Quarta Viva: o valor da amizade

Tendo como base de discussão o mais novo livro de Gabriel Chalita, “Pedagogia da Amizade”, o programa Quarta Viva do dia 18 de junho vai falar de como o sentimento da amizade pode funcionar como fórmula libertadora para pessoas que sofrem ou praticam o bullying, a agressão física ou moral repetida e cruel, que ocorre principalmente no ambiente escolar.

Neste livro, segundo Gabriel Chalita, o objetivo é falar sobre a amizade como um caminho para educar com excelência, tanto em casa quanto na escola.

Os pais são os primeiros amigos. São aqueles que se oferecem para dar continuidade ao milagre da vida. São os que conduzem os primeiros sonhos do novo amigo. E que missão magnífica essa de estar presente para aliviar a dor – que sempre há de vir – e para semear amor – que dá graça à existência. Os professores continuam a tarefa de apresentar o conhecimento e o mundo aos aprendizes. E com que dedicação e elegância o fazem! O mestre fala do amanhecer, fazendo crer que ele traz um novo sabor que se soma ao saber que de fato virá. Não há como negar que o amanhecer há de vir, mesmo para aqueles que, desanimados, preferem não ver o óbvio e fechar as janelas a fim de atestar para si mesmos que as noites não têm fim. Vivem em uma escuridão involuntária. Na verdade, não foram eles que fecharam as cortinas e, quando o fizeram, eram ainda muito frágeis para se defender. Violaram o direito sagrado de conhecer o sabor do amanhecer. Isso é o bullying. Uma agressão à alma. Uma intrusão dolorosa nos sentimentos do ser humano. Sofre o agredido. Sofre o agressor. Sofre a humanidade.

O bullying é a negação da amizade, do cuidado, do respeito. O agente agressor impiedosamente expõe o agredido às piores humilhações. Dos apelidos perversos às atitudes covardes de quem tem mais força física ou mais poder. O agredido dificilmente encontra coragem para se defender e permite que se fechem as cortinas. E quantos há que, com as cortinas fechadas, dão cabo à própria história. Não são poucos os relatos recentes de alunos que desistem de viver e que, antes disso, decidem se vingar da instituição que permitiu que as cortinas lhes fossem fechadas.

Pobres jovens, adolescentes, crianças indefesas. Pobres pais ausentes que choram tardiamente. Pobre escola que deveria acolher, proteger, preparar, ser amiga, enfim.

Dos mais leves desrespeitos aos mais graves crimes contra a humanidade, todos nascem da ausência da amizade. A amizade se dá em relação a uma pessoa ou a todas de um grupo, de um gênero, de uma classe etc. O amigo cuida. O amigo não humilha. O amigo tem compaixão. Ah, que sentimento nobre é a compaixão! A capacidade de se colocar no lugar do outro e sofrer a mesma dor que o acomete. Uma alma em dois corpos. É assim que deveria ser. O professor se colocar no lugar do aluno e vice-versa. Entre pais e filhos também. Entre amigos. Por que destruir o sentimento alheio? Por que submeter o outro a uma chacota que visa à diversão mesquinha? Por que impor o medo, a vergonha, a dor? Será o bullying uma opção consciente ou a ausência da consciência? O que pais e educadores podem fazer para evitar esse mal que assola escolas de todo o mundo? Qual é o antídoto para essa violência? E o governo? Que políticas públicas são eficazes para uma educação de excelência que privilegie o ser humano em todas as suas habilidades, a emocional, a cognitiva, a social, a espiritual e a ecológica?

Somos filhos da Terra. Somos membros de um mesmo corpo. Perder a compaixão é perder a capacidade de se incomodar com o sofrimento alheio – e os incomodados são capazes de mudar o mundo. Perder a compaixão é fazer o outro sofrer ou se omitir. E, de omissão em omissão, o mundo assiste a massacres terríveis. Milhões de pessoas foram exterminadas por ditadores que movimentaram um séquito de ignorantes dos valores da humanidade. Ninguém tem o direito de se sentir superior ao outro. Não há cidadãos de primeira e de segunda categoria. E o preconceito que fere e mata nasce desse sentimento menor de arrogância, de prepotência, de incompaixão.

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