam qual semente?

Quem mais nos influencia? Redes sociais? Clubes? Shoppings? Parques? Como se comportam as pessoas nesses espaços? Que semente estão plantando?

Há uma comoção mundial em tragédias como a de Orlando. E é preciso que haja. A dor do outro deveria doer na gente.

Mas, aos que aqui ficaram, é preciso ação. No combate ao terrorismo e a toda forma de violência. Ações de governos e de organismos internacionais.

Mas é preciso ir além. É preciso pensar na floresta que queremos amanhã. Ela começa nas sementes que plantamos hoje.

Preocupa-me o ódio cotidiano. Os ditos incorretos revestidos, às vezes, de algum humor. O descontrole diante do que pensa diferente de mim. Os ataques de moralidade frente ao outro que julgo ser imoral. Preocupe-me a ausência do amor na convivência.

Eu não mato uma namorada por ela ter decidido que não é comigo que ela quer viver. Eu não agrido quem vota em um partido diferente do que eu voto. Eu não espanco o que torce para um time rival ao meu. Não. Essas falsas valentias só nos mostram a covarde face de quem semeia o mal.

“Quero cumprir o meu papel, semeando a correta semente “, esse seria um bom começo para os que querem um mundo melhor. Amanhã. E hoje.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/06/2016

Fala com Santo Antônio

Dia 13 de junho foi dia de Santo Antônio. Eu estava no Rio de Janeiro e fui assistir à missa no Centro da Cidade, Igreja de Santo Antônio dos Pobres. Havia muita gente. Pessoas estavam ali para rezar, para fazer seus pedidos, para buscar a paciência que acalma as ansiedades.

Ao meu lado, estava uma senhora. Bem senhora. Tinha uma certa dificuldade para andar. Chegou calmamente. Pediu licença. Agradeceu a gentileza. Fechou os olhos, suspirou fundo e começou a conversar com Deus, penso eu. Logo, chegou uma outra mulher e sentou-se no mesmo banco em que estávamos. Era um pouco estabanada. Bateu a bolsa na senhora. Não pediu desculpas. Sentou e começou a chorar. A bolsa caiu de um lado. O folheto do outro. A senhora mansa e serena, que já vivera muito, tentou ajudar. Olhou para ela e disse: “Fala com Santo Antônio”. A outra olhou para ela e começou a dizer que a vida não estava fácil. Que a família estava com tantos, mas tantos problemas. Que um dos filhos havia feito isso, o outro aquilo. Que o marido não ajudava. A velhinha insistiu: “Fala com Santo Antônio”. “Eu já falei. Já pedi por minha família”, respondeu. A velhinha olhou para ela e disse: “Filha, peça por você; se você tiver paciência, se você tiver paz, fica mais fácil resolver o problema dos outros”. E, para finalizar, a velhinha olhou para a mulher e com um sorriso lindo, enfeitado pelas tantas rugas com que o tempo a presenteou, disse: “Me dá um abraço”. Elas se abraçaram e a missa começou.

Assistindo a tudo, concentrei-me na missa e rezei pelas duas. E agradeci por aprender com quem o tempo muito ensinou. Confesso que quando a mulher mais jovem chegou, derrubando tudo, batendo em todo mundo, eu pensei: “Que falta de educação!” A sábia senhora foi melhor do que eu. Compreendeu. Apenas, compreendeu. Disse coisas tão simples. E a acolheu. Pessoas vão às igrejas para serem acolhidas.

Namorar, verbo bom de conjugar

Namorar é conhecer, é cortejar, galantear.

Namorar é celebrar a presença mesmo quando a presença está ausente. É lembrar que se tem alguém para amar. É elevar.

No início de um namoro, há o desejo e o medo. O desejo de que seja real o que parece onírico. O desejo de que seja eterno o pulsar mais valente do coração. O desejo de que seja correspondido. E aí vem o medo. O medo de que seja ilusão, apenas. O medo de que os defeitos do outro sejam impossíveis de serem tolerados. O medo de que os meus defeitos afastem a pessoa amada. Desejo e medo causam bagunça. Mas os inícios de namoro sempre trazem alguma bagunça. Bagunça o pensamento, o cotidiano, as escolhas. Uma bagunça boa, talvez. Lembrar as frases ditas. Lembrar os olhares. Lembrar os primeiros afagos. Mesmo a quem não assume, o romantismo faz um bem enorme. Há quem comece um regime, há quem se matricule em uma academia de ginástica, há quem compre roupas novas, cuide melhor do cabelo, da pele. Afinal, há alguém com quem dividir os dias.

