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Amizade

A leveza da amizade contrasta com os delírios da paixão. A paixão é exigência; a amizade, não. A paixão é entorpecente, a amizade é suave. Se não for suave, deixou de ser amizade. Se for utilitária, deixou de ser amizade. Há amizades que duram toda uma vida. Há outras em que se percebe a necessidade do partir.

Em um mundo de aduladores e interesseiros, urge relembrarmos o ditame bíblico, “quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro”. Tesouro mais nobre do que os nobres metais preciosos, que se perdem com o tempo. A amizade, a verdadeira, permanece.

Há quem diga que a paixão causa sensações bioquímicas. Sensações que perseguimos para encontrar a felicidade. Sensações que buscamos em remédios e drogas, em lembranças e esquecimentos. Lembrar a primeira dose de algo que não fez bem, que me picou, que me viciou, lembrar os delírios do que nem existiu. Esquecer e dormir. Dormir uma noite de paz sem os solavancos dos pensamentos. São, talvez, essas as sensações que buscam os que se acompanham de tantos medicamentos. Não. Não sou conhecedor suficiente para falar de tranquilizantes ou de outras pílulas. Nem dos vícios químicos. Nem é esse o meu intento aqui. Quero falar da amizade. Do prazer puro que brota da biologia das relações ao saber que há um amigo que virá ao meu encontro para fazer nada. Apenas para estar comigo. Sem planos de planificar algum empreendimento, sem interesses de amealhar alguns bens, sem necessidade de prazeres carentes do que é matéria. Apenas nós, meu amigo e eu, e uma brisa que nos relembre de que é bom estarmos ali. Ali onde? No lugar sagrado do encontro. No lugar em que podemos tirar os sapatos ou os chinelos e pisarmos sem receios.

O chão da amizade não oferece riscos de cortes, de sequelas. O chão da amizade é terra escolhida para a boa sementeira. O que se colhe de uma amizade? Sombras para os dias quentes, proteção para os dias de chuvas intermitentes, poesia para todos os dias. Mas nada planejado, nada buscado como troca de nada oferecido. Um caminhar, um encontrar, um conversar, um permanecer. A amizade é o antídoto dos tempos descartáveis. Os interesseiros se arvoram para sugar até o ultimo gole das tetas dos abastados. Lançam-se, sem amor próprio, em adjetivos à exaustão, em elogios a rodos, em busca de alguma participação na fortuna. Encolhem-se até para não parecerem famintos. E, se secam as benesses, partem em busca de um outro desavisado. Tristes dias, tristes figuras. Os amigos pouco se importam com o que não se deve importar. Efêmeros poderes, efêmeras posses. O que permanece quando as roupas luxuosas são retiradas é o que interessa aos verdadeiros amigos. Uma mesa, alguma bebida quente, fumegante, quem sabe. Um pão, talvez, Uma água vinda de alguma nascente pura. Puramente, permanecem ali a falar sobre a vida; a vida, esse presente inesgotável de novidades que nos surpreendem na rotina aquecida dos nossos olhares. Falar sobre os outros? Nem sempre é necessário. O calor do encontro amigo já é o bastante para estarmos bem. E quem está bem não carece de diminuir o outro. A amizade me eleva a patamares meritórios. Conquistados pelo simples fato de termos nascidos. Para o lugar do encontro. Sim, porque os desencontros foram invenções nossas. Algum descuidado resolveu competir, resolveu comparar, resolveu destruir, e, assim, os dias perdem os seus contempladores. Ah, os amigos contemplam as cenas comuns e pintam figuras extraordinárias. Viver é extraordinário. Desistir de viver, um desperdício.

A humanidade inventou tantas máquinas, algumas perversas, inclusive. Torturamos gentes e animais. Domesticamos os que viviam livres para nos servimos da sua dor. Por que isso foi acontecer? Quando se iniciou essa decadência? A liberdade é um presente que não se pode desconsiderar. A amizade é livre. Sem esse complemento essencial, ela nada é. Os que aprisionam não são amigos, os que machucam não são amigos, os que desrespeitam não são amigos.

A bebida quente em uma mesa e a ausência da pressa, o tal pão que inspirou uma oração e a gênese da palavra partilhar, a água pura que lava o que precisa ser lavado dentro e fora de nós. Tomar banho sem tampar o ralo para que as imprudências partam. E beber a água com a simplicidade necessária de quem sabe o que nos permite manter vivos, entrando dentro de nós e irrigando cada milagre. E depois nos levantamos, olhamos para o que nos resta da vida e, sem esforço algum, sorrimos o sorriso de quem se alimentou. Amizade é isso. Uma linha invisível aos que têm olhos de ver que nos conduz sem impedir que nos conduzamos para o melhor do que precisamos viver.

Muitos amigos? Não, não há necessidade nem tempo para, de todos eles, cuidar. É melhor que saibamos escolher, compreender. Sentemos, pois, à mesa sincera em que as palavras nascem do não planejado, apenas do esperado, para fazer amar. Amizade é a forma leve de amar. Prosa boa é a que poetiza os nossos dias. E nos deixa com um gosto de querência por outros amanheceres.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 17/09/2017

Aniversário do Brasil?

“Mãe, por que os meus amigos viajam no meu aniversário?”. Era a pergunta que Heitor fazia a sua mãe, Mariana.

“Filho, porque é feriado. É como se fosse aniversário do Brasil”.

Heitor ficou olhando para a mãe, para o alto e pensando que, nos seus longos 6 anos de vida, teve muitas festas postergadas para comemorar com os seus amigos.

“Na verdade, filho, é a comemoração da independência do Brasil”.

“Independência é a mesma coisa que aniversário?”, pergunta o menino.

A mãe pensa em como explicar. Diz que os portugueses chegaram ao Brasil e que isso ficou conhecido como descobrimento. Heitor parece não concordar porque aqui já viviam os índios. Na opinião dele, quem descobriu foram os índios. A mãe não discorda. E prossegue tentando explicar o que é a independência. “O Brasil, por meio de um grito, que talvez não tenha sido um grande grito, resolve que não mais obedeceria a Portugal. Que tudo o que era do Brasil seria dos brasileiros”.

