Fiquei olhando para Luiza e bebendo as gotas de amor que caíam de seus ditos. Falava ela sobre a mulher. Sobre o sofrimento da mulher e sobre as esquisitices de quem não se incomoda. Falava que a verdade era mais fácil de ser empunhada como bandeira do que a mentira. Dava menos trabalho. Falava de seu avô, que dava conselhos em um interior de seu país. Havia gente e mais gente que se aproximava do velho e que jogava seus queixumes querendo uma opinião. Ele dizia que iria dormir com o problema e, na manhã seguinte, diria o seu achado. Era quando a avó de Luiza iluminava o marido e explicava a ele o que era o melhor para a vida de quem aguardava a resposta. A sábia era a mulher, mas deixava o homem brilhar. Eram tempos outros. Fiquei olhando para Luiza Diogo, a primeira mulher a assumir o cargo de primeira-ministra de Moçambique e descansei dos meus dissabores com o ser humano. Há muita perversidade por aí. Mas há Luizas que dignificam a natureza humana.

Moçambique é um entre tantos que cederam seus filhos para construir o país que somos, o nosso Brasil. Os construtores sofreram, entretanto.

Os navios negreiros trouxeram dores inconfessáveis. O último contato com a terra mãe, a África, se dava no "portal do não-retorno". Dali sabiam que não havia mais volta, que nunca mais sentiriam o cheiro da terra em que nasceram. Antes, davam voltas na "árvore do esquecimento". Ali, eram obrigados a esquecer o nome, a família, a pátria, a religião, a vida em desassossego. Esquecer? Como esquecer? Somos um punhado de instantes que vão se juntando e nos formando. Meu Deus, quanto horror, quanta perversidade, quanta ausência de compaixão! Vendidos chegavam ao Brasil. Sem referências. Sem direito ao amor. Sem direito à saudade.

Os tempos mostraram o quanto erramos. Aprendemos? Não sei. O preconceito ainda zomba de nós. Da nossa pouca capacidade de conviver. Continuamos exigindo esquecimentos e ditando o que é certo e errado no comportamento, na origem, na vida do outro, irmão nosso. Não é a cor que nos separa, nem a condição social, nem o local de nascimento, nem o gênero. O que nos separa é o ódio, a arrogância, a intolerância.

A conversa se deu entre uma mãe e uma filha.

A filha, jovem ainda, ardia em uma paixão teimosa. Havia feito todas as tentativas possíveis para estar ao lado de seu amado. Humilhou-se diversas vezes. Perdoou seus deslizes. Chorou um futuro que parecia decidido a não enlaçá-los. Ele parecia estar bem ao lado de uma outra. Ela imaginava os ditos que, da boca de seu amado, flechavam outro ouvido. Seria ele criativo e despejaria outras falas ou estaria repetindo o que um dia tanto a elevou? Estaria ele sentindo a sua falta ou a outra o preenchia plenamente? Enjoaria dela e voltaria para os seus braços, seu abraço, ou o melhor era não esperar nada disso e prosseguir? Cartas já foram enviadas. Mensagens também. Encontros com cheiro de acaso, muito bem planejados, deram em nada. Apenas um sorriso gentil e um "Como vão as coisas"? E nada mais. Mas, ontem ainda, havia fervura. Teria sido tudo um impulso, um desejo apenas? A efemeridade dos sentimentos é inaceitável para quem ainda os tem. Ele, definitivamente, havia esquecido as promessas de eternidade, os tantos "eu te amo" que tantas consequências trouxeram.

A mãe ouvia as dores e os argumentos da filha. Ouvia, apenas. Era disso que a filha precisava. Mas chegara a hora de algum remédio. As feridas estavam por demais doloridas. E incomodativas. Foi quando surgiu a pergunta: "Mãe, você já sofreu assim?". A mãe olhou para trás e sorriu para dentro. "Diga, mãe. Você já se sentiu um nada, um troço qualquer, uma mulher trocada?". Depois de uma pausa, não muito longa, vem a resposta. "Filha, é evidente que sim. Mais de uma vez. Eu sei como dói. Um buraco se abre. E quem nos ensina como remendá-lo?"

"Quem, mãe?" E foi quando a mãe, com a delicadeza que o momento exigia, lançou sua homenagem ao tempo. O tempo é senhor dessas circunstâncias. E é um senhor que não obedece aos nossos apelos. A dor não se vai no dia que decidimos.

"Mãe, um dia passa e a gente nunca mais lembra?". Era a pergunta de quem ainda estava debutando no sofrer.

"Não digo que nunca mais a gente lembre, filha. Mas é uma lembrança diferente".

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