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Francisco pai, Francisco filho

Foi no dia 4 de outubro, dia de São Francisco, que estes dois me surpreenderam.

Antes da missa, houve um acolhimento. Um aspirante (um jovem que se prepara para ser sacerdote franciscano) percorria a Igreja entregando pequenas flores. A Igreja cantava “Irmãos, minhas irmãs, vamos cantar nesta manhã, pois renasceu mais uma vez a criação nas mãos de Deus . Irmã, flor que mal se abriu, fala do amor que não tem fim, água irmã que nos refaz e sai do chão cantando assim…”. Abaixei-me para pegar a pequena flor que caiu do pequeno Francisco. Ele estava em uma cadeira de rodas. Sorria muito. Mexia-se como podia. Pouco. A doença roubara-lhe muitos movimentos. Mas a alegria que brotava dos seus olhos e o esforço para algo conseguir cantarolar deixava o pai orgulhoso. “É meu filho. Meu lindo filho”. “Estou vendo”. “Chama-se Francisco”. “É um lindo nome”. “Também me chamo Francisco. Meus santos pais souberam escolher”.

Apenas sorri. O pai tinha as mãos grossas de um trabalhador acostumado às rudezas. Um chapéu ficava sobre o banco. Um pano grande também estava ali. Depois, vi que ele servia para cobrir a cabeça do filho para percorrem as ruas até a casa. “Moramos aqui perto. Francisco gosta muito de missa”, justificou. O filho me olhava. Olhos lindos. Sons difíceis de serem ditos. Cabeça de um lado a outro, com esforço. Eu sorria apenas. A missa estava começando. Olhava para o altar e para os Franciscos. A flor caiu novamente. Eu abaixei para pegar. O pai, também. Ele me autorizou a fazer o gesto e eu coloquei novamente na cadeira do seu filho, próxima de suas mãos quase imóveis. Ele olhou para mim. Um olhar de gratidão. Olhamo-nos mais um pouco. Quis dizer al go. Ele, também. Decidimos que não era necessário. Era bom estarmos ali. Durante as músicas, dos seus olhos escorriam lágrimas. Olhos do filho. Olhos do pai.

“Somos muito emotivos”. Eu acenei com a cabeça concordando: “Que bonito!”. “Bonito é ser pai. É ser pai do Francisco”.

No ofertório, ele tirou algumas moedas e depositou num cesto que passava. Olhou para mim e explicou: “Gostaria de ter mais para ajudar mais, mas é o que eu posso”. O pai falava e o filho olhava. Alguns sons apenas e o sorriso.

A missa terminou. Algumas pessoas vieram conversar comigo. Os dois continuaram ali. Pareciam não ter pressa. O tempo da oração era sagrado. Saímos juntos. Contou-me o pai que o filho nascera vivo graças a um milagre de São Francisco. Com algumas doenças, mas vivo. Com algumas limitações, mas vivo. A mãe já morreu. Há uma outra irmã, mais velha, que vive com eles e os ajuda muito. O pai trabalha de dia. Ela trabalha à noite. É enfermeira. Portanto, sempre há alguém em casa para cuidar de Francisco. Ele disse que experimenta, todos os dias, um prazer único: “Não há preço que pague o sorriso de Francisco, quando abro a porta e entro em casa”.

Fiquei imaginando a cena. O cotidiano. O exercício do cuidar. O padre, na missa, havia falado sobre o legado de Francisco de Assis. O santo que nos inspira a viver o amor. “Onde há amor e sabedoria, não há medo nem ignorância”. Enquanto o padre falava, o Francisco pai, sentado, levava o chapéu até o seu peito. E, vez ou outra, passava a mão na cabeça do seu filho, Francisco. O filho sorria, demonstrando gratidão a Deus por ter um pai assim, santo, imaginava eu.