“Inclusive dos índios?”, insiste Heitor ainda envolto nos pensamentos de que os índios não podiam ser excluídos do país a que chegaram primeiro.

A mãe começa uma explicação tentando mostrar o que significa essa independência. Mariana não é especialista em história ou em direito constitucional, mas é uma mãe ciosa da educação do filho e quer que ele enxergue um país que enxerga todos os seus filhos. Os índios, também. “A festa da independência é apenas uma data para que se lembre do sonho de um país livre. Construído com esforços comuns de todos os filhos. Sem excluir ninguém”.

“Mãe, quando eu crescer eu vou ser o quê?”

“O que você quiser, Heitor”.

“Se eu for jogador de futebol, você vai ficar feliz?”

“E por que você quer ser jogador de futebol?”

“Você prefere que eu seja papa?”

Mariana ri. “Papa?”

“Eu não sei, mãe. Pode ser papa e médico?”

“Sabe, filho, você tem tempo para escolher o que quer ser. O que importa é estudar muito. É gostar das pessoas. É ser bom. É agradecer pela vida que você tem. É, em cada aniversário, pensar no que fazer para ser melhor”.

“E o Brasil, mãe?”

“O Brasil?”

“O que tem que fazer para ser melhor?”

Mariana fica feliz com a pergunta do filho. Pensa um pouco e decide que é ele quem tem que dizer:

“O que você acha que o Brasil tem que fazer para ser melhor?”

“Que corrija as coisas erradas, né? Tem muita coisa errada, né, mãe?

“O que, por exemplo, meu filho?”

“Acho que eu quero ser presidente”.

“Não quer mais ser papa, médico, jogador de futebol?”

“Quero cuidar de todo mundo. Sabe que tem gente na escola que nem tem comida direito em casa. E tem um amigo meu que chega todo machucado. O Leo disse que ele apanha do pai dele”.

“E de onde veio essa ideia de ser presidente?”

“Do Leo. Ele diz que quer ser presidente do Brasil. Eu também quero, ué?”

“Você tem muita vida pela frente, meu filho. Continue assim. Pensando no futuro. E sendo bom no presente”. Heitor olha para a mãe e concorda com a cabeça.

“Sabe, filho, você é um presente para mim. Desde que você nasceu, minha vida mudou. Quando eu estava grávida, quando você estava dentro da minha barriga, eu passava a mão e ficava pensando, quando essa criança nascer ela vai ser a pessoa mais importante da minha vida, e os meus sonhos passarão a ser os sonhos dela”.

“Mãe, você é a pessoa mais importante da minha vida, também”. Mariana beija Heitor. Era o amanhecer de um dia ensolarado. Um dia de setembro. Um mês bonito em que as árvores se mexem e se verdejam ainda mais. Um mês de esperança. Mariana já desanimou do Brasil muitas vezes. O que lê e vê a deixa decepcionada. Onde estão os sonhos dos que, hoje, exercem o poder? Por que a mentira rasurou nossa bandeira? Por que os ódios, as ambições, as dissimulações ganharam tanta força?

Ah, mas é setembro. É o mês do aniversário da independência do Brasil. E do Heitor. Os olhos entusiasmados do filho devolvem a ela muito do verde que desbotou da nossa bandeira. Até a Amazônia querem destruir! Os dias não estão bons, decididamente, mas há outros olhos como os de Heitor olhando o que pode ser o amanhã. Jogador de futebol, papa, médico, presidente. Não importa o que ele será. Importa que ele seja bom.

“Mãe, me conta uma história, bem legal”. “Deita aqui, meu filho, vou te contar uma história que se passou na Amazônia, que fala de um índio que amava muito a sua terra”.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 10/09/2017

As anotações de Amâncio

Amâncio mora em um bairro tranquilo de uma grande cidade. Trabalhou a vida toda como sapateiro. Aprendeu esse ofício ainda criança e dele sempre se orgulhou. Conheceu muitas pessoas. Algumas já partiram.

Ouviu muitas histórias. Sempre com atenção. Aproveitou elogios e críticas. Aos poucos, foi entendendo do pisar de cada um. E dos temperamentos que moram acima do pisar. Certo dia, uma mulher o encarou e agradeceu pelos saltos consertados de um tamanco de família. Trocou as chinelas e, ansiosa, saiu da sapataria com os tamancos renovados. Recebeu gente irritada também. Presenciou discussões. Aprendeu em casa que alterar a voz é pouco educado, inclusive para revidar arroubos de outros.

Estudou pouco o Amâncio. No seu tempo, era difícil conciliar as coisas. Seu pai morreu quando ele era muito pequeno. Coube à mãe cuidar dele e das três irmãs menores. Do tempo que estudou, guarda a lembrança de Dona Arlete que, um dia, ensinou que todos os dias deveríamos aprender alguma coisa nova: “Nem que fosse uma palavra”, dizia ela. Amâncio gosta de anotar em um caderninho as palavras que não conhece. Depois pesquisa. E pensa sobre elas.

A sapataria de Amâncio, hoje, é tocada pelos sobrinhos. Ele não se casou nem teve filhos. Vez em quando, ele aparece por lá. Observa as histórias que descansam nas prateleiras ao lado de tantos sapatos que servem para o caminhar de tanta gente. Gosta de sentar no banco da praça e conversar com aposentados que moram naquele bairro. Falam de tudo. Lembranças e esperança. Quando está sozinho, Amâncio folheia o tal caderninho e viaja com as palavras aprendidas em tantos anos de vida.

