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Páscoa, o amanhecer da vida

Amanheceu.

O túmulo está aberto. Os que conseguiram chegar perceberam que a morte já havia sido vencida. A noite demorada não resistiu. A luz chegou.

É um novo dia de novos dias que se sucederão. Os esforços dos senhores do poder deram em nada. Nada é mais forte do que o amor.

A Páscoa é a celebração do amor. Do amor que vence o ódio. Da vida que vence a morte. Da liberdade que vence a escravidão.

Os que odeiam são escravos do próprio ódio. Os que oprimem são escravos da própria opressão. Os que condenam são escravos da própria condenação.

Julgaram Jesus. Condenaram-no a deixar este mundo. Primeiro a cruz, depois o túmulo. A cruz persiste como sinal do que houve. O túmulo está vazio. Era pequeno demais para caber tanta vida. A morte nos inquieta. Certamente. Há um mistério entre o que vemos e o que gostaríamos de ver. Se pudéssemos saber o que acontecerá depois… Fiquemos no que está ao nosso alcance. Olhar para o que aconteceu e aprender com o acontecido. E prosseguir.

Na Páscoa antiga ,a coragem de Moisés. Nem os exércitos nem as águas foram capazes de deter o seu sonho. Era um povo escravo que merecia a liberdade. Na Páscoa nova, é a vida de Cristo que renova a nossa. Um povo carente de um sinal. Estamos carentes desse sinal. Enquanto celebramos a Páscoa, há crianças aprendendo a serem suicidas, há outras chorando os pais, mortos “em nome de Deus”, há outras vitimadas pelas violências tantas. E Jesus ensinou que cuidássemos delas.

Estamos carentes desse sinal. Enquanto celebramos a Páscoa, há famílias destroçadas pela violência, há guerras dentro das casas, lares que se transformam em palcos de morte. Apedrejadores em posição de alerta. E Jesus nos olhou com compaixão.

Estamos carentes desse sinal. Enquanto celebramos a Páscoa, há alguém ao nosso lado, esperando um gesto de amor, um reconhecimento, um cuidar que alivia o cargo pesado que mora em nosso destino. E Jesus nos deixou o mandamento do amor, do amor a Deus e ao próximo. Quem é o meu próximo? Passo ao longe e tenho pena ou desço de onde estou para cuidar de suas feridas?

Mundo ferido o nosso. Feridas abertas que precisam de um poder cicatrizador. Quem há de pegar a essência que ficou no amanhecer daquele túmulo para perfumar os ambientes e aliviar as dores? Os professores? Os médicos? Os artistas? Os pais? Os amigos? O próximo?

Quem é o meu próximo? Quem precisa de mim hoje? Se conseguíssemos responder a essa pergunta e encontrássemos esse irmão, celebraríamos uma Páscoa muito mais significativa. Seríamos menos escravos, menos trancafiados em nossos túmulos. Tristes de nós quando nos afeiçoamos aos túmulos e nos negamos a ver que estamos vivos e que o dia já amanheceu.

Tristes de nós quando fechamos os olhos fingindo que é bom estar onde estamos, no lugar dos mortos, dos que desistiram. Tristes de nós quando – avarentos de atitudes e de sentimentos – somos incapazes de abraçar a generosidade.

Páscoa é alegria. É esperança. Mesmo àqueles que passam ao longe das religiões vale um olhar para a história. Por que um filho de carpinteiro marcou a história da humanidade? Que carpintaria de alma é essa? Que poder é esse que atravessa os tempo e continua a fascinar? O seu fascínio está além das religiões. Está além do que conseguimos ver ou compreender. Seu legado é simples. Amar. Sem barreiras nem fronteiras. Sem muros. Sem nada que impeça de estender as mãos e cuidar. Do próximo. Do distante. De qualquer um cujos olhos se encontram com os nossos.

Páscoa é passagem. Barreiras, muros e túmulos tentam interromper o curso das vidas. E há quem defenda isso. Deixemos, por ora, essas escuridões de lado.

Amanheceu. E a esperança voltou a nos fazer companhia.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia-RJ) | Data: 16/04/2017

Domingo de Ramos

Quem eram aqueles que aclamavam Jesus na entrada de Jerusalém? Aqueles que, com os seus ramos de oliveira, gritavam “Hosana, hosana ao filho de Davi”? Quem eram os que festejavam sua história? O Nazareno que falava sobre o amor, que não tinha preconceitos, que conversava com as crianças, que acolhia as mulheres, que não tinha nojo dos leprosos? Aquele que ensinava em parábolas?

Havia razões para comemorar a sua chegada. Ele desassossegava as pessoas com sua capacidade de ensinar o amor e seus afluentes. Do rio precioso, saíam outros necessários como o perdão, a misericórdia, a compaixão.

Teve Jesus compaixão por aquela mulher que, por pouco, não fora apedrejada. Chorou com os choros das irmãs de Lázaro. Compreendeu a dor da viúva de Naim. Era um cortejo de lágrimas que saía da cidade quando ele chegava com o cortejo da esperança. E a mãe pôde abraçar novamente o seu filho. Devolveu alegria aos noivos de Caná da Galiléia. Explicou que os humilhados serão exaltados e que os humilhadores não encontrarão a paz.

Entrava esse homem em Jerusalém e o povo tinha razões de sobra para aplaudi-lo. Mas o que houve depois? O mesmo homem foi humilhado, açoitado, despido de sua dignidade em um calvário de abandonos. Os gritos eram outros. Queriam o seu fim. Não toleravam mais a presença de alguém tão bom. Era preciso jogar sobre ele todos os ódios que estavam acumulados.

Ele representava algum perigo? Decidiram que “sim”. Em uma guerra de comunicação, convenceram os que o receberam com aplausos a cerrar os punhos e lançar sobre Jesus suas ausências. Nada de misericórdia ou compaixão. Nem a dor da mãe que encontra o filho ensanguentado parecia comovê-los. Até os amigos tiveram medo e o negaram. A cruz seria o seu destino. Antes um governante lavou as mãos. Antes uns religiosos justificaram os horrores em nome de Deus.

