Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)
O ser humano tem cinco sentidos. E uma alma. Dorina Nowill não tinha um dos sentidos, mas era uma mulher de alma especial, o que amplificou o seu espírito e a sua noção de solidariedade. Sem a visão desde os 17 anos, foi a primeira aluna cega a matricular-se em São Paulo, numa escola comum. Abria, assim, a senda da inclusão do deficiente visual no país. Em 1945, ainda estudante, conseguiu que a Escola Caetano de Campos implantasse o primeiro curso de especialização de professores para o ensino de cegos.
Em 1946, com um grupo de amigas, criou a Fundação para o Livro do Cego no Brasil – organização que, em 1951, receberia seu nome: Fundação Dorina Nowill para Cegos. Uma entidade que dirigiu, pessoalmente, até o momento de sua morte, neste ano de 2010.
Toda sua história é composta de uma pedagogia essencial, baseada no amor incondicional pelas pessoas. Foi uma amorável realizadora, desde os tempos de colégio. Depois de uma temporada nos EUA, voltou ao Brasil e iniciou uma luta incansável pelas pessoas com deficiência visual. Implantou a primeira imprensa braille de grande porte no país. Foi responsável pela criação do Departamento de Educação Especial para Cegos, em SP. Trabalhou para que a educação para cegos fosse regulamentada em nível federal. Entre 1961 e 1973, dirigiu o primeiro instituto nacional de educação de cegos no Brasil, criado pelo MEC.
Seu trabalho foi intenso, inclusive em organizações internacionais, numa saga que é impossível dissociar da história de Hellen Keller, a norte-americana cega e surda que se tornou exemplo mundial de superação de limitações físicas. Hellen Keller dizia que “nunca se deve engatinhar quando o impulso é voar.” Pois Dorina Nowill voou. Mas ela era um pássaro solitário, uma só alma. Sabia que, sem iniciativas oficiais consistentes, o atendimento necessário seria insuficiente. O país tem 8 milhões de deficientes visuais, entre cegos e pessoas com baixa visão, que devem ser sujeitos de inclusão no processo educacional, e as iniciativas de governo ainda são tímidas para esse contingente de pessoas. Apesar de a educação inclusiva constar do Artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, e de a declaração de Salamanca, da UNESCO, comandar, em 1994: “As escolas devem ajustar-se a todas as crianças, independentemente das suas condições físicas, sociais, linguísticas ou outras.”.
A Lei nº 10.753, de 2003, conhecida como “Lei do Livro”, que obriga a edição de livros em braille, foi um avanço. Mas há algo que a lei não supre: a falta de informação com relação à deficiência, que acaba sendo fator inibidor da inclusão social. A compreensão das deficiências como diferença, e não como limitação insuperável, é algo que apenas a educação logrará obter.
Uma repórter perguntou uma vez a Dorina Nowill o que ela desejaria poder enxergar em sua vida. Ela enumerou duas: o sorriso de uma criança e o pôr do sol na praia. E completou: “Mas não tem nada para suprir a falta de não ver. Só com o que tenho dentro de mim.”
Em toda a sua trajetória, essa mulher, entusiasmada pela vida, lutou pelas mãos do acaso e pela grandeza de seu caráter em defesa dos direitos dos deficientes visuais. O Brasil também teve a sua Hellen Keller, a doce visionária chamada Dorina Nowill que sempre dizia: “Se um dia eu me sentir cansada, acredito que vou parar. Mas eu não me canso.” Permaneceu incansável até os 91 anos.
