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A alegria final

Quem entende a morte?

Quem entende sua pressa?

Quem entende a necessidade de interrupções prematuras? Vidas cheias de vidas que se vão.

No meio da dor, um vídeo circulava. A alegria daqueles jovens. Os ditos sobre o futuro. As brincadeiras. A irreverência. Jogaram juntos tantas vezes. Venceram. Perderam. Comemoraram. Lamentaram. Estranharam-se, certamente, pela falta de garra em uma outra partida. Abraçaram-se em jogadas certeiras. Choraram em vitórias. Falaram sobre erros. No campo e fora dele. Reclamaram da não escalação. Na escalada da vida, foram companheiros. Gratos, certamente, pela intensidade com que viveram. A gratidão, inclusive, por estarem juntos naquele voo.

Era a alegria final. Pouco depois, o voo voava em outra direção.

A fé nos aquece nesses dias frios. Ilumina-nos na escuridão das perguntas sem respostas.

Todos os dias há chegadas e há partidas. Pessoas nascem. Pessoas morrem. Deveríamos nos acostumar a isso? Como? Como convencer a nossa dor? A nossa tristeza? Nem a fé tem o poder de enxugar as lágrimas. Mas a alegria daquele vídeo diz algo. Foram vitoriosos para uma outra partida. Partiram os que aqui ficaram. Familiares. Amigos. Todos nós, cuja matéria-prima é a sensibilidade.

Partiram? Ficaram. Em um misterioso ficar. Porque é nisso que acreditamos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/12/2016

E a verdade?

A conversa discorria sobre a importância de se falar bem em público.

Há, falavam os interlocutores, muitas técnicas de convencimento. O olhar. O movimento das mãos. As pausas. O tom da voz.

Falavam alto. Era possível compreender cada pequeno detalhe.

E era possível perceber a preocupação que tinham com o tal do convencimento.

Diziam que alguns se negavam a fazer o tal treinamento. Que se sentiam suficientemente seguros. Que sabiam, inclusive, enganar.

Foi aí que a prosa degringolou. As tais técnicas tinham uma finalidade: fazer parecer verdade o que verdade não era. Era quase que um curso sobre “a mentira” ou sobre “o engodo”.

Comentaram sobre um deles, um político, que foi tão enfático na entrevista, que venceu. Que soube olhar, movimentar as mãos, dar a pausa correta, usar o correto timbre de voz, que ninguém mais o perturbaria com aquela história. Riram os dois da ardilosidade do companheiro. “Ele chorou na hora certa”, vibrou um dos dois. “É importante, sensibiliza as pessoas”, concordou o outro. “Tem que saber despertar o sentimento de pena adormecido”. E riram e riam ainda mais falando quão ignorante são as pessoas. Qualquer coisa as leva para um lado ou para outro.

Ora, vejam. A oratória é uma arte antiga. Sobre ela se debruçaram muitos pensadores. Platão critica os que se valem de artifícios da linguagem para o convencimento. Aristóteles discorda do mestre e valoriza a retórica como uma arte de dizer bem o bem. Forma e conteúdo. É preciso verdade, queria o filósofo, para que o que deve ser dito seja dito e convença.

Não há problemas em se estudar como falar bem em público. Para plateias ou para os que assistem pelos meios eletrônicos. Saber convencer. Saber utilizar a linguagem corporal. Saber como se inicia, como se desenvolve e como se conclui uma oração. A retórica se ocupa disso. E traz com ela outros elementos, como a hermenêutica, que trata da compreensão, da interpretação; e a heurística, que trata do compromisso com a verdade.

E é sobre a verdade que eu quis perguntar àqueles dois. Chorar é possível desde que haja razões para tanto. Ir e vir com palavras e gestos. Tudo isso é possível e é preciso.

Mas a pergunta fundamental é: e a verdade? Não precisa um político ou um pregador ou um jornalista ou um palestrante ou quem quer que se disponha a convencer pessoas ter um compromisso com a verdade?

Decorar fórmulas para enganar é desprezível.

Um dos piores problemas da política é a mentira e seus outros nomes, a dissimulação, a enganação, a hipocrisia.

