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O relógio

“Sempre há um relógio”, foi a frase que Lucas ouviu quando visitara uma tia, que vivia em um asilo.

Lucas andava envolto em pensamentos pouco felizes. Vivia às turras com o tempo. Parece que a beleza ia se despedindo dia a dia. Sempre fora muito vaidoso. Corpo perfeito. Cabelos impecavelmente arranjados. Olhos pidonhos de reciprocidade. Era um sedutor o tal do Lucas. Bastava se interessar e ajustava o olhar e o exibir e o dizer galante na ânsia da conquista. Obtido o sucesso, vinha o cansaço. Era preciso novamente buscar outra presa. E, de sedução em sedução, o jovem ia usando seus dias. E as pessoas pelas quais se interessava.

Amores duradouros não o animavam. Relações sempre efêmeras. Ria quando um amigo dizia que ele era campeão de 100m. Prostrava-se, se necessário fosse, para envolver. Depois abria uma gaveta de dizeres prontos para justificar sua partida. Enganava. Mentia. Dizia “eu te amo” como quem diz “bom dia”. Um “bom dia” não causa danos; um “eu te amo” pode ser demolidor. Preocupava-se pouco com o outro e o seus sentimentos. Era sobre ele mesmo o seu repertório escolhido. Mesmo em conversas, preferia fitar-se em algum espelho. Sua imagem o agradava. Ou não. Havia tanta necessidade de conquistar, de seduzir, de se compreender belo que a beleza não parecia suficiente para o seu próprio contentamento.

“Sempre há um relógio”, dizia Eunice, a tia.

“Estou ouvindo o barulho”, concordava Lucas, olhando em um espelho e reparando no cabelo que já ia se rarefazendo.

“Você gosta de espelho, não é?”.

Lucas fingiu não ouvir a frase da tia.

“Eu também gostava”.

O silêncio entre eles deu espaço a pensamentos.

“Perdi a única coisa que eu tinha, a juventude”.

“Todos perderemos”. Concordou Lucas.

“Não. Há outras conquistas. Conquistas que permanecem. Vidas significativas. Ah, não me esforcei para construir nada”.

Lucas apenas pensava. Olhava para a tia. E olhava novamente para o espelho. Estava preocupado com os cabelos. E reparava que algumas rugas começavam a se engraçar.

“Pense nisso, Lucas. Você ainda tem tempo de ir além da sua beleza”. “Imagine, tia. Eu nunca fui bonito”, disse sem acreditar no que dizia e sabendo que ela também não acreditaria.

Sua vida de sedutor, de pescador errático de histórias que nada representariam, de dispensador de vidas, que depois de conquistadas passavam a ser invisíveis não o realizava.

Olhava para o irmão, cioso de sua escolha amorosa e profissional e o reprovava. Considerava-o fraco. Sempre com o mesmo amor. Rotina que ele não tolerava. Se se cansava de alguém, que culpa tinha? Que culpa tinha se as pessoas deixavam de ser interessantes? Que culpa tinha se outras histórias surgiam em seu caminho?

“Sempre há um relógio”, disse a tia mais uma vez. E seguiu explicando que o tempo não nos dá ouvidos. Que podemos pedir e até implorar para que nos deixe sorver com mais vagar nossa juventude. Um novo silêncio e novos pensamentos.

Perto do espelho que tanto recebia o olhar de Lucas, uma senhora lia, com olhos de entusiasmo, um romance. Vez ou outra trazia o livro ao peito e abraçava as suas memórias. Eunice a conhecia bem. Dona de uma sabedoria invejável, cultivava as belezas da alma. Era o outro a sua preocupação, o seu cuidado. Dos tempos das enfermarias, guardava lindas memórias. Conta como foi trabalhar em hospitais em regiões de guerra. Lembra de nomes e de despedidas. Uma vida intensa oferecida ao outro. Não tem o costume de se olhar no espelho, prefere ler livros ou prestar atenção às pessoas. O tictac do relógio não a incomoda. Sabe que ele está lá. Sempre estará, mas prefere apenas viver.

Lucas se despede da tia e nem repara na senhora ao lado. Tem um encontro logo depois. Faz um esforço para se lembrar do nome do novo amor. Mentalmente, vai dizendo alguns. Não. Esses já passaram.

Não tardaria para chegar o anoitecer.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 25/11/2017

A filha perfeita

A aluna pediu ao professor que revisasse sua prova. O professor o fez. Sentou-se com ela e foi explicando a razão de uma nota que não era, de fato, desprezível. Com os erros devidamente apontados, a menina, aluna universitária, olhos lacrimejantes, começou a manear a cabeça, reprovando a si mesma. O professor quis entender a razão daquela dor: “Oito é uma boa nota. E as notas são instrumentos que nos ajudam a perceber erros e acertos, evoluções. É um diagnóstico, apenas. O que houve? Por que essa angústia?”

A jovem sentiu confiança. Era a primeira prova daquele professor que ela admirava. Com a manga da blusa, enxugou os olhos. Claudicante nos termos, explicou sem explicar: “Meu pai”.

O professor esperou algum complemento. Depois de uma pausa mais prolongada do que o necessário, insistiu: “O que tem o seu pai?”

