Moda e cultura juntas

Boa convivência e educação foram os temas da palestra ministrada, nesta terça-feira, dia 6 de novembro, pelo professor Gabriel Chalita, no II Encontro de Moda e Cultura. O evento de dois dias, realizado na Livraria Cultura, foi aberto no dia 5 com uma mesa redonda sobre “O sentido estético da moda”, com Karina Szervinsky e Marli Lima, ambas da Jukaf, e Márcia Rocha, representando a Faculdade AD1, seguido de desfile da loja Jukaf.

O dia seguinte foi aberto com o desfile de Stefania Rosa, da faculdade AD1 e finalizado com a palestra de Chalita.

A palestra “Transformação pela gentileza” abordou situações do cotidiano e como atitudes simples e calmas podem reverter um momento constrangedor. Ex-secretário de Educação de São Paulo, Chalita ilustrou seus conceitos de educação e gentileza, através de situações vividas por ele. “Muita coisa é conquistada por meio de ações gentis”, falou. Após a palestras ocorreu o lançamento e autógrafos dos livros Sol depois da chuva e Gentileza. Em entrevista aol Grupo Comunidade de Comunicação, Chalita falou sobre hábitos simples que podem modificar situações e pessoas.

1. Qual é a relação entre modos e a moda que conhecemos?

A moda é um conceito interessante que faz com que as pessoas queiram evoluir sob o ponto de vista do que usam e como usam. O “como usam” é fundamental porque moda é também um estilo. Não adianta alguém se vestir com roupas de grife e ser inconsistente no que diz ou, pior ainda, ser deselegante no como diz.

2. Como a transformação pela gentileza influencia no cotidiano das pessoas?

Acredito que as pessoas gentis são mais felizes porque mais leves, mais generosas. A gentileza é um processo interno e externo. É preciso que a pessoa seja gentil com ela mesma e o caminho é a serenidade, a aceitação, a inteligência. Pessoas muito alteradas fazem mal a si mesmas e aos outros. E a gentileza se dá na relação com o outro. E aí vai uma dica que reside no universo da ética:  não faça ao outro o que você não gostaria que fizessem a você.

3. É possível aliar educação (bons modos) a um estilo (no caso o estilo refere-se aos personagens que montamos, por exemplo: a patricinha ou o punk)?

Machado de Assis falava da nossa alma exterior. Nós buscamos apresentar aos outros uma imagem do que consideramos que somos. É claro que a composição desse “personagem social”, como dizia Jung, depende da nossa estrutura emocional, que por sua vez depende da nossa estrutura educacional. Uma pessoa bem resolvida, que teve bons exemplos, que aprendeu a respeitar, que adquiriu valores, será uma pessoa do seu tempo e uma pessoa do mundo, não importa que roupa vista ou por qual estilo de moda ela opte. O que fará a diferença vai ser a maneira como trata as pessoas. O estilo passa. O que permanecerá, para sempre, é o conjunto de valores que a pessoa assimilou e distribui.    

4. O que determina uma pessoa estar ou não em conexão com a moda (seja em hábitos, costumes ou figurino)?

Moda, por definição, é algo passageiro. Além disso, a moda é uma manifestação social. Evidentemente, uma pessoa quer estar em sintonia com o seu grupo, mantendo uma forma de vestir que não a afaste do modo como o seu grupo se comporta. Mas a alma importa mais do que a roupa. O ideal é quando a pessoa consegue manifestar, nas vestimentas, as suas qualidades interiores, de moderação, equilíbrio, respeito.

5. Educação segue alguma tendência?

Há coisas que não podem mudar nunca em termos de educação. São coisas que permanecem desde as primeiras escolas. Educar para os valores, por exemplo, e fazê-lo com vínculo. Desde Sócrates se afirma que é possível passar informações de muitas maneiras, mas educar, só com afeto. E aí vai uma grande questão para a educação contemporânea tão recheada de tecnologia (o que, aliás, é muito bom): por melhor e mais potente que sejam as máquinas, o computador nunca vai substituir o professor, porque o a computador não tem alma e o aluno precisa de alma, de referenciais. Há outras coisas que seguem a moda e isso não é ruim, desde que se perceba que a educação precisa de continuidade. Mas, de repente, uma escola começa com o trabalho de projetos, isto é hoje uma moda, e outras vão replicando essas experiências bem sucedidas. Enfim, na essência não pode mudar; na didática cotidiana, deve, porque o aluno muda o tempo todo.

6. O que pode originar a falta de gentileza?

Ir contra a natureza. Há pensadores importantes da história do Brasil, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Darcy Ribeiro e Miguel Reale, que trataram do brasileiro como um  povo cordial, gentil. E de fato é. O brasileiro é um povo acolhedor. Entretanto, os problemas contemporâneos, a vida agitada, as cobranças cotidianas fazem com que gestos simples de gentileza sejam negligenciados. Não há tempo para dizer “por favor”, “muito obrigado” , “por gentileza”;  quanto ao cavalheirismo, nem se fale, parece que caiu de moda. Temos que resgatar o valor da gentileza. Pensar mais nos outros. Isso faz bem pra gente.

7. Existe remédio para a falta dela?

Bons exemplos em casa. Bons exemplos de delicadeza, de respeito, de gestos de elegância. Assim também na escola, que não deve passar somente conhecimentos, mas atitudes. E como o exemplo é essencial! Na nossa vida, temos que cuidar para que a quantidade de atividades e problemas que têm de ser administrados todos os dias não retire o aprendizado da gentileza. Quando as pessoas se tratam bem, o mundo fica melhor.

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