“Que dia é hoje?” - perguntou Eliane para sua nora. “Dia 17”. Eliane deu um sorriso. O sorriso de Eliane sempre foi muito bonito. “Dia 17”, repetiu ela e prosseguiu: “Um dia bom para morrer”.

Eliane lutava contra um câncer há algum tempo. O marido se foi assim. Vencido pela doença. Ela sabia que os dias por aqui estavam terminando. Mas continuou brindando a vida. Pediu ao filho uma viagem de navio. Lá foram eles e a cadeira de rodas, e as dores e o sorriso de Eliane. Pediu para sair do hospital para comprar um presente especial para a única neta. Sabia que não a veria crescer. E comprou uma jóia, um colar com um coração.

Eliane, no hospital, pediu à nora que ligasse para algumas amigas. Com as poucas forças que restavam, agradeceu uma a uma. E se despediu. Esperou os filhos chegarem. E, também, o único irmão. E sorrindo agradeceu. Depois adormeceu.

Era um dos tantos feriados que há pelo ano. Em uma cidade do interior. Uma daquelas antigas, com ladeiras íngremes. Com ruas preenchidas por pesados paralelepípedos. Calçadas cheias de histórias de pés que conduziram encontros e despedidas. Durante décadas. Durante séculos. Viram crianças se tornando adultos. E adultos voltando a ser crianças. Com seus desejos permeados de equívocos. Com seus choros exagerados e, certamente, com muitos acertos.

Erik convidou alguns amigos. O passeio valia. A cidade estaria lotada, mas seria bom sentir o seu aroma. Havia flores, plantadas e regadas, em diferentes circunstâncias. E lá foram eles. Pegaram a estrada e chegaram. E demoraram para conseguir algum lugar para estacionar o carro. Ladeira aqui, ladeira ali. Pararam e, absortos pela beleza da cidade, caminharam sem preocupações de retorno. Tiraram fotos. Tomaram café. Comeram delícias típicas do local. Entraram e saíram de antigas construções. E chegaram ao momento de despedir. Era preciso voltar. E quem se lembrava de onde estava o carro?

Erik deu o seu palpite. Errado. Os outros dois tentaram. Erik mostrava-se arquiteto nos cálculos do espaço e do tempo que os levariam ao destino certo. E nada. E foram de um lado. Pensaram na mão e na contramão, no traçado feito anteriormente. No caminho que não dava opções para paradas. E nada. Um deles mostrou preocupação. O outro aliviou. "É feriado. Não estamos com nenhum compromisso. E estamos felizes".

Estar feliz faz toda diferença. As angústias incendeiam momentos como esses. Sempre haverá alguém a estampar desespero em sua fronte. Ou a reclamar de descuidos. Ou a praguejar sobre a infeliz ideia de estarem ali. Mas os três estavam felizes. E isso minimizava qualquer outro senão. Um sugeriu que pegassem um táxi e ficassem perambulando pela cidade até encontrar. O outro deu um outro palpite. A caminhada estava boa. Era melhor prosseguir passo a passo. Mesmo em ladeiras desafiadoras. E foram. E tiveram tempo de esquecer um pouco a procura para assistir ao pôr do sol. Que belo! As fotografias não registrariam tudo. Há imagens que só almas felizes são capazes de armazenar.

E viram um banco antigo. E sentaram. E prosseguiram a prosa. E um dos amigos insistiu no primeiro palpite. Voltaram, então. Brincaram de fazer apostas. Do tempo que demorariam para encontrar. Ao longe, estava ele, o carro. Os faróis pareciam sorrisos. A brincadeira havia chegado ao fim. Exaustos nas pernas e leves na alma, foram ao encontro, ao feliz encontro.

Na verdade, o feliz encontro veio antes. Quando se conheceram. Amizades emprestam suavidade ao calor das procuras. Estaremos sempre em busca de algo. Algo sempre será perdido e nos desafiará a ser encontrado. Com amigos, tudo fica mais fácil, mais prazeroso. Erik foi dirigindo e contando as histórias que sabia da velha cidade. Era uma nova amizade se espreguiçando. Que bom estar ali.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia - RJ) | Data: 14/01/2018

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