”Vai, me belisca. Belisca que eu devo tá sonhando”. Anderson*, 18, mal podia acreditar que, depois de abandonar os estudos antes de completar o ensino médio, cair de cabeça no crime, ser preso, levar “sova” da polícia e ir parar na Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor), havia sido aprovado em uma universidade – algo com o que não sonhara nem nos tempos de bom moço.
A partir de fevereiro, Anderson deixará a unidade Tatuapé da Febem para se misturar aos estudantes do curso de pedagogia de uma instituição de São Paulo. De criminoso a universitário. Ele e outros 26 internos da Febem também aprovados nos vestibulares de universidades paulistanas integrantes do programa Escola da Família – iniciativa do governo do Estado que troca a mão-de-obra de jovens aos finais de semana por bolsas de estudo de nível superior em instituições privadas.
A Febem tem 6.500 internos de 12 a 21 anos. Neste ano, 117 concluíram o ensino médio e poderiam prestar o vestibular. Só 40 se inscreveram para as provas e 27 foram aprovados (em 2003 foram 15 inscritos e sete aprovados).
Há jovens aprovados nas unidades de Marília, Iaras, Bauru (todas no interior), Vila Maria e Tatuapé (capital) em cursos como direito, veterinária, administração de empresas, ciências da computação e educação física. Alguns deles cursaram a maior parte do ensino médio dentro da própria Febem.
É o caso de João*, 19, interno há mais de dois anos, aprovado no curso de webdesign. “Nem pensava em vestibular. Já tinha adotado o crime como meio de vida”, lembra. “Quando vim parar na Febem, vi as conseqüências dos meus atos e percebi que aquilo não valia a pena. Não tem dinheiro que pague minha liberdade”.
João conta que, quando chegou à fundação, uma professora lhe disse que aquele era um lugar de formação e que ele teria de decidir o que queria da vida. “Aquilo mexeu comigo. Levava uma vida de submundo, à margem da sociedade. Não queria aquilo pra mim”. Foi o ponto de mutação. Paulo*, 18, aprovado em educação física, também via a universidade como algo distante. “Achava que estudar não valia a pena. De onde venho, essa história de faculdade é coisa para burguesinho, boa pinta”, diz. “Universidade, para quem vem da periferia, é coisa de primeiro mundo. Vou agarrar essa chance com unhas e dentes”, brinca Sérgio*, 18, outro futuro aluno de educação física.
João e Anderson dizem que, entre alguns funcionários, o esforço em busca da faculdade era motivo de piada. “Falavam assim: ‘você é ladrão, o que está querendo fazer na faculdade?’. Mas fomos incentivados por pessoas que acreditaram em nós quando todos haviam nos virado as costas”. Boa parte dos aprovados está concluindo medidas sócio-educativas e terá a ficha avaliada por juízes para ganhar ou não a liberdade. Caso permaneçam como internos do sistema, a Febem fornecerá o transporte até a universidade e um funcionário acompanhará o jovem durante as aulas. Para João, isso sim é dar a volta por cima. “Aqueles que aplaudiram a nossa derrota vão ter de assistir à nossa vitória agora.” Por Fernanda Mena *Os nomes dos internos são fictícios
