Educação, estágio e trabalho

Por Paulo Nathanael Pereira de Souza

A educação brasileira vive, provavelmente, a mais negra quadra de sua história. A não ser pelas sempre raras e honrosas exceções, o que se vê é um fracasso generalizado, que vai da educação infantil à pós-graduação, com milhões de jovens a terem frustradas suas esperanças postas na escolaridade, como meio de ascender social e profissionalmente neste país, que, de repente, se viu presa da incompetência generalizada, que sobre ele se abateu entre o fim do século 20 e o começo deste.

Os membros das classes políticas, formados todos, ao que parece, na escola universal de Pilatos, lavam as mãos, e a sociedade brasileira, tomada por uma letargia ética e intelectual como nunca se viu, desiste de pressionar o Poder Público, pondo a educação, num recente inquérito nacional, em 7º lugar entre as prioridades do país. E é elementar: nas democracias, quando o povo não pressiona, o Estado não se mexe. É a alma coletiva que ficou pequena e não mais consegue ver além da ponta do próprio nariz. E se, como dizia o Marquês de Maricá, cada povo tem o governo que merece, ai de nós, que estamos a formar gerações não para o progresso, mas quiçá para o retrocesso, a cada etapa do futuro que se vai abrindo à nossa frente.

Aos que lerem estas observações, pode parecer que acabo de me converter ao pessimismo mais feroz, e que depois de meio século e mais de luta pela educação, estou jogando a toalha. Tudo errado, eis que o único sentimento que não medra na alma dos educadores é a desesperança. Toda educação é um ato de fé na capacidade humana de aprimoramento, crescimento e discernimento. Ainda que certas conjunturas negativas e uma série de circunstâncias adversas tendam, vez por outra, a confundir as gerações, que sonham educar-se, nada no mundo conseguiu, até agora pelo menos, matar no ser humano a sua fome de saber e a sua obstinação na busca da felicidade. E isso tudo só uma educação de qualidade será capaz de assegurar.

Daí que, apesar de conscientes das dificuldades que a escola brasileira vem vivendo (alunos sem prontidão nem interesse pelos cursos, pais incapazes de dar aos filhos as primeiras noções éticas e comportamentais, verbas poucas e mal gastas no financiamento das escolas, professores sem foco nos seus projetos didático-pedagógicos e miseravelmente remunerados etc. etc.), eu e o professor Arnaldo Niskier nos temos reunido com freqüência para discutir o tema.

E nessas discussões que são o nosso bom combate, temos conseguido manter a fé, como recomenda São Paulo, o apóstolo, a ponto de nos decidirmos a publicar o livro Educação, estágio e trabalho, que desde logo sugere a atualidade do seu conteúdo. É um esforço de análise crítica, mas sempre com a contrapartida de sugestões e aconselhamentos de quem adquiriu expertise para tanto, em muitos decênios de experiências que vão da sala de aula à administração de redes e sistemas educacionais.

Coube ao professor Arnaldo traçar uma panorâmica do estado da arte da educação brasileira, nestes últimos e tão sofridos tempos de “déficits” seguidos, apurados por Enens, Enades e Saebs. Quanto a mim, busquei conceituar esse instituto tão discutido e, ao mesmo tempo, tão pouco conhecido, que é o estágio e suas relações com o ensino e o trabalho. Trata-se de algo indispensável na formação dos estudantes não apenas pela necessidade de aproximar cada vez mais a formação acadêmica dos avanços organizacionais e tecnológicos da área empresarial, em que os jovens terão necessariamente que atuar, mais cedo ou mais tarde. Só o estágio é capaz de desempenhar esse papel, que Dewey em suas lições de filosofia educacional consagraria com aquela proposição cheia de atualidade: “No mundo moderno, só sabe quem faz!”.

A nossa expectativa, tanto do professor Arnaldo quanto a minha, é que essa obra possa trazer alguma contribuição para que se superem os impasses, hoje impeditivos do sucesso escolar dos alunos, e sirvam as suas abordagens para a reflexão dos educadores e administradores, que, como nós, se afligem com os seguidos insucessos de uma escolaridade incapaz de dizer à sociedade brasileira a que veio e para onde vai.

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