A menina olhou para algum lugar que, certamente, seria o lugar do desconforto e voltou a lacrimejar. O professor esperou. Não perguntaria mais. Era preciso respeitar os sigilos daquele sentimento.

Ela, entretanto, prosseguiu: “Meu pai diz a todo mundo que eu tiro 10 em todas as provas, foi sempre assim, ele vai ficar decepcionado”.

Ela parecia que queria desenhar mais detalhes daquela relação, mas o choro agora veio sem economias.

O professor aguardou, olhou-a com ternura matinal. Havia disposição e experiência para ajudá-la a encontrar-se naqueles desencontros comuns em relações comuns dentro de casa.” Quer que eu aumente sua nota para você ficar tranquila e poder exibir um 10 para o seu pai? Acha que isso será bom para você?”.

A menina surpreendeu-se com a oferta do professor. Ficou em conversa interna querendo pescar alguma resposta.

O professor prosseguiu: “Não acha que tenha chegado a hora de você ajudar o seu pai a perceber que erros e acertos nos compõem. Que você é maior do que as notas que tira?”

A menina soltou quase que um murmúrio: “Ele me julga perfeita”.

A conversa estendeu-se um pouco mais. Para agradar o pai, ela mentira muitas vezes. Desde sempre, ele a exibiu para os amigos. Dizia ela os poemas que decorava. Ensaiava fingir-se de doente para não ter que se expor a isso. Dizia o pai que ela era a melhor aluna da sala. Que nunca havia tirado nota diferente de 10. E, agora, ela chegara à universidade e como iria exibir algo diferente na primeira prova?

O professor tentava imaginar aquele pai. Lembrou-se de tantos outros que cobravam dos filhos o que nunca foram. De mentiras em mentiras, fingiam todos uma perfeição que não se encontra nem nos tratados que se espreguiçam nas bibliotecas.

A consciência da falibilidade nos faz mais humanos. O que significa ser o melhor de todos os alunos? Ser tratado pela pecha de genial não ajuda os que têm de aprender a comandar seus destinos. Responsabilidade por nunca errar é um erro. Erramos como necessidade vital. Caímos como consequência de cansaços e escolhas pouca refletidas. E aprendemos. E escolhemos melhor. E prosseguimos em busca de alguma aspiração. Isso, sim, é necessário. Ter uma aspiração, um tema para viver.

O pai não faz o que faz por desgostar da filha. Mas os desgostos que causa são desnecessários. Talvez devesse ele compartilhar as experiências pouco exitosas, as falências tantas que o ensinaram a arte inspiradora dos ressignificados. Lembrou-se aquele professor de um outro pai que exigia que fosse a filha uma juíza de direito. Sonho que ele nunca conseguira realizar. A filha fracassou, segundo ela mesma. A cobrança era tão grande que os concursos se transformaram em tortura, e ela os repetia, um a um, com a imagem do sonho do pai em sua dolorida mente.

O amor não se esgota nas conquistas, mas na existência. A filha precisa sentir-se amada apenas por ser filha e não pelo imaginário colar com pérolas dos sucessos que o pai projetara. Projetar no outro a própria realização é um erro. O amor aprecia as imperfeições e as acaricia. E as unge com óleos corretos para os preparos necessários nos dias que antecedem aos outros que se sucederão em ganhos e perdas.

Pedras há em toda jornada, mas cabe aos pais refletirem sobre as próprias exigências e imperfeições para não atingir, com dor irreparável, os seus filhos. Erros por amor também doem.

Aluna e professor se despediram. A nota permaneceria. Anotou ele um sopro de vontade na atitude daquela jovem de começar a se libertar das teias que não eram dela. Fácil, não seria e sabia disso o professor, mas exatamente para esses desentraves que um dia ele sonhou em dedicar os dias a professar, nas salas de aula, sua inegociável crença no ser humano. Com todas as suas imperfeições.

O sol desmaiava, enquanto ele reparava alguma sombra na aluna que seguia em frente. Era perfeito aquele cenário.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 19/11/2017

O conselho do Baobá

Lá estava ela, a árvore gigante, a que guarda segredos e sabedorias, a que enfrenta as intempéries e continua crescendo, a que não se apressa a não ser para não desperdiçar os tempos da infância. Sim, ela, a árvore, gosta das crianças. Ela as vê com raízes de esperança. Ela as aguarda com sombras preciosas para o tempo do aconchego. E com elas conversa.

Era um dia de sol, de sol forte, e meninas e meninos estavam ali, deitados perto da boca do gigante Baobá. Sim, porque quem sabe das lendas e dos ditos antigos sabe que Deus criou primeiro o Baobá; depois, as outras árvores; e, por uma dessas razões que não vêm ao caso, virou o Baobá de cabeça para baixo. As raízes veem o infinito, e a boca pode sussurrar preciosidades aos que têm ouvidos de ouvir.

O Baobá começou por dizer que era bom estarem juntos. Crianças não devem viver sozinhas. Isolamentos nos levam a lugares perigosos. Sabe, a gigante árvore, que a conivência é o fio de beleza que nos liga à Luz primeira que nos gerou. Geradores de felicidade dependem dessa energia. Sozinhos nos apagamos. Sozinhos nos amedrontamos e, por vezes, desistimos.