Fala-se não a verdade, mas o que deve ser falado para minimizar danos. O maior dano é precisar mentir. Depois do malfeito, o ensaio para criar uma história e sair-se ileso.

Tristes prosas em que os risos nascem do aplauso ao que soube mentir com mais categoria porque dominava algumas técnicas.

Proseemos sobre outras canções. A canção da verdade, da sinceridade. Errar é parte do caminhar. Mas compete aos caminhantes um arrependimento sincero, uma correção necessária, um dizer verdadeiro a si e aos outros. A mentira também está presente quando o auditório é o próprio falante. Convenço-me a mim mesmo de que o erro não é tão errado assim. E por isso persisto enlameado.

Depois dessa conversa, ouvi uma professora falando sobre uma aluna com síndrome de Down em sua sala de aula. Da sua evolução. Da riqueza de sua convivência com os outros alunos. Vi tanta verdade naquela emoção, que agradeci.

Há esperança.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia (RJ)) | Data: 27/11/2016

Alimento da alma

Recebi um pedido de uma professora, Neilce,do interior do Rio de Janeiro.

O pedido era simples. Pedia que eu fizesse um pequeno texto para ler para os seus alunos. Eles haviam lido “A Ética do Rei Menino” e estavam trabalhando, principalmente, o Livro VIII que trata sobre a importância da amizade.

Rapidamente, aceitei. É um privilégio para um escritor saber que seus textos são lidos, refletidos, trabalhados, ainda mais por crianças.

Fiquei imaginando a cena daquela sala e de tantas outras salas em que professores instigam seus alunos a acreditar que terão dias em que precisarão viver a liberdade, os valores, as conquistas.

Ela disse que ficaria honrada se eu pudesse atender o pedido. Honrado fiquei eu, um pedido desses é um alimento para alma. Do professor. Do escritor.

A amizade é um perfume que nos alivia diante de odores indesejáveis de egoísmos e de arrogâncias. A amizade é uma ponte que nos transporta para espaços iluminados e nos retira do breu da insensibilidade. A amizade é um presente que o Criador entregou aos seus para que, na pureza das intenções, pudéssemos compreender um pouco do mistério de estarmos aqui.

Os amigos são amigos desinteressadamente. O interesse reside apenas no enlace, no aconchego, no caminhar de mãos dadas.

Aqueles alunos estão no início de uma jornada. Que será necessariamente penosa. Que trará dissabores. Que apresentará o sofrimento como condição essencial da própria existência. Mas que, ao mesmo tempo, abrirá os olhos para cenários encantados, para pessoas encantadas, para sentimentos que cantam a beleza da vida.

Vida que se alimenta de cotidianos, de encontros simples, de pedidos como esses que eu recebi.

No turbilhão de tantas notícias ruins, não nos afastemos dos problemas, mas, vez em quando, nos alimentemos do que permanece.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/11/2016

Sobre a inocência

Era menina ainda quando disse que gostaria de ser freira ou médica ou professora. Um dia, mudou de ideia e afirmou que seria bailarina. Foi em uma festa, em um final de ano, em uma escola, em algum canto por aí. Cantaram, também, alguns meninos. Um coral preparado com esmero por uma professora que sorria ao seu piano vendo seus pupilos brilharem. Estavam todos uniformizados. Até os cabelos. Até o jeito de mexerem os braços e agradecerem os aplausos.

Era uma escola pública. E o público composto, majoritariamente, pelos familiares vibrava com os seus. A menina, a que já quis ser tanta coisa, procurava os pais. Como fazem as meninas e os meninos nessas apresentações. Há muitas pessoas, mas o olhar mais doce é revelado, primeiramente, aos pais.

Ela os encontrou. Estava vestida com a roupa de bailarina. A mãe não se continha de emoção. Era a única filha. A outra se fora prematuramente. Atropelada por um trem. Isso mesmo. Estavam alguns amigos atravessando a linha de ferro. Ela teve medo e parou. Eles insistiram, e ela foi. Foi, titubeante, e aconteceu o horror. Um corpo sem vida esmagado por um trem.