O tempo pode ser aliado ou não do namoro. A rotina pode ser deliciosa ou corrosiva. As palavras de delicadeza pronunciadas nos inícios não podem se esconder nos dicionários. Mesmo que o namoro não esteja no início, sempre haverá um início. O início de um ano, o início das férias, o início da primavera, o início de um dia. Há sentimentos que combinam com esses inícios. E, também, com as partidas. No início, quando um dos dois viaja ou quando apenas vai para casa, há despedidas carinhosas. Há um secreto desejo de que o tempo em que estarão separados passe rapidamente, e o tempo em que estão juntos não passe.

Passados alguns anos, depois de muitas despedidas, depois de alguma segurança de que as despedidas são provisórias, as despedidas perdem o seu encantamento. Ou não. Há namoros que perfumam o cotidiano com os mais tenros dizeres. Independentemente se tudo começou ontem ou há 50 anos. Namoros em que um boa-noite é sempre colocado com a intenção de que quem eu amo tenha a melhor noite do mundo. E que um bom-dia seja a frase ideal para esclarecer que o meu dia é bom porque o outro existe dentro dele.

Há quem esteja sem namorar há algum tempo. E há aquele que desacredita no amor. Talvez por incursões fracassadas em namoros insinceros. Talvez por abandonos ou por paixões que não foram correspondidas. Dor de amor é dor doída demais. Mas passa. Um dia, o dia diz que é hora de viver novamente sem a onipresença do amor que não me amou no meu pensamento. E outras possibilidades surgirão. Certamente, surgirão. Há ainda as teimosias do amor. Há gente que vê amor onde não há. Pessoas que projetam um amor em quem já tem o seu amor ou não demonstra nenhum desejo de reciprocidade. Namorar alguém e ser correspondido é elevação. Namorar alguém e não ser correspondido é desperdício. Não sei se há um amor à primeira vista ou se há desejo que vai se transformando em amor com o namoro, com o conhecimento. Não sei se há um amor maior, um namoro que foi muito melhor do que os outros ou se as comparações já são, em si, ruins. Não sei o que faz com que o cupido fleche alguém e determine que esse alguém terá algum senhorio sobre mim. Só sei que viver sem amor é viver sem o tempero mais saboroso que já se inventou. Amor est vitae essentia

Uma visita indesejada

Ruth tem marido e quatro filhos. Todos trabalham. Exceto os dois menores que vão à escola. À noite, todos se encontram em casa. Jantam juntos. Conversam sobre o dia. Entrementes os problemas de toda família, são o que se pode chamar de pessoas felizes. Em alguns finais de semana, viajam. Quando os filhos eram pequenos, viajavam com mais frequência. Agora, precisam entrar em acordo. Há algumas festas em São Paulo e os mais velhos gostam de frequentá-las. A casa de praia guarda muitas histórias, histórias boas do passado.

Ruth tem uma conhecida que, ao menos uma vez por semana, aparece para visitá-los. Quando ela chega, os que estão em casa se acomodam na cadeira e respiram fundo. A visita é sempre portadora de notícia ruim. Dela mesma ou dos outros: o marido é uma peste. A filha arruma um namorado pior que o outro. A vizinha, que enviuvou faz pouco tempo, tem levado gente estranha para casa. A rua está suja. A política vai de mal a pior. As novelas não prestam. Médico é tudo a mesma coisa. O tempo está maluco, o tal do efeito estufa está acabando com nossa paz etc. Enquanto fala, um filho levanta, depois o outro, depois o marido e, na sala, ficam apenas ela e Ruth. Não há economia nas reclamações. Ruth tenta animá-la contando alguma coisa boa. Ela, imediatamente, consegue ver algo ruim na notícia boa. “A filha do Alceu está namorando”, diz Ruth. “Muito difícil durar esse namoro, muito difícil”, conclui ela. “Nós vamos à praia no próximo final de semana”. “A dengue está correndo solta por lá e a previsão é de chuva, muita chuva”. Ruth, vez ou outra, pergunta a si mesma por que aceita aquela visita. Por que não se recusa a recebê-la? Quando ela se vai, há um cansaço que demora algum tempo para ir. A família se recompõe. E tudo volta ao normal.

