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Palavras não ditas

Por Gabriel Chalita

Fui assistir ao filme “Gonzaga – De Pai pra Filho”, de Breno Silveira. O filme é genial. Conta a trajetória do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, e sua saga na difícil relação com o filho, Gonzaguinha. O pai saiu de Exu (PE) para tentar a vida em outras cidades. Primeiramente, em Fortaleza, onde virou corneteiro em um quartel. E, depois, no Rio de Janeiro, onde, após tentativas fracassadas de tocar tango e valsa, aventurou-se pelo baião.

O filme conta, também, a história de seus amores. Dos preconceitos tantos que sentiu na pele. E narra a história de Gonzaguinha. A mãe morreu de tuberculose e o pai percorreu o Brasil, escravo da canção. O tempo passou. O encontro dos dois compõe a trama maior do filme. A dificuldade de se entenderem. As mágoas. Diálogos doídos. E muitas palavras não ditas. Até que resolvem fazer uma turnê.

É interessante ver como as relações humanas são intrincadas. Essa é uma história de personagens conhecidas. Porém, ela se repete – cotidianamente– nas relações entre pessoas que se amam, mas que têm dificuldade em manifestar o amor.
 
A família é o primeiro espaço de convivência. E esse espaço é sagrado. Quando a família não supre as necessidades fundamentais de uma pessoa, seu desenvolvimento torna-se mais difícil. Pais precisam entender a importância do diálogo. É compreensível a falta de tempo, mas não é compreensível que, no pouco tempo em que pais e filhos estejam juntos, faltem palavras. Nos restaurantes, é possível ver famílias inteiras usando o celular. Um vendo e-mails, outro passando torpedos, outros jogando games. E nada de palavras.

Esquecemos a poética da contação de histórias. Mesmo em famílias com pais analfabetos, era comum contar histórias para as crianças dormirem. Histórias da própria família ou outras, trazidas pela riqueza da oralidade. É no cotidiano da vida que se forja o caráter de uma pessoa. Cuidemos dessas relações.

Fonte: Diário de S.Paulo

O papel do professor na construção da cidadania

Por Gabriel Chalita

Desde os primórdios da cultura grega, o professor encontra-se em uma posição de importância vital para o amadurecimento da sociedade e para a difusão da cultura. As escolas de Sócrates, Platão e Aristóteles demonstram a habilidade que tinham os pensadores para discutir os elementos mais fundamentais da natureza humana. Sabiam o que era importante, porque viviam da reflexão.

No processo de desenvolvimento das habilidades cognitiva, social e emocional dos alunos, o professor deve levá-los a refletir acerca de questões condizentes com os problemas en¬frentados no dia a dia. O grande desafio do educador é estimular e convencer o educando a valorizar o bem comum, a boa convivência, a responsabilidade partilhada. O acesso à informação e à educação conduz à prática da cidadania.

O cidadão consciente respeita os espaços e as pessoas. A educação para a ética prepara o ser humano para o equilíbrio de aceitar que não devem prevale¬cer as vontades individuais; a cidadania, afinal, não é um direito solitário – é a arte da convivência social.

Eis o princípio básico da construção da cidadania: educar para a convivência pacífica, feliz. Educar para o respeito, para a troca de experiências, para o exemplo no trato com o outro e consigo mesmo. Educar para que todas as vicissitudes da vida sejam enfrentadas com galhardia.

A responsabilidade de formar indivíduos que respeitem os direitos e os deveres de cada um e de todos não é, obviamente, apenas da escola. No entanto, o professor tem de dar o exemplo – e o aluno precisa ter limites, ciente de que liberdade não significa permissividade. Esses limites devem ser entendidos como necessários e provenientes da autoridade do professor, para que ele exerça com liderança e com competência seu mister. Também não é admissível que o mestre se valha de gracejos preconceituosos, e faz-se fundamental que utilize o tom adequado ao dirigir-se aos alunos.

Na construção da cidadania, urge que o professor utilize métodos e traga à baila discussões que despertem o interesse dos alunos. As novas tecnologias empregadas pedagogicamen¬te estão à disposição do educador. Da internet à sucata, muito se pode utilizar para envolver o aluno e discutir aspectos contemporâneos que se relacionem com sua capacidade de melhor conviver em sociedade. Forma e conteúdo têm a mesma importância no ambiente educacional.