A irmã nunca se esqueceu disso. Ela não estava junto. Era muito pequena. Mas ouviu tantas vezes os relatos, viu tantas lágrimas e gritos de dor de sua mãe, de seu pai, que a história a frequentava desde sempre. Mas, ali, o sorriso dos pais parecia uma pausa à dor que viveram. Uma se foi. A outra brilhava.

O tempo foi passando e a menina foi crescendo. Sempre muito religiosa. Sempre muito prestativa com os seus. Achava-se responsável por trazer alegria. E fazia sua parte. A menina virou mulher. Casou. Teve filhos. O primeiro recebeu o nome da irmã. O segundo, o do marido. Teve o privilégio de se casar com o homem dos seus sonhos. No dia em que foi bailarina, ele foi cantor. E se olharam, ainda sem saber o que seriam. O terceiro filho também veio.

Ele não tinha mãe. Apenas o pai e ninguém mais. A mãe morrera em um acidente de carro em que o pai era o motorista. Não teve culpa. Sentiu-se culpado. Acreditava ele ser o responsável por trazer alegria ao seu pai.

Ele formou-se médico. Ela professora. Escolheu preencher os seus dias preenchendo vidas de significados. Lembra-se ainda do primeiro dia em que pôde entrar em uma sala de aula e ensinar. Dos olhos das crianças. Das suas dúvidas – das crianças e das dela. Do medo de tropeçar. Tropeçou, talvez, algumas vezes. Mas prosseguiu. A filha que recebeu o nome da irmã que se fora resolveu ser freira. O filho com o nome do pai é bailarino. E o terceiro é também professor.

Quando se lembra dessas histórias, lembra-se de um tempo que se foi. De uma inocência difícil de ser reinventada. Lembra-se do primeiro dia em que ela e o marido deram as mãos. Eram adolescentes, apenas. Ele a pediu em casamento. Ela disse que perguntaria à mãe. Ele disse que não era para aquele momento, mas que já queria selar um secreto compromisso de amor. Ela sorriu. Achou bonito. Ele a beijou no rosto. Ela ficou corada. E se despediram. Só começaram a namorar quando estavam na faculdade. Casaram-se depois da formatura dela e um pouco antes da formatura dele. Os pais estavam presentes.

O padre pediu para que os dois improvisassem algum dizer de amor. Ele disse que se apaixonou por ela quando a viu de bailarina. Ela apenas sorriu e, timidamente, disse que se apaixonou por ele no mesmo dia.

Os pais dos dois já não mais estão com eles. Foram encontrar os que já se foram. Há os filhos. Há lembranças de ontem e muitas vontades a serem realizadas. Nos dois, há um sentimento que permaneceu das dores que viveram. Têm eles a consciência de que nasceram para trazer alegria. Aos pais. A eles mesmos. Aos alunos e pacientes. Aos que encontram por aí.

Quando veem alguma fumaça, lembram-se dos tempos da claridade. Na idade de hoje, são capazes de viver as idades que se foram. Sabem que não são perfeitos. Estranhamentos há em toda família. Mas há algo que os mantém inteiros. Inocentemente, continuam a se amar.

Sobre a gratidão

Li, recentemente, um livro chamado “Gratidão”, escrito por Oliver Sacks. O famoso neurologista traz, nesse livro, as experiências da consciência da finitude e da proximidade da morte. Ele morreu aos 82 anos de câncer. O livro é escrito depois dos 80. Sabia ele que eram os últimos momentos na terra. Mas o livro traz, de forma notável, o tema da “gratidão”. Olhar a morte de perto dá medo. Saber que há mais dúvidas do que certezas. Imaginar o que não pode mais ser feito. São pensamentos que poderiam ocupar a mente por inteiro. Confessa, entretanto, o autor, que o sentimento predominante nele é o da Gratidão. Gratidão pelas escolhas que deram certo. Gratidão pelos amores, pelos afetos. Gratidão pelos caminhos que foram apresentando diferentes paisagens.