Ruth agradece pela família que tem e dá uma desculpa para si mesma. “É melhor que ela venha, que eu preste bastante atenção no quanto ela é chata para nunca ficar assim”.

Dor de alma

“Não dói o útero, dói a alma” – foi o que disse a jovem vítima de um estupro coletivo no Rio de Janeiro.

Já se falou muito sobre a ação covarde e criminosa. Já se noticiou que o fato não foi isolado. As estatísticas são desanimadoras. A violência contra a mulher ocorre a cada alguns poucos minutos. Estupros, espancamentos, humilhações.

Quero ir um pouco além das estatísticas e tentar jogar alguma luz nas causas que geram a violência. Quem é esse homem ou quem são esses homens que se acham no direito de usar o corpo de uma mulher como se fosse um objeto indigno de dizer “não”?

Se ele tem desejo, ela tem de satisfazê-lo? Quem são esses homens ou até essas mulheres que colocam a culpa no comportamento das mulheres que são violentadas? Discursos como “se ela não saísse de casa, isso não aconteceria” ou “se a roupa dela fosse toda fechada, ela estaria protegida” ou “o homem não se segura mesmo, quando a mulher desperta o desejo dele, ele fica descontrolado”. Frases que impressionam pelo preconceito e pela ignorância, pelo machismo e pela ausência da compreensão da convivência humana.

Homens são animais racionais. Animais que têm a possibilidade de escolher. Animais que projetam as consequências das próprias escolhas. Diferentemente de um pássaro que faz sempre o mesmo ninho, o homem projeta casas diferentes. Com estilos diferentes. Diferentemente dos animais que não se seguram quando uma fêmea está no cio, homens compreendem que o desejo deve obedecer ao pensamento e que o pensamento conhece o que vem depois.

A legislação é exaustiva na proteção às vitimas desses crimes. Os homens sabem disso. Mas há razões maiores que devem ser respeitadas. As razões humanas ou morais.

Onde nasce a violência? Há teses e teses sobre o tema com conclusões diversas. Ouso propor uma modesta reflexão. O hábito nos leva aos costumes de fazer o que é correto ou o que é errado. O hábito da honestidade deve ser celebrado. O hábito da insensibilidade deve ser combatido.

Crianças que usam de crueldade contra os animais, e aprendem isso desde cedo, terão mais facilidade para conviver com a dor alheia. Porque não desenvolvem um elemento essencial nas relações humanas: compaixão. Há aqueles que não sentem compaixão por um pintinho que é esmagado nas mãos de uma criança tida como levada, ou por um fogo colocado no rabo de um gato para que saia em disparada, ou por um passarinho morto por disputas de estilingue. Tudo isso é um sinal de um conduzir errático na matéria da sensibilidade. Dos bichos às pessoas. Viram valentões nas escolas ou nas ruas, muitas vezes para impressionar os pais que aplaudem os filhos que batem porque querem vencedores em casa. Além disso, há os exemplos de violência familiar. De demonstração da superioridade masculina sobre a feminina. E o grupo vai crescendo e querendo mostrar valentia. Tosca covardia de derrotados, pois tiveram uma educação errada, recheada de exemplos errados.

É preciso punir severamente os que estupram, os que violentam, os que matam, os que corrompem. Mas é preciso pensar um pouco além. Ir à fonte que gera tamanha insensibilidade. Dói na alma da adolescente vítima do estupro, dói na alma da sociedade que ainda não conseguiu educar para a sensibilidade, a gentileza, o respeito, a compaixão.

Que essa triste cena nos empreste cores para pintar outros cenários. É possível. E é preciso começar desde cedo. Desde sempre.

O calor no frio

O frio já chegou. Há campanhas do agasalho espalhadas por aí. Há pessoas que se mobilizam para ajudar as outras pessoas a passarem pelo frio com um pouco de calor. De calor humano. De calor gerado pelo humano jeito de ser generoso. É bom ver os jovens arrecadando cobertores e roupas . E distribuindo. E visitando entidades. E compreendendo que quem dá é ainda mais feliz do que quem recebe.

