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Olhares de amor

Era um almoço em um dia comum. Dias comuns se sucedem e nos surpreendem quando permitimos. Sentei-me em uma cadeira confortável junto a uma mesa com alimentos preparados com muito cuidado.

Eles gostam de cuidar. Gostam de receber amigos. Gostam de palavras que unem. Estão unidos há 40 anos.

Carlos teve uma indisposição no dia anterior. Comeu alguns doces que não lhe caíram bem. Tomou algum medicamento e sentou-se para almoçar algo leve.

Beth sabia disso. Beth sabe de tudo o que se passa com o seu amor. Trabalham juntos. Sonham juntos. Vivem juntos uma juventude que desafia o tempo. Ah, eram muito jovens quando se viram pela primeira vez. Nem imaginavam o quanto seriam capazes de construir.

Carlos coloca pouca comida em seu prato. Beth presta atenção. Insiste que coma um pouco mais, mas que prefira o que é mais saudável. Para que melhore. Para que fique bem o quanto antes. Carlos parece estar distraído com a conversa. Ela insiste. Eles se olham. E foi aí que nasceu este artigo. Os olhares se cruzam, olhares de amor. Um amor que cuida, que se preocupa, que compreende que a vida de um e de outro ganha mais significado por estarem juntos.

Conheço outros casais assim. É difícil imaginar um sem o outro. Os tempos das labaredas da paixão dão lugar a uma brisa gostosa do amor. Do amor que respeita. Do amor que compreende. Do amor que se doa.

Não há amor onde não há entrega. Os que se fecham em si mesmos, os que se trancafiam em seus desejos, os que se imaginam o centro de tudo, esses se perdem nos egoísmos comuns dos que não amam. Os que assim agem, quando estão casados, exigem a renúncia do outro, querem o que não dão, acham-se – de alguma maneira – mais merecedores da realização pessoal do que o outro. Podem, inclusive, estar juntos há muitos anos. Mas, perdoe-me, sem amor.

Há histórias de violência e de acomodação. Há histórias de desrespeito e de humilhação. Vidas desperdiçadas. Piadas incômodas. Ditos mal escolhidos. Lembro-me de um marido dizendo, em tom de galhofa, que trocaria a mulher de 50 por duas de 25, que custariam menos e dariam mais prazer. Os filhos à mesa observavam os gestos do pai. Machismos colocam as mulheres como objetos. E não falo do ontem, mas do hoje. Cenas que se sucedem como uma sina triste de incompreensão de uma verdadeira história a dois.

Carlos diz a Beth que está melhor, que ela fique tranquila. Ela sorri. Ele prossegue dizendo: “Minha mulher é linda, não é?”. Eu aceno com a cabeça concordando. Beth diz alguma coisa que está mal arrumada, que trabalhou a manhã toda. E olha novamente para o seu amor. E ele me olha dizendo que é um homem de sorte, em um mundo tão grande, encontrar sua Beth, é bom demais.

Beth é mais tímida do que Carlos. Pega em sua mão. Agradece sorrindo. Ele pede licença e vai pegar alguma coisa. Ela começa a elogiá-lo, a dizer o quanto ele faz para ajudar as pessoas, o quanto ele se desdobra para que todo mundo esteja feliz. Reclama de alguns que não são corretos. Conta uma e outra história. Ele volta. Senta-se novamente. Pega a mãe de sua mulher e beija com carinho. E se olham. E me conta dos anos em que estão juntos. Já me falaram sobre isso outras vezes. Mas é sempre muito bom ouvir. E ver a sinceridade do enredo. As palavras bem colocadas nascidas dos sentimentos.

Chega a sobremesa. Eu lamento que o almoço esteja terminando. Era um dia comum feito extraordinário com aquele amor. Conversamos um pouco mais sobre a vida. Sobre os tempos difíceis que estamos vivendo. Sobre a necessidade de estarmos mais próximos. De nos aquecermos com os nossos afetos.

Chega o café bem quente. E eu conto, a eles, uma história que vivi com uma escritora. Perguntou-me ela se eu gostava de café. Eu disse que “sim”. Ela aumentou o entusiasmo para dizer que gostava muito. E respirou fundo dizendo que já sentia o cheiro. Que já estavam trazendo. Quando chegou o café, ela prosseguiu em seu prazer simples. E confidenciou-me que gostava, também, de mexer o café com o dedo, “esquenta o dedo da gente”.

Carlos e Beth riram, olharam para as suas xícaras, mas não quiseram experimentar a quentura do café no dedo. Preferiram continuar com o prazer do olhar, do sorrir e do me receber ali naquele recanto encantado de um dia comum.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 09/07/2017

A verdade e as suas delicadezas

Paulo é um dos milhões de desempregados que vivem a cotidiana angústia da procura e da espera. Sai cedo. Banho tomado. Cabelo arrumado. Barba feita. Faz as entrevistas que consegue. Fala com algumas pessoas. Envia currículos. Pesquisa aqui e ali.

Paulo decidiu não ficar parado. Conhece alguns que apenas aguardam que a sorte os empurre para outra oportunidade. Conhece outros que despencam em balcão de bar em busca de uma sensação melhor que os alivie da triste realidade. E outros ainda que vivem a ilusão de que tem os mesmos recursos de outros tempos.

Paulo tem dois filhos. Um tem 9 anos e o outro acabou de nascer. Sua mulher ainda goza da licença-maternidade. O que ela ganha mal garante o alimento da casa. Paulo nunca foi perdulário. Sempre guardou algum dinheiro para a eventualidade de dias difíceis. Os dias difíceis de Paulo foram virando semanas e meses. Os recursos findando. As esperanças lutando contra os tantos nãos que se multiplicaram.