Aos 80, já se viveu muito. Já se perdeu muito. Já se ganhou muito. Aos 50, também. E também aos 30, por que não? Em cada fase da vida, é possível olhar para o tempo que passou e ser grato. Olhar para as pessoas que nos preencheram os instantes e sermos gratos. Olhar para dentro de nós mesmos e agradecermos o poder cicatrizante que fez com que tantas feridas deixassem de ocupar nossa atenção. Há, por aí, muita gente que sequer agradece ao outro em circunstâncias corriqueiras. Agradecer a quem abre a porta, a quem traz a conta no restaurante, a quem dá lugar, a quem nos vende alguma coisa. Agradecer a quem está limpando, a quem está cozinhando.

Gratidão é um sentimento que cai bem em qualquer situação. As lamentações também fazem parte. Mas, sozinhas, causam muitos incômodos. Quando lamentamos por alguma ausência e agradecemos, logo depois, as tantas presenças que a vida nos proporcionou e proporciona, fica mais fácil prosseguir. E prosseguir vale a pena, em qualquer idade. O entardecer tem uma beleza diferente do amanhecer. Mas tem uma beleza. Certamente.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/11/2016

A dor do outro não sai no jornal

Na canção de Chico Buarque, os dizeres são: “A dor da gente não sai no jornal”. O compositor fala de uma tal Joana e de um João.

Desconhecidos, eram os dois. Nem o barraco existe mais.

A dor dos conhecidos, às vezes, sai no jornal. Há famosos por aí que qualquer movimento desperta enorme atenção. Há outros, porém, que passam desapercebidos. Mas, também, esses sentem dor.

Também esses choram os seus filhos, quando eles morrem. Mesmo quando os filhos erram.

Li, com atenção, a matéria sobre “bandido bom é bandido morto”. Acompanhei várias histórias de jovens que morreram vítimas, talvez, de escolhas erradas. Sei que há uma imensa indignação da sociedade contra aqueles que agridem a própria sociedade. Vivi isso nos tempos em que pude cuidar da antiga FEBEM. Havia muito ódio por aqueles que ali estavam. E ódio deles mesmos por serem frutos de uma sociedade que não lhes deu oportunidades e que lhes cobrava pelos erros que cometeram. Erraram, muitos deles. Certamente. Não todos. Muitos não deviam estar ali. Mas estavam. E sofriam por ali estarem e pelo futuro.

Quem quer dar oportunidade a alguém que errou? Quem contrata alguém que passou por uma unidade de internação para adolescentes infratores ou pelo sistema penitenciário? Como eles poderão se recuperar, então? Mas por que optaram pelo erro? Optaram?

Que vida levaram? Que valores aprenderam? Que exemplos tiveram?

“Sim, mas erraram” – insistem alguns. “E quem não erra?” – pergunto. “Mas cometeram atos infracionais, cometeram crimes”.

Há sociedades que optam por eliminar os que assim agem. Matam. Há outras, como a nossa, que estendem, inclusive para esses, o princípio da dignidade da pessoa humana. Eles também têm família. Eles, também, têm alguém que chora por eles, que torce por eles.

Há uma onda de reducionismos na solução de problemas. Como se bastasse uma ordem de choque para que todos os problemas se resolvessem. Seres humanos são complexos. Sociedades são complexas.

Posso garantir que, na época em que implementamos um programa de educação humanista, em que desenvolvemos a sensibilidade artística, em que nos preocupamos com a porta da saída para que eles pudessem ter uma nova chance, em que os tratamos como gente, muitos deles puderam construir uma vida digna. Ainda os encontro por aí. Ouço suas histórias. Lágrimas nos olhos, agradecendo uma mão estendida.

Dia desses, em uma palestra, ouvi uma ex-funcionária da FEBEM relatando o que ela viveu no tempo em que fiz com que eles acreditassem que a educação abriria as portas para uma nova vida na dura vida daqueles jovens.

Ou nos conscientizamos de que a sociedade é um todo e que mesmo os que dão mais trabalho precisam de cuidado ou partimos para o triste caminho de tentar extirpá-los. Não é só a pena de morte que faz isso. É a insensibilidade. É a ausência de compaixão. De prontidão para abrir portas a quem se perdeu. É preocupante o grau de egoísmo que vai tomando forma nos nossos dias. Cada um quer saber de si mesmo. Os outros são os outros. E, se os outros nada podem acrescentar a minha vida, e, se ainda me dão trabalho ou me colocam em algum risco, então, é melhor não tê-los por perto. Mas não estamos falando de coisas. Pessoas não podem ser jogadas porque incomodam. Mesmo os que incomodam sentem dor. Mesmo quando a dor deles não sai no jornal.

