Gentiliza é o tema dos novos livros de Gabriel Chalita

– Como o senhor teve a idéia de tratar do tema gentileza?

Acredito que seja um tema profundamente atual. Há pensadores importantes da história do Brasil, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Darcy Ribeiro e Miguel Reale, que trataram do brasileiro como um  povo cordial, gentil. E de fato é. O brasileiro é um povo acolhedor.

Entretanto, os problemas contemporâneos, a vida agitada, as cobranças cotidianas fazem com que gestos simples de gentileza sejam negligenciados. Não há tempo para dizer “por favor” , “muito obrigado” , “por gentileza”;  quanto ao cavalheirismo, nem se fale, parece que caiu de moda. E é sobre isso, sobre o valor da gentileza, que me propus tratar nesses dois livros. 

– Os livros falam como atitudes positivas geram conseqüências positivas, como o senhor vive isto em seu dia-a-dia e qual a importância da gentileza em sua vida?

Acho que tive bons exemplos em casa. Meu pai era um homem extremamente gentil e romântico. Eu via com entusiasmo o amor e a delicadeza com que ele tratava minha mãe. Até hoje, quando vou a Cachoeira Paulista, ouço histórias de algum gesto elegante dele. Tive professores incríveis também, pessoas que além do conhecimento ensinavam atitudes. E como o exemplo é essencial! Na minha vida, eu procuro cuidar para que a quantidade de atividades e problemas que têm de ser administrados todos os dias não retire esse aprendizado que tive. E acho que vem dando certo.

– O senhor recebeu algum gesto de gentileza que considere um agente transformador de algum momento de sua vida?

Muitos, muitos mesmo. Eu só tenho que agradecer a Deus, por tantas pessoas que tiveram a generosidade de me acolher e ajudar. Pessoas como Franco Montoro, que me ensinaram a valorizar cada vez mais o ser humano. O próprio Geraldo Alckmin com sua elegância competente. Ele é um grande professor de ética, de retidão. E ninguém é gentil se não é ético. Quando fui para a Academia Paulista de Letras, fiquei ainda mais próximo de escritores gentis: Lygia Fagundes Telles, Paulo Bomfim, Esther de Figueiredo Ferraz, Antonio Ermírio de Moraes, José Renato Nalini e tantos outros. E além desses, há pessoas anônimas que nos surpreendem pela gentileza. Na época em que era secretário de Educação, pude conviver com professores maravilhosos e com serventes profundamente gentis. Ainda há os alunos que nos surpreendem com as cartas ou e-mails ou apenas olhares de gratidão.

– Como surgiu a idéia de tratar do tema gentileza por meio de um romance?

Um romance é um espaço rico para que os sentimentos apareçam. Eu queria tratar da dor, do abandono, da paixão, da solidão. Ao mesmo tempo tratar da esperança, do sonho, do amor – mesmo que fosse um amor não correspondido.  E a trama do romance permite que virtudes e vícios sejam percebidos em pessoas imaginárias e que sejam aproximados de pessoas do cotidiano.

– Em que se inspirou para contar a história de Francisco e seus conhecidos?

A idéia inicial era a de escrever um livro chamado “Pedagogia da gentileza” que desse continuidade ao “Pedagogia do amor”, que é um livro de bastante sucesso no Brasil e no exterior. Pesquisei muitos filmes porque queria tratar o tema por meio de cenas de gentileza em filmes de culturas e momentos diferentes. De início, pretendia que cada filme simbolizasse um dos grandes valores sociais que nos acostumamos a colocar dentro da categoria da gentileza. Busquei filmes comoventes, como Cinema Paradiso, O Rei e eu, O Balão branco, Vozes do Coração, O carteiro e o poeta, Central do Brasil,  My fair lady. Eram produções de épocas diferentes, e de países tão diferentes quanto a França, Itália, Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, e o Irã. Pesquisei a analisei cuidadosamente mais de 120 filmes, e relacionei valores como generosidade, solidariedade, tolerância, humildade, confiança, reconhecimento, companheirismo, aceitação, respeito.

O livro estava praticamente pronto quando me hospedei em uma Ilha, na casa de uma amiga. Acordei cedo, e deparei, ao longe, com um menino que estava em uma canoa e o olhar dele me pareceu triste. Vi que os remos estavam na canoa e ele olhava para o horizonte. Fiquei imaginando que ele estava sério porque alguma coisa havia acontecido. Daí foi surgindo a ficção. O menino teria sido criado por uma mãe profundamente amargurada, mulher abandonada que nunca perdoou a sorte. O menino se chamaria Francisco e teria conhecido Mara, uma menina encantadora que lhe contava histórias de filmes. Ele iria se transformando e se apaixonando. O relacionamento dos pais de Mara seria bem diferente da rotina do que ele conhecia como família. Haveria ainda a professora Josefa, dona de uma pousada e outras pessoas que iriam vivendo. É incrível como a história vai surgindo e ganhando vida. Talvez o menino que eu vi na canoa nem fosse triste.

– Por que resolveu ambientar a história em uma ilha? Em que medida ela representa o nosso país?