É triste voltar para casa e encontrar o Júnior, seu filho, perguntando: “Então, papai, arrumou alguma coisa”. Como Paulo gostaria de dizer que ´sim´. De abraçar o filho com todo o entusiasmo do mundo e dizer ´sim´. E de sorrir um sorriso demorado. E de brincar de felicidade novamente. Mas esse dia ainda não chegou.

A mulher o incentiva. Há amor na casa de Paulo e de Valéria. Júnior está na escola. Paulo conseguiu algum desconto e alguma dilação de prazo de dívidas acumuladas. O filho quer muito continuar na mesma escola. Foi quando se deu esse diálogo:

“Pai, vai ter a viagem da escola para Foz de Iguaçu. Dizem que é muito lindo, pai. Eu quero muito ir. Toda a minha turma vai. Eu quero ir, pai. Por favor. Por favor”.

Foi um dia difícil. Havia uma possibilidade em uma boa indústria que estava contratando. Ele fez mais de uma entrevista. Animou-se. Teve a certeza de que daria certo. Não deu. A resposta veio exatamente no dia em que o filho falava da excursão.

Como seria bom dizer que ´sim´. Como seria bom compartilhar a efusividade do filho. “Claro, meu filho. As Cataras do Iguaçu são lindas. Você merece. Você é um filho maravilhoso. Um filho amado”. Não. Não podia dizer isso. Não teria como pagar. Já estava devendo a escola. Já havia vendido o carro. Já comiam com menos fartura. Já reduziram o plano de saúde.

A mãe estava na sala amamentando Leandro, o segundo filho. Ela olhou para o marido. Abaixou a cabeça. Escondeu alguma expressão de tristeza e se concentrou no que estava fazendo. Paulo pediu ao filho que se sentasse mais perto. Deu um sorriso lindo. Disse que faria qualquer coisa para fazê-lo feliz. Que o amava muito. O filho começou a pular de alegria. Pressentia o ´sim´. Paulo pediu que ele se acalmasse. E, delicadamente, prosseguiu: “Filho, tenho que ser verdadeiro com você. Você merece essa viagem. Mas eu não tenho dinheiro para pagar. Gostaria de ter. Mas não tenho. Não sei quando vou arrumar um outro emprego”. Júnior insistiu um pouco, argumentando que todos os seus colegas iam. O que ele iria dizer para se justificar? O pai prosseguiu: “A verdade, filho, a verdade”. O filho ficou olhando: “Diga que seu pai perdeu o emprego, que está buscando outro e que, nesses tempos difíceis, não dá para gastar o que não se tem”. Paulo abraçou o filho. Choraram juntos. Paulo não estava chorando apenas pela excursão. Aproveitou para chorar as tantas negativas. Os que o abandonaram. Os ventos amargos das portas que se fecharam.

“Filho, eu tenho uma ideia. Durante os dias em que eles estiverem viajando, vamos ficar mais juntos. Vamos pesquisar histórias bem legais. Sua mãe e eu vamos contar para você. E vamos ter paciência. As coisas vão melhorar. E nós iremos juntos para muitas viagens”. E contou do avô de Júnior. De tempos também difíceis e de como foi importante ter um pai que sempre falou a verdade. Lembrou-se de outros que buscavam aparentar o que não tinham. De um que dava tudo ao filho, que queria a aparência de riqueza e que acabaram todos sem nada. Na simplicidade, Paulo aprendeu com o pai o que era essencial. E o essencial tentava passar ao filho.

A mãe terminou de amamentar e olhou para os seus homens. Sorriu. Orgulhosa. Feliz pela escolha que teve. As tempestades independem dos marinheiros. Mas bons marinheiros conduzem as embarcações com muito mais segurança. Leandro ainda não entendia o que se passava, mas se entregava em confiança depois do peito generoso. E sorria prenunciando dias bons para aquela família.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 25/06/2017

A despedida do meu filho

Era um velório. Um velório de um jovem. De um jovem negro. Numa região pobre de uma grande cidade.

O mapa da violência no Brasil é estarrecedor. Desperdiçamos vidas. O número de mortos é superior a regiões de guerra. Entre 2011 e 2015, a sangrenta batalha na Síria levou 256.124 vidas. No Brasil, no mesmo período, a sangrenta batalha do dia a dia levou 278.839 vidas. 1 pessoa é assassinada no Brasil a cada 9 minutos. São 160 mortos por dia.

Era o velório do filho de Aurora. Aurora é um lindo nome. Significa amanhecer. Mas o amanhecer daquele dia foi doloroso. Tão doloroso quanto o amanhecer de tantas mães que veem seus filhos prematuramente partindo.

Aurora é professora. Paulo era o seu único filho. Aurora teve uma vida sofrida. Não conheceu o pai. A mãe, entre bebidas e lucidez, criou-a com algum cuidado. Com o que conseguiu. Ela teve garra. Ousou enfrentar o destino e se destinou a uma vida melhor. Estudou com afinco. Mulher, negra, pobre, a salvação estava no livro. Decidiu ela. Formou-se professora. Professa todos os dias a crença de que há de salvar, do fim antecipado, os seus alunos. Entristece-se quando vai ao cemitério do seu bairro. Quando lê nas lápides dos túmulos a data de nascimento e a de falecimento dos que ali foram deixados. Jovens.

Aurora sempre teve a consciência de que não se combate violência com violência. Mas com inteligência. Não acredita em fórmulas mágicas, em promessas de políticos inconsistentes. Acredita no trabalho. E no amor. É com amor que ela vai todos os dias para a sua escola e olha para aqueles moços cheios de certeza de que ela pode fazer a diferença em suas vidas.

Mas, hoje, Aurora está triste. O filho foi vítima de uma das tantas balas perdidas que encontram pessoas. E lá está em um caixão o filho de Aurora.

Ele sonhava ser engenheiro. Sempre gostou de matemática. Gostava de ver as construções. Dizia que gostaria de construir casas populares. Casas para quem não tem. Para quem sonha. Era um sonhador o filho de Aurora.

