O humor enviesado no nacionalista Monteiro Lobato

Por Gabriel Chalita

Autor de doces páginas como em Reinações de Narizinho, e de tragédias ímpares como em Urupês. Capaz de ternuras como as histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo. Escritor que encantava, na literatura infantil, pela imaginação poderosa como a das crianças. E principalmente um inovador, cujo talento não é uma construção literária artificial, mas um tratamento criativo da espontaneidade da língua brasileira. Coloca em imaginativas situações familiares uma boneca de pano, um sabugo científico, um nobre suíno, um burro falante e um rinoceronte boa-praça.

Para equilibrar as relações está uma boa avozinha, uma despachada cozinheira e duas crianças: Lúcia, a menina do nariz arrebitado, e Pedrinho, o aventureiro. Monteiro Lobato é considerado o fundador da literatura infantil brasileira. Foi um educador: nas suas obras, ensinou folclore, brasilidade, gramática, história e mitologia.

Mas era autor de um humor diferente, torto, com o qual evidenciava uma habilidade singular para construir imagens fortes. Tinha prosa pragmática, fixada no grotesco, no incomum. Não foi à toa que tratou com tanto privilégio a sua personagem Emília, uma boneca de pano despachada, desbocada e debochada. Tratava-a bem porque Emília era o seu alter ego, o seu megafone para fustigar os poderes. Numa carta ao amigo Godofredo Rangel (1908), confessa o seu plano editorial: “Os artistas subjetivos que só tiram de si em vez de tirar do mundo que os rodeia, ficam introspectivos em excesso e acabam satisfazendo a um público muito restrito: a si mesmos”. Lobato escrevia para os outros. Ainda que fosse para provocar. Provocar riso ou carranca.

Pessoalmente, ressentia-se do que considerava empreendimentos fracassados. Foi articulista de jornal. Foi conferencista. Foi adido comercial do consulado brasileiro em Nova York. Fundou editora. Foi fazendeiro. Por meio de artigos e livros, condenou a falta de saneamento, as queimadas, a derrocada da cultura do café, a preguiça nacional. E, como símbolo da preguiça tupiniquim, como personagem-tipo, elegeu o caboclo do Vale do Paraíba, a quem apelidou de Jeca-Tatu (1918), e a quem definia assim: sombrio urupê de pau podre, a modorrar silencioso no recesso das grotas. Jeca Tatu incorporava o atraso brasileiro, segundo Lobato, acocorado em frente a uma casa de pau-a-pique, a barriga cheia de vermes, o quintal cheio de filhos. Jeca Tatu era o resultado de “um complexo sistema de parasitismo em repouso”, “cidadão exemplar da Botocúndia”. Aos 25 anos, Lobato já antecipara, com uma frase, a indisposição para com o interior paulista. “Estou nomeado promotor público da comarca de Areias, que deve ser nalgum lugar”, escreveu em 14 de abril de 1907. Em seguida mudava seus haveres para a cidade que ele passaria a chamar de Itaoca ou de Oblivion, no livro Cidades Mortas.

Sérgio Milliet foi quem o enfrentou mais firmemente, nessa questão antropológica: “O Jeca Tatu é quase uma vingança pessoal; é o caboclo visto com o olhar azedo do fazendeiro malogrado”. Crítico literário dos mais importantes, Sérgio Milliet ainda decretou, sobre a obra de Lobato: “O humor, já o disse um conhecedor, jorra da ternura e do pudor dos tímidos. É uma compensação. Ao passo que o sarcasmo é uma transferência do espírito de revolta. É com o sarcasmo que o intelectual se vinga dos outros; é pelo humor que ele se castiga a si próprio”.

Lobato, mais tarde (1927) reconheceu que o retrato do caboclo era injusto, que a culpa não era do Jeca, mas sim daqueles responsáveis pela sua miséria e abandono. Redime-se, no livro “Mr. Slang e o Brasil”, com frases como estas: “Até um cego, um estropiado presta. A questão toda está em proporcionar-lhes condições para prestar.”/ “O Jeca não é assim: está assim”. Monteiro Lobato passou a falar do Jeca como produto do meio físico e social: verminose, subnutrição, analfabetismo e descaso das autoridades. E passou a alertar que as condições de vida do brasileiro, o Jeca Tatu, precisavam ser mudadas com urgência.

Em 1948, muito doente, tentou um último achado do humor canhestro, quando disse a Edgard Cavalheiro: “Estou ansioso por verificar, pessoalmente, se a morte é vírgula, ponto e vírgula ou ponto final.” Morreria pouco depois, na cidade de São Paulo. Era julho.

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