Dança

Juventude de malha e sapatilha – O Projeto Joaninha do Ballet Stagium começou há cinco anos como um trabalho social: dar às crianças de bairros distantes e periféricos – todas selecionadas em escolas públicas – a oportunidade de conhecer um pouco sobre dança. Com o passar dos anos, o Joaninha cresceu, começou com 60 participantes e hoje conta com 130 jovens – e ainda tem espaço para mais 20 meninos.

Das aulas, eles passaram para os ensaios quase diários, além de cursos de história da dança e de noções básicas de cidadania. O resultado é uma companhia de adolescentes e outra mirim. Esta última já apresenta o primeiro espetáculo, Danças na Ilha de Santa Cruz, e os mais experientes já conhecem um repertório formado por diferentes estilos de coreografias. Uma nova já está engatilhada, ainda sem título, para estrear até o fim deste semestre.

Durante o ensaio de uma releitura de Batucada, tradicional coreografia do Ballet Stagium, e de um novo espetáculo inspirado em modinhas do século 19, os meninos contaram ao Estado um pouco sobre sua rotina e a experiência de participar do Joaninha. “Quando comecei a atuar no projeto, algumas pessoas torceram o nariz, acharam que dança é coisa de menina, de homossexual, mas a sexualidade não está em uma sapatilha ou em uma chuteira. Além do mais, aprendo muitas coisas, principalmente sobre o corpo, como a postura, o alongamento e o meu papel como cidadão. Ficar em casa sem ter o que fazer não ajuda ninguém”, diz Danilo Fagner, de 16 anos. Cícero Rafael Santana, de 14 anos, destaca a responsabilidade adquirida. “Aprendi a ter disciplina, porque temos horários fixos, uma rotina séria. Quando um falta, por exemplo, todos são prejudicados, porque o maestro (Décio Otero, o coreógrafo) precisa ensinar tudo de novo, falar várias vezes a mesma coisa e o trabalho não se desenvolve. Percebi que isso também vale para a escola e outros campos da vida.”

Como observa a diretora artística da companhia, Marika Gidali, eles seguem com rédea curta. De segunda a sábado, o grupo tem a agenda cheia – das 15 às 17 horas, eles fazem aulas de balé, e depois, até às 18h30, ensaiam as novas coreografias. Aos sábados, ficam na sede da companhia das 9 horas ao meio-dia, o que significa muita correria a semana toda. “Saio da escola, muitas vezes mal dá tempo de almoçar. Moro na zona leste e para chegar aqui levo um tempo, mas nem penso em desistir. No início, achei que não daria para conciliar a dança com a escola, mas, sabendo dividir o tempo, tudo flui bem. Acho que nesses cinco anos amadureci e mudei minha maneira de ver o mundo, de encarar a vida”, conta Daniele Guimarães, de 16 anos.

Marika lembra que, no início do projeto, a intenção era apenas dar aulas de dança às crianças. “Passamos a cobrar faltas tanto na companhia como na escola, acompanhamos os boletins com as notas e ainda realizamos reuniões periódicas com os pais, para que eles compreendam o que estamos fazendo aqui, que não é só entretenimento, e participem também.” Hoje os meninos e meninas do Joaninha compartilham de uma série de atividades da companhia. Como matinês antes dos espetáculos do Ballet Stagium e apresentações em escolas públicas, numa parceria com a Secretaria Estadual de Educação. “Nesse projeto levamos arte para dentro das escolas.”

Danilo Fagner lembra de um dos dias mais difíceis que enfrentou com o Joaninha. “Dançaríamos para uma série de pessoas dentro de um Congresso de Educação, que ocorreu em outubro do ano passado. Quando entrei no palco do Teatro Municipal e vi a platéia lotada, meu coração disparou. A emoção é indescritível. Superei um obstáculo.” O animado Danilo também destaca as dificuldades que os meninos do Joaninha enfrentam quando entram nas escolas. “Os garotos ficam tirando um barato da malha, dão risada, fazem isso porque não sabem do que se trata, são pessoas preconceituosas, mas, por falta de informação, não têm acesso aos teatros, nem mesmo pela mídia. Mas aprendi a ignorar essas coisas, quando o espetáculo termina todos aplaudem muito e aprendem a respeitar nosso trabalho, percebem a seriedade daquilo fazemos.”

Mais do que formar bailarinos ou bons professores – quatro meninas já atuam como assistentes nas aulas e um menino já aprende os detalhes das partes técnica e de manutenção – o Stagium quer formar cabeças pensantes. “Não posso pensar que dançar é só o movimento do corpo, é preciso ter visão crítica e consciência de seu papel na sociedade”, ressalta Marika. “Outro aspecto que nos interessa muito é o processo de trabalho, algo muito mais valioso do que o espetáculo pronto. Cada etapa, cada vitória, cada momento são muito preciosos.” O Joaninha conta com patrocínio da Petrobrás, da Fundação Camargo Corrêa e apoio da Secretaria Estadual de Educação.

Leave a comment