Do sonho à tragédia

Realizar um sonho é singrar os mares do possível. É atestar a veracidade da esperança, sentimento tão complexo quanto nobre. É dar-se de si para si, em nome de uma existência venturosa.

O boliviano Kevin Espada tinha um sonho: o de assistir a um jogo de seu time do coração, o San José, ao vivo. E, aos 14 anos, pôde realizá-lo. Em Oruro, no interior de seu país, entrou pela primeira vez em um estádio.

A partida era contra o Corinthians, atual campeão do mundo, o que só aumentou a expectativa do adolescente. No entanto, seu sonho terminou cinco minutos após o apito inicial. Um sinalizador disparado da torcida do clube visitante atingiu o olho de Kevin. O garoto morreu ainda no estádio. Mais uma vida perdida em um cenário que deveria ser marcado pelo esporte e pela alegria. 

A polícia logo agiu. Durante a partida, 12 torcedores do Corinthians foram detidos. O grupo permanece preso em Oruro, e diplomatas brasileiros dirigiram-se para lá, a fim de garantir que todos tenham seus direitos preservados. As investigações estão em andamento. 

Paralelamente, a Justiça Desportiva determinou que o Corinthians jogue com portões fechados quando mandante e que, como visitante, não tenha torcedores presentes nas partidas. Embora muitos não estejam satisfeitos com essa decisão, é mister que se faça algo para coibir ações como a que levou à morte do jovem boliviano. A medida, ainda que impopular, vale ao menos para que se reflita sobre a irresponsabilidade que culminou em tamanha tragédia.

A violência nos estádios deve ser combatida, independentemente de sua natureza. Não se pode deixar que ela faça novas vítimas. Kevin Espada – recém-saído de uma infância feliz, com pais que, hoje, sentem na alma a amarga dor da perda de um filho – entrou no estádio de Oruro com um sonho, mas deixou-o sem a chance de cumprir um futuro pleno de possibilidades. Não há justificativa que se equipare ao valor de uma vida.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

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