Ensinamentos poéticos

Por Gabriel Chalita

No poema “Ensinamento”, a poeta mineira Adélia Prado traduz, de forma brilhante, a importância do amor como sentimento que deve pairar soberano acima de todas as outras coisas… “Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: ‘Coitado, até essa hora no serviço pesado.’ Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente. Não me falou em amor. Essa palavra de luxo”. (“Ensinamento”, in Poesia Reunida, Adélia Prado)

No poema “Ensinamento”, a poeta mineira Adélia Prado traduz, de forma brilhante, a importância do amor como sentimento que deve pairar soberano acima de todas as outras coisas. Acima, até mesmo, da educação, do estudo e do conhecimento. Na verdade, se não há amor, se não há entendimento a respeito dos valores que derivam dele, tudo o quanto possuímos pode transformar-se em arma contra nós, contra nossos semelhantes e, em conseqüência disso, contra o mundo. O texto de Adélia possui precisão minuciosa, cadência, ritmo e beleza extremada – características inerentes às obras poéticas, estejam elas em prosa ou em verso. Mas isso não é tudo… É, ao contrário, apenas o começo. Não obstante utilizar palavras como instrumento de propagação de idéias e sensações, o poema de Adélia tem o efeito de um objeto cortante porque trespassa nosso corpo e nossa alma com a eficiência de uma lâmina. É uma imagem forte, mas eficaz para descrever a intensidade e a força que as palavras da poeta mineira exercem sobre nós. Cada uma delas parece penetrar profundamente em nossas mentes e corações, tomando-nos de assalto, seduzindo-nos e, finalmente, instigando-nos à reflexão sobre o que é realmente essencial em nossas vidas. É um exemplo riquíssimo de habilidade poética. Em poucas linhas, há uma enorme quantidade de informações que revelam percepções sutis sobre os relacionamentos humanos, sobre a família, sobre o ato de compartilhar, sobre o cuidar, sobre o olhar atento em relação ao outro – captando suas dores e alegrias – e, por fim, sobre a supremacia das ações em detrimento das palavras… É um poema que nos ensina como podem e devem nos tocar os diferentes aprendizados que obtemos ao longo do tempo. Aprendizados, muitas vezes, escondidos por trás dos gestos mais simples… Aprendizados que se situam num universo à parte dos livros escolares. Um universo sustentado, justamente, pelas fibras, teias, cordas e laços inquebrantáveis do amor. São lições imprescindíveis aos seres humanos. Lições que devem ser ministradas, primeiramente, em casa, no seio familiar, para, em seguida, serem reforçadas, fortalecidas e solidificadas pela escola, por meio dos mestres, que assumem papel de destaque nas salas de aula do mundo. Lições que deveriam estar nas entrelinhas dos textos de cada disciplina, de cada novo ponto ou tópico aplicado pelos professores… É para isso que devemos atentar: se não ensinamos com amor e sobre o amor, então não ensinamos nada… Então não cumprimos nossa missão… Então estamos perdendo tempo… Estamos, em resumo, exercendo o ofício errado. Adélia nos ensina tudo isso nas poucas, mas grandiosas linhas de seu poema. Não foi à toa que outro mestre de nossas letras, Carlos Drummond de Andrade, se rendeu aos encantos da conterrânea mineira e incentivou ativamente a publicação de seu primeiro livro, Bagagem, em 1976. Drummond sabia das coisas… E, nós, brasileiros, ficamos devendo mais essa ao grande poeta das terras das Gerais – berço esplêndido de numerosos artistas brasileiros. Drummond, Adélia, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Mário Quintana e tantos outros poetas – para ficar só nos brasileiros – nos ensinam lições fundamentais. Lições que podem nos ajudar a reverter o quadro atual. Um quadro dantesco que reproduz o horror de um mundo em conflito permanente. Um mundo marcado por guerras, intolerâncias, preconceitos, banalização da violência, desrespeito generalizado, ausência de afeto, de fraternidade e de solidariedade. Trabalhar essas questões em sala de aula é uma missão difícil, mas extremamente necessária. Uma missão que exige a mescla de razão e de sensibilidade. Uma missão que poderá nos conduzir a um futuro diverso da realidade que vivemos hoje. Um tempo verdadeiramente regido pelo amor, pela justiça e pela dignidade. E a poesia nos ajuda a levar essa mensagem. Não só a poesia presente amiúde nos livros de português e de literatura, mas a poesia descrita tão belamente por Adélia Prado. A poesia presente nas ações, na forma como enxergamos e nos comovemos com as necessidades do outro, na maneira como transmitimos saberes aos nossos educandos. Estamos falando sobre uma poesia fundamentada, justamente, na nossa crença em contribuir para que os aprendizes possam, um dia, assumir, com competência, talento e desenvoltura, o rumo das naus que, hoje, navegam sem norte em busca da conquista. Naus que, em sua maioria (há raras exceções), estão sendo guiadas por comandantes prepotentes, insanos, despreparados… Capitães insensíveis porque só pensam na aquisição ininterrupta de terras e de falsos tesouros. Viajantes cegos ao verdadeiro sentido e às genuínas riquezas da vida. Riquezas economicamente não-mensuráveis. Sim. A poesia nos diz que estamos aqui para conquistar e propiciar algo muito maior e mais sublime: o amor, a felicidade, a amizade, o afeto e a paz de espírito. Preciosidades que se adquirem quando nosso foco está voltado não apenas para o destino de nossas naus, mas, sobretudo, para a beleza do caminho e para os ensinamentos que ele nos proporciona. É isso. Uma boa aula é, em outras palavras, uma inesquecível viagem… Uma viagem movida à poesia… Esse combustível que sintetiza, tal qual no poema de Adélia, uma educação para o amor. Uma educação para a vida. Boa jornada a todos!

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