Há varias ilhas, na filosofia e na literatura. Thomas More, Francis Bacon, José Saramago imaginaram ilhas, talvez para dizer que no meio de continentes poluídos, empobrecidos pela ganância humana, pudessem existir ilhas de excelência em que esses valores existam. Uma ilha é como um sonho ou uma resistência. O Brasil vive um momento triste de sua história. O mau exemplo vem de cima. Uma parte significativa dos políticos brasileiros tem agido de modo lamentável. A corrupção, a falsidade, a demagogia… Enfim, a falta de gentileza.

– O livro está sendo lançado com o pocket “Gentileza”, como surgiu a idéia de escrever um livro de pensamentos? Tem idéias para outros temas no mesmo estilo?

Como disse, havia pesquisado muito para escrever a “Pedagogia da gentileza”. Com a mudança de rumo e o nascimento do romance ” O sol depois da chuva” ainda restou em mim a inquietação de escrever mais objetivamente sobre gentileza. No romance a gentileza está no intertexto. No pocket a gentileza é o texto. Está claro, dito. Ninguém é feliz sem ser gentil.

– Como recomenda a leitura do livro?

Aos poucos. Há frases muito simples e há outras mais elaboradas. Há nelas dois convites:  à reflexão e à ação. A gentileza é um hábito e significa um respeito a si e ao outro.

– Como se inspirou para criar as frases?

No dia-a-dia. Gosto muito de observar o comportamento das pessoas. O ser humano é realmente genial. As pessoas nos surpreendem o tempo todo, infelizmente algumas vezes de maneira negativa. Mas acho que, em tudo, é possível aprender. E quando a gente escreve, vem junto com a magia da palavra o desejo de ensinar.

– Qual é sua a frase preferida do livro?

É difícil escolher uma frase, bem, mas aí vai uma que eu gosto muito:   “Eu te amo. Se tiver dúvida, não diga. Se tiver certeza, não economize”. 

– Quando surgiu a idéia de lançá-los em conjunto?

Por acaso. Eu terminei o “Sol depois da chuva”  e logo em seguida escrevi o “Gentileza”. Os dois estavam prontos, de certa forma têm algo em comum e por isso lançamos juntos. Em Natal, no Rio Grande do Norte, o lançamento foi um sucesso. Mais de mil pessoas foram ao Shopping Natal prestigiar o lançamento. Tive que sair da livraria e ir autografar em um espaço maior. Isso me deixa profundamente emocionado. As pessoas são muito gentis. Antes do lançamento os livros já tinham vendido perto de 30 mil exemplares. Esse é um número fantástico para um país em que se lê tão pouco.

– O senhor tem outros projetos literários em andamento?

Estou escrevendo uma peça de teatro. Já promovi uma leitura dramática do texto, com dois amigos atores, excelentes, que me serviu para ter idéias de como aperfeiçoar o texto. 

– Como consegue manter este ritmo frenético de produção literária e até quando pretende mantê-lo?

Escrever é a minha vida. Eu amo o que faço. Quando não escrevo livros, escrevo artigos, bilhetes, pequenas histórias, letras de música. Escrevo como ofício e como ato de prazer. Rio com algumas histórias, choro com outras. Quando eu era pequeno e freqüentava um asilo, em Cachoeira Paulista, conheci uma professora aposentada que me emprestava livros. Li muito desde cedo. Aos poucos ela foi perdendo a visão e eu lia para ela. Um dia ela me sugeriu que escrevesse um texto para, quem sabe um dia, publicar um livro. Eu escrevi e ela corrigiu. E da sua primeira correção me lembro que ela disse que o texto não era literário porque faltava emoção. Acho que eu nem sabia o que era isso. E ela me explicou assim:  “A literatura é a história dos sentimentos. A vida humana, quando bem contada, faz rir ou chorar;  ensina algo, surpreende.” Eu tinha uns 10 ou 11 anos e já achava surpreendente Machado de Assis criar Capitu e deixar no ar se ela era uma adúltera ou não. Que fique a dúvida, para que a imaginação do leitor seja capaz de concluir. A velha senhora do asilo chamava-se Ermelinda. Até hoje me lembro da sua gentileza em me conduzir pelas sendas encantadas da literatura.

– Que assuntos ainda gostaria de abordar?

A identidade dessa região fantástica que é o Vale do Paraíba. Temos escritores incríveis. Dos imortais Monteiro Lobato, de Taubaté, Malba Tahan (Júlio César de Mello e Souza), de Queluz, Cassiano Ricardo, de São José dos Campos, Valdomiro Silveira, de Cachoeira Paulista, Eugênia Sereno (Benedita de Resende Graciotti, de São Bento do Sapucaí) e Péricles Eugênio da Silva Ramos, de Lorena, aos talentos vivos. Ruth Guimarães é uma grande escritora que vive em uma chácara em Cachoeira Paulista. José Luiz Pasin e sua tenacidade na defesa da riqueza de nossa história. Tom e Thereza Maia, com o bico de pena, a arte dos desenhos e da escrita, Olga de Sá e sua escritura de Clarice Lispector e tantos outros que estão por aí e ainda os que virão.

– No total, quantos livros já escreveu em sua carreira?

45.

 

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