Há pessoas, por outro lado, com a casa cheia, repleta de roupas que, embora em bom estado, não são usadas há anos. E provavelmente nunca mais serão usadas. Uma roupa que não se usou nos últimos três, quatro, cinco anos ficará no guarda-roupas apenas ocupando espaço. Mas algumas pessoas não conseguem realizar o gesto simples de doar algo a alguém. Apegam-se de tal ordem às coisas que sofrem para delas se desfazer.

Há viajantes que viajam com a mala pesada. Que tropeçam aqui e ali por não suportarem ter que levar tanta coisa. Por que levam, então? Por que não simplificam a viagem? Desperdiçam momentos preciosos por se dedicarem à mala. Coisas são menos importantes do que pessoas. Ou compreendemos isso ou viveremos uma incorrigível miopia na alma. Aristóteles falava que a avareza era o pior dos defeitos humanos. Trancafiar-se em si mesmo é negar-se ao outro. O que somos e o que poderíamos partilhar.

Uma blusa que nos aqueceu pode continuar exercendo o seu papel. Ou até mesmo podemos comprar algo para doar. E compreender quanto é bom aquecer alguém. Se possível, levar os filhos para comprarem juntos e depois doarem. Exemplos moldam o caráter e mostram o caminho do agir correto. O frio pode ser um bom aprendizado. Aqueça.

4 faces do amor

Esse é o título de um musical que está em cartaz, em São Paulo, no Teatro Nair Belo. O autor é um jovem dramaturgo, talentoso escritor, Eduardo Bakr. A trama se passa em histórias cruzadas de dois homens e duas mulheres. Os nomes já surpreendem e apresentam uma semântica própria para estabelecer que, o que ocorre, ocorre entre as mais diversas relações de amor. Os atores, Amanda Acosta, André Dias, Jarbas Homem de Mello e Sabrina Korgut estão impecáveis. A direção de Tadeu Aguiar é muito cuidadosa para um texto e uma encenação tão cheios de pequenos “não-ditos”. A música de Ivan Lins se encaixa muito bem com a trama. Enfim, está feita a sugestão: o espetáculo é imperdível.

Quero, agora, me aprofundar no texto de Eduardo Bakr. Já li outros textos dele. Já li alguns de seus livros infantis. Eduardo é um talento. A temática do amor é necessária; porém, sempre perigosa. Amar, aliás, exige coragem. Falar de amor, também.

O amor tem uma face? Qual seria a face do amor?

No alto do prédio, alguém pensa em desistir da vida. Ou não. No alto do prédio, alguém lá está por alguma intuição de conhecer um amor. Desistir da vida pela ausência de amor? Não, a personagem não queria cair, queria flutuar. Mas esses descuidos podem ser fatais. Não quando surge um amor. Será?

Passado o susto do primeiro encontro, a surpresa das diferenças, nasce a rotina. Os dizeres que ora aquecem, ora esfriam, uma história de amor. A ausência de cuidado é sempre um perigo. Mas o amor tem 4 faces?

Os gregos usavam o número 4 para falar de completude. Os primeiros filósofos das províncias jonicas da Grécia ousaram sua explicação para o princípio de tudo a partir de 4 elementos: terra, água, ar e fogo. Aristóteles falava em uma vida correta, tetragonalmente correta, isto é, correta em todos os lados, perfeita, portanto.

O amor é perfeito? Refaço a pergunta. O amor real é perfeito? Ou apenas o ideal? Ou a perfeição estaria apenas no Amor Maior? Os amantes, certamente, não são perfeitos. E isso fica claro no texto de Eduardo Bakr e na vida. São as imperfeições que nos arregimentam para vivermos juntos. E por que, então, temos medo de falar em complementariedade? O final da peça é feliz. Justificadamente feliz. Como as lindas histórias de príncipes e princesas que nos acalmavam nos nossos inícios. Éramos pequenos quando ouvíamos essas histórias, sofríamos nas tramas que uniam o início explicativo ao final apoteótico. Sempre há algo de incômodo a invadir os nossos cômodos. Éramos pequenos. Em matéria de amor, seremos sempre pequenos. E, paradoxalmente, grandes. Magias do amor. Elevamo-nos como a personagem que queria flutuar. Elevamo-nos ao pensarmos no outro. E nos apequenamos com pequenezas que não deveriam existir.

Nas 4 faces do amor, há um momento em que parece que as despedidas são necessárias. Até são. Há muitas partidas nas nossas travessias. Mas o autor é generoso e o espectador sai com vontade de amar. Com esperança de, enfim, ver o sonho do amor alcançado.