A mãe olha para o filho e nem tenta entender. Apenas sentir. Aperta o peito com as mãos. Chora silenciosamente. Pensa no depois. Na casa vazia. Nos livros com as anotações dos estudos. Nas fotos. No quarto com suas lembranças. Nas promessas de que seria ele a cuidar dela quando ela envelhecesse. Na injusta vida que inverteu a ordem de tudo. Quem é responsável por essa dor? Não. Ela não está pensando apenas no que disparou o tiro. Está pensando em todos que fazem isso. Está pensando nas mães dos outros que, naquele dia, também estão chorando. O que o homem está fazendo com o homem? O que a humanidade está fazendo com a humanidade. Como se combater o foco que gera a violência?

Ensina ela literatura. Gosta de falar das personagens que amam e que sofrem. Explica que a literatura é a história dos sentimentos. E que os sentimentos, geralmente, são bons. Que há muitos que sofrem por uma fotografia no passado. E o passado é filme e não fotografia.

Quando se olha o todo, há mais para celebrar do que para lamentar. Mas e agora? A foto diante do caixão vai transformar o filme da sua vida? Como voltar a sorrir? Como sair de casa normalmente e ir trabalhar? Como voltar depois? Como esperar os fins de semana com algum bom programa com o filho? É dor doída demais.

Aurora é guerreira. A tristeza não será fácil de ser superada. Mas haverá outros amanheceres. Outras famílias precisando de quem não desista. De exemplos de superação. De dedicação.

Amanhã, será um outro dia triste para Aurora. Para outras mães. Para outras famílias. A guerra continua. A violência desafiando os que sonham com a paz. Com a paz no mundo. Com a paz nas mentes. Inclusive daqueles que não pegam em arma, mas se armam para odiar.

Amanhã, será um outro dia para Aurora se lembrar, chorar e levantar. Em decisão de melhorar o mundo. É isso que ela pensa. O seu filho se foi. Os filhos dos outros ainda precisam dela.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 11/06/2017

A vida de nós dois

Ela estava chegando. Eles estavam chegando. Foi o que ele me disse.

Ela é a mulher. Eles, a mulher e o filho que vai se formando dia a dia dentro dela.

Ele, o que me disse, é o pai. Um pai feliz.

Estão juntos há alguns anos. Ela já tem uma filha, fruto de uma outra história. Ele a cria, como se filha fosse. São felizes os três. E os gatos que vivem no apartamento deles. E, depois de muitos anos, vem ela com a notícia de que terão um filho.

A mãe dele já começou a costurar o que haverá de agasalhar o menino. Sim, já sabem que é um menino. Ele, que é flamenguista, está grávido das histórias que haverão de viver juntos. Dos jogos de futebol. Das corridas na praia. Dos passeios em família. Fala com os olhos acompanhando a voz. Fala da mulher que está chegando e me diz, com romantismos aos montes, que ela é linda, muito linda. Ela chega e nos cumprimenta. Disse que engordou muito. Ele sorri. Fica quase sem texto de tanta paixão. Não sei se é invenção minha, mas percebi os seus olhos marejados. Ela disse quanto engordou. Disse que não estava enjoando mais. Disse que a filha é quem havia decidido o nome do irmão. José Pedro. Disse que passou alguns dias em repouso. Ela foi dizendo e dizendo. E ele, com aqueles olhos, fitando a amada. Grávidos os dois, certamente. Ela voltou a falar em gordura. Foi quando ele protestou com delicadeza. Confessou ali que ela era a mulher mais linda do mundo. E que “a vida de nós dois” estava fazendo dos dois o casal mais feliz do mundo. Ela sorriu. Ele abaixou e acariciou a barriga. Conversou com o filho. Teve a certeza de que ele estava ouvindo. Ela acariciou o cabelo do marido, enquanto olhava para baixo e contemplava a conversa entre seus dois amores. Explicou que agora serão quatro. E mais os gatos.

Disse ele que tiveram tempos difíceis. A crise financeira é grave. Contas não esperam a maré baixar. Desânimos de negócios que não se concretizam. “Mas tudo mudou”, explicou o pai. Para nós. Para os meus pais. “Você não sabe quanto estamos trabalhando a mais”, falou ele. “Quanto queremos melhorar este mundo para esse menino que está chegando”. Abraçaram-se os dois. Beijaram-se com delicadeza. Ela se foi. E ele continuou falando de suas histórias.

Fiquei ouvindo. Fiquei comungando daquele sagrado enlace. Fiquei sonhando com que outras histórias pudessem ser assim.

As vidas em formação no ventre de uma mulher sentem as ausências e as ternuras, a violência e os beijos, os gritos e as palavras de boas-vindas. As mulheres grávidas vivem as carências naturais de um corpo em transformação. Mas quando encontram companheirismo, permanência, amor, as carências compreendem que há algo mais profundo pedindo para nascer. Monteiro Lobato, em determinado momento da vida, cansado dos cansaços provocados pela perversidade dos homens, resolveu escrever para as crianças.

Os homens agridem, insultam, mentem, violentam a própria essência. O que os leva a isso? O que os leva a dessacralizar o sagrado sentimento do amor? Mulheres grávidas também são espancadas ou esquecidas. Crianças recebem os ódios dos adultos. Desperdiçam os adultos a suavidade de um beijo em uma barriga que cresce e cresce, com uma vida que trará a outras vidas, vida. É do poeta indiano Tagore a mensagem de que “cada criança que nasce nos traz a mensagem de que Deus não perdeu a esperança nos homens”.

Despedimo-nos. Ele ainda teve tempo de dizer que faria, naquela noite, uma surpresa para sua mulher. Surpreendemo-nos com essas histórias, recheadas de humanidade. É isso o que somos. A perversidade não faz parte de nós. Chega por alguma razão. Fica. E espanta o que de fato somos.