É sempre atual relembrar Chaplin. O que precisamos vai além das máquinas, das tecnologias. O que precisamos mesmo é de humanidade, é de afeição, é de ternura.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia) | Data: 13/11/2016

A fragilidade da vaidade

A vaidade é um tema recorrente para muitos estudiosos do comportamento humano.

É um termo bíblico, também, “vaidade das vaidades”. Tudo, quando é vaidade, traz enormes riscos. Montaigne adverte que a vaidade nos leva à precarização de nós mesmos. Nos exageros, nós nos perdemos.

O que é a vaidade?Vaidade vem de vazio, vem do que é vão, do que é ilusório. A vaidade é a supervalorização da aparência em detrimento da essência.

O vaidoso busca um aplauso constante. Ele precisa ser admirado pelo outro o tempo todo. Pelo seu físico. Pela sua eloquência. Pela sua perfórmance intelectual.

O vaidoso tem dificuldade em ver alguém elogiando outra pessoa. É como se algo cortante o incomodasse: “O que o outro tem que eu não tenho?”. O vaidoso tem uma tendência a errar mais, porque fica cego diante de si mesmo.

O artista vaidoso não tem a generosidade de compreender que nem sempre ele será o mais aplaudido do grupo.

O político vaidoso é incapaz de enxergar outros políticos ou outras pessoas. Pensa que o mundo gira em torno do seu umbigo. Um amante vaidoso não percebe os desejos do seu amor. Preocupa-se apenas consigo mesmo.

Um amigo vaidoso tem dificuldade de prosseguir na amizade. Abraçar-se a si mesmo é como não abraçar.

Evidentemente, estamos falando sobre a vaidade – vício. Sobre a doença. Sobre a ausência de humildade, de comedimento. Há aqueles que se envaidecem na medida certa pelas conquistas que exigiram muita dedicação. Não há mal algum nisso. O que se lamenta é o exagero. É a incompreensão diante do tempo e do envelhecimento, por exemplo.

Há beleza em todas as idades. Cuidados ajudam. Escravidões atrapalham.

Quem quer experimentar a liberdade precisa entender um pouco mais da vaidade, para dela se defender.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/11/2016

Onde mora o mal?

Dia desses, ouvi uma senhora comentando com outra que era insuportável ver as crianças vestidas para a festa de Halloween.

Havia algumas crianças assim à nossa frente. Ouvi algo como: “O demônio mora nessas festas”. Fiquei curioso com o desenrolar da história. Pareciam religiosas as duas. Falavam que o dia das bruxas não poderia ser de Deus. Insistiam na ideia de que o demônio estava por trás de tudo, além das questões de importar algo que não fazia parte da nossa cultura.

Dobraram a esquina e eu prossegui o meu caminho. As crianças ainda estavam à minha frente. Felizes. Brincando. Usando a palavra para afagos e bons comentários. Fiquei pensando, “será que o demônio mora nessas crianças ou nessas festas?”. Não quero entrar em detalhes sobre a origem ou o significado da festa de Halloween ou de qualquer outra festa desta ou daquela cultura. Nem nas crenças daquelas duas senhoras que pareciam expelir ódio ao falarem. Religião para mim sempre foi religação. Reencontro com o amor, com a felicidade.

Mas, decididamente, não posso acreditar que o demônio faça morada naqueles espaços. Há outros muito mais propícios a ele.