Dia desses, ele parou em uma e riu sozinho. “Ataraxia”. Quando ouviu essa palavra, achou que fosse algum remédio. Era o Antonino, professor de línguas difíceis, que havia dito a palavra em tom elogioso a Amâncio. Na época, ele agradeceu sem entender. Mas pesquisou. A tal palavra nasceu faz muito tempo, na Grécia, e significa tranquilidade, diminuição da intensidade dos desejos, paz interior.

Amâncio se lembrou de que ele tentava lembrar de cor a tal palavra bonita e não conseguia, tinha que abrir o caderninho. Um dia, em uma conversa no entregar de uns sapatos arrumados, disse isso ao professor Antonino. E ele, sem tempo para rodeios, declarou que Amâncio não precisava decorar o que já vivia. Disse o professor que ele era um consertador de vidas pela tranquilidade com que ouvia e falava. “Precisamos de paz, de gente que inspira paz”, concluiu o professor.

Antonino já morreu, mas aquilo ficou com Amâncio. É bom aprender, mas o melhor é viver o que se aprende. A palavra “paciência”, um dia, já foi desconhecida. A palavra “cabotina” é importante de ser conhecida para ser evitada. A palavra “compaixão” é a que Amâncio acha a mais bonita de todas. Sofrer o sofrimento do outro, ajudar no seu caminhar, arrumando o que se consegue, mas estando ali no caso de alguma queda. Os nossos pés precisam ficar mais protegidos com sapatos arrumados. Mas e o que mora acima? O que protege nossa alma? Nossas intenções? Há tantas palavras naquele caderninho, há tanto significado para ser aprendido. Há tantas pessoas que já se foram, mas que disseram alguma coisa que mereceu ser anotada.

Ah, o tempo. O tempo apressado. Ainda ontem, Amâncio era um menino. Passaram-se, então, noventa anos. E ele prossegue. Nos seus passos lentos. Na sua humildade cativante de saber que, todo dia, pode aprender alguma coisa. Ontem, uma sobrinha sua disse que aprendeu na aula de filosofia uma palavra que queria passar para ele. Amâncio abriu logo o caderninho para anotar. “Eudaimonia”, disse ela. Ele olhou para o alto, achou bonito e escreveu.

“Tio, a palavra significa felicidade. É um dom e é um hábito. Todo mundo tem, mas nem todo mundo vive. Lembrei do senhor, porque o senhor, para mim, é o retrato de um homem feliz”. Ele anotou, palavra e significado, deu um beijo bom na sobrinha e saiu caminhando vagarosamente até a praça. Ali olharia para as pessoas e para o tempo. “Eudaimonia”, repetia ele. “Essa vai ser difícil de decorar”. Lá do Céu, o professor Antonino talvez esteja dizendo, “Não precisa, Amâncio”.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia -RJ) | Data: 03/09/2017

O Voo da paixão

Hoje é 27 de agosto, aniversário de Jamile.

Quem é Jamile? A mulher que me convidou para um café da tarde ao som de Beethoven e que me inspirou esta história.

Na mesa, havia dois castiçais. Velas. Não era necessário acendê-las. A luz do dia entrava pela janela aberta. E Jamile estava radiante. Queria brindar. Brindar o quê? A paixão. A paixão? Ora, fui seu confidente em tantas noites em que ela chorara a ausência de Lázaro. O homem por quem ela era apaixonada. Entre soluços e invenciones, ela descrevia Lázaro e o futuro que teriam juntos. Mudávamos de assunto e voltávamos para Lázaro. Ela descrevia um Lázaro que eu desconhecia, embora eu o conhecesse. Falava de suas falas. De seus textos demorados despejando amor. Com riqueza de detalhes, repetia os mesmos ditos. Eu ouvia. Cabe aos amigos ouvir. Ouvir é amar. Vez ou outra, eu a interrompia querendo mostrar a ela a luz de fora que iluminava a noite da cidade. Havia cidade. Mas ela não se permitia ver. Era ele o senhor absoluto dos seus pensamentos. E desejos.

Brigavam sem economias. E lá estava ela novamente absorta, brigando com os seus pensamentos, em diálogos imaginários, desculpando-se e culpando, na solidão voluntária a que se submetia. Nesses períodos, ela dizia o quanto ele era egoísta, o quando era distraído, o quanto era inerte em matéria de alguma mudança por amor.

Bem, mas ela queria brindar a paixão. Não entendi. Ela aumentou um pouco o volume da música. Acendeu as velas. Abriu a janela. Respirou fundo. Olhou para o longe e disse: “Brindemos o voo da paixão”. Fiquei observando. Ela olhou-me com didatismo e explicou que eu havia dito, tantas vezes, que um dia ela acordaria e perceberia que a paixão é transitória. Que ela abriria a janela e saberia que aquele sentimento que a dominara, sem descanso, partiria, voaria.

“Pois bem, a paixão voou. Não quero mais. Olho para trás e vejo o quanto menti para mim mesma. Ele é avarento nas coisas e nos sentimentos. Embora tenha dito que me amava, jamais me amou. Mas o que ele sentia pouco importa,importa o que eu sinto, estou livre. Veja, eu sou capaz de ver a cidade. Há vida fora dos escombros onde eu me emaranhei”.

Jamile falava a verdade. Foram meses de angústia tentando fazer o impossível para estar ao lado dele. E ele prometia futuros. E esquecia. Dizia lindas declarações e se enfurnava em outros lençóis. E ela sofria. Sofria olhando a luz acesa da janela de Lázaro e sabendo que outra mulher ria com ele os risos do anoitecer. Seu choro não o sensibilizou. Ele ouviu os lamentos de Jamile e mudou de assunto, mas não de atitude. Gostava de sentir-se desejado por muitas. Ela era apenas uma. Não bastava. Mas agora era hora de brindar a vida. Vida que segue. A paixão é fruto de um deus brincalhão, Eros, que flecha sem aviso os desavisados. Ela é boa? Certamente. Ela é má? Também. A flechada abre uma buraco imaginário, e a imaginação trabalha mais do que a realidade. Mentem os apaixonados para eles próprios. Mentem porque precisam imaginar o que imaginam ser um desfecho perfeito. Insistem no que percebem ser falho. Culpas por não tentar novamente. Choros ansiosos por não compreender as atitudes do outro. Se, um dia, Jamile chorou vendo a janela de Lázaro e imaginando o que era seu sendo de outra; hoje, diante de sua janela, ela sorri. Sorri e vê a cidade. Nossa, quanta vida há na cidade! Quantos Lázaros e Pedros e Felipes e outros vivem na cidade. Ela não os via.