Usar o nome de Deus para matar é correto? Quem decide o que é o correto? Mas e o povo? O povo que o aclamava com alegria? Mudou de lado. Um cisco entrou em seus olhos e já não mais enxergavam. O ódio tem esse poder. O poder de não nos deixar ver. E o pregador do amor caminhava para ser pregado na cruz.

E a história se repete. É o início de mais uma Semana Santa. As cerimônias são plenas de ensinamentos e instigações. Quem estamos crucificando hoje? Quem estamos abandonando? Ontem, os entusiasmos diante da possibilidade do poder. Hoje, o abandono.

O jovem pregador do amor não reagiu aos odientos ataques. Não era esse o seu tema de vida. Seguiu ciente de que o tempo haveria de rasgar o véu da ignorância que cegou aquela gente.

O que nos cega hoje? Dizeres malditos que nos convencem a matar? A morte na cruz não está prevista em nosso sistema jurídico. Mas e as cruzes que obrigamos o outro a carregar? Houve justiça com Jesus? Justiça injusta aquela. Filha da mentira divulgada. Filha do medo de um amor revelador.

Políticos e religiosos, legalistas e moralistas estavam todos do mesmo lado. Divulgadores de falsidades, também. E, do lado certo, estava Ele. Entrando em Jerusalém. Partilhando o pão. Lavando os pés dos Seus amigos. Orando por paz.

Os nomes dos que gritavam pedindo Sua morte não ficaram registrados nas história. O Dele ficou. O menino de Nazaré, o filho de Maria e do carpinteiro José, o inaugurador de uma nova forma de falar com Deus, de falar de Deus.

Que essa semana nos santifique. Os ciclos se repetem. Os de ódio e os de amor.

Quando olhamos os ódios do passado, os tiranos, os injustos, os mentirosos, certamente, lamentamos. Mas e quando reproduzimos esses mal comportamentos? Há alguns que tiveram o poder e mataram milhares ou milhões. Há outros que matam esperanças dentro de casa, que desperdiçam infâncias, que agridem mulheres, que roubam a alegria. Que tiram a paz dos que encontram nas tantas esquinas que há por aí. Há os que crucificam na primeira informação e há os que conversam com o tempo para compreender.

No domingo que vem, é Páscoa. Um outro dia. Um outro artigo. Um outro raio de esperança a nos dizer que é a vida a vitoriosa.

Que seja uma semana de vida, para todos nós, imperfeitos, errantes, ávidos por alguma luz. A luz está na cruz, mas sairá dela para viver nas consciências que se abrirem, como se abriu aquele túmulo, mostrando que a morte não poderia matar o amor.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 09/04/2017

Sujos e malvados

Uma mulher estava limpando a rua. Muitas mulheres e homens limpam as ruas, todos os dias, nas pequenas e nas grandes cidades. Com seu uniforme, a mulher, gari, limpava a rua.

Um homem chegou para entrar em seu carro e começou a xingar a mulher. Falava alto. Gesticulava. Ameaçava. A mulher tentava explicar. O homem não estava disposto a ouvir. Eram frases tão soltas, tão desconectadas, tão agressivas que ficava difícil entender tamanha chateação em uma manhã ensolarada.

O dia estava apenas começando. O homem saiu com o carro em alta velocidade, sem desperdiçar, entretanto, a oportunidade de mais algum xingamento. Com o vidro aberto, mandou que ela sujasse a mãe e ainda disse que estava com o nome dela e que ela aguardasse para ver o que haveria de acontecer. Gritando e olhando para trás, quase atropelou uma criança com roupa de escola.

A mulher parou um pouco, colocou as duas mãos sobre a vassoura em pé, abaixou o queixo para acomodá-lo sobre as mãos e respirou calmamente para que as batidas apressadas do coração voltassem a ser o que eram antes do ocorrido.

Chorou aquela mulher. Lembrou-se da mãe, de quem ela cuidou até morrer. Sujar a mãe? Nunca. Limpou-a muitas vezes, quando a doença roubou sua autonomia. Acordou cedo, cedíssimo, para trabalhar. O pouco salário nunca foi desculpa para algum descuido. Se alguma poeira atingiu aquele homem, não foi proposital. Ela estava de costas quando ele chegou. O carro estava estacionado em frente a uma igreja. Certamente, ele não estaria saindo da igreja, pensava a mulher. Se estivesse saindo, se estivesse ido rezar, não agiria daquela forma.

O homem pediu o seu nome. Ela, imediatamente, deu. Com a língua presa, pronunciou um nome comum. Não entendeu a razão. Ligaria ele para algum conhecido poderoso e pediria que ela fosse demitida? O homem parecia decidido a mostrar que mandava.

Pensamentos tantos ocuparam a cabeça da mulher. O cansaço. A diabetes. A preocupação em não ficar nervosa. A pressão alta. Os filhos que dependiam dela. O marido, que gritava de forma parecida à do homem do carro, havia ido embora. Estava tudo nas mãos dela. Limpar a cidade e cuidar dos seus. E, agora, numa manhã ensolarada, num dia ainda espreguiçando, a chateação dos maus tratos.

O homem estava bem vestido. Parecia limpo. Parecia. Não. Não era a poeira saída das ruas que haveria de sujá-lo. Estava sujo o homem.

Lembrei-me do filme de Ettore Scola, “Feios, sujos e malvados”. O filme é uma provocação. Comportamentos desprovidos de ética moravam naquelas personagens que misturavam estilos, tragédia shakespeariana e comédia italiana. Tragédia e comédia. Dores e risos. Pessoas bondosas que amanhecem conosco, e pessoas que almejam roubar nossos amanheceres.

O homem do carro não tinha nenhum estilo. Não sei dizer se era feio. Não deu para reparar. Mas era malvado. Era uma manhã ensolarada. A folha do novo dia estava quase em branco. Aguardando textos. Começar com uma rasura demonstra descuido maior do que o da mulher, se descuido houve. O que ela sujou? Ele? O carro? Com alguma poeira?

