Tag: democracia

Dr. Sócrates Brasileiro, uma escola

Nesta semana, estive com o prefeito Fernando Haddad na EMEF “Dr. Sócrates Brasileiro”, no Campo Limpo, zona sul de São Paulo. Fiquei impressionado com a liderança da diretora da escola, Solange Amorim, e com o incrível corpo de professores e funcionários. A escolha do nome respeitou um processo democrático exemplar. Primeiramente, foi realizado um estudo sobre possíveis patronos. Pesquisaram suas biografias e elegeram o seguinte critério para a escolha definitiva: qual deles poderia ser uma fonte de inspiração a toda comunidade escolar? Produziram vídeos, textos, material virtual para as redes sociais, entre outros, e participaram de debates, apresentações, palestras. Alunos e comunidade. Como deve ser. Uma escola não é de um prefeito, de um secretário, de um governador nem de um presidente. A escola não é nem mesmo do diretor. A escola é da comunidade e quanto mais a comunidade participar do dia a dia da escola, melhor será a sua gestão.

No descerramento da placa, Kátia, a viúva de Sócrates Brasileiro Sampaio de Sousa Vieira de Oliveira, o nosso Sócrates jogador e brasileiro, contou uma história sobre a infância do marido, em Ribeirão Preto. Disse que, certa noite, ele acordou com cheiro de fumaça no quarto. Preocupado, levantou  rapidamente e foi ver o que estava acontecendo. Assustou-se com a cena que viu: seu pai, agachado no quintal, queimando livros. Quis entender as razões, já que os livros eram tão preciosos para o pai. Com lágrimas nos olhos, o pai explicou ao filho que era para proteger sua família. Eram os difíceis tempos da ditadura. Ter livros em casa poderia ser perigoso, principalmente livros que despertassem suspeitas de gosto por prosas mais libertárias. Essa imagem de uma noite escura iluminada pela dor das páginas queimadas preencheu o seu repertório de vida.

A história de vida de Sócrates fez dele um defensor ativo dos ideais democráticos em todos os cenários de sua vida: “Quero mudar meu país, quero mudar meu povo”. A democracia corintiana, da qual ele foi mentor, representa um marco na história de nosso futebol. Sua elegância no campo era consequência de uma postura correta na vida. Lutou pelas eleições diretas, emprestou o seu prestígio para angariar mais adeptos ao sonho de ter um país verdadeiramente livre. Lutou pela constituinte. Lutou pelo respeito no campo e fora dele: “Se as pessoas não tiverem o poder de dizer as coisas, eu vou dizer por elas. Quando eu era jogador, minhas pernas amplificavam a minha voz”. Sócrates estudou medicina. Pintou quadros. Cantou canções. Viveu com intensidade cada momento. Errou, certamente, como todos os seres humanos. Mas seus erros foram muito menores do que sua inspiração.
Sócrates foi doutor. Nos livros. Na bola. Na vida. Um artista no campo, jogador de um futebol arte. Em passos largos, até um pouco desajeitados,  driblava por paixão. E dizia: “Vencer não é a coisa mais importante do mundo. Futebol é arte e deveria ser sobre mostrar criatividade. Se Vincent van Gogh e Edgar Degas soubessem o nível de reconhecimento que teriam, não teriam feito o mesmo. Você tem que gostar de fazer arte e não pensar: será que vou vencer?”.

Ali, visitando aquela escola, vi, nos olhos de esperança daqueles alunos, a alegria de ter um patrono que foi protagonista da própria história. Aquelas meninas e meninos não tiveram a honra de ver o Dr. Sócrates impressionando com mestria nos gramados. Não comemoraram os gols que ele marcava. Não se extasiaram diante dos dribles certeiros. Mas puderam estudar o seu legado e, em tempos de poucos referenciais, dizer com orgulho: “Agora, eu estudo na escola ´Dr. Sócrates Brasileiro´”.

Sócrates Brasileiro é uma escola que fica no Campo Limpo. Sócrates é uma escola para quem gosta do futebol arte, da elegância, para quem acredita na democracia e na liberdade.
 