É possível evitar a paixão? Talvez, não. Talvez seja um desperdício não vivê-la. Mas é preciso saber o que fazer com a paixão. Crimes passionais, infelizmente, são comuns. Matar por paixão? Não. Ou dá certo ou um dia haverá uma janela aberta, quem sabe ao som de uma canção de Beethoven e um amigo para brindar um voo. Um voo da paixão? Também. Mas um voo nosso. De quem se desembaraçou e agora parte para contemplar a vida que vive na cidade.

Hoje à tarde, vou à casa de Jamile. O sol desse amanhecer é convidativo. As noites, mesmo as demoradas, partem. Os amanheceres nos surpreendem. Basta que abramos a janela. Jamile encontrou uma nova paixão. Estão juntos. Por enquanto parece que não há mentiras. Souberam esperar um o tempo do outro. Compreenderam a frase de Edith Stein que diz: “O que vale a pena possuir, vale a pena esperar”. Não sei qual a música que nos embalara no seu aniversário. Sei que gosto de estar junto de meus amigos comemorando a vida. Ah, amizade também é uma forma de amar.

Para você, Jamile, no dia do seu aniversário, esta minha homenagem. Daqui a pouco, estaremos juntos. Vendo a cidade. Quem sabe hoje tenha luar.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/08/2017

A coragem de Joana

Joana é uma mulher como tantas outras mulheres. Mãe, como tantas outras mães. Medrosa e corajosa. Alguns medos, ela não consegue explicar. Pensa sobre eles. Depois desiste. Tem medo de barata. Muito medo. Quando tenta racionalizar consegue até rir. “A barata que teria que ter medo de mim”, pensa ela. “Ela é tão pequena!”. Mas, quando vê uma barata, a razão se vai e fica ela com os seus pavores.

Tem medo de altura. Ah, tem medo de sapo, também. Fica tentando se lembrar se sofrera algum trauma na infância. “Sapo não faz mal a ninguém”, diz ela para ela mesma. Tem outros medos. É tímida. Gostaria de ser mais corajosa.

Joana é mãe de João. Deu esse nome em homenagem ao santo e ao pai. E foi em uma festa de São João, na chácara de seu pai, que Joana experimentou a coragem mais corajosa de sua vida.

A festa acontecia em uma área aberta próxima de uma capela construída pelo pai de Joana. Amigos vieram de outras chácaras. Os enfeites eram as bandeirinhas de sempre. Havia comidas típicas, como em todas as festas de São João. E dança. E fogueira.

Não se sabe como, mas um fogo começou a consumir a casa principal da chácara. E ninguém viu. Joana sentiu alguma coisa estranha que, até hoje, ela não sabe explicar.

Era noite. O barulho era de alegria. Ela deixou a festa e foi ver o filho, bebê ainda, que dormia na casa. Foi quando viu o fogo. Não teve tempo de pensar em chamar outras pessoas. Nunca foi apegada a bens materiais. Se não houvesse ninguém na casa, ela, certamente, não teria a coragem que teve. Se tivesse algum dinheiro na casa, ela não entraria no fogo. Se pensasse nos seus vestidos ou em alguns quadros, ela também não entraria. Joana tem medo de fogo. Nunca gostou de brincar perto do fogo, nem nas festas de São João.

Mas João estava lá. Dentro do quarto. Dentro da casa. E ela entrou. Entrou como uma guerreira disposta a qualquer sacrifício para salvar o maior amor de sua vida. Se tivesse sapo ou barata, ela também entraria. O medo do fogo era justificado. O fogo queima, o fogo mata. Mas o motivo para enfrentar o fogo era maior do que o medo do fogo.

Ela entrou sozinha naquela noite e desviou, não sabe como, de tantas chamas, e chamou pelo nome do menino. Chamou tantas vezes. O menino estava onde ela deixou. Com os olhos arregalados. Com a idade de não saber o que estava acontecendo. Pegou o filho no colo. E saiu sem saber como. Não dá para explicar. Logo depois, o fogo se alastrou ainda mais. Nada sobrou.

Quando os outros vieram, estava Joana com o filho no colo e nada mais. Nada mais era necessário. As coisas que possuíam naquela casa se foram. O filho ficou. Joana começou a chorar. Chorou um choro doído. Foram ver as queimaduras. Não. Não era um choro de dor. Era um choro de gratidão. A vida de seu filho estava salva.

Muito tempo se passou depois desse dia. João é um homem crescido. Tem também os seus medos. E suas coragens.

Os medos fazem parte da nossa constituição. Não há como não ter nenhum medo. Alguns são mais justificáveis do que outros. Mas o que importa aqui é a coragem. E a coragem surge mais forte quando há um motivo. Salvar a vida de um filho é um motivo e tanto.

Entrar em uma casa em chamas para salvar algum dinheiro é prova de insanidade. Entrar em uma casa em chama para salvar um filho é prova de amor. Há muitas fogueiras na vida. Há muitas situações de perigo. É melhor ter algum medo para nos preservar. Jovens que dirigem em alta velocidade sem medo não são corajosos, são temerários. Lugares perigosos devem ser evitados. A violência nos impede futuros. É preciso ter cuidado. Mas há momentos em que enfrentar o medo nos dá recompensas.

O medo de não aprender se enfrenta aprendendo. O medo de falar se enfrenta falando. O medo de não ser amado se enfrenta amando.