Qual o surpresa que ele fará para sua mulher? Pouco importa. O que importa é o sorriso nos olhos, quando ele diz isso, e pensa que a noite será deles.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 04/06/2017

Na simplicidade, Deus

Seu João vive no interior. E gosta de viver no interior. Não conhece as grandes cidades. Mas não sente falta. Gosta do lugar em que nasceu. Das montanhas que protegem seu vale. Dos riachos. Dos cantos que inauguram seus amanheceres. Identifica os pássaros. Os de canto curto. Os de canto prolongado. Os mais barulhentos. Os mais afinados. E não se incomoda com os galos madrugadores.

Gosta do mexer sem pressa a xícara de café, enquanto olha pela janela. A paisagem é sempre a mesma. Nunca é a mesma. Nos dias frios, aconchega-se em um velho cobertor de lã. Velho, mas valioso. Para ele. Pelos dias que foram aquecidos. Pela mulher que já partira.

Doente. Valente. Morreu Adélia no inverno. Fazia frio quando o sino da cidadezinha chorou as badaladas tristes. Os amigos foram. O padre lembrou as caridades que Adélia fazia. Era cantora, também. Cantora de Igreja. Afinadíssima como alguns passarinhos, na opinião de João. Por que morrera antes dele? Porque é assim. Preferiria que partissem juntos. Mas não dependeu dele. O que dependeu ele fez. Amou. Cuidou. Tomou os cafés sem pressa reparando na sua mulher. Que era sempre a mesma. Que era sempre diferente.

Conheceu Adélia ainda menina. Gostou do nome e do jeito. Tímida. Recatada. Ensaiou alguma aproximação. Foi feliz. Foram felizes. Os dias que viveram juntos anteciparam o que acredita João ser o Céu. Amor em abundância. O pouco que tinham, dividiam. Nada de trancafiamentos. Nada de mesquinharias. Nem nos sentimentos. Nem nas posses. Poucas posses tinham os dois. Não tiveram filhos. Tiveram momentos regados por dizeres e pausas. Juntos.

Seu João lembra da amada todos os dias. Sem as dores dos primeiros dias sem ela. Lembra até com alguma alegria. Das coisas engraçadas. Dos erros que cometeram. Dos acanhamentos. Em dias de festa, quando havia gente de fora da cidade, Adélia tinha vergonha de cantar na Igreja. João sabia disso e, por isso, ficava mais junto dela.

Há crianças na rua em que Seu João mora. Ele é aposentado. Tem tempo para contar histórias. E gosta de fazê-lo. No passado, trabalhou na estrada de ferro. Gosta de falar sobre o trajeto dos trens. Sobre a época em que havia passageiros. Sobre as mulheres que chegavam com vestido gordo e chapéu elegante. Sobre os homens que achavam a cidade muito pequena.

Conta histórias que contaram para ele. Sempre dá um jeito de falar de Adélia, da cantora que canta no Céu. Foi quando Felipe quis saber onde ficava o Céu. Seu João olhou para o alto. Abaixou o olhar. Colocou a mão no coração. Apertou. Fechou os olhos. Abriu os olhos. Respirou profundo. Deu um sorriso. E respondeu: “Quem sabe?”. Sorriu novamente e certificou: “Que existe, existe”.

Leninha pediu outra história. Felipe insistiu nos questionamentos: “E Deus?”. “O que é que tem”?, devolveu Seu João. “Onde mora Deus?”

Seu João aproveitou a pergunta e perguntou para as crianças. Cada uma respondeu o que quis. “No Céu”, “Em todo lugar”, “Na Igreja”, “No coração da gente”. E a cena seguia naquele interior. Seu João sorria e agradecia por viver ali. Pensava ele, consigo mesmo, numa frase que alguém um dia falou: “Na simplicidade, Deus”.

Contou a história, para aquelas crianças, de uma mulher que chegou à estação e não sabia para onde ir. Bonita, mas sem destino. E, na estação, encontrou um homem meio desanimado da vida. Alguma nuvem se apressou e o sol pôde iluminá-los. E, juntos, mudaram um ao outro. E foram felizes. O amor faz essas gracinhas.

Levantou-se e foi até a velha cozinha. Tirou a tampa de um pote de vidro alto e retirou os biscoitos de polvilho. Ajeitou tudo em uma tigela e levou para as crianças. Sentou-se novamente e foi servindo uma a uma. Esqueceu-se do suco. Disse que já pegaria. Enquanto mordia aquele biscoito, fechava os olhos e se lembrava do quanto era boa a vida.

Felipe se ofereceu para pegar o suco. Ele agradeceu. As crianças queriam mais histórias. Ele queria contá-las. Vez ou outra, ele se interrompia para explicar o pio de algum passarinho. O entardecer já chegava. Foi quando Seu João pediu algum silêncio para que vissem juntos mais um pôr do sol. Enquanto via, ele pensava nas perguntas. “Onde fica o Céu?”. “Onde mora Deus?”.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 28/05/2017

Folhas caídas de outono

Há quem não repare. Há quem se ocupe de outros afazeres. Há quem teime em acreditar que é tudo sempre igual.

O outono não é igual ao verão nem é igual ao inverno. Está entre eles. Com suas folhas secas, com sua folhas caídas. Com seus ventos mais assanhados. Com suas árvores nuas.

É outono. O calor audaz já se foi. E o frio ainda ensaia sua chegada. Há quem prefira a primavera com suas abundâncias. São vidas e vidas querendo exibir que um novo ciclo se inicia. Calma. É outono. As folhas caídas, o desprendimento, as despedidas. Nada é definitivo. Nem a paisagem com as árvores nuas.

Eu era criança e gostava de desenhá-las assim. Parece que nuas eram mais puras. Mais prontas para o que viesse. Nuas eram necessariamente mais carentes de uma outra estação.