Ele mora na guerra. Nas “guerras santas”, inclusive. No assassinato de crianças inocentes desligadas da vida por religiosos fundamentalistas. Mora no ódio incontido de quem se julga superior por qualquer razão. Mora nos horrores da escravidão. Da de ontem, que por aqui tanta dor causou, e, na de hoje, em que persiste, teimosas, maltratando as gentes. Há tantas pessoas que são assassinadas brutalmente, porque ferem alguns princípios que uns julgam mais valorosos do que a vida. Basta fazer uma breve pesquisa sobre a morte de cristãos em muitos países do Oriente Médio. Cenas chocantes de pessoas que são assassinadas por não renunciarem à fé em Jesus. Há grupos radicais islâmicos matando seus irmãos islâmicos, porque alguma razão parece mais importante do que a vida.

O demônio mora no homem que estupra a mulher em qualquer lugar do mundo. Na dor daquela mulher. Na humilhação. No sentimento de superioridade do homem. E, talvez, até na aceitação dos que cruzam o braço.

O demônio mora na mentira, na dissimulação, na trama para destruir o outro em nome do poder ou de qualquer outro sentimento. A vingança também é uma boa morada.

O demônio mora na humilhação. E há tantos que, por qualquer razão que pareça maior do que a vida, teimam em olhar o outro de cima para baixo. O dinheiro, o poder, o sobrenome, a origem, não há nada que justifique a superioridade de um em detrimento do outro.

O demônio mora na injustiça. Os invisíveis se multiplicam. São um estorvo para os que só querem ver o que decidiram chamar de beleza.

A beleza é onde mora Deus. A beleza é irmã da bondade. Não vivem separadas em nenhuma circunstância. É belo perceber a diversidade do mundo e respeitar mesmo o que somos incapazes de compreender. É bom nos esforçamos para diminuir a dor dos que sofrem para lançar luzes onde as trevas continuam existindo.

Não quero falar mal daquelas senhoras até porque julgá-las por algumas frases não seria correto. Mas nelas não vi luz. Vi nas crianças. Que iam brincar. Que iam animar a vida. Que iam dizer que juntos tudo fica mais gostoso.

O tema de Deus e do demônio sempre incomodou os estudiosos da filosofia e das religiões. Aqui, não temos tempo para nos aprofundarmos tanto sobre isso. Mas temos tempo de dizer. Onde há amor, não há como demônio nenhum habitar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 06/11/2016

Sobre os mortos

Dia 2 foi dia de finados, dia dos mortos. Feriado. Dia para se lembrar dos que se foram. Para se lembrar da morte. Lembrar-se da morte para quê? Não é sufocante lembrar da morte? Tem gente que prefere não passar perto de cemitério e sai com a justificativa de que “quem não é visto não é lembrado”. Tem gente que prefere não pensar o que virá a acontecer quando a vida resolver deixar de estar.

Pensar na morte tem a sua necessidade e a sua importância. Primeiramente, porque não há como decidir dela se livrar. Ela virá. No tempo que não nos foi dado conhecer. Nem mesmo alguns médicos que teimam em prever o dia do fim conseguem saber. E, depois, porque pensar na morte nos ajuda a compreender o poder que não temos. Somos frágeis. Um sopro, apenas, e a vida se cansa. E nem temos tempo para despedidas. Um passo em falso. Uma doença desnecessária – há doenças necessárias? Um acidente. E há tantos deles por aí. E a morte chega.Viver lembrando a morte nos ajuda a matar em nós tudo aquilo que nos rouba a vida. Ladrões de sonhos, de serenidades, de liberdade. Ladrões de corações. Ladrões de paz. De uma paz tão necessária, inclusive, para que vivamos mais e melhor. Brigas ali e aqui. Disputas. Arrogâncias. Ódios acumulados. Bobagens que nos trazem uma bagagem pesada para viver.

O poeta Quintana dizia: “A morte deveria ser assim: um céu que pouco a pouco anoitecesse e a gente nem soubesse que era o fim…”. O fato é que ninguém sabe quando e como será. O que se sabe é que o fim virá. É preciso lembrar isso. E não depende de nós. Depende de nós, entretanto, matar o que nos mata antes de morrer. Lembrar-se dos que se foram e conviver com a bela saudade. Chorar, se necessário. E prosseguir. Cultuando a brevidade da vida como uma oportunidade de celebrar cada instante. Nenhum deles volta. Nenhum deles se repete. Viva a vida. Mesmo sabendo que dura pouco.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/11/2016