Joana salvou João. O fogo levou o que quis, mas ele permaneceu. Ainda ontem, Joana viu uma barata. Subiu na cadeira e esperou alguém para tirar aquela ameaça de sua frente. Gritou. O filho veio. Viu a mãe naquele estado. Riu. E se lembrou daquele dia que permitiu que, neste dia, os dois estivessem juntos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/08/2017

Oração aos pais

Aos pais que já se foram, uma oração. Suas lembranças povoadoras de afetos continuam por aqui.

Despedidas sempre causam algum desconforto, alguma dor. Muitas dores me visitaram quando meu pai partiu. Chãos se abriram, dúvidas surgiram, a fé precisou ser reabastecida. Difícil imaginar o dia seguinte ao da partida. Nem um abraço, nem um beijo, nem um colo, nem um olhar. Apenas as lembranças. Lembranças tantas, eu tinha e tenho do meu pai.

Aos pais que estão, uma oração. Filhos vão crescendo e ganhando forma. Repetem ou repelem gestos e atitudes dos pais. O pai super-herói, o pai protetor, o pai companheiro. Mas há o pai violento e o pai ausente. Há o pai que não se afeiçoa e parte, partindo. Há filhos que buscam o que não tiveram. Substituições são difíceis. Há símbolos que nos significam vida. Geradores de vida, cuidadores de vida são essenciais.

Uma oração à essência da paternidade. Desde os inícios. A gravidez conjunta. O amor intenso à mulher que vai vendo seu corpo transformado por uma nova vida que insiste em nascer. Juntos. Acompanhando os movimentos e aguardando a surpresa. E, depois, os primeiros choros, os primeiros passos, os primeiros risos.

Meu pai brincava comigo brincadeiras de amor. Corrigia-me nos meus deslizes e incentivava as minhas invencionices. Eu gostava de criar palavras e de fazer discursos. Ele ria e me prometia presença.

Uma oração aos pais ausentes. Tristes desperdícios. O não acompanhar os centímetros que vão se acumulando, as transformações físicas e psíquicas que não dão trégua. Uma palavra aqui e a surpresa, “onde teria o filho aprendido essa frase, essa expressão?”. E os dias vão ganhando vida quando vidas vão ganhando importância. Momentos de amor. Um presente. Muitas presenças. Uma viagem. Muitos olhares. Um escorregão. Muitas mãos para segurar.

As mãos de meu pai eram grandes. Grande também era sua generosidade. Ditos de sabedoria ainda me acordam quando adormeço no caminho. Caminhava vagaroso, meu pai, porque valorizava o tempo da contemplação.

Uma oração aos pais que adotaram. Que souberam gerar filhos em seus corações. Que interromperam possíveis trajetórias de abandonos. Que compreenderam o cuidar como um dom significante que nos dá um outro, a felicidade. O dom de ser feliz não é capaz de existir sem o exercício cotidiano do cuidar.

Uma oração aos pais que se perderam no meio do caminho ou que ainda estão perdidos, mas que têm vontade de acertar. Pais super-heróis são expressões apenas de linguagem. Pais são feitos da matéria-prima humana, dos erros, das imperfeições, das necessidades.

Ouvi tantas histórias de filhos intransigentes na ausência de perdão aos seus pais. Porque cambalearam na vida, porque erraram. O tempo nos traz ventos de alívio que têm um milagroso poder concertante. Só os não generosos remoem os erros de ontem.

Uma oração aos pais do futuro. Que pensem antes de decidir. Que saibam que os caminhos mudarão. Nunca mais estarão sozinhos. Filhos não são brinquedos. Que se descarta vez ou outra. São sementes que precisam do regar correto, constante, amoroso.

Uma oração ao Amor Maior. Sem Ele, não teríamos pais, nem vida, nem oração.

Que cuide Ele dos que se foram e com Ele vivem. Que cuide Ele dos que estão por aqui.

Ao meu pai, esta oração e a minha saudade e um corolário de lindas histórias que nunca passarão.

Ao seu pai … deixo para vocês a criatividade da homenagem, a delicadeza das palavras.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia-RJ) | Data: 13/08/2017

A chave certa

Vi, um dia desses, um homem com um molho de chaves tentando abrir uma porta. Passaram alguns segundos e ele insistia com a mesma chave. Eu olhava as outras chaves, ali, olhando para ele. Mas ele só via uma chave e só insistia com aquela chave, que, certamente, não era a chave certa para abrir aquela porta.

Lembrei-me de um homem chamado Teodoro,que tinha, também, um molho de chaves e que cuidava de uma Igreja. Cada chave abria uma porta. E ele sabia disso. Quando ele não ia, o molho de chaves ficava com a Sebastiana que também sabia que não adiantava insistir com uma chave que não abria aquela porta. Abria outras, mas não aquela.

Naquela época, também vi gente que, ao tentar com uma chave, desistia quando via que a porta não se abria. E eu ficava me perguntando por que não tentar com as outras chaves se há tantas no molho. Por que desistir na primeira tentativa fracassada? Por que não compreender que formato de fechadura exige uma chave. E que, mesmo que sejam muitas chaves, elas são diferentes e se prestam para abrir diferentes fechaduras. Há outra possibilidade também. Desistir da chave antes de saber se é ou não a chave certa. O que não é bom. Porque a pressa fará com que se tente uma chave após outra, e nenhuma delas abrirá a porta. O problema aí não é a chave, mas o jeito de usá-la. Acontece, muitas vezes, de alguém tentar abrir uma porta com uma chave e não conseguir, julgando ser a chave errada, e outra pessoa, usando a mesma chave, conseguir abrir.

Para se abrir uma porta, é preciso superar a teimosia e a impaciência. O teimoso insiste com a chave errada, e o impaciente não dá o tempo necessário para saber se é a chave certa ou errada.