As crianças ouviam atentas. Estavam juntas porque brincavam de viver. Brincadeiras tantas que desenvolviam suas inteligências e que acendiam seus sorrisos. Corriam, caíam, levantavam. Sujavam-se em terra boa. E mergulhavam em um rio de delicadeza que ficava bem ali ao lado, desfrutando parte dele, da sombra do gigante Baobá.

Foi quando o gigante aproveitou o rio para dizer das águas que não paravam. Do curso necessário. Dos instantes que se renovam. Das surpresas que virão. Uma das crianças quis saber se seriam boas as surpresas. A explicação lançou sementes em terra fértil. Algumas, sim. Outras, não. Tanto umas quanto as outras passarão como passa a água corrente do rio.

Outra criança falou da morte. A árvore comoveu-se. A pergunta havia nascido de alguma dor. Perder quem amamos é desconcertante. A árvore da vida pediu ao vento um sopro suave para que a compreensão fosse mais agradável. Somos filhos das estradas.

Chegamos e partimos. Nós e todos os outros. Ninguém permanecerá. “Há outras terras com outros Baobás”? – insistiu o menino. Sabia a árvore que ele queria saber do pai que se foi em uma dor teimosa, de uma dessas doenças que não desgrudam enquanto não levam. As raízes, que viam o infinito, inspiraram os ditos, e a resposta acalmou o menino. Era preciso esperar. Enquanto isso, era necessário viver. E juntos. “Nada de isolamentos” – insistia ela. “Os choros precisam ser compartilhados; as dúvidas, também”.

Naquelas sombras, eles deitavam uns ao lado dos outros na inocência linda dos inícios. “Por que não continuar assim?” – era o que dizia a grande árvore. “Por que permitir agressões?”. Foi quando alguns animais se deitaram ali. Sem brigas. Apenas para ouvir as histórias. O dia ia passando. A lua resolveu surpreender e apareceu antes. A paisagem não era para ser desperdiçada. O som dos pássaros completava a obra de arte. Sabia muito o Baobá, só não sabia o que acontecia depois desse dia. Futuros incertos. Crescendo, decrescem em alma. Começam a competir, a odiar, a destruir. As raízes já tentaram reposta. São milênios de perversidades. E, em algumas noites, a árvore chora para dentro. Na companhia das estrelas, conversa com o vento que traz notícias não tão boas de outros lugares. Mas quando amanhece e surgem as crianças, o sorriso do Baobá tem poderes restauradores. “Quem sabe esses sejam diferentes? Quem sabe cresçam de verdade?”.

Uma criança pergunta sobre o perdão. A árvore explica. Para as crianças, é mais fácil compreender, principalmente quando se olha o rio que passa. Uma outra pergunta sobre os que não têm alimento. Há ainda a que quer saber das razões das bravezas. Ali, naquela Árvore da vida, as prosas têm a temperatura certa. E as dúvidas irrigam a alma de quem precisa crescer.

Despedem-se e partem juntos. Caminheiros de trilhas incertas, mas ao menos alimentados pela seiva da bondade. Foi quando uma coruja reparou no orvalho chorador do gigante Baobá. Um pouco de tristeza, um pouco de emoção. A vida não se cansa de ter esperanças…

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 12/11/2017

Para além da árvore do esquecimento

Fiquei olhando para Luiza e bebendo as gotas de amor que caíam de seus ditos. Falava ela sobre a mulher. Sobre o sofrimento da mulher e sobre as esquisitices de quem não se incomoda. Falava que a verdade era mais fácil de ser empunhada como bandeira do que a mentira. Dava menos trabalho. Falava de seu avô, que dava conselhos em um interior de seu país. Havia gente e mais gente que se aproximava do velho e que jogava seus queixumes querendo uma opinião. Ele dizia que iria dormir com o problema e, na manhã seguinte, diria o seu achado. Era quando a avó de Luiza iluminava o marido e explicava a ele o que era o melhor para a vida de quem aguardava a resposta. A sábia era a mulher, mas deixava o homem brilhar. Eram tempos outros. Fiquei olhando para Luiza Diogo, a primeira mulher a assumir o cargo de primeira-ministra de Moçambique e descansei dos meus dissabores com o ser humano. Há muita perversidade por aí. Mas há Luizas que dignificam a natureza humana.

Moçambique é um entre tantos que cederam seus filhos para construir o país que somos, o nosso Brasil. Os construtores sofreram, entretanto.

Os navios negreiros trouxeram dores inconfessáveis. O último contato com a terra mãe, a África, se dava no “portal do não-retorno”. Dali sabiam que não havia mais volta, que nunca mais sentiriam o cheiro da terra em que nasceram. Antes, davam voltas na “árvore do esquecimento”. Ali, eram obrigados a esquecer o nome, a família, a pátria, a religião, a vida em desassossego. Esquecer? Como esquecer? Somos um punhado de instantes que vão se juntando e nos formando. Meu Deus, quanto horror, quanta perversidade, quanta ausência de compaixão! Vendidos chegavam ao Brasil. Sem referências. Sem direito ao amor. Sem direito à saudade.