As práticas democráticas, o envolvimento efetivo dos alunos no processo de aprendizagem, a união entre conhecimento e reflexão conduzem à educação libertadora. Não se pode ensinar a importância da liberdade sem permitir que o aluno seja livre. Do mesmo modo, iniciativas de professores que busquem tornar mais rica sua função social de educar devem ser incentivadas.

Na obra Pedagogia da autonomia, Paulo Freire fala-nos do “sonho viável”, que só pode ser conquistado por meio da educação libertadora. O autor trata da necessidade de o professor avaliar constantemente seu trabalho, o que nos remete, mais uma vez, à reflexão cotidiana: “O sonho viável exige de mim pensar diariamente a minha prática; exige de mim a descoberta, a descoberta constante dos limites da minha própria prática, que significa perceber e demarcar a existência do que eu chamo de espaços livres a serem preenchidos. (…) A questão do sonho possível tem a ver exatamente com a educação libertadora, não com a educação domesticadora”.

Fonte: revista Profissão Mestre

Professor e aluno: uma relação para a vida

Por Gabriel Chalita

O ser humano se forma em meio a um fluxo inexorável de emoções. Cada encontro guarda um registro. Os registros iniciais vêm da família que acolhe o ser que se revela pela primeira vez ao mundo. Depois, a escola. E, na escola, os professores.

Os primeiros professores geralmente têm um preparo especial para tratar com as crianças que chegam desconfiadas diante do novo cenário, que choram por ter de deixar os pais e se assustam com um movimento qualquer que seja diferente dos de casa.

Do mesmo modo, os professores alfabetizadores possuem uma formação direcionada para esse acolhimento. Afinal, o aluno pode apresentar maior ou menor dificuldade para ler e escrever, por questões cognitivas ou de outra ordem.

No caso dos adolescentes, os educadores precisam saber que os alunos estão em um processo constante de transformação, o que lhes altera o humor, o sono e a concentração. Eles têm uma rebeldia natural que, se bem trabalhada, pode se transformar em uma criatividade impressionante.

Às vezes, os professores acreditam que o jovem não precisa do mesmo carinho e da mesma atenção dispensados à criança no processo educativo. Há muitos que na faculdade, por exemplo, decidem não se comprometer, porque pensam que os encontros são tão poucos que não compensa saber mais sobre cada aluno.

Na verdade, os professores marcam toda uma vida, positiva e negativamente. E o ser humano é tão complexo que não consegue controlar as consequências das palavras e dos gestos. Não poucas vezes, as marcas surgem de feridas abertas que os alunos têm no momento em que, sem conhecê-las, o professor toma determinada atitude. Mesmo que a intenção seja boa, falta, nessas situações, certa delicadeza e compreensão.

Os anos passam, mas as lembranças ficam. A timidez, a dificuldade de dizer alguma coisa em público e a falta de criatividade podem estar ligadas a uma escola que não se preocupou com esses “detalhes”.
Não estou dizendo que os professores sejam cruéis e que criam traumas em seus alunos; alguns machucam, invariavelmente, mas sem perceber que deixam dor. Caminham talvez distraídos e não percebem os sonhos de tantos pequenos que terão de crescer. Como afirma Rubem Alves, “a semente do pensamento é o sonho”; assim, “os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor: intérpretes de sonhos”.

É preciso estar atento para que as lembranças sejam mais libertadoras e menos dolorosas. Vejamos o restaurador. Há obras que são mais frágeis. Se o artista puser a mesma força em obras distintas, poderá acertar em algumas e errar grotescamente em outras. Toda obra tem suas peculiaridades, sua resistência. Deve-se conhecê-la bem antes de iniciar o processo de restauração.

Assim também o é com o educando. Cada indivíduo possui características próprias, que devem ser respeitadas. O tratamento dedicado ao aluno contribui para a formação de sua personalidade. Por isso, é importante que o professor se pergunte: “Que papel, afinal, desejo desempenhar na sociedade? O que posso agregar – a partir de minha vocação – ao meio em que vivo, a cada um destes aprendizes? Que espécie de cidadão pretendo, com meu trabalho, formar?”. De indagações como essas, nascem reflexões, descobertas e ensinamentos para toda a vida. Ou, nas palavras de Cora Coralina, poetisa goiana, “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”.