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/04/2015

A importância da democracia participativa

Rui Barbosa, um dos grandes brasileiros, afirmou certa vez: “O Brasil (…) é o povo, em um desses movimentos seus, em que se descobre toda a sua majestade”. Defensor incansável da democracia, sempre lutou por um país justo e humano. Assim, foi também um entusiasta da prática efetiva da cidadania – direito que, irrevogável, contribui imensamente para a construção de uma realidade em que a população tenha, de fato, voz e vez.

Despertar para a importância da participação popular, em diferentes situações, é fundamental. O poder público, quando ciente disso, trabalha mais e melhor; a sociedade, por sua vez, torna-se mais forte e crítica, o que leva esperança a mulheres, a homens e a crianças de todas as biografias sociais.

A indignação é o primeiro passo para a busca de soluções referentes aos problemas de uma comunidade, de uma cidade, de um país. Juntos, os cidadãos favorecem o bem comum e contribuem para o seu próprio amadurecimento, político, social, cultural. E essa verdade, além de atingir resultados imediatos, pode levar a conquistas de médio e de longo prazos. A conscientização coletiva e o acompanhamento popular das medidas dos gestores públicos são essenciais.

No entanto, é indiscutível que liberdade pressupõe responsabilidade. Cumprir nossos deveres é tão importante quanto exigir nossos direitos. No dia a dia, pequenas atitudes promovem grandes mudanças. Respeitar os idosos (e todos os benefícios que lhes são garantidos), não furar fila, contribuir para a limpeza e para a conservação do patrimônio público, devolver o troco que veio a mais e cumprir as leis de trânsito, entre tantos outros fatores, também faz parte da atuação democrática.

Há um sentimento crescente de que o país pode mais, e não devemos nunca duvidar disso. Que a indignação, a visão crítica e o espírito participativo permaneçam constantemente vivos entre os brasileiros.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Democracia e responsabilidade

Quem acompanha a história política de nosso país sabe quanto esforço foi feito para que pudéssemos respirar os ares da liberdade. Mulheres e homens foram cruelmente torturados e mortos na ditadura. Pensar contra o regime era um perigo. Agir, então, pior ainda. Época de silêncios inquietos. Vozes sufocadas. Ideias contidas. Vidas interrompidas. “Pai, afasta de mim esse cálice (…)/Quero lançar um grito desumano/Que é uma maneira de ser escutado”; “Que sonha com a volta/Do irmão do Henfil/Com tanta gente que partiu/Num rabo de foguete” – arriscavam artistas, poetas, cidadãos, na ânsia do protestar.

O Brasil vive hoje a mais plena democracia. Cada cidadão tem direito à livre expressão. Partidos políticos, entidades religiosas, grupos organizados da sociedade civil proclamam seus valores e têm a liberdade de criticar os governantes. Isso é bom. É o resultado de uma sociedade que acredita no pluralismo e na participação responsável. E é este o ponto: “participação responsável”.

As cidades vêm assistindo, atônitas, a grupos desorganizados que querem manifestar sua contrariedade com relação a alguns atos de governos. Um exemplo recente é o aumento de passagens do transporte público.

O direito de manifestar é sagrado. A destruição e a violência são lamentáveis. Há aqueles que estão sempre à espreita para ver a manifestação do dia e causar desordem. Isso não é democracia. O governo precisa respeitar o povo. E o povo também tem de respeitar o povo. As cenas das crianças amedrontadas, do policial temendo ser linchado, dos trabalhadores receosos de voltar para casa – nada disso combina com os apaixonados brasileiros que, um dia, sacrificaram-se para que pudéssemos ir e vir, livremente. 

Do exílio ditador, compositores e poetas narravam nossa saga, artistas sonhavam com outros tempos. Das ruas de hoje, mulheres e homens gozam a liberdade de fazer ouvir suas vozes, de participar com responsabilidade. É essa valentia atemporal que nos engrandece. 

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)