Chalita: educador do ano

Formado em filosofia e em direito, o secretário de Estado da Educação, Gabriel Chalita, foi eleito, por unanimidade, o Educador do Ano. O tradicional prêmio Educador do Ano, da Academia Brasileira de Educação, foi dado a Chalita por seu desempenho à frente da secretaria de Estado da Educação e à capacidade de administração e de gestão do setor público.

Chalita tem hoje na secretaria sob seu comando 5.888 escolas, 232 mil professores e 5,4 milhões de alunos. Em entrevista ao APCD Jornal, o secretário, mestre em sociologia política e direito, doutor em comunicação e semiótica e também em direito, fala sobre as vantagens da progressão continuada nos ensinos Médio e Fundamental, sobre a violência nas escolas e sobre o grande desafio da escola que, segundo ele, nesse século, é fazer os professores entenderem que a aprendizagem é diferente para cada aluno.

APCD Jornal: O seu lema é “Educação com afeto”. O que tem sido feito nesse sentido desde que o senhor assumiu a pasta?

Em nossas capacitações, palestras, congressos, teleconferências e videoconferências procuramos enfatizar, sobretudo, a importância do educador no processo ensino-aprendizado. Ressaltamos o fato de ele ser uma figura determinante para a formação das novas gerações, dos futuros cidadãos conscientes de seus direitos e deveres. Nesse contexto, o afeto é um componente essencial que serve de base na relação mestre-aprendiz.

Entre professores e estudantes deve haver respeito, admiração e amizade – sentimentos e ações contrárias ao autoritarismo e à imposição do respeito pelo medo, pelo grito. Em nossas publicações, nos programas que criamos, nos cursos aplicados na rede insistimos na necessidade de o professor se esforçar ao máximo para olhar o estudante como um indivíduo único. Um ser humano em formação que possui histórias, ideais, problemas, sonhos, temores, desejos. Uma pessoa que está no início de sua vida, precisando de exemplos e referenciais que o auxiliem a construir seu futuro, a identificar talentos e potenciais que o levem a encontrar seu lugar no mundo.

APCD Jornal: Nas escolas estaduais os alunos não reprovam mais. Quais são as conseqüências disso para o futuro desses alunos? Quais são as vantagens da Progressão Continuada?

A Progressão Continuada permite a aplicação de metodologias de ensino diferenciadas que privilegiam, sobretudo, o direito ao aprendizado e o respeito pelo aluno. Trata-se de um sistema que possibilita a construção da auto-estima do estudante, que passa a ser respeitado pela sua maneira peculiar de assimilação de conteúdos. Por intermédio da implementação dessa mudança, alunos e professores tornaram-se as figuras centrais do processo educativo.

A verdade é que não há mais espaço para o ensino tido como tradicional porque sua metodologia está ultrapassada, distante da realidade da Era da Informação e do Conhecimento que vivenciamos hoje. São esses os motivos que fazem com que a Progressão Continuada seja defendida por todos os grandes educadores do mundo. Para aperfeiçoar o programa, contamos, hoje, com a aplicação anual do Saresp (Sistema de Avaliação e Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), cujo objetivo principal é monitorar a qualidade do ensino, subsidiando as tomadas de decisões da Secretaria e contribuindo para a melhoria de todos os nossos programas e propostas pedagógicas.

APCD Jornal: A violência tem sido um grande problema dentro das escolas públicas. O que a Secretaria de Estado da Educação tem feito com relação a isso?

Pouco depois de assumirmos a pasta da secretaria, elaboramos o Plano de Segurança nas Escolas, que reduziu consideravelmente os índices de violência nos estabelecimentos de ensino. Instalamos câmeras nos prédios, elevamos muros, solicitamos o aumento da ronda escolar, ampliamos as zeladorias e, sobretudo, trabalhamos o tema em sala de aula, estimulando o debate entre professores e alunos – que, por sua vez, tornam-se multiplicadores desses conhecimentos em suas comunidades de origem. A violência é um tema recorrente. Uma preocupação constante para pais, alunos, professores, enfim toda a sociedade. Como educadores, objetivamos, antes de tudo, garantir a integridade física e emocional do aluno, sem as quais não é possível trabalhar o aspecto intelectual. Quando oferecemos segurança e tranqüilidade no ambiente escolar, contribuímos muito para o desenvolvimento dos trabalhos pedagógicos. Acreditamos que a segurança não é apenas uma necessidade, mas um direito do cidadão.

APCD Jornal: Em uma de suas entrevistas, o senhor afirma que o grande desafio da escola nesse século é fazer com que os professores entendam que a aprendizagem é diferente para cada um. Por quê?