Os tempos mostraram o quanto erramos. Aprendemos? Não sei. O preconceito ainda zomba de nós. Da nossa pouca capacidade de conviver. Continuamos exigindo esquecimentos e ditando o que é certo e errado no comportamento, na origem, na vida do outro, irmão nosso. Não é a cor que nos separa, nem a condição social, nem o local de nascimento, nem o gênero. O que nos separa é o ódio, a arrogância, a intolerância.

Fiquei olhando para Luiza e pensando na palavra esperança. Ela nasceu em outros tempos do que aqueles em que se escravizavam pessoas. Mas, nos tempos de Luiza, nos nossos tempos, ainda há homens espancando mulheres, ainda há crianças destruídas pela violência e pela ausência de possibilidades. Nos nossos tempos, as travessias ainda são dolorosas. Os medos das guerras e das pestes contemporâneas levam irmãos nossos ao fim antecipado. Pestes contemporâneas? Sim. As doenças da alma, dos comportamentos incorretos. Dos que se acham no direito de subjugar, de matar.

Luiza é uma linda mulher. Seus olhos olham longe e olham perto. Longe porque podem antever dias melhores a partir da sua ação. E perto porque têm respeito por aquele que dela se aproxima. Seus olhos sorriem. Nada de esquecimentos. Mas de acumulações. De histórias que ontem nos ensinaram a mudar. A abraçar a verdade. A defender a coerência como se defende uma irmã gêmea. A ser autêntica. Foi assim que ela encerrou sua fala, louvando a autenticidade.

Fiquei olhando para Luiza e agradecendo por estar ali. No oceano índico. No velho continente africano. Na Mãe de tantas mães nossas que embalaram seus sonhos em seus filhos e que, em um dia de luz – Luiza/luz – ,resolveram ir além e assumir o comando da própria história.

Mulheres e homens. Negros e brancos. Daqui ou de lá. De um jeito ou de outro. Não esqueçamos. As diferenças nos embelezam. Raízes lindas de tempos vindouros em que aprendamos que as mãos dadas tornam a jornada muito mais prazerosa.

Beijei Luiza como quem beija todas as mulheres. Com respeito. Como quem pede perdão pelos erros de ontem e pede permissão para tentar novamente. Um mal que se faz a qualquer humano desumaniza toda a humanidade.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 05/11/2017

Sobre feridas e cicatrizes

A conversa se deu entre uma mãe e uma filha.

A filha, jovem ainda, ardia em uma paixão teimosa. Havia feito todas as tentativas possíveis para estar ao lado de seu amado. Humilhou-se diversas vezes. Perdoou seus deslizes. Chorou um futuro que parecia decidido a não enlaçá-los. Ele parecia estar bem ao lado de uma outra. Ela imaginava os ditos que, da boca de seu amado, flechavam outro ouvido. Seria ele criativo e despejaria outras falas ou estaria repetindo o que um dia tanto a elevou? Estaria ele sentindo a sua falta ou a outra o preenchia plenamente? Enjoaria dela e voltaria para os seus braços, seu abraço, ou o melhor era não esperar nada disso e prosseguir? Cartas já foram enviadas. Mensagens também. Encontros com cheiro de acaso, muito bem planejados, deram em nada. Apenas um sorriso gentil e um “Como vão as coisas”? E nada mais. Mas, ontem ainda, havia fervura. Teria sido tudo um impulso, um desejo apenas? A efemeridade dos sentimentos é inaceitável para quem ainda os tem. Ele, definitivamente, havia esquecido as promessas de eternidade, os tantos “eu te amo” que tantas consequências trouxeram.

A mãe ouvia as dores e os argumentos da filha. Ouvia, apenas. Era disso que a filha precisava. Mas chegara a hora de algum remédio. As feridas estavam por demais doloridas. E incomodativas. Foi quando surgiu a pergunta: “Mãe, você já sofreu assim?”. A mãe olhou para trás e sorriu para dentro. “Diga, mãe. Você já se sentiu um nada, um troço qualquer, uma mulher trocada?”. Depois de uma pausa, não muito longa, vem a resposta. “Filha, é evidente que sim. Mais de uma vez. Eu sei como dói. Um buraco se abre. E quem nos ensina como remendá-lo?”

“Quem, mãe?” E foi quando a mãe, com a delicadeza que o momento exigia, lançou sua homenagem ao tempo. O tempo é senhor dessas circunstâncias. E é um senhor que não obedece aos nossos apelos. A dor não se vai no dia que decidimos.

“Mãe, um dia passa e a gente nunca mais lembra?”. Era a pergunta de quem ainda estava debutando no sofrer.

“Não digo que nunca mais a gente lembre, filha. Mas é uma lembrança diferente”. A filha quis saber, quis entender melhor.

“As feridas doem. As cicatrizes, não”.

A mãe foi acariciando a filha e dizendo que a sua alma era cheia de cicatrizes. Algumas de paixões que se foram, outras de amizades arruinadas, outras de dissabores da profissão, da lida. Outras de despedidas forçadas. Estavam todas ali enfeitando a sua alma. “Enfeitando, mãe?”.