Amanda Acosta, André Dias,Jarbas Homem de Mello e Sabrina Korgut em

4 FACES DO AMOR, o musical
De Eduardo Bakr
Músicas de Ivan Lins
Direção musical de Liliane Secco
Direção de Tadeu Aguiar
Sexta a domingo no Teatro Nair Bello

Sobre a hipocrisia e outras maldades

Tenho desprezo pela hipocrisia. Prefiro os que, olhos nos olhos, abrem as comportas dos sentimentos e revelam apoio ou reprovação aos que se vestem de afáveis e espalham maldades.

Piores ainda são aqueles que, nas doces palavras, tentam convencer o interlocutor de que só dizem o que dizem por amizade. Por preocupação.

Dia desses, um amigo revelou sua decepção com um outro amigo. Contou-me ele que esse falso amigo falou para uma, duas, três, quatro ou mais pessoas sobre um erro que ele achava que o amigo havia cometido. “Oras, por que não disse diretamente a mim?” -bradou, desconfiado do amigo.

Concordei com ele. Amigos falam aos amigos. Amigos não espalham o que nem sabem. Os hipócritas fazem isso. Jesus não tolerava os hipócritas. E há tantos hipócritas que usam o nome de Jesus. E ganham notoriedade, inclusive, por isso. Mas continuo convicto de que essas pessoas não são felizes. Nunca conheci um atirador de pedras feliz. São atormentados que fingem boas maneiras. Ou, nas palavras de Jesus, são sepulcros caiados, raça de víboras, hipócritas. Jesus não se irritou com os pecadores. Pelo contrário. Veio amenizar suas dores. Irritou-se com os religiosos que, embora tivessem o título, nada entendiam da verdade, da religião.

Há outras maldades que também perturbam a vida. Nas esferas das amizades, vale lembrar a ingratidão. O que se faz a um amigo se faz por convicção, não por esperar reconhecimento. Mas, certamente, na ciranda dos afetos, é preciso que se aprenda a agradecer. E a se lembrar do que foi feito. Gratidão é um sentimento que não prescreve.

Àqueles que já viveram essas decepções uma singela sugestão: prossigam acreditando nas amizades. Há hipócritas por toda a parte, mas há os generosos, os verdadeiros, os amantes das pessoas e dos instantes. Aqueles que não desperdiçam esses instantes para destruir pessoa nenhuma quanto mais um amigo.

Uma carta de Maria

Recebi uma carta. Letra elegante. A remetente chamava-se Maria. E, depois, vinha o sobrenome. Não posso dizer, pois não pedi sua autorização.

Maria é professora em uma cidade pequena do interior de Minas Gerais. Justificou o envio da carta, e não de um e-mail, porque gosta das esperas. Parei nesse ponto da leitura e fiquei lembrando quantas cartas eu escrevi e recebi. Como era bom, na minha pequena Cachoeira Paulista, ver o carteiro chegar. Lia uma, duas, três ou mais vezes a mesma carta. E não respondia com atropelos. Dormia com os ditos da carta. Refletia. E, no outro dia, tecia o enredo da resposta. Sem pressa.

Continuei lendo o relato de Maria. Partilhava comigo o prazer de lecionar. Leu alguns livros meus e queria testemunhar o que eles significaram no sagrado chão da escola. Contou-me do que é viver onde vive, lecionar onde leciona, morar onde mora. Falou das montanhas da sua Minas Gerais. Viajou pouco, mas por onde andou levou com ela o desejo de voltar. Nada é melhor do que estar onde se deve estar. Parei novamente e fiquei imaginando a sua volta para casa. Alguns dias de férias, algumas experiências em outros cantos e o canto da gratidão ao rever, na estrada, o nome da cidade em que nasceu. A sinalização dá conta de que falta pouco para beber da sagrada água. Água de bica. Pote de cerâmica que mantém o frescor da temperatura. Goles vagarosos para se sentir o prazer que um copo de água é capaz de proporcionar.