É essencial que o educador não generalize, não trate os aprendizes de maneira uniforme, nivelada. Esse tipo de comportamento é extremamente prejudicial ao processo educativo. Alunos são seres humanos, cada um com suas necessidades especiais, suas carências, seus ideais. Cabe aos professores agir com a sensibilidade capaz de detectar, em cada um desses estudantes, seus dons, talentos e potencialidades – na maioria das vezes, sintonizados com suas histórias singulares. É possível fazer das aulas, das exposições dos temas e disciplinas, um momento único. Um momento mágico entre professores e alunos. Basta, para isso, olhar nos olhos dos aprendizes, chamá-los pelo nome… Basta lecionar com respeito, paciência, consciência de que os educandos têm, geralmente, menos experiência de vida, mas, nem por isso, menos valor. Para ser educador, na acepção mais completa do termo, é preciso, sobretudo, acreditar. Acreditar que é possível transformar cada um de nossos aprendizes em seres humanos melhores.

APCD Jornal: Qual a sua opinião sobre a reforma universitária proposta pelo Ministério da Educação?

A nosso ver, ainda é muito cedo para opinar sobre a reforma. É preciso avaliar melhor as propostas e a forma como serão aplicadas. Cabe ao ensino superior preparar de maneira específica para o mercado de trabalho, para a profissionalização dos estudantes, para o engrandecimento de seu senso de observação, de sua sensibilidade, de sua cultura. É um período de formação riquíssimo, complexo, capaz de fazer extrema diferença na vida dos aprendizes. De nossa parte, estamos concentrando esforços nos ensinos Fundamental e Médio, de modo que, cada vez mais, os alunos cheguem mais preparados às universidades. Em São Paulo, por exemplo, já conquistamos a universalização do ensino. Temos praticamente 100% das nossas crianças na escola. Outro dado relevante: o Governo Geraldo Alckmin investe R$ 100 milhões anuais na capacitação de professores e na compra de equipamentos escolares. São informações que revelam muito sobre o aumento do acesso das comunidades carentes ao ensino Superior. Estamos convictos de que a ampliação de políticas públicas de inclusão social é um caminho seguro para conduzir essa população economicamente desfavorecida à universidade, reduzindo o panorama elitista que ainda predomina no meio acadêmico nacional e, ao mesmo tempo, contribuindo para a formação de qualidade de milhões de crianças e jovens.

APCD Jornal: O senhor afirma que o processo educativo é uma forma de acabar com o preconceito. O que o senhor acha das quotas para negros ou pobres ingressarem nas universidades?

O sistema de cotas é uma medida paliativa. O ideal é que, num futuro breve, todas as escolas públicas garantam uma educação de excelência que possibilite aos educandos o ingresso em universidades gratuitas. Na rede estadual de ensino de São Paulo, por exemplo, temos escolas maravilhosas que desenvolvem projetos e ações que se equiparam e muitas vezes superam os projetos das escolas particulares. Embora essas unidades ainda não sejam maioria, elas nos mostram o quanto é possível desenvolver projetos pedagógicos de ponta, desde que haja criatividade, boa vontade e o envolvimento com os pais e a comunidade de seu entorno. Estamos trabalhando muito para que essa seja a realidade de todas as escolas da rede. Precisamos entender que a educação é um compromisso de toda a sociedade e a escola funciona como o órgão gestor dessas atividades educacionais. A educação de qualidade precisa ser um direito de todos, independentemente de raça, crença, classe social.

APCD Jornal: Com a facilidade de ingresso nas faculdades e principalmente no estado em que foi deixada a educação dos ensinos Fundamental e Médio, inúmeros estudantes chegam à universidade sem saber, sequer, noções básicas de algumas disciplinas essenciais para a boa formação de um aluno. Com isso, muitas vezes, os professores universitários precisam, antes de começar um novo assunto, relembrar o que já deveria ser de conhecimento dos que estão entrando na universidade, retardando o processo de ensino. Que análise o senhor faz desse panorama da educação?

Trata-se de um problema difícil, mas não impossível de ser equacionado. A sociedade já está consciente dessa situação e isso já é um grande passo.

A única saída, a nosso ver, é o investimento na capacitação dos professores dos ensinos Fundamental e Médio. São essas as principais etapas de formação dos alunos. É nesse período que devemos concentrar grande parte de nossos esforços como educadores. Se conseguirmos oferecer uma educação de excelência nessa fase, grande parte dos problemas que atingem o ensino Superior estarão, conseqüentemente, sanados.

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