“Sim, filha, o sofrer nos enfeita com uma magia própria. Quando mexemos nas feridas, a dor é horrível e elas demoram mais para cicatrizar. Mas quando viram cicatrizes – e delas nos lembramos -, lembramos mais da beleza dos sentimentos do que dos abandonos. Não se lamente por sentir o que você está sentindo. Você está viva. Apaixonada, ardente. O tempo fará você se lembrar desse tempo de uma outra maneira”.

“Aí será cicatriz e não ferida, né, mãe?”.

“Acho que já estou melhor, acho que já virou cicatriz”.

“Calma, minha filha, não é tão rápido assim. Mas um dia você abrirá a janela e respirará um outro ar e, subitamente, perceberá que está pronta para outras paisagens”.

Era um dia se despedindo quando se deu aquela conversa. E a janela estava aberta. Mãe e filha viram o pôr do sol. Quantos amantes, naquele mesmo instante, viam o mesmo pôr do sol sem saber se estarão juntos no amanhã? Quantos, de olhos fechados, impedem-se de assistir a essas fascinantes despedidas.

“Vou preparar uma comida gostosa para você. Se precisar chorar mais, chore. E não se envergonhe disso. É por amor e não por ódio que você está chorando”.

A filha olhou para a mãe e deu um sorriso há muito escondido. “Mãe, um dia eu vou ser igualzinha a você”.

“Cheia de cicatrizes, filha?” Riram juntas e se alimentaram uma da outra antes do jantar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 29/10/2017

Francisco

“Que nome você quer dar a ele?” – era a pergunta que a mãe fazia ao filho.

“Francisco”.

“Francisco é nome de santo e não de cachorro”.

O filho ficou prestando atenção à resposta da mãe, enquanto olhava o olhar do cãozinho que acabara de chegar em casa para viver com eles.

Luciano, do alto dos seus 7 anos, explicou à mãe:

“Francisco é o santo que sempre gostou dos animais. Então, ele não vai ficar ofendido. Vai gostar. Pode ter certeza disso. Eu mesmo já expliquei para ele”.

“Explicou para ele como, menino?”

“Engraçado, né, mãe? Tem um monte de imagem de santo, aqui em casa, e a senhora não conversa com ninguém. Eu converso, uai”.

A mãe ficou perplexa diante do filho: “Nossa, nunca imaginei”.

“Eu vi o filme da vida de São Francisco, mãe. É muito lindo. Eu disse para ele que nós iríamos adotar um cachorrinho. E eu quase o vi sorrindo. É isso. E aí eu expliquei que o nome seria Francisco, embora eu vá chamá-lo de Chico”.

“Oh, meu filho. Acho que você tem razão”.

“Mãe, a gente aprende muito com os animais. Lembra do Spiff? Ele fazia festa toda vez que a gente chegava, ficava feliz quando saíamos com ele para passear, agradecia o menor carinho” – disse o garoto choramingando.

“Chora não, meu filho. O Spiff está no céu dos cachorrinhos”.

“Mãe, eu não sei se tem céu dos cachorrinhos. Eu sei que ele fez da nossa vida um céu. E agora é a vez do Francisco”.

“Olha aí Luciano! Ele acaba de fazer xixi”.

“Calma mãe. Ele aprende. Cachorro aprende mais fácil que gente”.

“Por que você diz isso, meu filho?”

“Já viu cachorro fazendo maldade mãe? Já viu cachorro com preconceito? Já viu cachorro exigindo alguma coisa para dar amor?”.

A mãe, que sempre se surpreendeu com Luciano, seu único filho, estava radiante de felicidade. Ela sempre teve medo das suas ausências. Viviam apenas os dois. O marido a deixara pouco tempo depois do nascimento do filho. Ela trabalhava duramente para manter a casa e dar o melhor ao menino. Invariavelmente, liam juntos à noite. Gostavam das histórias que nasciam das experiências de amor.

Durante o dia, pouco se viam. Vanessa tinha para si que, se ela falhava na quantidade, não podia falhar na qualidade. Os finais de semana eram lindos. Programas simples, mas juntos. O cachorro que morreu vivera com eles momentos preciosos de aconchego. Enquanto ela lia ou contava histórias ao filho, observava o menino deitado com o cachorro deitado nele, possivelmente, também atento à história. A despedida de um cachorro é sempre dolorosa. Depois de algum tempo, Luciano pediu um outro. A mãe concordou. E assim chegou Francisco que, por enquanto, olha assustado e faz xixi no lugar errado. Isso é pouco pelo muito de prazer que ele será capaz de proporcionar. Sem muito esforço. Apenas vivendo. Apenas festejando o estar vivo.

Pronto. O xixi já está limpo, e Francisco se espreguiça no colo de Luciano. E respira fundo como que sentindo as batidas de um coração menino. Viverão juntos por um tempo. Será um tempo bom. Um tempo de delicadezas e aprendizagens.

