Universidade dos que não estudam

A cena já é banal. Em fevereiro, nas esquinas perto das faculdades, jovens bem-nascidos, pintados como índios de antigamente, brincam de mendigos. Pedem uma moeda, jurando que são “bichos”, a gíria para quem acaba de entrar na universidade. É humilhação consentida, sem efeitos colaterais.

Um motorista atendeu a uma destas jovens, bem vestida e toda suja de tinta, com uma pergunta: “Você entrou em que faculdade?”, seguido da resposta: “Veterinária na…”, notória instituição de terceira linha. Insistente o motorista retrucou: “Você precisava ter estudado mais”. Recebeu resposta imediata: “Meu pai também disse isso, mas eu não gosto de estudar”. 

Esse é um ponto importante. A jovem, com dentes perfeitos, tão bem tratados quanto seus cabelos, acumulou ao longo de pelo menos treze anos custo fixo de cerca de mil dólares/mês no orçamento familiar. Uma mínima parte disto pode ser descontado no IR anual (menos de 5% do custo real), que é a contribuição do Estado para a educação das camadas médias. Como esse é o preço, poucos chegam no alto da pirâmide escolar. O Censo da Educação Superior do ano passado registrou cerca de quatro milhões de estudantes, menos de 8% da população na faixa etária entre 18 e 24 anos. É muito pouco: 80% menos que o Chile ou Argentina, oito vezes menos que a Coréia do Sul.

Já a jovem caloura, foi bastante honesta para confessar o que não quer: estudar. É fato que a competitividade da economia brasileira exige muito mais gente bem formada do que temos. Se do ponto de vista quantitativo faltam estudantes, do qualitativo, a realidade está na resposta da moça, a falsa mendiga. E os macro resultados educacionais do País indicam que ela não é caso isolado. Por exemplo, já se sabe que os resultados finais do Sistema de Avaliação da Educação Básica 2005 (Saeb), que devem ser divulgados hoje, revelam que a média de acertos dos alunos do último ano do ensino médio foi quatro pontos menor que a de 2004. O Saeb abrange a rede pública e a privada.

Maus resultados não estão restritos aos cursos menos procurados. Vale notar, por exemplo, o que ocorre com o s alunos de Medicina, uma das notas de corte mais alta nos vestibulares. A prova aplicada a 1.003 formandos, pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, mostrou que 38% dos jovens médicos foram reprovados por não responder a 72 das 120 questões do exame, resultado 18% pior que o de 2005.

Algo de errado acontece, portanto, com os investimentos em educação, seja o do Estado, seja o das famílias. A relação custo-benefício destes aportes está longe do mínimo desejável. A cobrança de resultados reais no processo educacional está muito fragilizada. Ao que parece, basta se declarar estudante, para que todos os pecados, inclusive o da preguiça, sejam perdoados. Apesar desse fato, verificar os resultados reais da passagem pelo sistema educacional, com provas, não aparece em nenhum dos projetos de reforma universitária em gestação. É uma pena, porque sem essa fiscalização, nem o Estado, nem o pai da falsa mendiga conseguem saber se gastaram bem ou mal o seu dinheiro.

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