Fonte: revista Profissão Mestre

Gabriel Chalita ministra palestra para profissionais do SAMU

O deputado federal Gabriel Chalita esteve presente nesta segunda-feira, 12/11, à central administrativa do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), no Bom Retiro – bairro da região central de São Paulo. Além de ver de perto o trabalho dos funcionários do SAMU, ele falou para uma plateia composta por mais de 200 pessoas.

Durante a palestra, Chalita destacou o fato de o SAMU manter em seu quadro profissionais com deficiência, por meio de uma parceria com a Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência (AVAPE). “Essas pessoas não precisam de pena, precisam de autonomia, de emancipação”, afirmou.

Traçando um paralelo com trechos da obra “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles, o deputado – que é doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica – abordou a importância do trabalho do SAMU. “Há um aspecto interessante na visão aristotélica de felicidade que tem muito a ver com o SAMU”, apontou. “A grande conclusão da ‘Ética a Nicômaco’ é que ninguém consegue ser feliz se não compreender o movimento de ajuda ao outro.”

Ele lembrou que os cidadãos ligam para o SAMU no momento de maior vulnerabilidade e que, ainda de acordo com Aristóteles, um dos grandes problemas para um profissional da área de saúde é não considerar que seu trabalho existe para melhorar a vida de outras pessoas. “É claro que todo procedimento informatizado ajuda a tomar a decisão correta”, disse. “Mas como é bonito quando se tem a consciência de que aquilo que se faz salva a vida de alguém, minimiza o sofrimento e o desespero de alguém.”

Chalita também afirmou que um dos desafios da nossa sociedade é “não permitir que as pessoas sejam invisíveis”. Ao falar de sua experiência como educador, secretário estadual da Educação, vereador e deputado, além de candidato a prefeito de São Paulo nas últimas eleições, ele chamou a atenção para as diferenças sociais presentes na capital paulista – o que prejudica, em particular, as crianças. “Eu sempre digo: não há criança inteligente e criança burra; há criança com oportunidade e criança sem oportunidade”, destacou.

Confira aqui as fotos do evento.


Fonte: assessoria de imprensa | Foto: Nelson Aguilar

É preciso cuidar de nossas crianças

Por Gabriel Chalita

Sou educador por opção de vida. É esse ofício que tento executar cioso da enorme responsabilidade de ajudar os aprendizes a serem protagonistas de sua própria história.

A educação é o passaporte para a liberdade. Quando se oferece educação, oferece-se autonomia. Direitos e deveres ficam mais claros. Possibilidades se ampliam.

Não acredito que algumas crianças nasçam inteligentes e outras, burras. O fator principal é oportunidade. Algumas têm; outras não.

Cuidar da criança é uma questão de justiça. É triste ver, na mesma sociedade, algumas crianças estudando em boas escolas, aprendendo idiomas, praticando esportes, enquanto outras não têm o mínimo necessário para o seu desenvolvimento.

Na campanha para prefeito de São Paulo, vi crianças, na periferia, brincando nas lajes. E vi crianças brincando em clubes dotados de todo tipo de equipamento esportivo. Vi crianças com fluência em inglês e em espanhol e crianças com dificuldades em português. Repito: não é uma questão de inteligência, mas sim de oportunidade. 

Outra grande preocupação refere-se às drogas. Estamos perdendo nossas crianças. Elas não nascem com propensão à violência ou à drogadição; apenas não são cuidadas, não são educadas corretamente.

Toda política de combate à violência, além dos aspectos de inteligência policial e de organização da cidade, precisa se preocupar com a prevenção, com a geração que estamos construindo, com as cidades do amanhã, com o Brasil do amanhã.

Fiquei impressionado com a ação de institutos de cultura que desenvolvem talentos e preparam para o futuro.

Fui conhecer o Instituto Baccarelli, na comunidade de Heliópolis. Com as canções daquelas crianças e jovens, uma melodia especial enchia a sala de ensaios. Uma melodia de esperança. Ali, no contraturno da escola, as crianças estudam um instrumento, convivem com a cultura, desenvolvem talentos, aprendem a se respeitar e a perceber que nasceram para grandes feitos.

É preciso um trabalho e um esforço conjuntos das famílias, dos governos e da sociedade civil para que nenhuma criança seja privada do desenvolvimento de seus talentos. O futuro agradece.

Fonte: Diário de S.Paulo