Filme para ver e aprender

Zuzu Angel mereceu de Chico Buarque uma música que começa assim: Quem é esta mulher, que canta sempre esse estribilho: “Só queria embalar meu filho, que mora na escuridão do mar”.
Gabriel Chalita foi ver o filme. Gostou tanto que escreveu o artigo a seguir:

Quem é esta mulher? É o que o belíssimo filme de Sérgio Rezende tenta responder. Quem é esta mulher? Em tempos de valores tão desprezados, em que os exemplos que deveriam nortear as pessoas se escondem em interesses egóicos; em tempos de desilusão, surge uma mulher, sua lembrança, sua história. E é por isso que a sétima arte, além de entreter, emocionar, também ensina. Quem é esta mulher, mineira de nascimento, carioca de história, que abriu caminho para o mercado da moda brasileira nos Estados Unidos destacando a identidade de seu povo? Quem é esta mulher leve e forte, feliz e mergulhada em um pranto sem fim, bela pela estética que criava e pelos sentimentos que vivia? Zuzu Angel, além de outras qualidades, é uma mulher que teve coragem, competência e amor. Coragem. Tal qual Antígona, de Sófocles, lutou contra o sistema, para ter o direito sagrado de enterrar o filho. “Não era uma coragem comum, é uma coragem que só uma mãe ferida pode ter”, afirma Hildegard Angel, filha de Zuzu. Sozinha, sem apoio da imprensa censurada, com poucos amigos, Zuzu gritou para o mundo o que tinha acontecido. Competência. Excelente estilista, usou a arte da costura como protesto. Armada de agulha e linha, lançou uma coleção que denunciava a violência e a tortura. . Amor. Eis aqui o motor que move o mundo dos que teimam em acreditar. Amor que moveu uma mãe inconformada com o destino de seu filho. Queria ela um julgamento digno, o direito à defesa de um filho seu que, em tantas lembranças, a fortalecia para a luta. Lembranças da infância, da ousadia adolescente, do sonho impetuoso do jovem em busca de um mundo melhor. Ingenuidade? Talvez. Amor pela causa da liberdade? Certamente. Coragem, competência e amor. É disso que precisam mulheres e homens de hoje. É disso que precisam as escolas, que devem preparar para a vida, para a coragem de mudar o que deve ser mudado com competência e acima de tudo com amor, porque, sem amor, falta força e aspiração. O filme resgata a consciência de que, apesar de todos os problemas de um regime democrático, a ditadura nunca valerá a pena. Stuart Angel foi um entre tantos que tiveram o sonho prematuramente destruído pela insensibilidade e pelo uso inadequado do poder. A tirania jamais conduzirá à liberdade ou à felicidade. Que os jovens de hoje aprendam com a história e abominem qualquer possibilidade de destituição de direitos individuais ou coletivos. No filme, é o mesmo Chico Buarque quem se encarrega do fecho de ouro, com sua frase político-poética: “amanhã vai ser outro dia…” Hoje é um outro dia graças a Zuzu, a Chico, artistas, jornalistas, intelectuais, políticos, educadores, mulheres e homens que lutaram e lutam pela liberdade. Hildegard demorou 30 anos para autorizar o filme. Queria uma história real, competente, sensível. Conseguiu. À emoção soma-se a certeza de que é possível construir um presente melhor com as lições aprendidas no passado. Quem é essa mulher, Zuzu Angel? Uma mulher que transcende épocas, pois entendeu o seu papel na história.

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