”Saber e sabor: palavras da mesma origem”

Por Sílvia Bella (Showroom)

Ele ainda não tem 40 anos e já acumula uma porção de títulos. Tem dois mestrados e dois doutorados – em Comunicação e Semiótica e em Direito -, é professor na pós-graduação em duas das melhores universidades do país e foi secretário da Educação do Estado de São Paulo no governo Alckmin quando tinha apenas 33 anos. Com o mérito de ter implantado programas de educação premiados pela ONU como exemplos de inclusão social, Gabriel Chalita é um educador nato.

Defende o despertar da auto-estima dos alunos, através da música, arte e esportes como instrumento indispensável para a fixação do aprendizado e acredita que o professor é “a alma do processo educativo”. São dele frases como “o professor precisa compreender o sonho de seus alunos e respeitá-lo” e “falta continuidade nas políticas públicas de educação no Brasil”. Declarações que demonstram determinação e coragem, mas as qualidades de Chalita são muitas mais. Ele é mesmo muito inteligente, extremamente dinâmico, é competitivo e muito versátil. Além de filósofo, educador e escritor – tem já 45 livros publicados, entre obras didáticas, tratados sobre ética e filosofia e ficção e mais de seis milhões de exemplares vendidos – é pianista (e dos bons), concilia várias atividades, entre elas o comando de programas de rádio e TV, pela emissora Canção Nova, e é uma das jovens promessas políticas do Brasil. Para completar, Chalita é uma pessoa adorável, amorosa e um homem muito atraente. Um gentleman.

Showroom – É inegável que houve uma melhora na Educação do brasileiro nas últimas décadas, se considerarmos a queda substancial no analfabetismo, mas ainda temos os chamados analfabetos funcionais, o que nos deixa com uma massa de pessoas tecnicamente despreparadas para qualquer trabalho. Como, o mais rapidamente possível, dar um ofício a essas pessoas e integrá-las ao mercado?

Gabriel Chalita – O analfabetismo funcional é de fato um sério problema. Pessoas que não entendem o que lêem acabam ficando mais distantes de um mercado de trabalho cada vez mais exigente e competitivo. A longo prazo, a solução está em uma escola que de fato eduque, que tenha qualidade, que envolva o aluno e o ajude a entender a importância do conhecimento para a vida. Está também em uma família que valorize coisas simples como o ato de contar histórias ou de ler para os filhos. E ainda de uma família que participe da vida escolar. A curto prazo, um investimento maciço na formação de professores para que consigam trabalhar com esses adolescentes ou adultos que tiveram uma alfabetização comprometida. De qualquer forma, o segredo está em uma educação levada a sério.

Showroom – Há colegas seus (educadores, professores) e analistas estrangeiros ligados a organismos como ONU e UNESCO que dizem que o problema crucial da Educação no Brasil não é a falta de recursos, já que o País gasta em torno de 5,5% do PIB na área – mais do que o Japão e a Itália – por exemplo, mas que ele gasta errado. Segundo eles, o dinheiro empregado na Educação ainda acaba favorecendo aqueles que não precisam; a elite. O Sr.concorda?

Gabriel Chalita – De fato há uma inversão de valores na aplicação dos recursos em educação. Enquanto Chile, Coréia, Irlanda, Espanha privilegiam a escola básica o Brasil gasta muito mais com ensino universitário. Para falar apenas de universidades públicas, os gastos do governo passaram de R$ 7 bilhões, em 1997, para R$ 9,9 bilhões de reais em 2006. Um gasto que cobre apenas 1,4 milhão de alunos matriculados em cursos de graduação (600.000 deles em universidades federais). Ou seja, cada aluno de universidade pública, no Brasil, custa algo como R$ 9.000 por ano. Comparativamente, o governo federal gasta por ano, com 600.000 alunos, o que o governo do Estado de São Paulo gasta com 6 milhões de alunos. Como o número de vagas em universidades públicas é reduzido, a competição é enorme, e saem na frente os jovens que podem pagar cursinhos preparatórios. Isso acaba fazendo com que a criança que estuda em uma escola pública, que carece de recursos, não consiga ingressar em uma universidade pública. Entretanto, além disso, o dinheiro investido em educação é pouco. O sistema japonês, ou italiano ou Inglês já atingiu um patamar em que os recursos investidos vão mais para manutenção de um patamar de qualidade. O Brasil tem de gastar mais porque ainda está longe desse patamar.