O Santo, cuja festa se deu no início deste mês, vê a cena e aprova. O nome e os afetos. É nessa fotografia que ele quer estar. O essencial está ali. Vanessa, Luciano, Francisco e uma arquitetura propícia para o alicerce da bondade. Se algo falta, o que está presente basta. Pelo menos é o que diz o rabinho acelerado do novo habitante daquela casa.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 22/10/2017

A salvadora de vidas

Passaram-se alguns dias. A dor não passou. As famílias de Janaúba ainda perambulam perdidas em pensamentos que não querem acreditar. Os mineiros, tão acostumados a contemplar suas montanhas, tão afeiçoados à prosa mansa, ao convite saboroso para um pão de queijo e um café fumegante, queimam-se de tristeza. O incêndio provocado foi no dia do aniversário do pai do tal fabricador de picolés que já havia denunciado a própria mãe por tentar envenená-lo. Não. Não vou falar sobre ele. Deixo a missão aos que estudam a mente humana e os seus desalinhos. Vou falar dela. A salvadora de vidas.

Quantas vidas salvou naquele dia a professora Heley de Abreu Silva Batista? Quantas vidas salvou em outros dias meneando seu corpo de um lado a outro para dar conta de entreter e acolher aquelas crianças? Quantas vidas iluminando, contando histórias e preparando festejos? Quantas vidas inspirou ao se dedicar a estudar as crianças que tinham alguma deficiência e que mereciam ser tratadas com dignidade e com oportunidades para prosseguir? A salvadora de vidas perdeu um filho em um triste dia de sol naquelas montanhas alterosas. Afogado em uma piscina. Afogou-se ela em lágrimas de uma mãe incrédula no enterro do próprio filho, de uma criança partida prematuramente. Chorou a dor mais doída. Fechou-se no luto dos que parecem desistir da luta. Não desistiu. Renasceu. Foi mãe novamente. Mais de uma vez. Prosseguiu. Sem nunca esquecer do que partiu naquele dia que poderia não ter existido. Quantas brigas com os pensamentos para tentar entender o que poderia ter sido feito.

O tempo passou. As crianças ocuparam o sagrado espaço do seu oráculo. Ser mãe, ser professora, ser salvadora de vidas. Ainda havia muitas ervas daninhas para separar das plantas que, ainda pequenas, deixavam de ser sementes e buscavam algum sol para crescer. A professora sabia disso. Sabia pelo que vivera. Sabia pelo que estudara. Sabia pelo que sentira. Sentia-se bem ali, naquela escola, até o nome lhe agradava: “Gente Inocente”. E estava perto o dia da criança. Todo dia é dia da criança. E estava perto o natal. A professora gostava dos serviços religiosos, da pastoral da família. Há muitas famílias em Janaúba olhando para os quartos vazios dos seus filhos que partiram antes. Há outras que, embora enlutadas também, olham as suas crianças sobreviventes e pensam na professora, na salvadora de vidas.

Quantos mistérios há nesta vida! Quanta dor acumulamos! Afinamos e desafinamos, como gostava de dizer o mineiro Guimarães Rosa ao explicar que vamos mudando, que não estamos prontos, que não somos sempre os mesmos.

Das tragédias também se aprendem lições. Desde o dia do incêndio, tenho pensado naquelas crianças e nas suas famílias. Tenho pensando nas três filhas da professora. Duas adolescentes e uma ainda bebê. Crescerão sem a sombra da mãe. Crescerão, entretanto, com a luz que não cessa mesmo quando quem amamos parte. A cidade mineira está triste, mas não deixa de estar iluminada. São os mistérios. Que não compreendemos. Que arrancam pedaços de nós, mas que, miraculosamente, se refazem aos poucos, com o sagrado tempo, para que consigamos prosseguir. A travessia – viva, Guimarães! -, é necessária. Prossigamos. Chorando os nossos amores, lembrando os nossos heróis.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 15/10/2017

As dores do Reitor

Morreu o Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. Luiz Carlos Cancellier de Olivo não resistiu à dor da injustiça, não compreendeu a incompreendida ação contra sua dignidade e decidiu partir.

Morava ao lado da universidade. Vivia a vida da universidade. Foi acusado. Como tantos outros em tantas outras circunstâncias. Preso. Humilhado. Banido. Foi condenado? Não. Não pelo devido processo legal. Foi antecipadamente condenado, prematuramente condenado. Ele e tantos que se tornam vítimas de autoridades sem a maturidade necessária para o exercício do poder.

Há muitas manifestações de dor e de respeito ao reitor que partiu. Inclusive de setores da justiça. Dos que compreendem. Que lições podemos tirar? Os que o condenaram, antecipadamente, responderão por isso?

Há excelentes juízes e promotores e delegados e outras autoridades constituídas para fazer valer a justiça. Mas há tantos que embriagados pelo poder, pela síndrome do pequeno poder, pelos desequilíbrios de um aplauso fácil que não se contêm e se lançam ferozes contra a primeira vítima. E vão se alimentado do seu sangue e da sua dor. Tudo estampado nos jornais. Tudo apresentado pela “verdade fabricada” do noticiário televisivo. A perversa relação entre membros do ministério público e da polícia federal com a imprensa é caminho certo para a injustiça. Porque há excesso de pressa e ausência de cuidados. Por que é necessário dar entrevistas, divulgar fatos, vazar procedimentos no início de um processo investigatório? Onde está a cautela de quem deveria ter a responsabilidade de fazer valer o super princípio constitucional da dignidade da pessoa humana?