As árvores sorvem da mesma terra que nós. Nus estamos mais prontos. Há folhas que precisam cair. Deixar espaços para outros adornos. Os acumuladores têm mais dificuldades – se enchem, se preenchem, se sufocam do que já não tem vida. Do que dificulta a vida. Sem espaços como receber o novo? Se nada damos, onde guardaremos o que nos chega? Sempre chega.

Quem deixa um emprego e não o deixa. Quem deixa um amor e não o deixa. Quem deixa uma casa e não a deixa. Como estará pronto para um novo emprego, um novo amor, uma nova casa?

Os medos nos convencem a não permitir. Preferem o que há. Acostumaram-se com a estação. Mas elas mudam, ora. Na dinâmica da vida não nos foi dado o controle da permanência. As árvores não deixam de ser árvores mesmo nuas, mesmo frondosas, mesmo abatidas pelo frio ou calor. A essência humana também permanece. E dela não se deve abrir mão. O que nos identifica. O utilizar a razão. O viver a emoção.

Imaginem um aposentado que continua se arrumando para trabalhar no mesmo emprego. Que não se desacostumou dos costumes que já passaram. Que sai de casa e vai. E anda por perto. E espera. E depois volta. Imaginem alguém nas férias acompanhando o substituto por não conseguir desapegar daquele espaço, naquele tempo. Imaginem um amor que morreu. Amores morrem. Como folhas que caem. Imaginem a teimosa presença no cemitério dos sentidos em busca de alguma resposta. Há que se ter o tempo do luto. Folhas caídas são levadas pelo vento. E , depois, um tempo de dor, talvez. Inverno. E depois a prontidão para as novas folhas, os novos encontros, a nova capacidade de sorrir.

A vida feliz não é a vida de uma única estação. É a que compreende todas elas. Que as teme. Que as enfrenta. Que as vive. Há estações em que as noites são mais prolongadas. Há outras em que os dias resistem por mais tempo. Mas passam. Dias e noites se alternam em qualquer estação. Noites intermináveis terminam. Ouvi de um sábio que não se deve decidir nos escuros das noites. Há mais carências. Há mais desconhecimentos. Os dias nos revelam melhor, trazem-nos alguma lucidez, se assim permitimos.

Os dias não podem, entretanto, ser a garantia de que estamos vendo tudo. Que a clareza do sol é a clareza da consciência. É preciso ir com calma. As folhas não caem todas de uma vez. Nem nascem antes do tempo. O que imaginamos sentir nem sempre é o que sentimos. Palavras ditas na pressa correm mais riscos.

Tempo bom o do fogão a lenha. Demorava mais para aquecer, mas o calor permanecia por muito mais tempo. Tempo. Para que tanta agitação?

Os ventos de outono têm uma função. Todos os ventos têm. Levam o que precisa ser levado. Sopram para bons alívios. Trazem outras sensações. A liberdade humana rompe os ciclos da natureza. O outono não pode decidir se manter por mais tempo nem partir antes. As águas de um rio também não têm esse poder.

A liberdade é um vento bom e é uma tempestade. Depende. Do que conhecemos. De como nos fazemos. Do que permitimos que caia e que fique. Que morra e que viva.Aproximamo-nos da natureza quando nos fazemos simples. A sabedoria nos ensina a viver os ciclos. Sem brigar com eles. Despedidas. Acolhidas.

Há quem não repare. Nem na natureza nem em si mesmo, filho ilustre da natureza. Há quem desperdice a luz que nos faz escolher, viver. Há quem repense e tente novamente. Porque, depois de cada noite, há um dia. Convidando a perceber. A ser.

É bom viver o outono. Com suas folhas caídas. Com suas árvores nuas. Com seu ventos que levam e trazem. E que fique o que tem que ficar. O que somos. E que o resto vá. Como tem que ser.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 21/05/2017

Mãe, o milagre do encontro

O encontro se deu entre o espermatozoide e o óvulo. E a vida foi encontrando sua forma. Pedaço por pedaço. Detalhe por detalhe.

Coração transmutou-se em corações. Os dois ritmando a vida. Uma chegando, e a outra autorizando. E o cordão, enfim, cortou-se. Apenas o cordão. O resto permaneceu.

Os corações jamais se distanciaram. E, nas pequenas quedas, no engatinhar, no caminhar, no chorar, o encontro aliviante. Nos cortes que doem, o poder cicatrizante dela. Da mãe. No seu colo, o recobrar de forças. Crianças ou adultos descansam ali. Choram ali. Realimentam ali os seus sonhos. Enquanto dormem o sonho bom, encontram o aconchego. E se valem do direito de estar ali. Tendo errado ou não. O amor de mãe suplanta erros e acertos. Não que não devam elas consertar o que se quebrou. Mas com jeito. Almas alquebradas precisam de algum cuidado. Elas têm.

Nos inícios, os choros são mais previsíveis. Depois, há razões para o debulhar que, talvez, elas desconheçam. A vida é cheia de paisagens. E de becos. E de lamas. E de água para a limpeza. Os sofrimentos virão sempre. Quem os teme desperdiça um sagrado aprendizado. Os erros também são companheiros desde sempre. Tolos os que apontam os erros dos outros. Como se fossem imunes. As mães sabem como soprar alívios. Primeiro, o abraço; depois, o dizer que educa. E as exigências de que melhoremos. Inverter a ordem nos enfraquece. Se o filho sobe na mesa e cai e se corta, primeiro elas cuidam do curativo, depois repreendem pelo abuso.

As mães, um dia, partem. E o milagre do encontro? Prossegue. Partem na sua forma física. Levam pedaços de nossa história. Deixam tristeza. Mas o encontro que se deu, desde os inícios, permanece. No que somos, elas estão. Onde estamos, elas são. Dos traços físicos aos recônditos da memória. Da criação à personalidade que fomos moldando. Elas sempre estão. São.

