Por um modelo sustentável

Por Editorial do Jornal do Brasil

As medalhas que embalam o sonho de o Brasil tornar-se a terceira potência esportiva das Américas, atrás só dos Estados Unidos e de Cuba, impõem uma responsabilidade acima da alegria efêmera: convertê-las em avanços sustentáveis para o desenvolvimento integral do esporte. Não só na esfera da alta performance, combustível para os negócios bilionários impulsionados pelas grandes competições. Mas, principalmente, no campo da cidadania.

Ouro no taekwondo, Diogo Silva é o emblema recente desta contradição entre o rendimento de ponta e a falta de um modelo ótimo para a gestação de talentos e o aproveitamento abrangente do esporte no tecido social.

Sem patrocínio e sem incentivo consistente das fontes oficiais, o lutador reforça o time dos heróis que desafiam a lógica, o imponderável, a origem pobre, a estrutura precária. Retratos da inexistência de política nacional de esportes.

Embora a Lei Piva tenha aumentado os recursos dirigidos às modalidades olímpicas, a maioria destas depende de esforços individuais para manter acesa a perspectiva de pódio. Ginástica e vôlei são exceções construídas com modelos de gestão profissionais, baseados no planejamento e na formação de núcleos de excelência, em Curitiba e Saquarema, para consolidar uma ascensão deflagrada a partir de gerações de craques. Batalhas políticas impediram que tênis e basquete seguissem o exemplo. Em vez de confirmarem a passagem à elite mundial, perderam troféus, dinheiro, praticantes.

Quase sempre acompanhadas de deslizes administrativos, brigas de poder – como a do hipismo em pleno Pan-Americano – exercem papel decisivo no conjunto de obstáculos à evolução esportiva. Encontram na ausência de uma política unificada o terreno fértil para se perpetuarem.

Antes de aplicarem os dividendos dos Jogos no palanque da Olimpíada, dirigentes têm de usá-los na irrigação de células provedoras de esportistas. Além da coordenação entre clubes, federações, confederações, acima dos oportunismos habituais, o desafio exige a inclusão da comunidade e da escola como incubadoras de atletas em potencial.

Estratégica para o sonhado salto verde-amarelo ao clã das potências olímpicas, a ampliação da base de praticantes demanda dois cuidados essenciais para manter-se em sintonia com as reais prioridades brasileiras. O primeiro: resistir à tentação de importar sistemas massificadores, como o da China e o de Cuba. Convém ajustar os pontos positivos destas experiências às características culturais, sociais e econômicas nacionais.

O segundo cuidado: contemplar as três dimensões do esporte – alto rendimento, lazer e educação – de forma harmônica, com as respectivas atribuições e competências distribuídas sem as freqüentes distorções.

Enquanto a iniciativa privada precisa aperfeiçoar os mecanismos de difusão de talentos, as administrações públicas devem concentrar-se no aprofundamento dos benefícios esportivos para a saúde, a qualidade de vida, a formação e a inclusão. Como preconiza a Declaração Universal dos Direitos Humanos e determina a Constituição.

A conversão do Pan em passaporte para o primeiro mundo envolve mais do que a exploração dos equipamentos, sistemas e serviços legados. Envolve, principalmente, uma cooperação entre gestores públicos e empresários para disseminar a gestação de melhores esportistas e cidadãos.

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