O saber transformador

Por Marcelo Abreu

É uma conta de cinco. Dois são vigias. Duas, merendeiras. E um agente de portaria. Trabalham no mesmo lugar. Executam suas tarefas com dedicação ímpar. Os dois vigias, na verdade, um homem e uma mulher, sonharam alto. As duas merendeiras apostaram em dias melhores. E o porteiro vislumbra o dia em que usará a toga de juiz. Que povo é esse? Que gente é essa que sonha tanto? Que alterou rota, caminhos, destinos? São os auxiliares de educação da rede pública de ensino do Distrito Federal. Funcionários da Escola Classe 316 Norte.

O porteiro toma conta da entrada e saída dos alunos. Tem que ficar atento a cada detalhe. As duas merendeiras limpam a cozinha e preparam os lanches de todos os dias. Os dois vigias, o homem e a mulher, em esquema de plantão, cuidam da segurança do colégio à noite. Varam, solitariamente, madrugadas. E daí? O que tem essa gente tão simples de tão extraordinário? Tudo. Rigorosamente tudo, principalmente quando essa gente começou a olhar para frente. Começou a se perceber. E, sobretudo, quando tentou mudar a própria vida. Essa mudança, que só veio por meio do conhecimento, é de uma dignidade que chega a emocionar.

O vigia Mauro Cesar Araújo Silva, cearense de 39 anos – 20 de rede pública – daqui a 30 dias receberá o diploma de bacharel em direito, pela Unieuro. Próximos passos? “Tirar a carteira da OAB(Ordem dos Advogados do Brasil) e fazer concurso para promotor”, revela. Sua colega de trabalho, a também vigia Francisca Paula de Sousa, potiguar de 45 anos, está toda prosa. Passou para o terceiro semestre de letras na Faculdade Michelângelo. “Só a educação pode mudar uma pessoa”, reconhece, com uma sinceridade pungente, a mulher que vigia a escola.

A merendeira Ozana Gonçalves Magalhães, goiana de 42 anos, está no quinto semestre de pedagogia, no UniDF. “Mas meu sonho mesmo é fazer fisioterapia. E ainda vou chegar lá”, aposta. Sua colega de cantina, Alexandra José Delfino, também goiana, 34, terminou o ensino médio e tem um projeto de vida. Na verdade, uma obstinação: “ Fazer agronomia e trabalhar na Embrapa, em Planaltina”. E o porteiro da tarde? Já formando em teologia, Walter Fernandes, carioca de 45 anos, agora tenta, com dificuldade, pagar a faculdade de direito na Uniplan. Trancou no segundo semestre. “No dia em que me formar, estarei completamente realizado”, diz, emocionado. E revela, como premonição: “Meu sonho mesmo é ser juiz, mesmo que as pessoas não acreditem nisso. Há tempo de plantar e de colher… ”.

Essa gente toda trabalha no mesmo lugar. Sem saber, a Escola Classe 316 Norte reuniu esses cinco personagens. Virou um pólo de cultura, lugar verdadeiramente transformador. Lugar de esperança. E eles chegaram à Secretaria de Educação há anos, por meio de concurso para nível de 4ª série do ensino fundamental. Era, honestamente, quando entraram, só o que tinham no currículo. Pedir mais era desleal. As dificuldades . financeiras, a luta pela vida e a falta de oportunidade deixaram-nos longe dos bancos escolares. Só havia um destino a seguir: tentar pelo menos sobreviver. E foi o que fizeram. Alguns se casaram. Tiveram filhos. Trabalharam em outras escolas. Na portaria, na vigilância e na cantina executaram suas tarefas com zelo extremado. E o tempo foi passando. E a vida se encarregando de transformá-los. Mauro e Francisca vigiaram solitariamente a escola. Cada noite é a vez de um. Alexandra e Ozana capricharam todos os dias no lanche das crianças (a escola tem 398 alunos, do Jardim de Infância à 4ª série, com idades que variam de 6 a 12 anos). E como limparam aquela cozinha. O porteiro Walter vigiou com olhos de lince várias escolas. Tomou conta dos alunos como se fossem seus três filhos. Há uma semana chegou à 316 Norte.