Covardias são comuns em pessoas sujas e malvadas. E feias. A beleza não mora em detalhes objetivos e explícitos. Brota de uma luz que todo o ser humano é capaz de irradiar. Parecida com a luz daquela manhã ensolarada. O homem teria outros motivos para estar daquele jeito? Não. Não há justificativas para ações assim.

A criança que quase foi atropelada, um pouco adiante, ajudou uma senhora idosa a atravessar a rua. Aprendeu esses bons modos em algum lugar. Que bom. Há esperança!

O homem saiu dali para ir a algum lugar. Sei quase nada dele para dizer algo a mais. Sei que o que vi é feio. Abracei aquela mulher, suada de nervosismos e da lida, preocupada com o amanhã, ciosa de que teria que prosseguir, de que havia muito a ser limpo naquela cidade.

Cenas cotidianas nos inspiram. Falou-me um pouco do seu calvário aquela mulher. Tinha medo de gritaria. Conviveu com um pai assim e com um marido assim. Gostava da vida. De acordar cedo. De ter um trabalho. De deixar a cidade mais bonita. De encontrar pessoas educadas que, com naturalidade, a cumprimentavam. Sorriso bonito o daquela mulher. Passado o susto, ela estava novamente limpando. Fui saindo e reparando que os seus lábios se movimentavam. Não sei se ela estava conversando com ela mesma e dizendo que não se importasse ou se estava cantando. Se estivesse cantando, certamente seria uma canção bonita. O sorriso dos olhos revelava isso.

Disse a mim mesmo que não fosse descuidado. Que nunca agisse como aquele homem em frente à igreja. Disse a mim mesmo que cultivasse a beleza e a bondade daquela mulher.

A criança, ao longe, ia para a escola. Deve ter ela bons professores.

Era uma manhã ensolarada. Era um dia ainda começando. Quantas outras mulheres bonitas e bondosas ainda haveriam de se encontrar com homens sujos e malvados?!

Não que não haja mulheres malvadas e homens bondosos. Mas, naquela manhã ensolarada, foi o que eu vi, foi o que me aqueceu.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 02/04/2017

Sinfonia do encontro

Um olhar. Apenas um olhar e a quietude. E o coral de vozes não mais a amedrontou.

Era uma menina. Ainda nos tempos da infância. E era tímida. E tinha os medos todos comuns à infância e a todas as idades.

Os pais moravam longe um do outro. Optaram por tentar outras escolhas. Filha única a menina. Era a mãe quem a preparava para ir à escola. O pai a visitava quando podia. Sentia falta do pai a menina, mas ressentia não conseguir dizer o que sentia. Ensaiava pedir alguma atenção. Chegava a pronunciar para si mesma o que haveria de dizer. Não dizia.

A mãe estava sempre em busca de algo que a menina não compreendia. Sobressaltada com a vida. Com as buscas. Com os fracassos.

A menina tinha medo do fracasso. Alguém disse que ela não cantava bem. Brincadeira estúpida, talvez. Mas a incomodou. E como! Quis sair do coral, mas não conseguiu dizer. E por lá ficou. O medo, nesse caso, foi-lhe companheiro.

Era o dia da apresentação. Mulheres e homens estavam no teatro. Entraram as crianças. A menina tinha o coração acelerado. Resolveu cantar baixo para não incomodar. Talvez assim não percebessem os erros da sua voz. Temia esquecer a canção. Temia ter alguma tontura. E o medo roubava dela o prazer de estar ali. Resolveu ficar um pouco escondida. Melhor que não a vissem. Com olhos baixos, teve um súbito de coragem e olhou. Um olhar. Depois de tantos que nada viram. Um olhar e o encontro com os olhos da mãe. Um sorriso. Um alívio. E mais um desejo.

O pai estava entrando. Ela viu ao longe. E não precisou de mais nada. Esqueceu-se de tudo. E cantou. E participou daquela sinfonia. Naquele tempo em que o tempo ainda não dizia quanto é apressado.

A menina cresceu. Os pais se foram. Amores vieram para participar da sua vida. Os medos ainda a incomodam. Ora fazem mal, ora fazem bem. Fazem mal quando retiram dela possibilidades incríveis. Fazem bem quando a ajudam a permanecer atenta para, na vida, não desafinar.

A menina virou cantora. Canta como necessidade vital. Canta e permanece nos que a ouvem. Ganhou confiança. Sabe que saem de casa para vê-la. Sabe que silenciam os murmúrios para ouvi-la. Vez em quando, lembra-se de como tudo começou. Naqueles desencontros, encontrou, mesmo que distantes um do outro, os olhares de que necessitava. Estavam ali a dizer algo. E a sinfonia iniciou a sua jornada.

Encontros. Cantores ou construtores. Julgadores ou auxiliares. Motoristas ou doutores. Professores ou professadores de qualquer crença. Estão todos tentando encontrar o tom da própria vida. Nos inícios, a dificuldade é talvez maior. A menina, feita mulher, ainda é tímida. Ainda economiza nos ditos. Gosta do palco porque se sente segura. No canto, encontrou o segredo de dizer o que não conseguia dizer, o que talvez ainda não consiga. Sofreu de amores que se foram, mas prosseguiu cantando. Entusiasmou-se com outros que ofereciam eternidades, mas não deixou de cantar.

Na sinfonia da vida, foi percebendo que é preciso ser forte. Que a dependência de olhares não faz bem. Naquele dia, os pais foram. Poderiam não ter ido. Poderia ter sido tudo mais difícil. Mas eles foram. Alquebrados de necessidades, ansiosos por outros encontros, frios um com o outro, mas, com tudo isso, foram. Algum Maestro os inspirou a perceber que a menina era maior do que as suas pausas, que a menina iniciava na sinfonia da vida os seus primeiros acordes. E precisava deles. Indubitavelmente, precisava deles. Se soubessem o poder que têm sobre o amanhã dos seus filhos, os pais seriam um pouco mais atenciosos. Venceriam, certamente, outros certames, para estar onde devem estar. Entrecruzando olhares, expulsando medos, sorrindo.