Na saída da Igreja, despedimo-nos. Beijei os dois. Senti tanta paz! Na missa e naquele encontro. Enquanto via aquele homem com o chapéu levando o filho pelas calçadas, fiquei pensando nas minhas lamúrias. Reclamações desnecessárias. A imagem da porta se abrindo e do menino sorrindo sem poder dizer o que gostaria – mas não era necessário, o pai sabia. O sorriso daqueles dois foi um presente do Santo. No seu dia. Para prosseguir. A pequena flor, que algumas vezes caiu, estava nas mãos do pai. Haverá de encontrar algum espaço para deixá-la perfumando o paraíso daqueles dois. Ou melhor, dos três. A irmã chama-se Teresinha. Dia primeiro de outubro, foi dia dela. A santa da delicadeza.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia) | Data: 09/10/2016

A reforma do ensino médio

É senso comum que é preciso melhorar a educação no Brasil. Aliás, precisará sempre. Os indicadores de quantidade e qualidade mostram que demos alguns saltos importantes. Mas falta muito. E esse muito tem que ser feito de forma responsável. Fórmulas mágicas não existem. Acompanhei com muita atenção a proposta de reforma do ensino médio. Trago algumas reflexões para ajudar o debate. A escolha de reformar o ensino médio por meio de Medida Provisória parece-me não ser o melhor caminho. É preciso envolver os sujeitos do processo educativo. Esqueceram a “Sua Excelência, o Professor”. São os professores que, todos os dias, no chão da escola, realizam o ofício do ensinar e do aprender, da troca, da cumplicidade. São eles, portanto, que têm condições de sugerir e construir a melhor reforma. Os jovens também têm ideias e ideais. E, também, seus pais. E, também, a comunidade científica que se debruça sobre o tema.

Há outros aspectos. Artes e atividades físicas compõem currículos dos principais países em que a educação vem atingindo patamares de qualidade. Alunos não são máquinas em que programamos saberes e pronto. O saber é construído no dia a dia. O diálogo com outras áreas é essencial. Aprende-se português, por exemplo, também em filosofia, história, sociologia.

Compreendo a necessidade de minimizar a compartimentação das matérias. É preciso instigar os alunos para que pensem e resolvam problemas, com autonomia. E que encontrem a necessidade e o prazer de pesquisarem sempre, de aprenderem sempre. Não esqueçamos, ainda, dos quase 25% dos alunos que estudam apenas à noite. Defendo a proposta de escola em tempo integral desde a educação infantil até o ensino médio. Consecutivamente. Inverter essa sequência é desconhecer os enormes fossos de desigualdade no nosso país. Que se tenha a maturidade de compreender que nenhuma política educacional pode ser imposta de cima para baixo, mas deve ser construída coletivamente.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/10/2016

Medo de Avião

Seu nome era Néia. Só o publico porque ela me autorizou. Escrevi este artigo ainda no voo. E li para ela. Sorriu encabulada. Parece que gostou. Sentou-se ao meu lado. Eu tinha um livro na mão. Delicadamente, ela puxou conversa. Delicadamente, pediu desculpas no caso de estar me incomodando. Fechei o livro. Pessoas são mais importantes que livros, embora os livros nos ajudem a entender as pessoas.

“Tenho muito medo de avião” – disse-me com voz embargada, olhar suplicante, cabeça meneada. Eu disse que era comum as pessoas terem medo de avião, que eu também tinha um pouco, mas que havia me acostumado. E racionalizei dizendo qualquer coisa como que o avião era o meio de transporte mais seguro. Só perdia para o elevador. Ela fez uma pausa e diminuindo a tonalidade da voz, disse em confidência: “Tenho muito medo de elevador”. “É mesmo?”, eu disse e logo tentei amenizar meu espanto: “Sabe que meu pai tinha medo de escadas rolantes?!”. Ela respondeu: “Eu também não gosto. Mas prefiro escadas rolantes a elevador. Em elevador, eu não entro”.

O avião começava a desfilar pela pista. Ela foi ficando inquieta com a movimentação. Pediu-me autorização para pegar na minha mão. Eu consenti. Fechou os olhos. Prendeu a respiração. Fiquei em dúvida se puxava alguma conversa ou se a deixava ali, em seu silêncio, em sua oração, talvez, até que o avião atingisse altura. Ela mesma quebrou a pausa: “Já rezei”. “Que ótimo! Então não vai acontecer nada”. “Espero que não. É tanta gente pedindo coisa, né?” E soltou um sorriso faceiro. “Mas Deus é Deus. Ele consegue ouvir todo mundo”. “Eu sei”.