O fato é que, na vida, haveremos de abrir muitas portas. E, para abri-las, precisaremos de muitas chaves. E de destreza. E de cuidado. Desistir no primeiro obstáculo demonstra pouco conhecimento da importância de abrir a porta. Insistir em demasia com a chave errada pode até prejudicar para sempre a fechadura. E a porta precisará ser arrombada, e arrombamentos podem machucar. E machucados nem sempre são fáceis de serem cicatrizados.

Teodoro e Sebastiana eram pessoas que viveram muito e que foram aprendendo, com o tempo, a colocar a chave certa, do jeito certo, e ver a porta se abrindo. Devem, naturalmente, ter errado muitas vezes. Os erros foram importantes para que percebessem a forma e o jeito certo de abrir a porta. O tempo deu a eles a sabedoria. O cuidado. A necessidade de se sentirem úteis abrindo portas. Quem sabe abrir também sabe fechar. Portas precisam ser fechadas. Ciclos vão se encerrando. A maturidade exige de nós outros posicionamentos. Quando escolhemos passar por uma porta, entramos em um novo cômodo e deixamos outro. Escolhas não são fáceis. Mas vivemos delas. Do que comemos à profissão que abraçamos. Do “sim” ou do “não” a um filho ao “sim” ou ao “não” aos nossos desejos. Teimosias atrapalham as nossas escolhas. Insistimos no erro da chave que não abre e desperdiçamos tempos preciosos. Passamos rapidamente de uma chave à outra sem saber, com certeza, se a que abandonamos não era a certa. E também desperdiçamos, porque o erro não estava na chave e, talvez ,demoremos para descobrir que o erro estava no nosso jeito.

Há muitos açodamentos. E a vida exige perícia, cautela, cuidado. Principalmente, quando lidamos com pessoas. Há muitos que dependem de nós e que esperam que estejamos com a chave certa e que a usemos do jeito certo para que uma nova porta se abra. E, com ela, um outro lugar. Um lugar desejado.

Um dia desses, um jovem, ao final de uma palestra, me disse que não suportava mais o seu trabalho. Mas que isso já havia se passado nos outros dois que ele havia abandonado. Fiquei apenas olhando. E ele prosseguiu tentando encontrar uma resposta se o erro estava no trabalho ou nele mesmo. Quando se tem dúvida já é uma possibilidade de acerto. Quem percebe a chave não abrindo e tem dúvida não abandona na primeira vez. Nem insisti em demasia com a mesma. O erro é da chave ou do meu jeito de abrir? O erro é do lugar em que estou ou é meu, de estar insatisfeito em qualquer espaço. Sabedoria não é privilégio apenas dos que vivem muito, mas é dom dos que querem abrir portas e encontrar o lugar correto.

Espero que o homem com o molho de chaves tenha a vontade de experimentar uma outra.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia-RJ) | Data: 06/08/2017

As escolhas de Alzira

Alzira trabalha em uma casa de família. Gosta do que faz. Trabalha na limpeza, na arrumação e, principalmente, na cozinha. Inventa receitas para agradar a família. Sonha, um dia, abrir um restaurante, mesmo que pequeno, para mostrar para mais gente o seu talento. Faz uma moqueca como ninguém. Sabe fazer à baiana e à capixaba. Faz todos os tipos de tortas e bolos. Enfeita até as saladas. O arroz com feijão tem algum segredo que ela não conta.

A patroa de Alzira a trata com muito carinho. Cada vez que há convidados para o almoço ou para o jantar, ela chama Alzira que recebe os aplausos como uma verdadeira chef de cozinha.

Alzira fica vendo, em seu celular, receitas de chefs famosos. Muda uma coisa aqui, outra ali. Concorda com o uso de alguns ingredientes; com outros, acredita que mistura o sabor, por isso muda. Faz do seu jeito e fica orgulhosa de ter a certeza de que sua receita melhora a original. E assim vai se surpreendendo e surpreendendo aos outros.

Alzira tem um filho de 6 anos, Mateus. Todos os dias senta com o menino e estuda junto com ele as lições da escola. Ela não pôde estudar como gostaria. O filho pode. O filho terá os caminhos mais abertos na vida, pensa ela. E, para isso, o estudo será o melhor companheiro. À noite, eles deitam juntos, e Alzira lê histórias para o filho. Ou inventa. Até que ele adormeça. Sonhando com palavras, personagens, vidas.

Em um dia de folga, Alzira estava indo com o filho na casa de uma amiga. Foi quando houve alguma confusão no ônibus em que estavam. E, então, ela viu que levaram o seu celular. O celular que ela mal havia começado a pagar.

A amiga disse que ela deveria ir à delegacia. Elas compraram juntas. E ela se lembra de que fizeram um seguro. Alzira foi. Foi bem atendida. O escrivão perguntou sobre o ocorrido. E ela explicou. Perguntou se houve violência ou ameaça contra ela. Ela disse que não. “Então, é furto”, disse ele. A amiga que estava junto explicou que era melhor que colocasse que fora roubo, senão o seguro não cobriria. O escrivão perguntou novamente a Alzira. Ela disse: “Não posso dizer que foi uma coisa, se foi outra”. O escrivão olhou para a amiga de Alzira. E para Alzira. Era apenas um detalhe. Era um celular novo. Comprado em 10 prestações. Só as duas primeiras haviam sido pagas. E agora teria que comprar outro. Bastava dizer que alguém a ameaçara com uma arma. Ninguém haveria de conferir. Ninguém ficaria sabendo.

A amiga de Alzira pediu ao escrivão que esperasse um pouco, que Alzira estava nervosa e que ela iria ajudar a amiga a se lembrar do ocorrido. Argumentou daqui, argumentou dali, Alzira ouviu atentamente. Disse-lhe a amiga que quem pagaria era uma empresa de seguro que tinha muito dinheiro, que ela ficasse tranquila. Depois de prestar muita atenção, Alzira explicou que gostaria demais que a tal seguradora pagasse, mas que não se sentia bem em mentir. A amiga voltou ao argumento de que ninguém ficaria sabendo. Foi quando Alzira concluiu: “Mas eu ficarei sabendo”. Voltaram ao escrivão e Alzira, já apressada, pediu que colocasse exatamente o que acontecera. “Foi furto, sim, doutor”. Saíram as duas da delegacia.