Showroom – Ainda os críticos – e são muitos – da Educação no Brasil, dizem que nossos educadores deveriam ensinar mais “português e matemática” ao invés de ficar discutindo métodos pedagógicos de vanguarda e teses como “a escola deve formar cidadãos engajados”, porque ainda estamos muito atrasados. Essa discussão filosófica deveria acontecer depois da erradicação dos analfabetos funcionais…

Gabriel Chalita – Esta é uma afirmação de quem não entende nada de educação. Se o ser humano fosse máquina, talvez pudéssemos ensinar apenas uma coisa ou outra. Apenas português e matemática, por exemplo. Mas o ser humano não é máquina. O ser humano tem emoções. E são as habilidades emocionais que bloqueiam ou impulsionam o processo de aprendizagem. Se um aluno se apaixonar pelo teatro, ou pela poesia, ou pela história, ou pelos mosaicos que recuperam os muros de uma escola pública ele vai aprender a pesquisar mais, a falar melhor e, portanto, vai aprender português e matemática. As áreas estão ligadas porque o conhecimento não é compartimentalizado. O desafio é fazer com que o aluno goste da escola, goste de pesquisar, goste do saber. A Constituição Federal, em seu artigo 205, reza que a educação deve formar a pessoa, o cidadão e prepará-lo para o mercado de trabalho. Não diz “deve ensinar português e matemática e ponto”. A educação tem de ser integral, para que as múltiplas inteligências se desenvolvam.

Showroom – O senhor acredita, sinceramente, que é possível “treinar, reeducar, reensinar” professores do ensino fundamental – se é que podem ser considerados professores – que estão lá, nos sertões dos sertões?

Gabriel Chalita – Acredito que sim. Precisamos partir da premissa de que o professor é a alma do processo educativo. Mesmo em tempos tecnológicos e de múltiplas aprendizagens, o aluno precisa do professor. Evidentemente o perfil do professor tem de ser diferente. Ele passa a ser um problematizador, um instigador. E para isso ele tem de ser formado o tempo todo. A formação inicial não é boa, infelizmente. Cabe às organizações de ensino, sejam públicas ou privadas, entender o quanto é importante ajudar esse professor a ser melhor. Conheci experiências incríveis nos sertões dos sertões. Professores apaixonados que, com poucos recursos, conseguiam educar. É possível e é preciso replicar essas boas experiências. Acho inclusive que o problema maior da educação brasileira não são os professores, são as práticas políticas eleitoreiras que buscam mais bandeiras egóicas do que educação. E só analisar a troca de governos ou de dirigentes educacionais nos três níveis: federal, estadual e municipal. Diferentemente do que acontece em países mais evoluídos politicamente, no Brasil é comum o sucessor parar com todos os projetos do antecessor. E isso é uma tragédia para a educação.

Showroom – Mesmo no Sudeste, onde todas as crianças estão na escola – quero dizer, num primeiro momento, todas elas são matriculadas – mas o que se sabe é que há uma grande evasão delas porque o ensino é chato, é falho, os professores faltam, não há material. Enfim, de que adianta ter esse índice de 100% de crianças nas escolas se logo depois elas (com o aval dos pais, certamente) preferem sair dela para ganhar (sabemos como) alguns trocados nas ruas? Não seriam os “maus professores” os principais responsáveis por isso?

Gabriel Chalita – Em São Paulo conseguimos reverter um pouco esse quadro. Assumi em 2002 a Secretaria de Educação, no governo de Geraldo Alckmin, para dar prosseguimento a um esforço iniciado em 1995 por Mário Covas.

Tínhamos, em São Paulo, de 1ª a 4ª série, uma evasão escolar de 5,6% em 95. Conseguimos baixar, ano a ano, para 4,3%, 3,3%, 2,1%, 1,8%, 2,0%, 1,2%, 1,1%, 1,1%, 0,7% até 0,6% em 2005.

De 5ª a 8ª série, reduzimos de um patamar inicial de 13,1% de evasão em 95 para 2,5% em 2005 (as reduções, ano a ano, foram as seguintes: 11,2% em 96, 8,1% em 97, 6,5% em 98, 6,3% em 99, 6,3% em 2000, 4,2% em 2001, 4,0% em 2002, 3,7% em 2003, 2,8% em 2004).