Contou-me que era seu primeiro voo. Que a filha se mudara do interior de São Paulo para Recife. Que era um presente da filha que ela fosse visitá-la. Filha única. Não havia como não atender, embora tivesse postergado algumas vezes. Falou-me de doenças. “Sofro dos nervos, sabe? Tem dia que choro o dia inteiro. Mas cada um tem a sua cruz”. Falou-me de tecnologias. Aprendeu a usar alguns aplicativos que a aproximam da filha. “Imagina, ela lá em Recife e eu na minha casa, uma olhando para outra. Parece milagre, né?”. Contou, ainda, que não divide as tristezas com a filha. Melhor dividi-las com Deus. Deus não se incomoda em ser incomodado. Até gosta. Foi me explicando esses detalhes. Lembrei-me da minha mãe que viajou uma vez ou outra de avião e, depois, decidiu não ir mais.

Passou o carrinho com comida. Ela perguntou baixinho. “Será que é muito caro? Estou com um pouco de fome”. Eu expliquei que era de graça. Ela estranhou. Eu disse que algumas companhias aéreas cobravam, mas que aquela servia de graça. Ela piscou para mim e disse que a filha era esperta ao ter escolhido aquela companhia. E começou a elogiar a filha. E chorou alguma lágrima quando falou que a criou sozinha. Que o marido partiu logo que a filha chegou. Voltou ao texto de que cada um tem sua cruz. Falou-me das vizinhas, das comadres, do padre, dos preços das comidas, das modernidades dos jovens, da falta de amor aos velhos. Explicou que a filha era diferente. Que era o seu orgulho. Que estudou o que ela não pôde estudar. Que era uma executiva importante. Disse isso e sorriu. “Eu nem sei direito o que isso significa”. Eu sorri também. Lembrei-me do meu pai que dizia às pessoas que eu fazia mestrado. E, quando queriam saber o que era, ele coçava a cabeça sem cabelos e soltava algo como “É uma coisa tão difícil e tão importante que pouca gente faz”.

O avião ia descer. Néia já estava tão senhora da situação que nem se incomodou. Pela janela, mostrei a ela o mar do Recife. Ela olhou para o mar, olhou para o céu e soltou “E tem gente que não acredita em Deus!”.

Saímos juntos do avião. Ela tinha um pouco de dificuldade em andar. Foi no seu passo. Eu estava sem pressa. Tinha, ainda, algumas horas para começar minha palestra. Tive curiosidade em conhecer a filha. Fiquei feliz com aquele encontro. Néia chorou, a filha a envolveu em um abraço bom. Convidou-me para comer alguma coisa. Agradeci. Já estava alimentado com aquela prosa. A simplicidade é um dos mais lindos valores que aquecem a natureza humana.

Fazia calor no Recife. Era a palestra e eu já teria que retornar. Nem seria possível um banho de mar. Fiquei com a frase de Néia depois do seu encantamento diante da paisagem: “E tem gente que não acredita em Deus!”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia e Diário de S. Paulo) | Data: 02/10/2016

Minha Mãe é Uma Estrela

Tenho 6 anos.

Meu nome é Gabriel. Minha mãe dizia que me deu esse nome para que eu fosse um anjo. Minha mãe morreu faz pouco tempo. Quando nasci, ela já estava com câncer. Antes de mim, veio uma irmãzinha que viveu quase nada. Logo depois, minha mãe foi percebendo um caroço no seio. O médico, que talvez não tivesse tido a devida atenção, disse que era por causa do leite que endurecera por causa da morte da minha irmã. Ela aceitou a explicação e prosseguiu.

Ficou grávida de mim. Agradeceu a Deus. Eu nasci. Um outro médico logo percebeu que o antigo caroço não era leite endurecido, mas um tumor maligno. Ela teve que tirar o seio. Eu começava a entender a dor, quando o câncer começou, tempos depois, a ocupar-se do seu pulmão.

Eu ficava triste com suas crises. Aprendi o que era balão de oxigênio. Aprendi a chorar contido para não incomodar ainda mais e para estar pronto para ajudá-la. Meu pai sempre foi muito nervoso. Agora, piorou.

Minha mãe morreu. E no dia do meu aniversário. Um mês depois, meu pai já estava namorando. Fiquei muito triste, mas não pude dizer nada. Tenho 6 anos. Ele diz que nada entendo da vida dos adultos. Que tenho que lhe obedecer. A namorada do meu pai também é nervosa. Fala pouco comigo. Às vezes, grita. Diz que eu não paro quieto. Ela desarrumou toda a casa. Mexeu até nas santas da minha mãe. Até na imagem do Anjo Gabriel. Não sei onde ela colocou. Perguntei e ela gritou alguma coisa que eu não entendi. Meu pai brigou comigo, quando chegou. Disse que eu não podia ficar maltratando a sua namorada. Eu não sei que história ela contou. Mas fui eu que fui maltratado. Fiquei quieto. Ou melhor, queria ter ficado quieto. Mas não aguentei e comecei a chorar. Ele ralhou comigo. Disse que homem não chora. Que estava na hora de eu deixar de ser criança. Tenho 6 anos, repito.

