Li e reli, com tristeza, a saga de Dona Celia Regina Conceição Germano. No dia 8 de janeiro de 1994, ela perdeu uma filha vítima de bala perdida num confronto entre o tráfico e a Polícia Militar. A filha estava grávida de oito meses. Vinte anos depois, no dia 26 de novembro de 2014, Dona Celia perdeu outra filha, também grávida de três meses. Igualmente vítima de bala perdida. Duas “facadas” em um mesmo coração. Desde que recebeu a triste notícia, Dona Celia enterrou-se numa cama e é mantida sedada. Amanhã, dia 13, ela vai completar 60 anos. Vai comemorar o quê? Há outros filhos, há outros netos que despertam na avó muita preocupação. O filho mais velho de uma das filhas assassinadas é muito quieto, diz a avó, e, vez ou outra, repete para si mesmo que a mãe não deveria ter morrido daquele jeito.
Dona Celia vive em Acari, zona norte do Rio de Janeiro. Mas poderia viver em qualquer outro canto deste imenso país. A onda de violência ainda desafia a nossa inteligência e a nossa capacidade de construir uma sociedade de paz. Cidades vão crescendo, novas tecnologias vão sendo disponibilizadas, novos discursos de velhas práticas políticas adornadas por respostas prontas de ações incompletas. Fala-se o que se espera e faz-se o insuficiente. E há outro agravante. Lemos essas histórias sem a capacidade de indignação, sem a compaixão necessária.
Dona Celia não é minha mãe. Mas poderia ser. Minha mãe também perdeu dois filhos. De formas diferentes. Não foram vítimas de balas perdidas. Seu coração sofreu o sofrimento inevitável de quem ama. Dona Célia tem, além da dor da perda, razões outras para lamentar a prematura partida de suas meninas.
Que a dor não nos roube a esperança, mas que não nos mantenha anestesiados.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/12/2014