A menina-mulher hoje canta o amor. Acredita no amor. Fala dos pais com os olhos marejados. Eles se foram tão cedo. Os mesmos olhos que os viram. Uma, um pouco à frente; o outro, chegando apressado. Mas estavam ali. Antes de partirem, puderam vê-la consagrada. Tiveram orgulho da menina tímida. Cantaram as suas canções. Encontraram-se muitas vezes. Sem os ressentimentos do início da separação. Maduros compreenderam que o tempo do amor foi capaz de gerar amor. E que melhor do que lamentar pelo que poderia ter sido era celebrar o que foi. Também eles, um dia, fizeram parte de uma mesma sinfonia que, como toda sinfonia, um dia chega ao fim. Acabou antes de terminar? Talvez, sim. Mas existiu. E a menina continua existindo. Seus olhos olham outros olhos. Mas aqueles continuam vivendo na menina e a fazendo cantar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 26/03/2017

Brasil joga fora excelentes iniciativas em educação

A Política, na teoria das Ciências Sociais, é arte e é ciência. É, no dizer de pensadores clássicos, como Aristóteles, a consciência de que somos animais sociais e de que dependemos uns dos outros para o nosso desenvolvimento. É, ainda, a mais alta forma de caridade, em uma interpretação do pensamento de Santo Agostinho. O cuidar coletivo, o deixar de lado interesses individuais em prol do bem comum. A justa medida. O fazer o certo, da maneira certa, no momento certo, com as pessoas certas.

O ser humano, ainda relembrando Aristóteles, deverá ser verdadeiramente bom e irrepreensivelmente tetragonal, que significa 4 X honesto ou 4 X perfeito (ideia de totalidade). Se tiver a excelência moral e a intelectual agirá sempre em prol da felicidade comum o que incorrerá na felicidade individual. Ninguém é feliz fazendo infeliz o outro.

E a educação? Segundo Platão e Aristóteles, é a melhor medida para se aprender a gostar das coisas certas e a desgostar das coisas erradas. Segundo Kant, nós somos o que a educação faz de nós. É a educação que nos possibilita, inclusive, conhecer a felicidade proporcionada pela boa política.

Então, na teoria, a política possibilita a construção da melhor educação para que a educação construa a melhor política. Com o conhecimento, com as informações, com a capacidade de reflexão, fica mais fácil distinguir o joio do trigo, separar o verdadeiro do engodo, o que faz bem para a comunidade e o que é desvio de caráter.

Há muitos analistas que tentam entender por que o Brasil continua em patamares sofríveis nas principais avaliações internacionais ou internas no tema da educação. Há estatísticas para todos os gostos. O fato é que não estamos bem. O analfabetismo funcional é preocupante, a produção de conhecimentos mais ainda. A dificuldade com as ciências da matemática pode ser constatada nas mais diversas avaliações.

As crianças brasileira são, porventura, menos inteligentes do que as crianças de outros países? Onde está o erro?

O erro está na política. Não na política aristotélica, mas na política brasileira. Na visão tacanha dos que não conseguem perceber o que fazem quando desfazem projetos que são bons para o coletividade.

Em termos educacionais, jogamos fora excelentes iniciativas. A começar do que foi feito por Anísio Teixeira em 1940, a primeira experiência de escola de tempo integral no Brasil –a Escola Parque de Salvador. Lembrando Darcy Ribeiro e Paulo Freire, apenas para ficar em alguns exemplos mais conhecidos, educadores estudados e respeitados em várias partes do planeta. Por aqui, os políticos apressaram-se em destruir o que eles fizeram.

Há outras tantas experiências desperdiçadas. Sempre chega alguém com uma fórmula mágica para revolucionar a educação. Alguém que venceu as eleições e quer deixar sua marca. Ora, mas isso é o oposto da política. Daquela da teoria. A marca tem que ser o bem comum. Fórmulas mágicas para educação? Não há. Basta analisar os países mais bem colocados em uma das avaliações internacionais, o PISA. O que eles têm em comum? Fiquemos em 3 pontos: valorização dos professores, ampliação da jornada com um currículo que dialogue teoria e prática, participação familiar. O que queriam Anísio, Darcy e Freire? Uma escola para todos, em tempo integral, com educadores valorizados e com inserção social para que, em cada comunidade, houvesse uma escola que a transformasse e fosse por ela transformada.

Quando vejo novos planos desconectados da realidade, projetos que excluem de sua formulação quem terá de executá-los, os educadores, pressinto novos fracassos. É preciso que se respeite o chão da escola, o dia a dia daqueles que, em detrimento de tantas mudanças desnecessárias, persistem tentando educar, com que o tem, os seus aprendizes.

Vale a pena analisar com vagar alguns casos de sucesso. Sobral, no Ceará, é um deles. O que dá certo é um projeto com continuidade. Além da valorização dos professores, ampliação do currículo e da participação familiar, destacam-se o investimento na gestão democrática da escola com um diretor líder e uma comunidade atuante, respeito à liderança do diretor e envolvimento comunitário. Aliás, o estado do Ceará tem vários exemplos assim. 77 das 100 melhores escolas brasileiras, segundo o IDEB, estão lá. Por quê? Porque sucessivos governos resolveram deixar de lado suas idiossincrasias e respeitar os educadores.

Há um Plano Nacional da Educação em vigor. Com metas claras. Com um caminho seguro para a melhoria da educação. Quem sabe seja um caminho. Quem sabe os nossos políticos gastem um pouco de tempo lendo Platão e Aristóteles e deixando o que está bom continuar.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Poder 360) | Data: 22/03/2017

Não sou dono do amanhã

Minha mulher tem câncer. Um câncer que não tem cura. O diagnóstico foi o pior possível. Pouco tempo de vida.

Quando soubemos, olhamo-nos e ficamos algum tempo em silêncio. São quase 40 anos de vida comum. Nos nossos silêncios, filmes nos percorreram. Sei, pelo tempo que estamos juntos, o que ela pensou. Sabe ela o que eu pensei. Os médicos de hoje são pouco econômicos em tergiversações. Vão direto. Não sei decidir se é bom ou ruim.