Enquanto meu pai falava, ela olhava com olhos de vitoriosa. Fiquei pensando comigo mesmo que quem quer ser vitorioso de verdade não pode mentir. Meu pai gosta de ficar beijando a namorada o tempo todo. Não se incomoda se eu estou por perto. Acho que ele poderia ter esperado um pouco. Talvez minha mãe esteja vendo. Depois ela vai se ocupar de outras coisas lá no céu e aí ele namora como quiser.

Ontem à noite, fiquei olhando para o Céu. Estava tão bonito. Fiquei olhando e pensando na minha mãe. Foi quando vi uma estrela muito, mas muito brilhante. Eu não tive dúvidas. Era minha mãe. Ela estava olhando para mim. E lá ela não tem crises, não vomita, não têm dores. Minha mãe é uma estrela. E ela vai me levar para morar com ela.

Ela me deu um nome de anjo, mas não me deu asas. Não foi por mal. Esse poder, ela não tinha. Nem o poder de me ver crescer. Ela me beijou muitas vezes e disse que não tinha medo de morrer, só tinha pena de não poder ficar comigo.

Não tenho raiva do meu pai. Só fico triste por ele não respeitar a minha dor. Minha avó chama isso de luto. Minha avó diz, também, que as pessoas apaixonadas fazem coisas que não devem. Depois a paixão passa e o que foi feito já foi. Não quero julgar meu pai. Só não gosto de ficar perto dele. Talvez ele também esteja sofrendo pela morte da minha mãe. Talvez. Cada um sofre de um jeito. Hoje, estou mais calmo. Depois de ontem, quando a vi no Céu. Brilhando. Foi o jeito que ela encontrou de sorrir para mim. Ela vem me buscar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: O Dia e Diário de S. Paulo) | Data: 25/09/2016

Razões para ser feliz

Conversa um casal de amigos sobre os dissabores dos seus tempos. São amigos há algum tempo, ou melhor, há muito tempo. Conversam sobre as adversidades, sobre os intransigentes. Sobre os que perderam, ou nunca tiveram, a capacidade de compreender. Lamentam a secura dos dizeres. São econômicos alguns dos seus interlocutores, quando se trata de algum elogio. São fartos, os mesmos, se o assunto é algum maldizer. Falam ou teclam barbaridades sobre vidas alheias. Sem nenhuma necessidade. Pensam eles.

Viveram muito, os dois. Viram mudanças de estilo de vida e de companhias. Alguns amigos já partiram. Foram embora sem serem comunicados. É assim que é. A morte não envia cartas para que se preparem, para que façam as devidas despedidas. Mas seria melhor se fosse diferente? Se fôssemos comunicados com dias ou meses ou se soubéssemos, desde que tivéssemos a idade de algo saber, a data do fim de nossa permanência por aqui? Concordam os dois que o melhor é prosseguir, prosseguindo.

Voltam o assunto para outra direção. Riem de algumas lembranças. De esquisitices. De manias que, a poucos, revelaram. Tiveram receios de serem tachados de estranhos e segredaram esses traços. Entre os dois, entretanto, há luz suficiente para que se vejam como são. Os anos emprestaram essas intimidades. Gostam de remexer no baú de memórias onde moram sentimentos lindos que jamais deixaram de permanecer. Moram pessoas que, aparentemente ausentes, continuam. Não fazem isso como fuga. Nem tem a incorreção de comparar os tempos de hoje com os tempos de outros “hojes” – que outros chamam de ontem. Mas ontem era hoje. E se foram. Ou não. Quem entende o tempo? Seria melhor entender? Seria melhor se soubéssemos, hoje, o que aconteceria amanhã? Os amigos comungam a delícia das surpresas e o prazer de serem surpreendidos pelos enlaces não planejados. Amaram e foram amados. Choraram as despedidas. Recobraram os desejos. Despediram-se novamente e, novamente, viram surgir uma silhueta nova, um olhar que dizia, um toque que acordava.