E, no ensino médio, obtivemos a redução mais significativa: de 21,2% de evasão em 95 para 7,0% em 2005.

E isso aconteceu porque investimos na formação dos professores, na participação dos pais, na abertura das escolas em finais de semana e no conceito de uma educação que fosse, de fato, participativa, democrática. Se o professor se sente desmotivado, despreparado, sua aula vai ficando chata e o aluno não quer mais voltar. Se o diretor tem uma postura autoritária a mesma coisa acontece. E como reverter isso? Envolvendo diretores, professores, funcionários. Todo profissional tem que estudar a vida toda, senão embolora, imagine então os educadores. É preciso que os governos gastem menos em construção de escolas caras e com cara manutenção e invistam mais nas pessoas.

Showroom – Gostaria que o senhor falasse um pouco (em números, se os tiver atualizados) sobre os fabulosos e premiados (por organismos internacionais) projetos “Escola em Tempo Integral” e “Escola de Família” que implantou durante sua permanência como Secretário da Educação no Governo do Estado de São Paulo.

Gabriel Chalita – A escola da família foi um programa de grande impacto na educação de São Paulo. Tínhamos muitos problemas com a violência escolar, a destruição de prédios públicos e a pouca participação dos pais nas escolas. Resolvemos abrir todas as escolas de São Paulo em finais de semana com atividades de esporte, cultura, saúde e geração de renda. Para isso o estado pagou para educadores profissionais além de dar, em parceria com instituições privadas de ensino, 50 mil bolsas de estudos para jovens carentes. O jovem estuda de graça e trabalha em uma escola no final de semana. Com isso reduzimos, em até 81%, o número de furtos, depredações, agressões físicas e tráfico de drogas nos arredores das escolas. Ou seja, baixamos o índice de violência escolar apenas por levarmos a família a participar da escola. Foram mais de 200 milhões de participações nos primeiros dois anos e meio do programa. Trata-se de um novo conceito de educação – o pertencimento. A escola deixa de ser agredida para fazer parte do cotidiano da comunidade que começa a cuidar da escola.

A escola de tempo integral é um modelo que vem dando certo em vários países do mundo. A criança que fica mais tempo na escola aprende mais porque os pais infelizmente não têm tempo de estudar com os filhos. Em São Paulo começamos com 500 escolas, onde os alunos do Ensino Fundamental entram às 7h e ficam até as 16h. Isso possibilita um currículo mais flexível, e permite que sejam privilegiadas duas áreas que precisam ser cada vez mais desenvolvidas nas escolas: o ensino das artes e educação física. Além de outra coisa que não podemos considerar secundária: o aluno pode fazer três refeições na escola – o que, em um país com os problemas sociais do Brasil, se torna essencial.

Showroom – Sei que há outros programas e projetos de Educação muito interessantes acontecendo hoje no Brasil, como os que prevêem bolsas para alunos “pobres talentosos” em escolas de elite como Bandeirantes, São Luiz, Objetivo etc. Sei que cabe aos pais dos “alunos pobres com talento” ou a “professores sensíveis” descobrir essas qualidades nesses alunos e encaminhá-los às “Escolas Top” para que tenham uma “boa formação” e assim possam acessar universidades igualmente boas. É um belíssimo trabalho de igualdade de oportunidades e que pode revelar muitos “gênios” em um país grande como o nosso. Como alargar a eficiência desses projetos?

Gabriel Chalita – Acho que a consciência de responsabilidade social vem crescendo muito no Brasil e é impressionante o quanto empresas e organizações estão investindo nisso. Meio ambiente, criança e adolescente, inclusão de pessoas com deficiência, projetos de respeito ao idoso, educação, entre outros. Esse é um movimento que mostra o quanto a sociedade organizada tem poder de resolver ou, pelo menos, amenizar problemas sociais. Há muitas escolas particulares de alto nível acolhendo alunos. Agora, é importante não radicalizar achando que as escolas particulares são boas e as públicas ruins. Há excelentes escolas públicas também, como há escolas particulares muito ruins.

Showroom – Temos ainda outro grave problema que é a violência nas escolas – violência com palavras e desrespeito ao professor – algo inconcebível para quem tem mais de 30 anos hoje! O que aconteceu? Foi o excesso de liberalismo?