Depois do silêncio, tentei algum dizer. Lembrei-me de tantos que se curam. A medicina evoluiu, e sei de muitos que enfrentaram cirurgias ou sessões de quimio e de radioterapia. E ficaram curados. E ganharam outro significado no viver. O médico não deu margens às minhas ilusões. Disse logo que não era o caso dela.

Permaneceu ela em silêncio. Saímos daquele lugar e fomos para casa. Olhávamo-nos. Ela andou pelos cantos que guardam nossas memórias e depois resolveu cozinhar. Fiquei com ela na cozinha. Ela fez comentários sobre a massa, o ponto do cozimento, o cortar da cebola e do tomate, o tempero.

Durante o almoço, eu disse que deveríamos ir a outro médico. Sempre é bom ter outras opiniões. Ela consentiu rapidamente e comentou sobre o vinho que estávamos bebendo. Sobre o prazer de estarmos ali. Olhou-me como nos tempos de juventude. Olhou-me com alguma malícia, até. Sorriu. Estávamos juntos. Deitamo-nos depois e nos amamos. Sem pensar no amanhã. Era uma sexta feira. Passamos o final de semana namorando. Nada de assuntos outros.

Fomos a outro médico e a outro. Tratamentos paliativos, apenas. O diagnóstico estava certo. Contamos aos nossos filhos. Não foi fácil. Abraços, choros, ditos de amor. Explicações. Irritações. Revolta, até. Por que tanta gente má vive muito e gente que só faz o bem é escolhida para partir? A revolta deles não era a da minha mulher. Ela surpreendia-me pela serenidade. Nada de brigas com o destino. O tempo por aqui é limitado. Minha mulher tem muita fé. E tem uma linda certeza sobre o que virá depois. Eu ora acredito, ora desanimo. Tentava, contudo, viver cada momento. Dizia a mim mesmo que não há ninguém com o poder sobre a vida e a morte. Eu poderia morrer primeiro. Já vi casos assim. Enquanto um estava aguardando a partida, alertado por alguma enfermidade, o outro partiu vítima de um entre tantos acidentes que há por aí.

Começamos a namorar mais do que de costume. Resolvemos marcar uma viagem. Só os dois. Vez ou outra, ela dizia sobre algum detalhe do tratamento. Rapidamente. O tempo que tínhamos não poderia ser desperdiçado. Fizemos uma linda ceia de natal. Sem despedidas. Quem sabe o que há de acontecer amanhã? Comemoramos juntos o ano novo. Ela olhou-me como sempre e brindou as nossas escolhas de vida. Estávamos em família. Filhos. Netos. Estávamos apenas nós. Nossos olhos se entrecruzaram. O mundo poderia terminar ali. No alto, os fogos explodiam. Barulhos por todo o canto. E estávamos sós. Nas férias, resolvemos voltar ao hotel em que fizemos nossa lua de mel. Os momentos de dor não eram esquecidos, naturalmente. Ela surpreendeu-me algumas vezes com os olhos marejados. Enxugava-os com cuidado. E me beijava. Dançamos no quarto em que, pela primeira vez, nos amamos. Na época, era assim. Esperávamos o dia do casamento.

Voltemos ao hoje.

Trabalho pensando na volta para casa. Compro alguma lembrança para roubar um sorriso dela. Nem seria necessário, mas me faz bem. Surpreendê-la me faz bem. Aproveitamos cada feriado. Desde o primeiro diagnóstico, provamos ao médico que o tempo de vida não se mede em exames.

Lembro-me quando perguntei sobre uma primeira viagem que estávamos programando. Ele disse, sem rodeios, que era muito tempo. Que eu não me animasse. Fui forte e desobedeci. E outras viagens se sucederam.

Estamos fazendo planos para a Páscoa. Que a morte virá não nos restam dúvidas. Para ela e para mim, inclusive. Mas saberá, a morte, que não perdemos tempo aguardando a sua chegada. Venha quando tiver de vir. Enquanto isso, viveremos o tempo do amor. Quantos casais têm essa felicidade? Naturalmente, a paixão enlouquecida dos primeiros tempos sobreviveu aos primeiros tempos apenas. Depois, outros sentimentos nos preencheram. O companheirismo, a cumplicidade, o cuidado mútuo, o amor. Hoje nos amamos. E como nos amamos! Sei disso porque os melhores momentos da minha vida são os que eu estou com ela. As minhas vitórias profissionais ganham novo sabor quando sei que ela está por perto. E as dela, também. Um olhar e adivinhamos o que o outro sente.

Se brigamos? Sim! Longe de nós a perfeição. Se desejamos nos separar? Várias vezes. Se olhamos para o lado? Certamente. Quem manda nos desejos? Mas quando olhamos para nós mesmos, percebemos que era melhor permanecer. Que decisão acertada!

Talvez viajemos na páscoa. Praia? Campo? Interior? Capital? Ou talvez fiquemos em casa. Ainda não decidimos. Decidimos estar juntos. Vivendo juntos a dor. Vivendo juntos o amor. Também gosto de cozinhar. Para ela. Gosto quando ela elogia apenas pelo cheiro. Antes, inclusive, de provar. Gosto quando ela me cobre antes de dormir. E me dá um último beijo. Não sou dono do amanhã.

Hoje?

Vou surpreender, mais uma vez, o meu amor.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/03/2017

Encanto ou espanto?

O fato ocorreu em um vagão de metrô. De um lado, um casal com o seu filho. Do outro, também. Um outro casal e uma outra criança.

No início da viagem, as crianças pareciam sem muito empolgação. Quietas. Os adultos falavam. De um e de outro lado. Falavam sobre coisas que nada significavam para as crianças. Mas as crianças estavam ali. Naquele vagão. Naquela viagem. Foi quando o pai disse ao filho: “Você é um encanto”. Não sei muito bem o que o filho havia feito para receber esse afeto. O filho sorriu. Meneou sua cabeça no colo da mãe. E, do colo da mãe, via o pai. E assim prosseguiram.

Enquanto prestava atenção à cena, ouvi um outro dito que me pareceu o mesmo. Agora do outro lado. “Você é um encanto”. Vi a criança chorando. A mãe dando de ombros. E o pai prosseguindo o seu dito de adulto. Não. A frase fora outra. Talvez empolgado pelo que ouvi e vi, imaginei se tratar do mesmo afago. O pai disse ao filho: “Você é um espanto”. Não sei o que fez o menino para ouvir essa sentença.