Acordaram de muitos sonambulismos. Perplexidades com a crueldade alheia criaram feridas que foram cicatrizadas. Não se ocupam muito delas. Sabem que as razões para ser feliz são muitas, desde que não se remexa no não acontecido. Lamentações têm o seu tempo e o seu espaço. Já a felicidade é uma brisa sem a qual não se poetiza a caminhada. E, sem poesia, eles não estariam ali. Conversando. Rindo. Apalpando momentos e planejando amanhãs. São quase centenários. Vivem em uma casa com outros que ali optaram estar ou por ali foram deixados por familiares sem tempo. Fazem planos para uma festa em que comemorarão alguma data. Esquecem-se de coisas próximas e se lembram das que se foram há muito tempo. E gostam de falar sobre elas.

Vez ou outra recebem visitas inesperadas. E se satisfazem com elas. Aproveitam para falar. Para contar histórias vividas ou romanceadas. Quando inventam algo mais picante, riem por dentro e, depois, gargalham sem testemunhas quando a visita se vai. Divertem-se por serem tão convincentes.

Creem em Deus e, por isso, rezam. Lembram-se dos que se foram e pedem uma partida serena. Sem solavancos. Sem dores exageradas. O bom seria se fossem em um dia ensolarado, não muito quente. Se pudessem viver o amanhecer do lado de lá, na claridade que o Amor preparou.

Mas não têm pressa de partir. Gostam de estar ali. E de compartilhar tantos instantes. Em um silêncio qualquer, respiram de prazer. De viver.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia e Diário de S. Paulo) | Data: 18/09/2016

O Amor e as Imperfeições

Era um dia qualquer. Hora do jantar. A filha, quase adolescente, tinha os olhos marejados. Chorara solitária lamentando algum erro.

A mãe e o pai, atentos, perceberam logo. A mãe disse à filha que depois conversariam. O pai quis saber o que ocorrera. Entre eles havia diálogo. E ternura.

O irmão mais velho estava apressado. Mas guardou sua pressa e permitiu que a irmã dissesse algo. Ela não quis dizer. Pediu desculpas, mas preferia o silêncio e, se possível, ir para o quarto. O pai lhe disse que poderia ir, mas, se ela não dissesse o que estava acontecendo, ele ficaria muito triste. Ela era sua filha, o seu amor. E ele estava ali para emprestar a sua ternura, qualquer que fosse o ocorrido.

A filha chorou e, entre soluços, soltou: “Eu errei”. E não conseguiu prosseguir. O pai a abraçou e emendou: “Eu também”. A filha olhou para o pai e quis saber quando. O pai prosseguiu: “Hoje”. Deu uma pausa e seguiu: “Ah, ontem, também”. E mais um silêncio e uma troca de olhares: “E, também, antes de ontem”. A filha sorriu. “Pai, estou falando sério. Tirei nota baixa. Isso nunca tinha acontecido. Fiquei nervosa. Não sei o que aconteceu. Era prova oral. Eu…”. O pai interrompeu a filha e levantou o copo com suco. “Vamos brindar”. “Brindar?!”, estranhou a esposa. “Brindar a imperfeição da nossa filha. Ela é como nós. Ela erra. Que bom. Ela é humana”. A filha abraçou o pai, sorrindo.

Cena do cotidiano de uma família. Poderia ter tido outro desfecho. Há pais que projetam nos filhos o sucesso que não obtiveram na vida. Há pais que sonham com filhos perfeitos. Que não erram jamais. Que não demonstram nenhuma fragilidade. Que sejam heróis. Os heróis de verdade não são os que não cometem erros. Os heróis de verdade são os que se preocupam com os erros dos outros e com os próprios e que se põem a caminhar fraternalmente. Nas quedas, é bom encontrar uma mão que nos ajude a levantar e um abraço que nos ajude a perceber que não estamos sós. Nas quedas, é bom saber que a vida prossegue. E que os instantes se sucedem nos explicando que o tempo do amor tem o poder de cicatrizar a dor.

O problema da menina pode parecer simples. Uma nota baixa. Mas um vulcão de medo a tomou desprevenida. Medo de não dar certo na vida. Medo do erro. Medo de não ser amada por isso. O pai mostrou o cenário correto. Todos nós erramos. E os erros nos humanizam! Os erros nos aproximam. Os erros nos preparam para o acerto maior. Ter um norte na vida. Um tema. Uma disposição para cuidar e ser cuidado. Amar e ser amado. Generosamente. Brindemos a família, então. A que erra. A que ama.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia) | Data: 11/09/2016.