Um promotor de justiça que se lança com a fome dos urubus jamais cumprirá o seu dever. Devoradores ávidos, cegos pela própria necessidade de se alimentar do podre poder. Pena. A Constituição Federal de 1988 deu ao Ministério Público responsabilidades imensas. E, talvez, a maioria compreenda e assim aja. Mas os que se desviam causam um mal imenso ao país. Covardemente, sim, porque se escondem nos benefícios da instituição, atacam suas presas. E uma parte do judiciário prefere dar de ombros, lavar as mãos. Alguns por comodismo, outros por medo da imprensa. Triste imprensa que não se preocupa com a verdade, mas com a velocidade do que quer dizer. O fato? Importa menos que a versão, o preconceito.

Lá se foi um reitor, um educador. Foi triste. Prematuro. Viveu dias desnecessariamente amargos. Aprendamos com esse partir. A compaixão é um valor iluminativo ao direito. Compreender a dor do outro melhora a atuação dos profissionais que exercem poder. Se for muito pedir esse valor, ao menos a ética. O não fazer ao outro o que não gostaria que fizessem com você.

Não conheci o Cancellier. Conheci sua história e me entristeci. E me solidarizei e ousei sonhar com novos tempos. Tempos difíceis, hoje, em que os ódios se dissipam muito mais rapidamente que o amor. Que o sangue nos olhos impede a alma de se apresentar, em sua janela. O que se quer é o que queriam os que iam às arenas da Antiguidade ver os homens sendo devorados pelas feras? Então, não evoluímos?

Descanse em paz, reitor. Só me resta uma esperança. As boas sementes, um dia, desabrocharão e trarão novidades. Espero apenas que não demorem, há muita dor desnecessária por aí.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 08/10/2017

As gavetas de Ângela

Era um dia sem muitos afazeres. Um sábado ou domingo, não me lembro. Ângela acordou disposta a colocar ordem em suas gavetas. Ela sabia a razão. Na semana anterior, recebera um adjetivo não muito agradável: acumuladora. Foi Laís quem disse. Laís e Ângela são amigas há muito tempo. Estavam conversando sobre uma conhecida que havia falecido. E sobre as bugigangas que aguardavam um destino.

“Por que se guarda tanta coisa?”, questionava Laís. Ângela concordava com a amiga sem se dar conta de que, em todos os cantos da casa, havia sobras de outros cantos do passado. De desafinações, inclusive. Presentes de um casamento há muito encerrado. Roupas não usadas e que, nem por decreto, serviriam. Discos velhos ladeando uma antiga vitrola sem funcionamento. Convites de casamento, de festas de 15 anos, de batizados. Cartões de natal que foram ficando para serem agradecidos. Recortes de alguma revista de fotos com alguma roupa que serviria para algum modelo a ser feito. Pratarias que clamavam por limpeza, cápsulas de café de uma máquina defeituosa. Deviam estar vencidas. Cortinas que foram retiradas para algum remendo e que ficaram aguardando alguma decisão. Brinquedos de cachorros que já morreram.

“Por que se guarda tanta coisa?”, insistia Laís. Ângela fingiu cansaço e deu a visita por encerrada. Foi logo se levantando para acompanhar a amiga até a saída.

Nos dias que se seguiram, ela observou com mais afinco os tais cantos de acúmulos. E foi, justamente em um final de semana, que ela resolveu começar a obra há muito retardada.

E começou com as gavetas. O que havia nas gavetas de Ângela nem Ângela imaginava. Havia uma ordem clara para Juliana, sua funcionária, de não mexer, de não mudar de lugar, de não botar nada fora. Limpar aqueles espaços era por demais penoso. Mas a menina cumpria o seu papel ocupando-se da preocupação de não magoar a patroa.

Quando Ângela começou a remexer nos antigos papéis que habitavam aquelas gavetas, preferiu estar sozinha. Havia muita história. Era preciso cautela. Passados não são descartáveis. Se se guardou, fora por alguma razão.

Colocou os óculos e se pôs a examinar. Abraçou um velho boletim da antiga escola primária. Reconheceu a letra da velha professora. Percorreu o seu imaginário em busca daquele tempo. A fotografia amarelada da primeira formatura. Tentou se lembrar dos nomes. Difícil. Muitos já se foram. Resolveu pôr fora o boletim. Não usaria para mais nada. Mudou de ideia. Um boletim não ocupa tanto espaço.

Encontrou receitas médicas. Antigas. Ficou se lembrando dos médicos que as receitaram e de sua mãe que fazia questão de estar sempre com ela. Guardar isso era desnecessário. Levantou-se e pegou um pote de lixo. Mudou de ideia. Ficaram tantos anos ali que poderiam ficar um pouco mais. Fotos, não havia razão para descartá-las. Encontrou cartas de família e cartões postais. A primeira viagem à Europa. Escrevera todos os dias para a mãe. Se a mãe havia guardado, por que agora descartar? Resolveu abrir a gaveta debaixo.

A vela da primeira comunhão, o diploma da escola de datilografia. Levou o diploma junto ao peito e pensou nos novos tempos. Nem máquinas de escrever existem mais. Ao longe, viu a sua. Sem fita. Sem uso. Mas, ali, ocupando um espaço mínimo. A primeira passagem de avião, Não. Não havia necessidade de guardar. Mas também não havia necessidade de jogar. Iria refletir um pouco mais.

