Minha mulher tem Alzheimer

É um privilégio cuidar da mais linda mulher que já existiu, cuidar da que cuidou para que fosse eu o mais feliz dos homens. Prosseguiremos juntos. Nas estações. Se precisar, choraremos. Se precisar, apenas nos olharemos. Mas juntos. Até a partida. 

Saí desgostoso do médico. Sentimentos confusos tomaram conta de mim. Ele tem boa reputação, eu sei disso. Os diplomas que enfeitam sua parede são tantos que eu seria incapaz de memorizar tantos dizeres com tantas assinaturas de tantas instituições diferentes. 

Mal examinou minha mulher e foi logo explicando os exames. Ajustou os remédios e partiu para sugerir o que julgou ser o correto. Julgam demais os jovens. “Será difícil cuidar dela”, disse ele. “Será melhor arrumar um lugar com profissionais capacitados para isso, que tenham forças, entende?” Não, não entendo. Achou-me, ele, velho para a empreitada? 

Odete e eu completamos sessenta anos de casados, fora os três de namoro. São duas vidas que se misturaram, que frequentaram juntas as diversas estações. Desde os primeiros desejos, desde a primeira noite de amor até um amor que se fez terra e que brotou vidas. Tivemos filhos e netos. Um dos netos, apressado, vai nos presentear com o primeiro bisneto, que vai nascer no mês do aniversário de Odete. Nos inícios, viajávamos sozinhos, depois, com as crianças, depois, com as crianças crescidas, depois, sozinhos novamente. Nós e os nossos olhares. Nós e os comentários que fazíamos sobre o que víamos. E depois o deitar junto. E o despertar agradecido. Nós dois e um sentimento revigorado por toques e dizeres 

Disse um “não” lacônico ao médico, mas ele insistiu. Foi como se os diplomas todos penetrassem os seus pulmões para que a voz saísse com mais autoridade: “Daqui a pouco, ela nem irá reconhecer o senhor”. Doeu o que ele me disse. Dor necessária, talvez. “Mas eu a reconhecerei, doutor”. E ficamos em silêncio. Minha mulher estava sentada ao meu lado. Ela sorriu e descansou a vida em meu ombro. Acariciei os seus cabelos e apertei como pude o seu corpo ao meu. 

 
O médico ficou nos olhando. Disse qualquer coisa ainda que julguei melhor não ouvir. Tive saudades do velho Doutor Darwin que nos examinava sem pressa e nos compreendia a alma. Ele chegava em casa, e sua presença já era suficiente para espantar a doença. 

Meu desgosto não é com o jovem médico. Sou professor e sou entusiasta dos que estão descobrindo a vida. Na universidade em que leciono, coleciono histórias de superação, de sensibilidade, de talentos descobertos. Meu desgosto é com a incompreensão. Os apressados falam demais e são descuidados. Não se trata assim uma história de amor. Deixar minha mulher em um canto qualquer para que eu tenha paz, ora, quem me dá paz é o seu corpo junto ao meu, é o seu cheiro, é o seu toque já perdido em uma memória que vai se desfazendo, mas que ainda me toca. 
Quando me levanto e dou um beijo em seu rosto, eu acordo para o fazer. E vou, passos lentos, para a universidade. E termino o meu trabalho regozijante, sabendo que ela estará em casa, que comeremos juntos, que assistiremos a um filme de mãos dadas. Não importa que ela durma, não importa que ela se perca na história. Estamos juntos. 

Pensou ele que seria um peso, para mim, cuidar dela. Um peso? Ora, mudemos o conceito. É um privilégio cuidar da mais linda mulher que já existiu, cuidar da que cuidou para que fosse eu o mais feliz dos homens. Prosseguiremos juntos. Nas estações. Se precisar, choraremos. Se precisar, apenas nos olharemos. Mas juntos. Até a partida. De um ou de outro. Foi assim que escolhemos um dia. Os nossos filhos sempre vêm. E os nossos netos. Mas no silêncio ficamos só nós, deliciosamente nós. 

Vou escrever um bilhete pra ela. Deu vontade. Como fiz tantas vezes. Gosto de debulhar sentimentos em palavras que vão obedecendo ao movimento das minhas mãos e que vão tomando corpo. Ela vai ler. E vai gostar. O amor ultrapassa a compreensão. 

Publicado no dia 10 de março, no jornal O Dia (RJ). 
 

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