Um Pouco de Lucidez

Uma criança usou toda a sua autoridade para dizer “um pouco de lucidez” e prosseguiu com a serenidade tão cara aos sábios, “um pouco de lucidez, por favor!”.

Era uma destemperança de adultos. Não ouvi o início da conversa, mas ouvi o tom belicoso com que se tratavam. Um interrompia o outro. Nenhum dos dois concluía o próprio pensamento. Cortavam-se mutuamente. Alguns cortes demoram a cicatrizar; por isso. é melhor ser cuidadoso. Não estavam sendo cuidadosos aqueles dois. Aqueles dois adultos. E a criança deixou a conversa prosseguir por algum momento. Talvez tivesse a ilusão de que se entenderiam. Talvez tivesse visto cenas boas que lhe comprovassem quanto os dois se amavam. Não fosse isso, não estariam juntos. Mas o amor nem sempre traz razão às emoções teimosas. E os que se amam, por vezes, esquecem-se da beleza do amor. E se perdem em desnecessidades. Permitem que surjam intrusos.

A criança queria apenas lucidez. Não sei onde lhe ensinaram essa palavra. Lucidez tem uma possível origem na palavra latina “Lux”. A luz dissipa as sombras que escondem parte do que precisaria ser conhecido para se chegar a conclusões mais acertadas. Os dois estavam sem luz. Não apenas os dois. Adultos precisam ouvir mais as crianças. Os anos vão nos acumulando imprecisões, vícios, precipitações, teimosias. Perdemos a espontaneidade. Cercamo-nos de defesas erradas e, por isso, atacamos. É assim nas relações de paixão e de amizade. É assim na política. Ou nas crenças religiosas. Ou nos comportamentos. Vestimo-nos de verdades absolutas e impedimos a luz de nos mostrar outros caminhos possíveis. E há outros, certamente, além daqueles que estamos vendo. A falta de luz, lucidez, faz com que não consigamos ver além da nossa teimosia.

Os teimosos estão com as pedras nas mãos. Nas ruas e nas mídias sociais. Estão cheios de razão sem razão. Decididos a cortar quem pensa diferente. Mas como exigir que todos pensem da mesma maneira? Nem aqueles dois, os pais da criança, conseguiam pensar da mesma maneira. Pelo menos não naquele momento em que o filho tentou pôr fim aos exageros. Não gosto de exageros. Nunca nos caem bem. Os exageros são as locomotivas para os fundamentalistas, para os radicais, para os que agem longe da luz.

Resolvi cumprimentar os pais pelos ditos do filho. Disse-lhes que devia ser fruto de uma educação cuidadosa. Sorriram-me os dois. Agradeceram e prosseguiram. Lúcidos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia) | Data: 04/09/2016

Um Rio de Possibilidades

E o carnaval carioca encantou mais uma vez o mundo. E não era fevereiro. Nem março. Eram as Olimpíadas que chegavam ao fim. Atletas e amantes do esporte e do belo se encontraram na Cidade Maravilhosa. Outros, olhos fitos na tela, assistiram às competições. Era o Rio mostrando que fora esculpido com especial carinho pelo Artista. Mares e picos de montanhas. Florestas. Enredos de mistérios. Por que tanta beleza em um só lugar? E há o carioca e os que vieram aqui viver. Ontem e hoje. Mulheres e homens que fazem os 450 anos desta cidade. Arquitetos de obras que permaneceram e de risos que encantaram. A experiência de viver o Rio é inesquecível. Os muitos brasis se encontram por aqui. Alguns vêm a passeio e ficam. Outros se vão por necessidade. Fico imaginando os turistas se despedindo depois de tantos encontros. Encontrarão razões para voltar, certamente. É um rio de possibilidades esta cidade.

Lembro-me de minhas primeiras impressões, ainda criança, quando desci a serra e atingi o paraíso. Minha tia ainda mora na Tijuca. Meus tios que moravam em Vila Isabel já nos olham do alto. Tenho primos por aqui. E amigos. Muitos. Fui crescendo e me dividindo entre Rio e São Paulo. Nasci no meio do caminho. De Cachoeira Paulista, vinha passar as férias. Ver os shows. Os teatros. Vinha passear no calçadão. Vinha viver a tal carioquice. As escolas de samba sempre me surpreenderam – que capacidade é essa de contar uma história, de popularizar um tema em uma hora e alguns minutos? E a comunidade, comungando desse tema e da tradição de prosseguir, obedecendo ao compositor “não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar”.