Abriu mais uma gaveta. Os lápis que a própria mãe colecionava. Ainda apontados. Por ela, certamente. Faz tanto tempo, e eles sobreviveram. Poderia doá-los para crianças carentes. Mas lápis não custam caro. Não. Era melhor que ficassem ali. Viu papéis de hotéis, cartões de visita, todos muito bem guardados. Cédulas de dinheiro antigas. Um dia, doaria para algum museu.

Cansou-se de tanta arrumação. Resolveu descansar um pouco. Sentou-se na velha poltrona e ficou pensando no que já passara. Era melhor não mexer nas gavetas. Estavam quietas, ali, guardando o passado. Talvez fosse melhor se desfazer das roupas em desuso. Mas…outro dia. Pensou em Laís e em seu comentário. Pensou em Juliana e em seus cuidados. Nela mesma, pensou pouco. Os dias iam trazendo acúmulos e levando o tempo. Ainda ontem, imaginava uma outra vida. Hoje, guarda o que pode com medo de desaparecer. Não sabe de onde tirou essa ideia. Medo de desaparecer? Ora, desapareceremos todos. “Era melhor voltar às gavetas e limpá-las de uma vez por todas”, falou consigo mesma. “Outro dia”, emendou.

“Gavetas vazias são mais fáceis de serem surpreendidas com novidades. Novidades nem sempre são boas”, resmungou Ângela. Se a vitrola não estivesse estragada, certamente ela colocaria um disco de Edith Piaf. Sempre gostou de músicas francesas. E de imaginar futuros.

O dia já estava de partida. Era melhor se preparar para dormir e torcer para algum sonho bom. Sem gavetas nem despedidas.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 01/10/2017

Os mistérios da primavera

Que mistérios guarda a primavera? Nenhum – dirão os mais céticos. Nenhum?

Ah, como seria bom se as flores mimosas pudessem falar. Ou se os grandes jacarandás fizessem o mesmo. Ou, talvez, os ipês amarelos que trazem sol a tantas névoas. Os homens se distanciam dos mistérios e, por isso, não compreendem.

O inverno pode ser rigoroso. O frio cobra o seu preço, principalmente quando estamos desprevenidos, quando nos esquecemos de que ele é efêmero. O tempo do inverno é sempre passageiro, mas nós, passageiros da vida, teimamos em teimar. Em nos desesperar. Em querer resolver antes o que antes não se resolve, Há momentos em que o melhor a fazer é esperar. Ou isso, ou nos arrependeremos de nossas pressas. O inverno nos convida a um pouco mais de reclusão. De trancafiamento. De espera.

As ansiedades nos levam ao erro. O que perdeu o amor, quando busca um outro amor, desesperadamente, se esquece de que o amor é esperança e que a esperança compreende as mudanças de estação. O que se perdeu em ilusões, o que sofre mesmo sem saber de onde vem o sofrimento, o que se sente insatisfeito pelos rumos que tomou, o que está infeliz; todos eles, ou eles todos em um só, se aguardarem, verão a primavera.

Os frios da alma nos congelam de tal ordem que é comum estarmos em casa com saudades de casa, é comum estarmos com alguém, com alguém que nos falta. Não, não é o outro o culpado da minha dor. Projeções não me levam a lugar algum. Se o outro ocupa um altar no sagrado dos meus intentos, quem permitiu fui eu. Dirão os mais sofridos que não é bem assim, que não se decide por uma paixão, que ela é flecha, que chega cortante sem pedir licença. E que, teimosa, não parte. Direi que, mesmo partido, um dia ela parte. Parte como parte o inverno. No seu tempo. Sem que possamos fazer com que se apresse. O que não podemos é dificultar a visão de uma primavera que já veio. De olhos fechados não se enxergam as flores nem os ramos novos que brotam em árvores que pareciam mortas.

Esperar que os sentimentos se acomodem evita muitas avalanches. Decidir antes o que antes não deve ser decidido é prova de impaciência. O que sabemos nós dos que sentimos? Como ter certeza? Por que, então, sairmos no sereno do inverno? O frio pode ser congelante. E, depois, teremos mais trabalho. E a doença da desesperança pode nos tomar de tal maneira que, mesmo na primavera, tenhamos dificuldade de perceber que já passou.

Fernando Pessoa poetizava dizendo “quando vier a primavera, se eu já estiver morto, as flores florirão da mesma maneira. E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada…”. Se eu estiver morto para o amor, as flores passarão desapercebidas. Desperdício.

Por isso, vale um pouco de confiança e de conhecimento. Confiança em nosso poder de regeneração e conhecimento de que outras dores já se foram e nós permanecemos.

É assim que se vive a vida. Morrendo e renascendo. A cada instante. Mais curto ou mais demoradamente. Os instantes também têm tempos diversos. Mas, quando chega a primavera, eles respeitam. Sabem que nem tudo é explicável. Há mistérios por aí capazes de nos surpreender.

Bem-vinda, Primavera.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 24/09/2017