O que é um espanto? Espanto pode ser surpresa, admiração. Mas pode ser assombro. E o filho chorou. E o choro foi tido como rotina, e os pais prosseguiram entre eles.

Encanto não tem duplo significado. Encanta quem agrada, quem tem qualidades, quem desperta bons sentimentos. Uma criança chorava, a outra ria. Uma criança participava do enlace entre os pais. A outra estava à parte. Uma parte que espantava.

Todos em um vagão de metrô. Todos no movimento. Todos vindo de algum lugar e indo para algum lugar. Não sei de onde vinham nem para onde iam. Não sei quando haveriam de descer. Nem as razões que levavam ao encanto ou ao espanto. Sei que crianças dependem de vínculos. Dependem de dizeres e de atenção. Para o riso ou para o choro. Para a paz ou para o desassossego.

Falavam entre eles, os adultos, na viagem que faziam. E os filhos? Longe de mim decidir motivos, razões, vidas. Apenas nos vimos na viagem. Vejo, na viagem da vida, muitas crianças e seus pais. Ouço vozes de incentivo, palavras de amor. Ouço vozes de desprezo, palavras dor.

O que será dessas crianças? Encanto? Espanto? Quem decide o que seremos? De quantos ontens é feito o hoje. De quantos hojes se fará o amanhã? A semântica tem poder. Dizer a um filho, “você é um encanto”, tem poder. Dizer a um filho, “você é um espanto”, tem poder.

Lembrei-me de Guimarães Rosa e de seu Miguilim. E da importância do olhar dos adultos com as crianças. Miguilim era menino que via sem ver. Menino que nos ensina que ver bem, não raro, também vem de dentro. Tinha olhar de espanto para o mundo que o rodeava no sertão, mas de um espanto que provocava encanto. Certo dia, um cavalo trouxe um homem. Movimento simples, mas que agitava a vida pacata do Mutum. Miguilim, com espanto, notou que o homem era grande, claro, tinha óculos e chapéu diferente. O olhar do homem sobre Miguilim espantou-se porque o menino, para vê-lo, apertava os olhos. O desconhecido pediu para ir ter com a mãe. O doutor do cavalo e do chapéu emprestou-lhe os próprios óculos. O olhar de Miguilim encantou-se. Não podia acreditar. Tudo mudara. Tudo era mais lindo. O invisível se fez grande: o grão de areia, as pedrinhas, os detalhes caprichosos da natureza. E tudo era tão claro. A mãe incentivou: “Vai, meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve poder para te dar. Vai.”. E Miguilim foi. Partiu com o doutor para novo encanto. O encanto da cidade. Um olhar, um cuidado, uma atenção, um gesto. E um novo futuro descortinou-se para aquela criança.

O vagão chacoalhava. Interrompeu meus pensamentos. Os balanços nos levam um pouco mais a um lado ou a outro. É preciso aprender a se segurar. É preciso aprender a levantar, se porventura cair. Quem são os ensinadores? Que palavras devem ser usadas para ensinar? E os gestos? Lindo o gesto do menino com a cabeça no colo da mãe olhando para o pai.

O outro casal estava ocupado demais para ver o filho. O choro do filho. O espanto do filho. Talvez estivesse mesmo espantado. Espanto com a ausência da palavra encanto. Quem sabe no movimento do vagão, da vida, o menino encontre outros dizeres. Quem sabe. O que se sabe é que palavras têm poder. O poder de espantar. O poder de encantar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 12/03/2017

Cinzas

“Lembra-te que és pó e ao pó voltarás”. Quem foi à celebração da quarta-feira de cinzas ouviu essa frase ou uma outra que fala de conversão.

As cinzas têm uma carga de simbolismo desde o Antigo Testamento. Jó, o homem que ousou resistir ao sofrimento, vestiu-se de cinzas. Mardoqueu, no Livro de Ester, veste-se de cinzas, em defesa de seu povo. As cinzas são resultantes do fogo, por exemplo. Ou do que é pelo fogo consumido. Na “fogueira das vaidades”, na Florença dos tempos de Savonarola, depois de tudo o que era queimado, ficavam as cinzas.

A quarta-feira de cinzas marca o início da quaresma. São quarenta dias que preparam a Páscoa, maior festa do cristianismo. A quaresma é um tempo de penitência. Um tempo de pensar no tempo. E as cinzas nos ajudam, também, a pensar no tempo. E no que fazemos com ele.

“Lembra-te que és pó e ao pó voltarás”. Ou, em outras palavras, esqueça a arrogância, as vaidades, a avareza. Nada te pertence. Nem as coisas. Nem as pessoas. Nem o tempo. Tudo tem um curso. Um tempo de existir. Um tombo, apenas. Uma queda. Uma batida. E voltamos a ser pó. Uma doença. Um acidente. Uma disfunção. E voltamos a ser pó.

E, ao voltarmos, o que levamos? Os acúmulos? As glórias? Os aplausos? Os bens que trancafiamos como propriedade eterna? Nada. Absolutamente nada. Mas, então, para que produzirmos? Para que trabalharmos? Para que estudarmos alimentados pelo sonho de vencer na vida? Fernando Pessoa, no início de sua “Tabacaria”, nos dá uma pista. “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

O início do dizer poético é quase que uma explicação das cinzas, uma lembrança de que somos pó. De que nada somos. A fragilidade da vida atesta sua assertiva. Nada somos. Mas o que vem a seguir é animador. “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”. São os meus sonhos que me dão identidade. São os meus sonhos que me retiram da crueza do tempo. Os tempos duros passarão. As mágoas, as paixões, os desejos, passarão. As frustrações de hoje serão esquecidas, certamente. As derrotas de hoje só me incomodarão amanhã se eu permitir. Elas só têm significado quando a elas eu dou significado. Assim, também, um dizer de alguém que me feriu. Posso ampliá-lo ou reduzi-lo. Mudar o meu comportamento pelo comportamento errático de alguém é celebrar o erro. Prosseguir fazendo o certo é compreender o tempo.