O Rio das letras, das artes, das paixões. Quantos poetas aqui se inspiraram. Quantos cantores se alimentaram de amanhãs, extasiados com a “princesinha do mar”. A ousadia de ontem ainda vive. E há o futuro. Há jovens com o direito de cumprir uma missão, um tema de vida. Que podem olhar para a sina de Machado de Assis e imaginar, “eu também posso”. Também quero uma “Carolina” para ser cúmplice por toda a vida. Também busco folhas para escrever a minha história.

Gosto de ouvir histórias. Sou escritor. Preciso delas para alimentar meu ofício. Vou partilhar algumas por aqui. Muitas vividas nesta cidade. Outras, em outros cantos deste fascinante país. Somos muitos e um só. Que a palavra seja um instrumento para exprimir esses encantamentos de cada canto que a vida nos proporciona.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia) | Data: 28/08/2016

Saudade de mim

Assim ela me disse em uma manhã ensolarada:
“Saudade de mim…”. “Tenho saudade de mim”.

E relatou a sua história. :
Depois de alguns anos de namoro, apaixonou-se por outro. Ficou em dúvida se prosseguia a sua relação ou se buscava viver o que acabara de aparecer.

Quem chegou chegou dizendo palavras de amor. Fez promessas de tempos únicos para os dois. Alimentou-a do que ela sentia falta. O outro namorado já estava acomodado com o tempo de convivência. Parecia uma relação boa, mas sem a quentura que é tão atraente quando se fala de amor.

Entre os dois, ela ficou. O primeiro trazia estabilidade. Ela o amava. Definitivamente, amava-o. Gostava de estar com ele. Gostava de sua disponibilidade em dela cuidar. Mas o segundo era como um furacão. Os dizeres. Os toques. Os olhares. Sentia-se mal. Não queria enganar alguém com quem dividira tantos momentos de encantamento. Mas como desperdiçar alguém que chega assim com tanta fome de paixão?

Ao segundo, explicou que tinha o primeiro. O segundo disse que esperaria algum tempo, mas que se sentia mal em saber que “o amor da sua vida” ainda tinha outro. Ela falava que não sentia nada pelo outro, mas que não era fácil terminar uma relação em que não havia brigas, não havia desrespeitos, havia apenas a ausência do que hoje ela sente pelo que chegou. O que chegou gosta do que ela fala. O amado é ele. O outro é apenas uma acomodação, e o tempo vai fazê-lo partir.

O tempo, em vez de trazer alívio, trouxe angústia. Como atender ao telefone do que chegou se, o que estava, estava perto? Buscava ficar sozinha para falar com o outro.

O outro não gostava de ligar e de demorar para ser atendido. O outro era mais exigente. Ela tinha que decidir.

Resolveu dizer ao amor que chegou primeiro que não mais o amava. Não foi fácil a preparação. Chorou sozinha imaginando a dor que poderia causar a alguém que a fizera tão feliz. Mas era preciso ser sincera com ela e com eles. Falou, então. Fez uma introdução permeada de choros e de dizeres desnecessários e falou. Disse que havia se apaixonado por outro. Que o que eles viveram foi lindo, mas era preciso mudar a página. O que ouviu fez-se de compreensivo. Disse que jamais queria vê-la infeliz. Que o amor é assim. Ela achou que ele aceitou muito passivamente a despedida. Sentiu-se confusa. Um pouco aliviada e um pouco desprezada. Imaginou que haveria muito choro. Só ela chorou. Imaginou que ele dissesse que faria qualquer coisa para não perdê-la. Não foi isso o que ele fez.

Com a cabeça inquieta, foi encontrar o que chegou e contou a história à sua maneira. Disse que foi difícil. Que ele prometeu jamais esquecê-la. Que chorou muito. Que imaginava que envelheceriam juntos. E continuou com sua narrativa inventiva e dramática. O que chegou ouviu e sugeriu a ela que não deixasse o outro. Que ele estava inseguro em entrar em uma relação assim. Que havia pensado melhor e que, talvez, não fosse justo desmoronar uma casa que, há muito, já os aquecia. Ela ouviu estupefata e começou a cobrar as palavras de antes. As exigências de que ela fosse apenas dele. O amor que ele jurara ter por ela. Ele foi carinhoso, mas não como antes. Ficaram juntos algumas semanas. Foi quando ele resolveu terminar. Subitamente. Juntos, não eram como ele tinha imaginado.