Gabriel Chalita – Talvez. Talvez seja a criação inadequada, a falta de limites. Acho, entretanto, que não se combate a violência com violência. O professor tem que ser, inclusive, capacitado para trabalhar na adversidade. Já demos o exemplo da Escola da Família. Atitudes educativas são essenciais para prevenir a violência. É claro que há aspectos que envolvem segurança pública. Mas isso é apenas uma parte do processo.

O senhor concorda com a tese de que o ensino superior “pode esperar” até o que o fundamental e o médio tenham alcançado níveis dignos de ensino? Mas se assim for feito, não corremos o risco de “limitar” a pesquisa no País?

Gabriel Chalita – Acho que o ensino superior não pode esperar não. Pode ter mais criatividade. Buscar outras formas de recursos além do Orçamento Público. Não pode, entretanto, ser o prioritário em termos de orçamento. Hoje, o gasto por aluno, nas primeiras séries do ensino fundamental, no Brasil, é de US$ 1.105 por ano (a média do gasto nos países industrializados é de US$ 6.560). Mas o Brasil gasta, em compensação, US$ 10.000 por aluno de universidade, por ano. Quase nove vezes mais.

Um estudo da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), divulgado em meados de setembro, registrou que o Brasil é o país que menos gasta com educação, dentre 34 países analisados. O estudo identificou que o Brasil apresenta o menor investimento por estudante (do primário até a universidade), gastando US$ 1.303 por ano (cerca de R$ 2.488). Os 30 países da OCDE gastam, em média, US$ 7.527 (R$ 14.376 ). No país que mais gasta em educação, Luxemburgo, o valor chega a US$ 13.458 (R$ 25.705 ). Já no Chile, o outro país sul-americano estudado, o gasto é de US$ 2.864 (R$ 5.470), mais que o dobro do investimento brasileiro.

Showroom – Ainda nesse raciocínio de privilegiar a educação técnica/média e termos um Ensino Superior mais equânime, o que o Sr. acha da tese que propõe cobrar mensalidades nas universidade públicas, à exceção, evidentemente, dos alunos comprovadamente pobres. Estes “pagariam” seus cursos depois de formados, através de mecanismos como o Imposto de Renda, como existe na Austrália (me parece) ou de outras formas?

Gabriel Chalita – A escola técnica de rápida empregabilidade vem crescendo em muitos países, inclusive no Brasil. As Fatecs (Faculdades de Tecnologia) por exemplo, em São Paulo, conseguiram se adequar aos clusters produtivos, os arranjos produtivos locais. A região de Franca, que é uma região forte em indústria de calçado masculino, Birigüi, de calçado infantil, e Jaú, de calçado feminino, tem uma demanda de mão-de-obra nessa área. São José dos Campos, que é um centro de tecnológico de grande importância, com uma indústria de aeronaves, que movimenta milhões com valor agregado significativo, também precisa de mão-de-obra qualificada. É uma questão de empregabilidade. É preciso quebrar um pouco o mito do anel de doutor. Há outras profissões novas de que o mercado precisa, principalmente na área de tecnologia da informação e organização de dados.

Quanto ao mito da universidade pública gratuita para todos, acho que o Brasil deveria olhar outros modelos internacionais e repensar o seu. No Chile, por exemplo, com a revolução educacional iniciada pela reforma promovida pelo presidente Ricardo Lagos, em 1990, o ensino público é obrigatório e gratuito por um período de 12 anos. Depois disso, as escolas são pagas. Na Espanha, o investimento público em ensino universitário não passa de 21,4% – todo o restante é tarefa do setor privado.

Showroom – Como é possível, à exceção de alguns cursos em algumas universidades, nós, brasileiros, sairmos tão malformados das faculdades? Há 20 anos, fiz uma pós-graduação na Europa junto com outros jornalistas latino-americanos, e o nível técnico-cultural dos brasileiros (que éramos a elite da elite do País!) era muito mais baixo que o deles. O que nós tínhamos – e isso era confirmado e enaltecido pelo professores de lá – era um aprendizado prático (nas redações) muito bom. Isto é, mais uma vez foi elogiada a criatividade, o jogo-de-cintura do brasileiro. Mas acredito que o mercado de hoje exige muito mais do que isso. O que falta?