Há vitórias que o tempo mostrará que não foram vitórias. Há derrotas que serão, com o tempo, comemoradas. Porque tenho em mim todos os sonhos do mundo. Todos os sonhos do mundo significam que os meus sonhos se agigantam quando sonho coletivamente. Que os meus sonhos para serem sonhos não podem ser mesquinhos. O mundo cabe em mim quando eu sonho em melhorar o mundo. Mas não sou nada. Sou pó. Sou um em bilhões. Mas os meus sonhos são diferentes de todos os outros. Também a minha digital. Também a minha identidade. Mas até a minha digital, que é única, voltará a ser pó. Antes disso, onde ela terá tocado? Midas transformava tudo o que tocava em ouro. Nos meus sonhos, no que gostaria de transformar tudo o que toco? Enquanto puder tocar. Os acúmulos se vão. Mas há algo que permanece. Há algo que permaneceu de muito, gente que já virou pó. Francisco de Assis também voltou a ser pó. Mas o que dele permaneceu? O que permaneceu de Castro Alves? Ou de Irmã Dulce? Ou de alguém que vivia na minha rua e que ninguém ouviu falar, mas que eu sei que melhorou o mundo.

Os sonhos coletivos. As cinzas, a efemeridade das coisas, os ajudaram a compreender onde deveriam deixar a digital, a marca, a vitória. Nos sonhos coletivos. No ajudar como uma escola de humanidades, no acolher como uma pedagogia do encontro, no viver como uma missão que transcende o ter. O que tivermos perecerá. O que deixarmos ficará.

“Lembra-te que és pó e ao pó voltarás”. Essa oração diz muito. Nada de superioridades ou arrogâncias. Nada de apegos exagerados. Nada de mesquinharias. Tudo passa. O prazer ou a dor. O desejo ou a apatia. Passa.

As cinzas, resultado do que se é queimado, também significa que essas coisas passageiras podem ser queimadas dentro de nós mesmos. Para que caibam todos os sonhos do mundo. Esses não passam porque me fazem ter a certeza de que, embora um em bilhões, faço parte da melhoria desse mundo. Onde nasci. Pó. E de onde um dia vou me despedir. Pó.

Tenho em mim todos os sonhos do mundo. Para quem crê que o que vem é muito melhor, depois que voltarmos ao pó, o sonho coletivo é ainda mais necessário. O amor permanece. O amar nos faz permanecer. Depois da quaresma, a páscoa. O partir é um transformar. O fogo também gera luz. O pó haverá de ser o que nem em todos os sonhos deste mundo cabe. Vida.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O dia – RJ) | Data: 05/03/2017

O dia da alegria

E é de novo carnaval.

E é o dia da alegria. Há sambas e marchas e canções que evocam que é hora da tristeza ir embora e da alegria chegar. A festa foi se agigantando país afora. Ritmos e estilos diferentes foram ganhando adeptos. Escolas de samba, blocos de rua, frevos, axé, clubes, salões, bares, botequins. Cada um encontra o seu jeito de viver a festa.

A festa passa. Como dura pouco, já inventaram antecipações e prorrogações. Já criaram carnaval fora de época. Tudo isso para que a alegria possa reinar? Mas o reino da alegria só se dá no carnaval?

Há alguns que extravasam. Rompem suas durezas e se lançam a alimentar fantasias impróprias para outros dias. Há os que bebem em exaustão. Há os que pedem férias de amores duradouros para aproveitar o reinado de Momo com novos acompanhantes. Há os que se vestem do que gostariam de ser, mas não têm coragem nos dias comuns. E há os que desprezam os dias comuns, porque neles não há carnaval.

As despedidas são sentidas. Agora, só no ano que vem. Agora, vêm os dias comuns.

Nada contra o carnaval. Há espetáculos belíssimos que merecem ser contemplados. Há esforço de comunidades inteiras para contar uma história na avenida. Há amigos que saem para brincar e que brincam com os cuidados necessários de quem sabe que amanhã é um dia comum.

Mas se nada tenho contra o carnaval, nada tenho também contra o dia comum. Pois, durante o ano , tem mais dias comuns do que dias de carnaval. E eleger o dia da alegria, apenas no carnaval, é desperdiçar a alegria que está contida em cada dia comum.

Uma vez ouvi um folião dizer a outro: “Beba, beba para relaxar, beba para ser livre, beba para ser feliz!”. O outro folião, decidido, respondeu: “Já nasci relaxado, livre e feliz.”

Há muitas formas de viver a alegria. O carnaval é uma delas. Ou uma viagem. Há alguns que, nesses tempos de barulho, preferem o silêncio do campo, preferem escalar uma montanha, preferem namorar em casa, um amor romântico ao som de qualquer canção.

Dias de feriado são bons para que pausas necessárias nos recobrem, inclusive, o prazer de estudar, de trabalhar. Dias de feriado nos ajudam a encontrar aqueles que, nos desencontros em que nos metemos, ficam distantes. Dias de feriado são mais escassos do que os dias comuns.

Eleger os dias de feriado como os dias da alegria também não parece ser a melhor escolha.O dia da alegria é, definitivamente, o dia comum. O que acordamos e nos vestimos para viver. E encontramos os mesmos encontros exigindo de nós alguma nova disposição. Amores não envelhecem. Amadurecem. Amizades perdem a curiosidade da novidade e ganham a notoriedade da permanência. Permanecer amigo de alguém é aceitar as misturas que dão sabor ao existir. E a amizade não é assunto apenas de carnaval ou de feriado. É de todo dia.

Quem não encontra a alegria no dia comum não encontrará no carnaval. Quando muito se dopará de uma falsa sensação. E se obrigará a transmitir o que não vive. E se vestirá de uma máscara com tempo curto. Melhor viver o carnaval como se vive um outro dia. Com os cuidados e os desejos necessários. Com os encontros que não causem arrependimentos. Com as danças ousadas e sóbrias. Com explosões que não machuquem ninguém.