Na casa da amiga, estava Mateus, brincando com o filho dela. Alzira ficou pensando que teria que comprar rapidamente um outro celular. Não podia ficar sem. Falava com a família que mora em outro estado todos os dias. Saiu de lá como tantos para tentar uma vida melhor. E, no celular, estavam as receitas que ela pesquisava. E tinha as fotos que ela postava dos pratos tantos que elaborava com carinho. E os amigos que foi fazendo por ali.

Alzira sabe que já fez escolhas erradas na vida. O pai de Mateus foi um erro. Uma paixão que trouxe muita dor, mas que deu a ela o maior presente de sua vida, seu filho. Escolheu pessoas erradas para conviver e delas se desvencilhou. Quando olha para o passado, agradece pelo que aprendeu, mas gosta é do hoje. Da vida que tem.

Enquanto faziam bolo na cozinha, as duas conversavam. A amiga não quis mais tocar no assunto do celular. Falou apenas da insegurança das cidades, da violência que é um tormento, da injustiça que é tirarem da gente o que temos. Alzira, enquanto batia os ovos, foi ouvindo e dizendo: ” Por isso que eu gosto de ver o Mateus estudando. O estudo dele ninguém rouba, nem furta, não sei o jeito certo de dizer”. As duas riram. Prosseguiu Alzira: “Só sei que a gente não deve mentir”.

A mãe de Alzira está doente. E é a rocha sólida da vida da família. O pai de Alzira fez a mãe sofrer muito. Mas ela não quer mais pensar nisso. Gosta de lembrar do caráter, da firmeza, dos ensinamentos corretos da mãe. Alzira ainda toma a bênção da mãe todos os dias.

Mateus veio correndo e deu um abraço nas pernas da sua mãe. E disse que estava com fome. A mãe, orgulhosa do filho, sabia que tinha muito alimento para dar ao menino. O que cozia e o que fazia. O bolo de mandioca com coco, que estava terminando, e as lições de honestidade que nunca terminam. Foi por ele, também, que ela escolheu fazer sempre o que é correto. Se há outros que não se importam com os pequenos delitos, ela se importa. Que o Mateus seja o que quiser ser, exerça a profissão que quiser exercer, mas que escolha, desde cedo, ser bom, ser honesto e ser amoroso.

A amiga diz alguma coisa sobre políticos desonestos. Alguém no rádio estava falando sobre isso. Alzira pensa que é uma tristeza alguém não usar o poder que tem para fazer o bem. Escolhas erradas.

Enquanto olha o filho com aquele abraço apertado olhando para ela e pedindo comida, ela fica com lágrimas nos olhos, de felicidade, de gratidão por ser mãe de um menino tão lindo, tão bom.

Sobre o furto do celular? Ela nem está pensando mais.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 30/07/2017

Herança

Rosa tem pouco mais de 90 anos. Está doente. Há algum tempo, os médicos disseram que pouca coisa havia para se fazer. Deixou o hospital e foi viver os últimos dias em casa. Rosa não tem medo da morte. Gosta das rezas. Gosta de conversar com Deus e imaginar como será encontrar tantas pessoas que já se foram. Seus pais. Seu único filho homem. Seu amor.

Rosa é viúva. Tem algumas filhas e muitos netos. Tem parentes. Tem amigos. Domingo passado, muitos deles estavam em sua casa. Rosa estava bem. Conversava. Reparava nas conversas. Imaginava…

As crianças brincavam com aparelhos tecnológicos. Os homens e as mulheres bebiam e falavam sobre coisas cotidianas. Vez ou outra, um comentário sobre política, sobre algum filme em cartaz, sobre um médico bom que havia prescrito um tal remédio. A conversa ia fluindo.

Começou um jogo de futebol. Ligaram a televisão. Rosa lembrou do quanto seu marido gostava de futebol. Os tempos são outros. Ela sabia os nomes dos jogadores. Não sabe mais.

Aos poucos, eles foram indo embora. E Rosa foi ficando sozinha. Ela não se importa. Gosta de ficar com os seus pensamentos. Não tem medo deles. Lembrou-se de que havia deixado tudo preparado para a sua herança. Não queria saber de brigas. Conhecia várias famílias que entraram em guerra no momento da partilha. O marido havia deixado muita coisa. Boa parte, ela já havia dividido. O restante já estava acertado.

Mas Rosa pensava em uma outra herança. Que mundo ela gostaria de deixar para os seus. Seu marido era um homem rigoroso com a ética. Não tolerava que ninguém negligenciasse as atitudes de honestidade. Presenciou, tantas vezes, o marido preocupado com o outro com quem estava fazendo um negócio. Queria que as duas partes ficassem satisfeitas. Não gostava de ver alguém vendendo alguma propriedade por desespero. Pagava o preço justo. Tratava os seus funcionários com respeito e os valorizava.

Choraram juntos a morte do filho homem. Um acidente de carro. E a vulnerabilidade da vida se mostrou. Um jovem lindo, lembra Rosa. Como ele seria hoje? Prossegue em seus pensamentos. Vê os netos e se preocupa com eles. Gostaria de deixar como herança laços que não se rompem, de respeito, de afetos, de solidariedade. Olha para o país em que vive, país que os seus pais escolheram quando vieram de muito longe, e sonha que os ódios, os malfeitos, as mesquinharias se convertam em um agir coletivo. Não compreende como a política sobrevive sem sonhos. Fica prestando atenção aos partidos e aos políticos e vê tão pouca diferença. No discurso e nas atitudes. Preocupa-se com o que dizem os jornais. Deixou de acreditar em muitas informações. Pena. A verdade é uma herança que gostaria de deixar para os que ficam.