Já vi filho lamentar pelo amor economizado antes da partida da mãe. Já vi filho arrependido do dito e do não-dito. Das brigas que trouxeram dor. Das ausências que roubaram momentos preciosos. O que passou, passou. Talvez sirva de aprendizado aos que podem ter sua mãe por perto. Os que podem dizer. Os que podem ouvir. A mãe não é um ser perfeito. Perfeição não é matéria-prima dos humanos. Mas é nela que encontramos a raiz que nos ajuda a buscar o sulco vital. A memória do que viemos fazer por aqui. E o material onírico que nos faz prosseguir.

Gordas ou magras, altas ou pequenas, falantes ou tímidas, com cabelos encaracolados ou lisos, com muito ou pouco estudo, com muitas posses ou necessitadas, mãe é mãe.

Lembro-me do interior onde morava. Do chegar da escola. Subia as escadas e encontrava o seu sorriso. E o beijo sem pressa. E o abraço. E a atenção para ouvir tudo enquanto preparava o almoço. E, depois, ficávamos juntos. Lembro-me do dia que deixei o interior para estudar. Dos seus preparos, das suas lágrimas, da sua compreensão para os amanhãs que precisavam ser construídos.

Construiu em mim, ela, o amor. Dores ela teve e tem. Mas foi além. Bebeu de uma fonte reservada especialmente para as mães. A fonte que renova sua força. Para continuar alimentando os seus rebentos. Perdeu minha mãe dois filhos. Muitas mães se partem nessa dor. E choram o mais doído choro do mundo. Lá se vão os que deveriam ficar.

Uma amiga escritora perdeu seu único filho. Abraçou-me com tanta entrega que entreguei a ela o que podia, minha fé. As árvores parecem mortas no alto inverno. Parecem. Na primavera, elas ressurgem e surpreendem. Seria a morte a primavera da alma?

Falemos um pouco mais da vida. E do encontro. Químico. Biológico. Histórico. Matemático. E os outros todos. Em todas as matérias do concreto do existir, o que carregamos tem ela, a mãe. Aos que têm sua mãe, por aqui, vale um encontro especial. Aos que as têm nas lembranças, vale uma oração, uma homenagem silenciosa na necessária conversa que fazemos conosco. Vale até um “eu te amo” em pensamento. Ela há de sorrir, onde estiver. E o poder que ela continua tendo há de fazer você também sorrir. Lembra que no início um coração se fez dois? Os dois continuam sabendo que podem se encontrar…

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia- RJ) | Data: 14/05/2017

Os inícios em Maio

Solange soube, desde cedo, que o mês de maio é o mês das noivas. Na cidade onde mora, nas vozes que escuta sobre o assunto, nas mulheres mais velhas que se acotovelam na pressa de não desperdiçar o mês. Para iniciar um namoro. Para prosseguir até o ano seguinte. Tempo suficiente para conhecer e decidir. E casar.

Uma tia experiente de Solange, que se casou mais de uma vez, não sem antes ter chorado o luto de mais de uma viuvez, sempre iniciou os namoros no mês de maio. E, um ano depois, exatamente no mês de maio, fazia no altar as novas juras de amor eterno. Solange chegou a inquirir a tia se não era pouco tempo um namoro de apenas um ano. A tia, sabida, explicou que, se para o nascimento era preciso apenas 9 meses,… E silenciou. Solange tentou fazer a ligação de uma coisa com outra. Era mais difícil uma criança inteira ganhar forma do que um amor mostrar que já se formou. Que já estava pronto. Seria isso? Ela não sabia. Sabia que era mais um mês de maio. Nos meses que antecederam, ela fez um sério regime. Deixou para os derradeiros dias de abril a mudança de penteado. Soube, de uma e de outra, as promessas que costumavam não falhar. O santo mais acionado era Santo Antônio. Por sinal, padroeiro da sua cidade.

Solange não buscava um homem perfeito. Longe disso. Queria apenas alguém com quem pudesse dividir os afetos mais sinceros. Alguém que a respeitasse. Alguém que dissesse palavras doces em uma vida de tanto amargor. Se fosse bonito, melhor. Se não fosse, beleza é passageira, dizia ela para si mesma. Queria o permanente. Não era dessas que aceitavam um aqui e outro ali. Queria a paz de ir conhecendo cada detalhe das linhas das mãos do seu amor. Leu no salão de beleza que cada linha tem um significado. Interessou-se pela linha da vida. A que define se viveremos mais ou menos. Será que sua tia reparava nas mãos dos maridos? Bobagem. Não acreditou muito. Mas gostou de saber que as linhas não estão à toa nas mãos. Nada é por acaso. Nada é fruto do acaso. Nem as mãos. Solange queria um amor. Que estivesse distraído em alguma esquina e a visse passar. E a olhasse com algum desejo. E reparasse que ela estava pronta para um início, no início de mais um mês de maio. Não se atiraria rapidamente porque o recato é uma qualidade que lhe parece necessária. Por outro lado, não se faria insincera, dificultando uma prosa que poderia ter continuidade.

A mãe de Solange enviuvou cedo. E não quis saber de outra história. Dizia que amar dava muito trabalho. Que preferia permanecer nas lembranças. Solange não concordava. Respeitava, mas não concordava. “Viver dá trabalho”, dizia ela para si mesma. Frase de algum escritor famoso de quem ela não se lembrava. Mas, no trabalho do viver, o amor é uma brisa boa que nos perfuma de novidade. De uma eterna novidade. Solange vivia perfumada. Era melhor assim. Sem exageros para não enjoar o tal do distraído parado em alguma esquina.

Parado? Não. Era melhor encontrar um homem em movimento. O amor é movimento. Movimentamo-nos para cuidar, para surpreender, para elevar quem amamos. Se a beleza não era a condição primeira para o enlace, a admiração era. Quem ama admira. Um ao outro. Nas ações diferentes e nos tempos diferentes. Nada de anulações. Mas de encontros. Cada um prosseguirá tendo a própria história. E, juntos, uma história comum. Quem se anula um dia cobra. Quem ama não admite anulações. É como as asas de um pássaro qualquer. Não sabe Solange porque se lembrou de um pássaro. Talvez porque tenha duas asas, e as duas precisam estar inteiras para o voo certeiro. Talvez.