Formado em teologia, luta agora para terminar o curso de direito. Ganha R$1,7mil. Pagava R$ 900 de mensalidade. “O GDF devia fazer uma parceria com as faculdades particulares, para que tivéssemos uma bolsa quase integral, já que na UnB (Universidade de Brasília) não conseguimos estudar em razão do horário e da concorrência”, pede. Enquanto o apelo não é atendido, ele luta para arcar com as despesas de ser aluno. “Toda profissão é digna, mas a gente tem o direito de querer melhorar a cada dia”. Um dia, o filho de Francisca, a vigia, disse-lhe: “Por que a senhora não volta a estudar? Por que não tenta uma faculdade?” Ela ouviu aquilo atentamente. À noite, enquanto vigiava a escola, pensou muito no que ouvira. E decidiu, tempos depois, que voltaria a estudar. O ensino médio (antigo segundo grau) fizera aos 19 anos. A idéia foi tomando forma. Vigiava a escola e, quando tinha um tempo livre, folheava livros. Dúvidas tirava com o filho mais velho. Prestou vestibular. E foi aprovada no curso de letras. No primeiro dia de aula, beliscou-se. Imaginou sonhar. Vai agora para o terceiro semestre. Paga, com extremo sacrifício, a faculdade particular. Como só trabalha à noite na escola, arrumou um emprego à tarde. Virou também recepcionista. Na manhã de ontem, durante a entrevista ao Correio, a vigia se emocionou: “Hoje, tenho orgulho de chegar para você e dizer que tive coragem de ir à luta. Já tive, no começo, vergonha de falar que era vigia. Hoje, não tenho mais. Não me sinto menos que ninguém”. E arrepia quem a ouve falar: “Mesmo que permaneça vigia, já valeu a pena eu ter chegado à faculdade”. Mas,batalhadora que é, Francisca revela seus planos: “Vou me formar e tentar ser professora”.

O vigia Mauro, que não estava presente na sessão de fotos feitas no final da manhã (tinha ido renovar a carteira de habilitação) está a poucos dias de receber o canudo de bacharel em direito. Há duas décadas executando a mesma função, Mauro mudou a sua vida quando conheceu uma professora (sua atual mulher) no Jardim de Infância da 312 Norte, onde trabalhava antes. Há 15 anos está na Escola Classe 316 Norte. A moça o incentivou a voltar aos estudos. Ele se perguntava: “Como, se nem o segundo grau eu tenho?”. Um dia, ela mesma passou para o vestibular de pedagogia na UnB. Einsistiu: “Você pode também”. Em 2001, Mauro começou o supletivo. Prestou vestibular para direito na Unieuro. Há cinco anos, tirando do pouco salário, paga a prestação da faculdade. E só pensa no dia que receberá o diploma. Quer advogar. E depois ser promotor. “Comecei a ter orgulho de ser vigia quando percebi o mundo de uma forma diferente”, reflete. Com a voz embargada, o homem que vigia escolas há 20 anos desabafa: “É o único exemplo que vou deixar para minha filha. Só o estudo melhora o ser humano”.

A merendeira Ozana está na escola há 12 anos. “Adoro cuidar do lanche das minhas crianças. A gente se apega mesmo”, diz ela. Para bancar a faculdade, em torno de R$ 650, a moça que mora no Guará teve que arramar outro emprego. À tarde, vira cabeleireira. À noite, estudante pedagogia. Mas nada a desanima. “É com meu trabalho de merendeira que tô conseguindo pagar minha faculdade. Não posso ter vergonha dele”, reflete, com uma ponta de orgulho. E não pára por aí: “Depois que me formar em pedagogia, vou fazer fisioterapia”. Alexandra, colega de Ozana na cantina há mais de uma década, ainda não chegou à faculdade, mas já avançou. Terminou o ensino médio. É técnica em administração. Gostou tanto que leu três vezes Dom Casmurro, de Machado de Assis. E só não prestou vestibular para agronomia pela situação financeira. “Mas eu vou conseguir. É o sonho de toda minha vida”.

Ouvindo todas aqueles depoimentos emocionados, a diretora da Escola Classe 316 Norte, Luciana Ferraz, 37, elogia: “Tenho 15 anos de rede pública, passei por vários estabelecimentos de ensino, mas nunca tinha trabalhado com pessoas tão determinadas e dispostas para lutar. E não há na rede de ensino, pelo menos que eu saiba, tantos exemplos desses reunidos numa mesma escola”. Marília Escobar, 44, vice-diretora, extasia-se: “Eles são uma bênção. A vontade que têm de melhorar a cada dia é impressionante”. Hoje, Mauro, o vigia bacharel em direito, estará de plantão à noite. A estudante de pedagogia Ozana e a técnica em administração Alexandra, ambas merendeiras, vão caprichar no lanche das crianças. A vigia Francisca, de folga, repassará as aulas do curso de letras. E o porteiro Walter, formado em teologia, estará atento a todos que entrarem e saírem da escola. Suas crianças são sagradas.

Essa é a história de uma gente que acreditou que podia mudar a si mesma. E apostou desavergonhadamente nisso. O final só pode dar certo.

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