Irmã Dulce está em cartaz nos cinemas. O filme conta a trajetória de Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes que, depois dos votos religiosos, tornou-se Irmã Dulce. Dulce era o nome de sua mãe, uma amorosa lembrança que a missionária teve sempre consigo. No nome e no coração.
“Dulce” vem do latim dulcis, que significa “doce”. Nome feliz para a Irmã que ficou conhecida como “o anjo bom da Bahia”. Nome feliz para a freira que soube viver a plenitude do evangelho, cumprindo, no dia a dia, o maior de todos os mandamentos, segundo o cristianismo: amar a Deus e amar ao próximo.
O filme de Vicente Amorim traz duas atrizes interpretando Irmã Dulce, em momentos diferentes: Bianca Comparato e Regina Braga. A jovem freira que, desde criança, demonstrava sua vocação para a generosidade, para o amor e a ajuda ao próximo, enfrentou dificuldades no convento para cumprir as regras da congregação e, ao mesmo tempo, não negligenciar o seu ardente desejo de cuidar dos pobres. A porta do convento deveria permanecer fechada durante a noite. As freiras tinham obrigações quanto ao horário das orações. Irmã Dulce não era contra nada disso, pois valorizava demais a vida comunitária e o momento da oração, um combustível que alimentava suas ações de caridade. Mas não aceitava, em hipótese nenhuma, abandonar seus pobres.
As autoridades, entretanto, não compreendiam que uma freira quisesse mudar o mundo. ”Afinal, pobres, sempre teremos. Não somos Deus, somos apenas mulheres, temos limitações”, justificava uma superiora. Mas Irmã Dulce não se permitia ser comandada por limitações. Se não havia como mudar o mundo inteiro, que se mudasse o mundo de quem estava próximo. Que se cuidasse de quem estava despejado dos afetos, das atenções, dos olhares. Eram os invisíveis os seus amigos da dor; eram os doentes que não tinham onde recobrar as forças; eram os carentes que choravam, desamparados, as suas ausências; eram seus irmãos de Amor os que ela queria embalar em seu celeiro de aconchego. Dizia ela: “O que fazer para mudar o mundo? Amar. O amor pode, sim, vencer o egoísmo”.
Muitas vezes, expulsa dos lugares onde se instalava com seus pobres, Irmã Dulce era vista peregrinando, pelas ruas de Salvador, acompanhada por seus necessitados. Foi uma década de andanças, perambulando com seus pobres sem ter um lugar para chegar.
Mas, enfim, no Convento de Santo Antônio, a superiora cedeu. Irmã Dulce teve autorização para ocupar o galinheiro, abrigando seus irmãos carentes. Desse galinheiro, com o tempo e pelo número de pessoas que a procuravam, fez-se um hospital. Hoje, o maior da Bahia. Irmã Dulce não aceitava portas fechadas. Dizia que se a porta dela era a última porta a que recorria um pobre, ela não poderia, jamais, estar fechada. Enfrentava dissabores com determinação. E não desistia do amor:”Se fosse preciso, começaria tudo outra vez do mesmo jeito, andando pelo mesmo caminho de dificuldades, pois a fé, que nunca me abandona, me daria forças para ir sempre em frente”.
No filme, há momentos de oração em que ela conversa com Santo Antônio, exigindo dele providências para aliviar a dor dos seus irmãos. Oração é intimidade, é sinceridade, é conversa franca que deve brotar do que sentimos, do que desejamos. Seus pedidos eram feitos com simplicidade. Era simples com os homens. Era simples com os santos.
Hoje, Irmã Dulce é beata. Na memória do povo da Bahia, já é santa. Não que não tivesse erros, mas o que são seus erros diante de sua obra? Quantas vidas tiveram outro porvir por serem por ela cuidadas? A sua obra se fez e se faz grandiosa, fortificada, permanente, pois foi construída com cada uma das pedras que recebeu. Pedras recebidas, sempre, com muita humildade. E muita fé. “Eu nada fiz, porque nada sou. Quem faz tudo é Deus, nunca se esqueça disso”.
Em um mundo carente de exemplos, vejamos o filme de Irmã Dulce, leiamos sua biografia, permitamos que sua inspiração nos frequente.
Há muitas razões para nos desanimar: violência, corrupção, perversidade, desamor. Irmã Dulce não desanimou. Aliás, foi incansável. Dormiu por 30 anos numa cadeira, pagando uma promessa que fizera pela saúde de sua irmã. Vítima de enfisema pulmonar, nosso anjo bom não desanimava nunca. Nem por ordem médica, pois seus doentes não podiam esperar.
Que a vida dessa mulher, frágil de saúde e forte de determinação, nos encoraje a fazer o bem. Sem concessões.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/12/2014