Rosa lamenta os namoros tão sem solidez de seus netos. Não é radical em nada. Mas pensa na beleza do cultivo, do tempo da espera, da conquista que se dá aos poucos. As pressas a incomodam. Tudo virou descartável.

Rosa não gosta das comidas prontas. Gosta do cozimento. Da conversa na cozinha. Dos preparos e da partilha. E todos juntos e cada um sendo quem é.

Compreende os tempos que mudam, compreende as novas descobertas, mas não compreende a ausência de amor. Gosta das canções antigas porque cada uma delas tem uma história. Gosta das paisagens. Tem saído pouco por causa da saúde precária, mas tem viajado muito porque tem memória. E porque gosta de lembrar do que viveu.

As filhas mudaram o corpo com várias cirurgias. Ela não se incomoda. Só não gosta de exageros. Cada um é o que é. E o que o tempo nos dá não nos deve causar desespero.

Ela está sempre arrumada. E as rugas parecem desenhar nela um traçado encantado. Canta ela algumas orações antes de dormir. Conversa com Deus e pede que a herança do caráter fale mais alto aos seus do que o dinheiro que eles herdarão. Deu a educação que pôde, os exemplos que conseguiu; agora, era com eles.

Rosa ainda há de florir algum tempo por aqui. Depois estará plantada em outro jardim, é essa a sua fé. Essa noite ela há de cantar uma canção que seu marido tanto gostava. ” Você é isso uma beleza imensa, toda recompensa de um amor sem fim”. Na opinião de Rosa, se todo mundo olhasse o espelho da própria alma e conhecesse a própria beleza…ah, que herança receberiam!

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 23/07/2017

Tempo de brincar

Li a reportagem sobre a reabertura do Hopi Hari. Fiquei feliz em saber que há espaço para matérias sobre parques e sobre brinquedos.

Longe de mim achar que temos de fechar os olhos para as graves crises que nos assolam. Precisamos de informações corretas e de opiniões edificantes. Precisamos de consciência política e de atitude corajosa frente aos erros tantos que maculam a imagem do nosso pais e a esperança que vive acanhada dentro de nós. Mas precisamos, também, de parques e de brinquedos. Precisamos de alegria. A alegria é um bom combustível para a inteligência. A criatividade que brota nas brincadeiras se estende nas várias formas de convivência e de solução de problemas.

Parques de diversão são um convite ao estar junto, ao rir, ao sentir e vencer o medo, ao se emocionar. É bonito de se ver os olhos ávidos de crianças que se lançam em cada atração. E de adultos que se permitem revisitar os melhores sentimentos da criança.

Já fui a muitos parques de diversão. Alguns pequenos, na minha cidade do interior. Ficava vendo a montagem do parque que funcionaria apenas durante a trezena de Santo Antônio, o Santo Padroeiro da cidade. E brincava o quanto podia. E, depois, via tudo sendo desmontado. A alegria partia um pouco e um pouco permanecia. Afinal, temos o humano poder da lembrança.

Menino ainda, fui a excursões nos parques de diversão em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os dois, aliás, Playcenter e Tivoli Parque da Lagoa, já não existem mais. Mas me lembro das façanhas, dos medos, do correr cúmplice na chegada aos brinquedos, dos lanches, da ansiedade na ida e do cansaço da volta – éramos promessa, o tempo ainda não nos mostrava a sua face, a sua pressa.

Tínhamos pressa em brincar. Em rir. Em nos soltarmos da realidade para viver a fantasia desses mundos encantados. A volta para casa era cheia de relatos corajosos. Enfrentamos as montanhas russas mais íngremes, entramos na casa dos monstros, no rio cheio de ondas, nos gigantes aparelhos. Sem pestanejar. E falávamos aos nossos pais que vibravam com a nossa alegria.

Fico perplexo em ver a pouca disposição de alguns pais de ouvir os relatos dos filhos. Preocupam-se quando se trata de assunto preocupante como uma doença, mas, quando se trata de ouvir sobre brincadeiras, parece desnecessário. Não é. Cada relato de um filho compõe sua trajetória. E tão importante quanto o conteúdo a ser dito é o som da voz e o encontro do ouvir e o olhar de atenção e o partilhar de vidas que se dão em todo lugar, mas que, na família, precisa ser ainda mais cuidado.

Meu pai ficava em sua cadeira de balanços enquanto eu contava o que havia feito o parque. Do parque, passei a contar tudo o que fazia na vida. Erros e acertos. O que foi um aprendizado para mim. Soube, desde cedo, que não precisava mentir para ser amado. Meu pai me amava não pelas minhas notas altas, não pelas minhas façanhas de super-herói, mas por ser seu filho.

E um gigante parque reabre. Que boa notícia. Quero ir para lembrar o ontem e para viver, na minha idade, a idade que nunca morre quando prestamos atenção. É bom ser novamente criança. É bom deixar as rugas penduradas em algum canto das nossas preocupações e rir o riso livre, solto, generoso. E usar uma outra linguagem. E se permitir as lembranças que alimentam. Há tantas que desnutrem. Comer com os filhos. Abraçá-los. Aliviar os seus medos. Ter medos com eles. Enfrentar o que há por vir. E prestar atenção ao pôr do sol em um parque de diversões. Deixar a roda gigante substituir os gigantes problemas. Por um dia. Quem sabe esse dia tenha um poder milagroso.

Há parques em todos os lados. E, em todos os lados, é possível brincar. Nada contra os jogos tecnológicos, mas precisam as crianças das brincadeiras com gente. Das emoções que as gentes proporcionam.

Dias atrás, fiquei com três lindas crianças toda uma tarde. Contando histórias. Brincando de finais tristes ou felizes. Aqueles olhares ainda estão em mim. Saudade é uma palavra que tem destaque especial no meu dicionário. Saudade do meu pai. Dos parques da minha infância. Daquelas três crianças me pedindo para que eu repetisse, mais uma vez, a mesma história.

Precisamos de informações e de opiniões corretas, mas precisamos de sorrisos. E de brincar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 16/07/2017