A vocação do amor é o alto. Se se prende a detalhes menores, não há voo. São cúmplices as asas. Os amantes. Os sonhos.

Solange sonha com esse mês de maio. Não que esteja em apuros. Se não encontrar, há de esperar mais um pouco. Não há de estragar os novelos com uma blusa que não aqueça. Solange gosta das tardes em que acompanha a despedida do sol com as agulhas de tricô e o tecer de mais um agasalho.

O mês de maio é um mês bonito. Nem muito quente. Nem muito frio. A paixão é apressada, ansiosa. O amor é paciente, tranquilo. Há muitas esquinas na cidade de Solange. Não é preciso se precipitar no primeiro encontro. Se o que amou não correspondeu, nada de mendigar. Migalhas não satisfazem uma vida. A paixão se satisfaz com migalhas. Depois se irrita. Depois quer mais. Depois desiste. Depois volta. Depois chora. Depois agride. Depois jura que nunca mais. Depois desiste do que jurou. O amor, não. Ou é pleno ou não é. O amor cuida como exigência própria de sua existência. Nada de agressões nem de ausências. Olhares. Mãos. Cheiros. Beijos. Tudo calmo e tudo intenso. E admiração. Daí é que nasce o respeito. O gosto de ver. E de ver de novo. De ouvir. E de ouvir de novo. E de não se cansar. Cansaços fazem parte do trabalho, da lida, não do amor. Quem se cansa de uma brisa leve? Que nunca incomoda? Quem se cansa da água que nos alimenta de vida? Quem se cansa das mãos, com todas as suas linhas, que estão prontas para acariciar?

Ainda estamos no início do mês de maio. Solange tem algum tempo para o início. Hoje, ela saiu especialmente feliz. Teve um lindo sonho. Em tempo, sonhos ajudam a encontrar um amor.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia- RJ) | Data: 07/05/2017

Motorista de ônibus

Paterson é um motorista de ônibus que vive a rotina de um motorista de ônibus. Sua cidade e sua linha de ônibus têm o mesmo nome que o seu, Paterson. Ele é casado com Laura, uma mulher que passa os dias pintando cortinas e tapetes na companhia de seu cachorro. Sonha ela em ser doceira, ou melhor, fabricadora de cupcakes ou quem sabe uma cantora country.

Paterson tem uma rotina comum. Acorda quase sempre no mesmo horário. Beija sua mulher. Come alguma coisa. E vai trabalhar caminhando. Nos mesmos trajetos, consegue inspiração e tempo para escrever poemas. Escreve-os em um caderno secreto. A mulher gosta quando ele os lê. Ela o admira profundamente. Quer que o mundo conheça os seus escritos. É mais ou menos essa a narrativa de um filme de Jim Jarmusch que está em cartaz nos cinemas. O filme é uma celebração à poética do cotidiano.

Ezequiel é um motorista de um ônibus que vive em uma grande cidade que não leva o seu nome, em um grande país chamado Brasil. Ele é casado com Laura, uma professora apaixonada por crianças e por seu marido. Moram em uma casa simples. Acordam muito cedo. Fazem amor quase que cotidianamente e saem para trabalhar. Ezequiel gosta dos finais dos dias, quando toca violão para Laura. Ela escreve silenciosamente seus poemas de amor em um caderno qualquer.

As duas Lauras sonham muito. E gostam de falar sobre os seus sonhos. As duas Lauras admiram os seus maridos. Paterson e Ezequiel orgulham-se de terem feito a escolha correta. Dirigir. Os ônibus e suas vidas. Dirigir sem solavancos. Felizes pelos cotidianos. Nada de velocidade exagerada para não precisar de freadas incômodas. Há que se ter atenção. Há perigos por todos os lados. Há desavisados que tentam entrar na frente e causar acidente. Às vezes, propositadamente; outras, por descuido. Comentários infelizes sobre vidas felizes podem causar estragos.

A Laura do filme sonhou que teriam eles filhos gêmeos. A Laura de Ezequiel está grávida. De gêmeos.

Ficção e realidade se encontram em narrativas comoventes de vidas humanas. Há tanta história para ser contada. Poetas se valem do que veem, do que ouvem, do que experimentam, do que sentem, do que imaginam. A poesia é democrática. Nasce dos que se dedicam às palavras como ofício de vida e nasce dos que conduzem ônibus ou educam crianças. A poesia é livre. Não a detém apenas os que ampliaram o repertório estudando tratados e enciclopédias. A vida também é uma escola. Uma escola poética.

Certamente, haverá aqueles que dirão que motoristas de ônibus sofrem muito, ganham pouco, trabalham exaustivamente. Que professores ou fabricadores de cupcakes não têm tempo nem para respirar, quanto mais para amar. Conclusões apressadas. O amor é soberano. Sobrevive ao tempo e às ausências. Empresta perfume ao suor cotidiano. Lava o que é necessário. E alimenta as ruas que precisam ser percorridas.

A rota de Paterson e de Ezequiel é sempre a mesma. Mas é diferente. Um texto de uma música country é sempre o mesmo. Mas é diferente. As crianças que estão na sala de aula com a professora Laura são as mesmas. Mas são diferentes. E o sabor da diferença é uma experiência necessária.

Ousar outras vidas, mudar de profissão ou atividade, experimentar uma nova história, tudo isso é possível e, às vezes, imperativo. Quando não se está feliz em uma rota, urge lembrar que há outras.

