Família na escola

Era uma vez um sonho. O sonho de manter acesa a chama vibrante, intensa e colorida da infância. Era uma vez um sonho de um filósofo que foi parar à frente da Secretaria da Educação do mais forte estado brasileiro, São Paulo. E entre o caos e a impessoalidade da metrópole, Gabriel Chalita resolveu trabalhar focado na crença em uma educação baseada em valores, ética e amor -tudo isso de mãos dadas com a família de cada um dos alunos da rede pública de ensino.

Autor de 36 livros na área de Educação -entre eles Pedagogia do Amor, do qual foi retirada a frase que dá início a esta reportagem -, Chalita, 36 anos, tem se destacado por defender idéias que pregam o fortalecimento do vínculo entre professor e aluno, o ensino baseado em carinho, atenção e dedicação. Um reencontro com o papel de mestre exercido pelo professor antes que o mundo fosse engolido pela falta de tempo, pelo individualismo e pelo ensino massificado.

Nesta entrevista concedida à Revista Aprende Brasil, o secretário explica o que é educar com afeto e conta por que o Programa Escola da Família, que abriu as escolas da rede estadual de ensino para as famílias de São Paulo praticarem esportes, participarem de atividades culturais e cursos de capacitação profissional nos fins de semana, tornou-se um sucesso. Hoje, envolve mais de 5 mil escolas e já virou até bandeira da Unesco, que apóia a iniciativa e apresentou o Programa para diversos países, entre eles, Estados Unidos, Portugal,Chile, Argentina e Inglaterra.

RAB -Como o senhor avalia o Programa Escola da Família, desde sua criação, em agosto de 2003?

Gabriel Chalita -Ele foi lançado para que pudéssemos trabalhar com um conceito fundamental em educação, o pertencimento. As pessoas têm que perceber que a escola pertence à comunidade. Quando quebram a escola, por exemplo, estão agredindo a si mesmas. O projeto educacional não se encerra na sala de aula, por isso é importante os pais estarem perto dos filhos. A educação de um aluno acontece no dia-a-dia, na relação que ele tem com o pai, a mãe, a igreja a que ele vai, os amigos… Quanto mais os pais estiverem em sintonia com a direção da escola e com os educadores, mais fácil vai ser o processo educativo dessas crianças. Há muitos indicadores de que um dos grandes fatores do sucesso escolar e profissional está ligado ao tipo de acompanhamento que os pais têm dos estudos do filho.

RAB -Como tem sido a participação dos pais?

Gabriel Chalita -Estamos muito satisfeitos. Iniciamos com 2 mil participações durante o primeiro fim de semana, em agosto de 2003. Esse número saltou para 7 milhões de participações no final daquele ano. Fechamos o ano de 2004 com 82 milhões de participantes. Isso mostra que os pais estão se acostumando a freqüentar a escola de seus filhos.

RAB -A que se deve esse sucesso?

Gabriel Chalita -Principalmente ao envolvimento dos educadores. Mas há outras razões. Nas regiões periféricas, não há espaços de lazer. Então, a escola passa a ser um lugar de convivência, o que acabou atraindo muita gente. Lá, as pessoas podem praticar esporte, participar de atividades culturais e de cursos de capacitação profissional. Outro aspecto interessante é que não há a obrigação de seguir uma proposta única. A escola desenvolve sua metodologia dentro de quatro grandes áreas: cultura, esporte, geração de renda e saúde.

Assim, multiplicam-se projetos de padarias artesanais, mães que aprendem a cozinhar ao lado dos filhos, aulas de informática, sessões de cinema. Nas regiões de praia, o Programa vai desenvolver aulas de surfe. Dessa forma, fazemos com que a escola seja um espaço acolhedor, envolvente.

RAB -Os professores participam das atividades de fim de semana?

Gabriel Chalita -Sim, mas como voluntários. A adesão tem sido ótima. Há professores de Matemática que vão dar aula de violão, professor de Português que vai dar aula de dança. Como a carga de trabalho do professor é “puxada”, compreendemos por que determinado professor não desenvolve uma atividade no fim de semana. Mas muitos têm participado, até mesmo por convite dos alunos.

RAB – Na opinião do senhor, qual o grande diferencial do Programa Escola da Família?

Gabriel Chalita -O primeiro é o fato de todas as 5 mil escolas da rede estadual abrirem suas portas no fim de semana. Não há nenhuma experiência similar no Brasil. A segunda diferença é o fato de contarmos com jovens universitários. O estado criou um programa que possibilita ao jovem cursar uma faculdade. Pagamos 50% da mensalidade e a universidade arca com o restante. Em contrapartida, o universitário ajuda a escola estadual a ser melhor, participando das atividades. Dessa forma, todos ganham.

