Que mistérios guarda a primavera? Nenhum - dirão os mais céticos. Nenhum?

Ah, como seria bom se as flores mimosas pudessem falar. Ou se os grandes jacarandás fizessem o mesmo. Ou, talvez, os ipês amarelos que trazem sol a tantas névoas. Os homens se distanciam dos mistérios e, por isso, não compreendem.

O inverno pode ser rigoroso. O frio cobra o seu preço, principalmente quando estamos desprevenidos, quando nos esquecemos de que ele é efêmero. O tempo do inverno é sempre passageiro, mas nós, passageiros da vida, teimamos em teimar. Em nos desesperar. Em querer resolver antes o que antes não se resolve, Há momentos em que o melhor a fazer é esperar. Ou isso, ou nos arrependeremos de nossas pressas. O inverno nos convida a um pouco mais de reclusão. De trancafiamento. De espera.

As ansiedades nos levam ao erro. O que perdeu o amor, quando busca um outro amor, desesperadamente, se esquece de que o amor é esperança e que a esperança compreende as mudanças de estação. O que se perdeu em ilusões, o que sofre mesmo sem saber de onde vem o sofrimento, o que se sente insatisfeito pelos rumos que tomou, o que está infeliz; todos eles, ou eles todos em um só, se aguardarem, verão a primavera.

Os frios da alma nos congelam de tal ordem que é comum estarmos em casa com saudades de casa, é comum estarmos com alguém, com alguém que nos falta. Não, não é o outro o culpado da minha dor. Projeções não me levam a lugar algum. Se o outro ocupa um altar no sagrado dos meus intentos, quem permitiu fui eu. Dirão os mais sofridos que não é bem assim, que não se decide por uma paixão, que ela é flecha, que chega cortante sem pedir licença. E que, teimosa, não parte. Direi que, mesmo partido, um dia ela parte. Parte como parte o inverno. No seu tempo. Sem que possamos fazer com que se apresse. O que não podemos é dificultar a visão de uma primavera que já veio. De olhos fechados não se enxergam as flores nem os ramos novos que brotam em árvores que pareciam mortas.

A leveza da amizade contrasta com os delírios da paixão. A paixão é exigência; a amizade, não. A paixão é entorpecente, a amizade é suave. Se não for suave, deixou de ser amizade. Se for utilitária, deixou de ser amizade. Há amizades que duram toda uma vida. Há outras em que se percebe a necessidade do partir.

Em um mundo de aduladores e interesseiros, urge relembrarmos o ditame bíblico, "quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro". Tesouro mais nobre do que os nobres metais preciosos, que se perdem com o tempo. A amizade, a verdadeira, permanece.

Há quem diga que a paixão causa sensações bioquímicas. Sensações que perseguimos para encontrar a felicidade. Sensações que buscamos em remédios e drogas, em lembranças e esquecimentos. Lembrar a primeira dose de algo que não fez bem, que me picou, que me viciou, lembrar os delírios do que nem existiu. Esquecer e dormir. Dormir uma noite de paz sem os solavancos dos pensamentos. São, talvez, essas as sensações que buscam os que se acompanham de tantos medicamentos. Não. Não sou conhecedor suficiente para falar de tranquilizantes ou de outras pílulas. Nem dos vícios químicos. Nem é esse o meu intento aqui. Quero falar da amizade. Do prazer puro que brota da biologia das relações ao saber que há um amigo que virá ao meu encontro para fazer nada. Apenas para estar comigo. Sem planos de planificar algum empreendimento, sem interesses de amealhar alguns bens, sem necessidade de prazeres carentes do que é matéria. Apenas nós, meu amigo e eu, e uma brisa que nos relembre de que é bom estarmos ali. Ali onde? No lugar sagrado do encontro. No lugar em que podemos tirar os sapatos ou os chinelos e pisarmos sem receios.

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