Paterson e Ezequiel preferem permanecer. Querem continuar assim. Conduzindo e sendo conduzidos. Experimentando as diferenças das estações. Acompanhando uma conversa aqui outra lá, não por intentos de espalhar segredos, mas por encantamento. Vidas humanas trazem encantos quando se compreende. Arrogantes desperdiçam essas oportunidades.

O filme e a vida nos ensinam que a humildade é uma companheira e tanto. Como Laura. Como as Lauras. As que amam. As que sonham.

Em suas rotinas, parece não haver muitos recursos para gastos extraordinários. Não querem comprar o que veem nos anúncios. Seus sonhos são outros. Como trabalham muito, o pouco tempo que resta é dedicado ao amor e à poesia. Conduzem a vida dos outros sem delas se valer para comentários maldosos. Não. Isso não lhes cabe. Como só sabem de trechos de conversas, não se dão o direito de conclusões. Preferem concluir o dia com canções e com o direito de dormirem juntos. Porque amanhã tem mais.

Quem tiver oportunidade assista ao filme. Quem tiver oportunidade preste atenção a um motorista de ônibus e a como ele conduz sua vida. Quem sabe você encontre um Ezequiel por aí. Se encontrar, mande lembranças para Laura, ele há de agradecer.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 30/04/2017

Viver a vida

Os desajustes de hoje desaparecerão amanhã. Os embates tão apaixonados darão lugar a outros. As dores também serão substituídas. Problemas que parecem montanhas intransponíveis serão reduzidos a areias inofensivas. É esse o poder cicatrizante do tempo.

Pense em uma discussão de trânsito. Que significado terá ela para uma vida? Por que tanta efusividade com o que passa no abrir de um sinal? Uma escolha para onde ir em um entre tantos finais de semana? Brigas? Por quê? Porque o time fez um gol? Outros jogos nos preencherão, outros gol poderão ser defendidos ou marcados.

Um vaso se quebrou? Que o tempo da varredura seja o mesmo que o tempo da chateação. E nada mais. E prosseguir.

Um machucado? Algumas lágrimas. E nada mais. Um aparelho que se quebrou. Uma encomenda que não chegou. Um projeto que falhou. Sucessões de “nãos” nos incomodarão, mas nos ensinarão, também, a dizer os “nãos” necessários. Que hão de nos proteger.

Uma doença chega e nos ensina. Ensina-nos a valorizar o que poderíamos perder.

Uma amiga, que venceu uma doença que parecia invencível, um dia me disse: “É preciso ‘viver a vida’, porque a vida que passa não volta e a que ainda haverá de vir talvez não venha.

Desperdiçamos tanto tempo maculando o sagrado tempo do amor, da amizade, dos encontros. Precisamos inaugurar uma pedagogia do encontro. Do encontro com os sonhos que restaram em nós. Que sobrevivam! Do encontro com mãos que ainda acreditam no caminhar juntos. Do encontro com os amores imperfeitos que conseguimos amealhar. Não esperem amores perfeitos. Ainda não foram inventados. Nem pessoas perfeitas. Basta que nos olhemos no espelho da consciência e percebamos que em nós também mora a imperfeição.

Certo amigo disse ao outro: “Te perdoo pelos seus erros”. O outro apenas sorriu. Sorriu o sorriso da compreensão. Quem não erra?

Quando vejo dois idosos caminhantes, fico imaginando o meu amanhã. Acompanhado. De amores. De amigos.

O tempo há de nos presentear com alguma lucidez. Menos desperdícios com o efêmero e mais celebração com o eterno. O que gostaria de eternizar nos meus gestos? A arrogância ou a compreensão? A avareza ou a generosidade? O orgulho ou a delicadeza?

Hoje, é plantio. Amanhã, é colheita. Hoje, é colheita. Amanhã, é plantio. Plantamos e colhemos sem pausas. O que falamos expressa e constrói o que sentimos. O que sentimos se materializa no que falamos e somos. Por isso, é preciso “viver a vida”. Sem concessões. Em qualquer idade. Diante de qualquer enfermidade. No enfrentamento de qualquer dor. Viver a vida como um decisão inegociável. Aproveitar cada instante para a reinvenção. Se o que foi, foi, então, é viver o que fica. Se um movimento se perdeu, há outros que merecem atenção. Se um amigo nos decepcionou, há alguém, logo adiante, aguardando um olhar amoroso.

Se não há dinheiro para uma longa viagem de celebração, celebre o pôr do sol. Em alguma esquina. Mas acompanhado. Sempre há alguém – não necessariamente quem teimamos desejar – disposto a assistir ao espetáculo.

O sol se põe. E o sol nasce. E novamente se põe. E novamente nasce. Os ciclos são um convite a separarmos o bom do que passa rápido. O que é bom permanece. Como obra humana inspirada e inspiradora. O que é bom permanece nos oferecendo sorrisos gratuitos. Basta uma prosa, em um dia qualquer, e a alma se alimenta.

Ao contrário do grito, do xingamento, das rasuras. Eles assustam a alma. E ela encolhe. E, pequena, já não vê a sucessão de belezas que compõem a nossa vida.

Em um velório, presenciei o adeus de uma mulher ao marido amado. O choro da saudade e a gratidão do amor sem economias. Palavras lindas de quem encontrou alguém para costurar os sentimentos e cuidar como decisão e necessidade.

Todos os dias chegam vidas e todos os dias vidas partem. A sabedoria está em compreender as chegadas e as partidas e viver o tempo que temos sem complicações.

Vez ou outra, eu me pego lembrando do tempo ao qual gostaria de voltar. Acabo voltando às caixas tantas que armazenam o bem que vivi. Volto onde estou com vontade de prosseguir. Sabendo que sou capaz de enfrentar as tormentas com o depósito de amor que meus pais e tantos que amei, por mim, passaram.

Plantios e colheitas. Colheitas e plantios. Vida que segue… de preferência com bagagem leve. Para que não nos descuidemos de quem precisa de nós.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 23/04/2017