Ponto Final para assédio nas escolas

(Diário do Comércio)

Nada de alcunhas perversas ou atitudes malvadas com os colegas de escola. Projeto de lei aprovado por unanimidade na Câmara busca a prevenção e combate ao bulliyng nas escolas públicas de ensino infantil, fundamental e médio de São Paulo.

O termo bullying surgiu nos Estados Unidos para indicar atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados com o objetivo de intimidar ou agredir o outro.

Com a aprovação do PL 69/2009, palestras, debates, distribuição de cartilhas de orientação aos pais, alunos e professores prometem acabar com esse tipo de agressão. A Secretaria Municipal de Educação fará um diagnóstico das situações de bullying, nas unidades escolares, respeitando as medidas estabelecidas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O projeto é do vereador Gabriel Chalita (PSDB), ex-secretário de Educação do Estado e especialista no tema. Ele conversou com o DC sobre como pretende colocar a nova lei em prática.

Diário do Comércio – Como o senhor vê hoje a prática do bullying na rede de ensino?

Gabriel Chalita – O problema do bullying é mundial. Outros países como Noruega, Israel, Inglaterra e Estados Unidos mantêm um forte trabalho contra o bullying. Alguns desses países aprenderam por meio de experiências desastrosas, como o Massacre de Colimbine. São reações extremas em que o grande elemento desencadeador é o preconceito repetido. Mas, mesmo longe de casos extremos como o de Columbine, sempre existe o resultado traumático para essas pessoas, seja por serem gordas, ou baixas demais, ou negras, ou de outra classe social. E, como educador, sinto-me na obrigação de fazer da escola um espaço de paz.

DC – Como diferenciar brincadeira de mau gosto de bullying que mais o marcou?

Chalita – Entre os casos mais marcantes, está o de um menino que não queria cortar os cabelos, mas teve de fazer por manda da mãe. No dia seguinte, ele chegou em casa com mal estar e a mãe o levou ao hospital. A criança tinha traumatismo craniano porque apanhava na escola e não contava para ninguém. O menino não queria cortar o cabelo, quer era volumoso, porque o protegia  dos socos que levava dos colegas.

DC- Com o projeto de lei aprovado recentemente, como controlar o bullying?

Chalita – Há várias possibilidades para isso. Uma delas é o trabalho com os professores para que atuem preventivamente. Este tipo de prática não se previne por meio de conselhos, mas buscando exemplos nos jornais e na literatura. Não adianta o professor aconselhar o agressor, ele tem de levar conceitos práticos para a sala de aula. Quando o aluno começa a estudar sobre o racismo ou  mesmo sobre as classes sociais, começa a entender o que o colega pode estar sofrendo, e passa a respeitar a situação.

DC – Como prevenir o bullying?

Chalita – Para que a prevenção seja efetiva, os professores têm de estar preparados para lidar com o tema e tratar o problema antes de ele surgir. Se a prevenção não chegou a tempo, é preciso corrigir o problema e também preparar os educadores para isso. Já vi caso de professor que chamou um aluno na frente da sala de aula porque ele tinha sido discriminado pelos colegas por estar acima do peso. A professora apontava para o menino e afirmava que não havia qualquer problema em ser gordo ou afeminado. Isso atrapalha e constrange o aluno, gera traumas que se leva para toda a vida.

DC – Como os professores serão formados para lidar melhor com essas situações?

Chalita – Como vereador, não posso desenvolver um projeto de lei que gere despesas para Prefeitura.  Posso apenas sugerir as melhores práticas depois de projeto ser aprovado. Neste caso, minha sugestão é que a Prefeitura trabalhe com psicopedagogos para acompanharem os alunos e treinarem os professores, que ainda não estão preparados. A idéia é que o professor identifique a situação de bullying e encaminhe os alunos aos cuidados dos psicopedagogos.

DC – E os alunos agressores?

Chalita – O causador do bullying é mais uma vítima e geralmente desconta seus traumas no colega. Uma vez, descobrimos  que um adolescente agressor apanhara muito dos pais quando mais novo e esse era o principal motivo pelo qual ele batia nos meninos menores. O ponto mais preocupante era que o pai incentivava a prática de o filho agredir os alunos mais jovens.

DC – Então, é preciso envolver as famílias também nesse processo?

Chalita – Sim. Tanto para que a família perceba quando o filho é vítima de bullying como educar a criança para não desenvolver esse tipo de atitude. Muitos pais, despreparados, não prestam atenção no comportamento do filho. Muitas crianças não querem mais ir à escola e os pais não sabem porquê. Por isso, precisamos desenvolver um trabalho também com os pais. Devemos começar a distribuir material bem simples enviado pela escola diretamente aos pais sobre o que é o bullying, como prevenir a prática, como conversar com a criança sobre isso. Imagine só se o Maurício de Sousa nos ajuda a desenvolver um material desses, o retorno que teríamos. As escolas estão à disposição dos pais para recebê-los e ajudá-los no que for preciso.

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