Gabriel Chalita – A criatividade é essencial. O jeitinho brasileiro no bom sentido é muito importante em um mercado de trabalho que exige velocidade e mudança o tempo todo. Antigamente um profissional trabalhava a vida toda em uma organização. Atualmente ele muda de emprego e de área. Por isso sua formação não pode ser bitolada. É preciso que o profissional tenha algumas qualidades essenciais, dentre elas destaco três: competência, coragem, amor.

Coragem para transformar a sua forma de atuar, reinventar seus métodos. Não se fala mais em professor facilitador – o professor hoje tem que assumir a postura do instigador, do problematizador, aquele que debate, ouve, incentiva o pensamento crítico, a tomada de posições, a independência de pensamento.

Competência para entender que o aluno precisa de mais do que apenas decorar fórmulas e conceitos, nestes tempos em que a informação circula por diferentes meios de comunicação. O professor precisa ser competente para auxiliar o aluno nesse desafio de transformar informações em conhecimento. A utilização das novas tecnologias facilita o conceito de aluno pesquisador. Entretanto, o computador nunca vai substituir o professor. Computador não tem alma. O aluno precisa de alma, de vínculo.

É aí que entra o amor. Sob a forma de respeito, por exemplo. O professor precisa compreender os sonhos dos seus alunos, e respeitá-lo como pessoa. Uma pessoa que necessita de desenvolvimento integral, nos aspectos cognitivos, social e emocional.

Showroom – O que houve, afinal, com o “Provão”? Há críticas ao sistema alegando que ele não fomenta a eficiência na área da Educação por terem deixado de ser anuais e de conseqüência limitado a ação da iniciativa privada em contratar pessoal egresso das “boas escolas”.

Gabriel Chalita – Não gostei da mudança por vários motivos, mas o mais importante deles é o seguinte: todo processo de avaliação precisa de um tempo para ser aferido, e é preciso que sejam acumuladas informações para que se compare como se deu a evolução. O provão era recente demais para ser substituído. O que aconteceu foi que jogaram fora todos aqueles dados, para criar novos. É o que eu já disse sobre a falta de continuidade de políticas públicas em educação.

Showroom – Há também críticas ao corporativismo das universidades como causa desse ensino precário. Os “defensores” da idéia de que os dirigentes (reitores etc) das universidades públicas não podem ser eleitos pelos professores, alunos e funcionários – mantendo, por assim dizer, a “turma” – dizem que o melhor exemplo de que “essa democracia” não funciona está nas melhores universidades do mundo, que não escolhem seus reitores dessa maneira. Nessas universidades, os professores que têm “melhor desempenho”, a “melhor produtividade” são premiados, algo similar ao que ocorre nas empresas comerciais… Por outro lado, os pouco produtivos ou pedagogicamente considerados “fracos” são demitidos. O que o Sr. acha a respeito?

Gabriel Chalita – Os reitores eleitos não representam risco para a qualidade do ensino. Por exemplo, a USP, que é considerada a melhor universidade do Brasil e que figura no quadro entre as duzentas melhores do mundo, tem o seu reitor eleito. Talvez o que falte realmente para as universidades é repensar o seu papel de formação humana. A universidade forma quem, para o quê, em quanto tempo? Isso precisa ser respondido.

Showroom – E finalmente, gostaria que comentasse um pouco mais a importância de disciplinas paralelas como música, filosofia e esporte – como bem o senhor diz – “O que os gregos faziam” – como ferramentas promotoras do aprendizado.

Gabriel Chalita – A filosofia ajuda a entender melhor a pessoa humana e o mundo. Todo mundo passa pelos problemas das perdas, dos medos, dos traumas, dos desafios e a filosofia trabalha com todos esses conceitos. Hannah Arendt escreveu sobre o amor pela humanidade, Rousseau trabalhou os conceitos de competição e cooperação, Sartre da existência responsável, da condenação à liberdade, Aristóteles já falava de justiça e felicidade na Grécia. Como privar o aluno de conhecer essas preciosidades? Se formos pra música ou para qualquer tipo de arte é a mesma coisa. O aluno tem de ser seduzido para o processo educativo. Eu defendo a tese de que saber e sabor são duas palavras da mesma origem.

 

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