É professora há muito tempo. Já tem tempo para requerer a merecida aposentadoria. Mas prefere postergar. É bom estar com os alunos. Filhos de outros alunos. Talvez netos. O tempo e os seus caprichos. Fiquei curioso para ver sua imagem. Imaginei, então. Nem muito alta nem muito baixa. Cabelos elegantemente arrumados. Maquiagem leve. Roupas adequadas. Salto alto não tão alto. Alguma joia delicada, herança de família. E a casa? Com pomar, com horta, com fogão a lenha. Talvez não. Poucos resistiram.

Continuo a leitura. Diz ela que ficou feliz quando eu disse, em uma entrevista, que meu pai nasceu em Belo Horizonte; é mineiro, portanto. Fiquei tentando imaginar o seu sotaque. Gosto do sotaque de Minas. Há vários. Gosto da musicalidade, da cadência, das junções de palavras.

Maria não falou de marido ou filhos. Será que é solteira? Será que é viúva? Será que revelará esses outros detalhes em uma outra carta? Em um ou outro trecho brincou com dizeres de outros escritores. Falou da poesia do cotidiano e dos sonhos que ainda movem seus afazeres. Prefere a leitura aos programas de televisão. Prefere os clássicos aos jornais ou revistas. Ouve música e imagina. Da música, disse apenas isso. Imagina o quê? Que tipo de música? Há excelentes cantores mineiros. Falou sobre sua mãe que, também, era professora. E sobre alguns outros assuntos. Ao final, as despedidas.

Vou responder sua carta. A mão. Vou fazer algumas perguntas que a minha curiosidade exige. Gostei de Maria. A começar do nome. Depois da profissão. Depois da composição correta de seu arranjo. Quem sabe um dia eu a encontre? Ou não. Quem sabe? O que sei é que sua carta me trouxe uma certa nostalgia. Recuperei por algum tempo o valor das esperas. Não terei pressa em responder. Farei com vagar. Costurarei o manto com o qual gostaria de aquecê-la, nas terras onde meu pai nasceu.

Quantas cartas eu escrevi ao meu pai? Muitas. Tenho algumas comigo. Em cada viagem, eu aquecia a saudade escrevendo para ele. E para minha mãe. Isso não faz muito tempo.

O tempo, hoje, é outro.
Tempo bom o de lembrar.
Saudade do meu pai. Da minha mãe, ligo ou escrevo hoje ainda.
E Maria. Bom domingo, Maria.
Até breve.

Uma flor no impossível chão

​A professora conversava com os alunos sobre a canção, “Sonho impossível”.Relacionava-a com Dom Quixote, livro que haviam lido. Explicava a importância do romance e a riqueza das personagens. A literatura tem uma magia própria. Os dizeres dos sentimentos penetram na parte sublime do cérebro. A razão se fia no elevado. Viajam os alunos para outros tempos, outros espaços. Para os possíveis e os impossíveis. Era impossível o Cavaleiro Andante lutar com moinhos de ventos. Por que, então, Cervantes assim o descreve? Qual era o seu intento, o seu sonho? “Sonhar mais um sonho impossível. Lutar quando é fácil ceder”.Perguntava aos alunos e ouvia as mais diversas explicações. O que significa “Negar quando a regra é vender”?

A professora os instigava. E voltava a Dom Quixote. E falava em Dulcinéia, a amada. Só ele via sua beleza, só ele anunciava suas formas perfeitas. Ele a fazia sentir-se única, amada, desejada. O amor não é assim, afinal? O que é um homem se metamorfoseando em cavaleiro para dançar a dança dos românticos com sua dama? A perfeição está nos olhos de quem vê. O amor dá unicidade às pessoas e aos momentos. Faz o impossível ser possível por mais impossível que pareça ser.

​Falaram sobre o cotidiano. Um contou a história dos pais. Dos desencontros e das persistências. Um romance, uma canção e todos os sonhos do mundo em uma sala de aula. E uma mulher, uma professora, regendo a orquestra dos enlaces. Mostrando o mundo de possibilidades que mora em cada um deles.Um aluno, então, proclamou: “E o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão”. Ela quis saber o significado. Ele disse “Eu sou o impossível chão”. Ela ouviu atenta. Relatos de dor precisam de cumplicidade. ​Uma flor brotou naquela sala. A flor do conhecimento e do sabor. Jovens desabrochando para a vida. Quantas batalhas terão de enfrentar! “Quantas guerras terão de vencer por um pouco de paz”!

Aprendi com aquela professora. Agradeci por ser, também, professor. Irmãos de ofício.