O dia comum é um mistério a ser desvendado. A beleza da rotina me faz ver as roupas estendidas no varal e gostar de vê-las. Me faz saborear uma refeição matinal planejando um dia bom que está por vir. Me faz beijar a pessoa que amo amando amar alguém. Como é difícil encontrar um amor! Quem encontrou cuide. Cuidar é um verbo bom de conjugar. No carnaval e nos dias comuns.

O dia comum é um texto leve se o vivo com leveza. Se compreendo que é nessa repetição que a novidade me fascina. Abrir uma porta. Fechá-la. Abrir uma janela. E as cortinas, quando há. Limpar o pó que veio da rua. Ir à rua com o mesmo prazer de chegar em casa. Encontrar na própria casa um canto sagrado, ou mais de um, ou fazer da casa um sagrado aconchego para os dias comuns. Os dias comuns são enfeitados por pessoas comuns. Pessoas comuns são extraordinárias pelo simples fato de serem pessoas. Não se repetem. Nunca. Nem nos dias comuns.

E é de novo carnaval. Que bom! E que bom que, depois do carnaval, vem o dia comum. O dia da alegria.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia) | Data: 26/02/2017

A ‘Pós-verdade’ e a verdade

“Pós-verdade”, como conhecemos hoje, é uma palavra, que foi usada pela primeira vez em 1992, pelo dramaturgo Steve Tesich. De lá para cá, ela ficou restrita a alguns grupos que tentavam compreender o sentido do pouco apreço pela verdade. Ou da “preguiça de pensar” sobre o que se tenta vender como verdade.

Foi no ano passado, entretanto, que a “pós-verdade” ganhou força. Tamanha força que a Oxford Dictionaries a elegeu a palavra do ano de 2016.

Donald Trump vendeu que estava sendo apoiado pelo Papa Francisco, vendeu que Barack Obama era um dos fundadores do Estado Islâmico. Vendeu que, proibindo os estrangeiros, garantiria emprego a todos os americanos. Sem a tal “preguiça de pensar”, esses produtos não seriam comprados. Trump venceu as eleições. Venceu prometendo ser a voz dos americanos, venceu prometendo destruir pontes e criar muros – o oposto de seu antecessor.

A Grã-Bretanha decidiu deixar a União Europeia. A venda deu certo. O discurso de que o custo para os ingleses era exorbitante fez eco.

Por aqui, muitos políticos venderam que não eram políticos e ganharam as eleições em importantes cidades. O eleitor comprou. Os que têm o poder de investigar defendem a ideia de que precisam falar muito sobre suas investigações para que tenham apoio popular. A mídia compra essa ideia. E se apressa em criar mitos e destruir biografias. A “preguiça de pensar” diminuiu a possibilidade de uma reflexão mais profunda sobre o papel de quem tem o poder de investigar. E o povo acompanha o desenrolar de casos e mais casos de corrupção. Não sabe muito bem dos detalhes –”preguiça de pensar”–, mas divulga-se pelos meios disponíveis o que dos meios disponíveis recebe. Combater a corrupção é um dever de governantes e de governados. É lutar contra uma praga que há muito rouba direitos de quem mais precisa. Mas há que se atentar para os que se valem desse discurso com fins pouco corretos. Ou dos que, com “preguiça de pensar”, generalizam o mal feito.

Frequentemente, vejo alguém comentando uma verdade recebida pelo Facebook ou pelo Whatsapp. Frequentemente, vejo a própria pessoa que acabou de comentar a tal da verdade pensando sobre ser a sua verdade inverossímil. Pensou um pouco e percebeu que o que foi vendido como verdade não poderia ser comprado. Mas sem esse pensamento, as máquinas de divulgação vão registrando os compradores desses boatos. As crenças pessoais, os preconceitos, os egoísmos vencem os fatos objetivos.

É certo que as novas formas de comunicação têm sido um canal dessas não-verdades. Mas os meios tradicionais de notícias também vêm sendo pouco criteriosos no trato com a verdade. Justiça seja feita, há excelente jornalistas, mulheres e homens ciosos do seu ofício e do seu poder. Mas há também o outro lado. A busca pelo furo jornalístico, ou outras razões pouco éticas, faz com que a verdade seja menos importante do que alguma fonte que garanta que, pelo menos, há alguma fumaça para que o noticioso fogo ganhe espaço. Se no dia seguinte se descobrir que a fumaça era de pó de estrada e não de lenha de floresta, escreve-se sobre outra coisa. Admitir o erro é exceção no mundo da imprensa.

Mas se é fato que vivemos a “pós-verdade”, o que fazer para virar a página? O que fazer para escrever um outro texto? Mais elaborado. Com mais cuidado. A verdade é uma utopia? A verdade é relativa? É possível se chegar à verdade? Essa discussão não é nova! Desde Sócrates e dos sofistas, trava-se essa batalha. Sócrates queria a verdade. Os sofistas não se preocupavam com ela, mas com a aparência da verdade. Como não acreditavam na verdade, queriam o que parecesse ser a verdade, talvez para agradar, talvez para receber o vaidoso aplauso. Sócrates não se preocupava em agradar. Preocupava-se em chegar até a verdade, demorasse o tempo que fosse necessário. Como dizer isso a um jornal de televisão ou de rádio? Ninguém tem tempo. A notícia vendida por alguém é comprada por outro alguém e vendida para milhares ou milhões de pessoas. Mas e a verdade? E os danos provocados pela ausência da verdade? Ausência que pode vir da pressa ou da má fé. As audiências dos telejornais têm caído. O número de leitores de jornais e revistas, também. Há uma nova geração descrente das informações que a mídia tradicional passa. Mas crentes no que leem em seus círculos digitais. O cenário é bastante estranho. Mas há saída. E a saída é a educação. Do povo e dos jornalistas. Do povo e dos que devem promover a justiça. Do povo e dos marqueteiros das eleições. Do povo e dos políticos. Parece utópico, mas, se combatermos a “preguiça de pensar”, o ciclo da “pós-verdade” pode causar menos estragos e ser menor.

Entre Sócrates e os sofistas, a humanidade optou por Sócrates. Na teoria.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Poder 360) | Data: 22/02/2017