Ela não sabia o que fazer. Chorou muito. Viveu tempos inseguros. As semanas com o novo amor não foram leves. O peso de aguardar sua ligação. O incômodo de ligar e se sentir incomodando. A vontade de ligar o tempo todo. Por que ele mudou?

Ligou para o outro. Que a atendeu carinhosamente. Disse com docilidade que tinha saudade. Ele falou que seria bom se um dia saíssem todos juntos. Os dois casais. Falou que estava namorando.

Ela ouviu com dor esse relato. Não disse que havia terminado com o tal amor da sua vida que chegou fazendo tanto barulho e se foi deixando nada. Disse que sim. Que, certamente, marcariam para saírem juntos.

Desligou o telefone e ficou envolta em dúvidas. Ele já estava com outra antes de eles terminarem? Por isso ele aceitou sem reação alguma? Conheceu depois? Tão rapidamente? Pensou em ligar para o outro. Não. Não faria isso.

Fez. Ligou. E o outro atendeu friamente. Estava ocupado. Ocupou-se tanto dela antes. E, agora, ela era um estorvo, apenas.

Foi quando a encontrei em um dia ensolarado. Contou-me e esperou resposta. Disse que tinha certeza de que o amor verdadeiro era o primeiro. Mas que, agora, parecia não ter conserto. Depois, confessou que quem ainda ocupava seus pensamentos era o segundo. Por fim, confessou. Gostaria de, pelo menos por um tempo, não pensar nem no primeiro nem no segundo. O que achei bom, mas difícil. Em matérias de paixão, os pensamentos não permitem que decidamos nós em quem pensar.

O dia estava ensolarado. Bom sinal. Em um outro dia assim, ela vai abrir a janela e perceber que passou. Talvez passe pela sua cabeça ter feito a escolha errada. Talvez, não.

Escolhas são sempre desafiadoras. O amanhã nasce hoje. Parece desnecessário lembrar. Não é. Não temos a máquina que nos faz voltar no tempo para arrumar as coisas nem a máquina que nos permite ver o que será o futuro.

É um aprendizado separar a serenidade de um amor dos solavancos de uma promessa de amor. Espero que ela se encontre. Sentir saudade de si mesma foi um bom começo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/06/2016

Ele é importante?

Foi essa a pergunta que um conhecido fez a mim sobre uma pessoa que acabara de entrar em um evento: “Ele é importante?”. “Como assim?”, perguntei. Meu interlocutor disse que costuma ir a eventos para conhecer pessoas importantes. Que isso é muito importante. Há pessoas que importam e outras que não importam, pensa ele. Fiquei estarrecido. Sei que há muitos que assim agem, mas disfarçam. Esse foi direto. Queria apenas conhecer pessoas importantes.

Não sei o que significa uma “pessoa importante”. Para mim, todas as pessoas o são pelo simples fato de serem pessoas. De existirem. De fazerem parte de um mundo em construção. Construir relações baseadas em algum interesse é sempre frustrante.

E pobres daqueles que, ao serem incensados por terem um cargo de destaque, por terem dinheiro, por serem considerados uma celebridade, mudam o comportamento e se alimentam desses aduladores. Ser importante é circunstancial. Ser amigo é essencial. Os que se iludem com as circunstâncias, certamente, conhecerão o abandono. Os que buscam “pessoas importantes” mudam sua busca de acordo com o momento. Se alguém se fascina com o importante que chegou, seu fascínio mudará quando outro importante chegar. O fato é que os verdadeiros amigos se revelam nos momentos de infelicidade, nos momentos em que a vida nos faz experimentar as quedas, nos momentos em que, mesmo não sendo “importantes”, temos importância. Relações descartáveis não prestam para nada

O importante é construir laços de amizade. É sentar com um amigo que não tenha nada para oferecer além do tudo que representa uma amizade. Conversar pelo prazer da prosa. Encontrar-se pela poética do encontro. Sentir o calor que o outro pode me proporcionar, porque está vivo e, se está vivo, é capaz de aquecer. Apenas isso. Nada mais triste do que não ter amigos. Ao final do evento, fui para casa pensando nisso. E agradecendo a Deus pelos mestres que tive e tenho na vida e que me ajudam a ter sempre os pés no chão.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/06/2016