A terceira questão é a liberdade de projetos. Trocamos experiências entre as escolas, para que cada uma diga o que está fazendo e por que está tendo sucesso. Assim, multiplicam-se os bons projetos pela rede.

Rab-Quais são as metas daqui para a frente?

Gabriel Chalita -Vamos passar de 25 mil para 30 mil bolsas de estudo para os universitários. Também começaremos a trabalhar com as escolas municipais. Sentimos que há uma demanda muito grande para que haja essa expansão. Alguns pensam que abrir a escola à comunidade pode fazer com que ela seja destruída. Mas é justamente o contrário.

RAB -A aproximação do professor com o aluno tem refletido na qualidade da aprendizagem?

Gabriel Chalita -Com certeza. Se você melhora a relação humana, você melhora a aprendizagem.

RAB -Isso é o que o senhor chama em seus livros de “educar com afeto”?

Gabriel Chalita -Sim. Acredito que só se consegue estabelecer uma relação de ensino-aprendizagem por meio da dimensão afetiva. Pode-se passar informação de muitas maneiras, mas, para educar, é preciso afeto. O aluno tem que se sentir valorizado. E isso acontece nos pequenos gestos. É o professor chamar o aluno pelo nome, olhar para ele, saber ouvi-lo e, acima de tudo, respeitar o que ele traz de conhecimento. Porque o aluno não é uma tábua rasa. Ele é detentor de conhecimentos e tem uma história que o professor deve levar em conta. Isso é afeto. Afeto não é lamber, é mostrar ao outro que ele é importante.

RAB -o que acontece quando o professor não consegue fazer isso?

Gabriel Chalita -O jovem se sente pequeno na sala de aula e tem problema de baixa auto-estima. E com baixa auto-estima, ninguém aprende. O professor deve ser como um maestro que rege os instrumentos, sabendo que cada um de seus alunos é diferente.Dessa forma, consegue desenvolver as três habilidades fundamentais: cognitiva (que é o conhecimento propriamente dito), social (que é essa relação interpessoal, a visão social de mundo e a cidadania) e afetiva (que é o emocional). Na dimensão afetiva, o aluno aprende a ser equilibrado. Isso pode ser desenvolvido com aulas de Educação Musical, Arte e Educação Física, que voltamos a oferecer na rede pública de ensino.

RAB -O professor tem receio de colocar a autoridade em risco ao lidar com a afetividade na sala de aula?

Gabriel Chalíta -A autoridade é algo que tem de ser conquistado. Quando ela é imposta, ela é efêmera. Se o aluno gostar do professor, ele vai respeitá-lo com a autoridade que ele tem, não com o autoritarismo. Na dimensão afetiva, não se perde a noção de autoridade. O professor não é um amiguinho do aluno. Ele é um referencial. O aluno tem que olhar para o professor e admirá-lo. Por isso, ele deve ser sempre correto. São pequenos gestos que mostram que o professor tem compromisso com a missão de educar.

RAB -Essa é uma forma de trabalhar valores em sala de aula?

Gabriel Chalita -Sim. Valores como a ética e a amizade são essenciais para a educação. Se o ensino é focado no conteúdo e no professor, ao invés de se trabalharem valores, leva-se o aluno a decorar uma quantidade excessiva de informações, o que o impede de se tornar uma boa pessoa e um profissional competente. Ele pode até esquecer fórmulas matemáticas e regras gramaticais, mas o exemplo do professor ele guarda para sempre.

RAB -Como é possível combater a violência em comunidades que já são extremamente violentas, como é o caso da periferia de São Paulo?

Gabriel Chalila -Com responsabilidade educacional é possível formar o aluno de maneira equilibrada. Se o professor evitar a agressividade, não aceitar provocações, vai ajudar o jovem a se desenvolver melhor. Com o Programa Escola da Família, tivemos uma queda fantástica nos índices de violência. Abrindo a escola no fim de semana, formando professores comprometidos, criando grupos musicais, culturais e esportivos, estamos combatendo a violência.

Aprenda mais…

Programa Escola da Família

www.educacao.sp.gov.br

Obras de referência

Pedagogia do Amor-A contribuição das histórias universais para a formação de valores das novas gerações (Editora Gente)

Educação

A solução está no afeto (Editora Gente)

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