Remexo em minha bolsa. Não sei por que guardo tanta coisa. Toda vez é isso. Mesmo quando troco de bolsa, é um tal de despejar o que nem sei de uma na outra. E quando saio, e quando preciso de alguma coisa, fico remexendo. Há coisas que nem uso mais. Há, inclusive, bilhetes já sem validade. Há receitas que já foram utilizadas. Maquiagens mais velhas e mais novas. Espelho. Fotografias que vão se acumulando. Cartões que recebo. E paro por aqui. Mas tem mais.

A mulher espera que eu encontre. Sorrio desajeitada. Hei de encontrar. Há outras pessoas esperando. Não sei se dou a vez e se jogo tudo no balcão. E aí encontro. Uma carteira pequena com um cartão de crédito, é só disso que eu preciso. Ela percebe minha agitação e sugere que eu me acalme. E diz, sem acreditar, que com ela acontece a mesma coisa. Quando se tem muito de guardado, tem-se uma certa dificuldade. Excessos trazem peso e nos impedem de encontrar o que precisamos.

Enquanto procuro, remexo em minhas procuras tantas que não deram em nada. As minhas exigências me transformaram em mulher solitária. Tenho temperamento difícil, eu sei, mas os outros são piores. E, além do mais, não são confiáveis. Fui traída por amores e por amigos. E fui acumulando decepções. Os que chegam agora me encontram armada, sem paciência para o improviso. E logo partem. Melhor assim.

No início, quando eu era mais desprevenida, fizeram de mim um alguém sem grandes considerações. Considerei os desprezos e as mentiras e acumulei tudo. E tudo está em mim.

Deixo que quem está atrás passe na minha frente e faça logo o seu pagamento enquanto prossigo na busca. Talvez tenha esquecido em casa. Não. Não é possível. Lembro quando troquei de bolsa.

Troquei de amigos algumas vezes. Conviver não é para amadores. Amei e fui desprezada. Gastei-me em atenção e recebi ausências. Sou daquelas que se põem em prontidão quando o assunto é necessidade. Punha, melhor dizendo. Agora, prefiro a prudência.

Encontrei, enfim, o cartão. Já posso pagar. A mulher me dá um outro sorriso, talvez aliviada. Talvez minha procura a tenha incomodado. Um homem chega em minha direção. "Vera, há quanto tempo". Concentro-me um pouco para acreditar. "Você continua igual, que saudade, como foi difícil te encontrar". Fecho a bolsa, fico alguns instantes sem reação, e solto algum dizer desconectado. "Você mora aqui perto? Posso te acompanhar? Tem tempo para um café?" Frases e mais frases saem de sua ansiedade. Respondo "sim" a todas. Foi ele um amor no passado. Na época, fechei as portas. Gostava de um outro. De um outro que não gostava de mim. E soube apenas do casamento dele. Dos dois, aliás. Será que ele enviuvou?

Enquanto caminhamos, encontro sentimentos que, na época, eu não encontrava. Tenho vontade de dizer que, se ele quiser, eu quero. Fico pensando na chave de casa, jogada na bolsa também. Vai ser difícil encontrar para abrir? Talvez. Agora só sei que gosto do jeito que ele fala e me olha.

Tantos anos depois...

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 06/01/2019

"Era esse o nome de uma novela antes de vocês nascerem. No tempo em que conheci a avó de vocês. A novela era boa, mas o que importa, agora, é o nome, apenas".

Orlando gostava das rodas de conversas com os seus netos e com os amigos de seus netos. "Prefiro conversar com criança", dizia ele saboreando a própria sabedoria. E as crianças gostavam da conversa.

Falava Orlando de um tempo que há muito havia passado. Explicava como se faziam as ligações telefônicas e a importância que tinha uma telefonista. E as máquinas em que se derretiam os sentimentos nos barulhos do datilografar. E o gerente de banco que era mais humano. E os anoiteceres na calçada com a conversa espantando o calor. "O novo ano está chegando e o que vamos fazer nascer?" .

As crianças se entreolharam esperando quem falaria primeiro ou alguma nova explicação para a pergunta. "Vovô, está falando de bebê?"

"Estou falando do que nasce, e do direito de nascer, estou falando dos sonhos que sonhamos e que não desperdiçamos por aí. Estou falando dos que não aprenderam sequer a beleza do sonho. Quem sonha aqui?"

Rapidamente, as mãos se levantaram. E a conversa seguiu. Faltavam alguns instantes para o novo ano começar. A comida já alimentava os que tinham pressa. Os que bebiam para esquecer já se apresentavam. Mas o bom mesmo eram os ensinamentos do velho Orlando. "Já vivi muitos anos. Quando tinha a idade de vocês, aprendi que, no final de um ano, deveríamos fazer três pedidos. E escrever em um papel qualquer. E guardar em um livro sagrado. E aguardar que os pedidos se realizassem. Cresci um pouco e mudei os pedidos para propósitos. Três coisas que eu deveria fazer no nascituro ano. E assim se passaram muitos anos. E muito fiz, confesso a vocês. E, por fim, decidi escrever os meus sonhos. Quero que vocês façam o mesmo hoje. Esses pedaços de papel que vocês receberam é para isso".

"Vovô, é para escrever três pedidos, três propósitos ou três sonhos?"

"Vovô, qual a diferença?"

"É para mostrar depois?"

"Tem que ser para todo mundo ou só para mim"?

E cada criança ia fazendo a pergunta que quisesse. E Orlando observava com entusiasmo o desejo de aprender que toda criança tem. Quanto desperdício, pensava ele, quando educam erroneamente. Há uma inteligência em cada ser humano que tem o direito de nascer. Estão plenos de uma vida que quer brotar. Cuidar desse broto, é disso que se trata, é por isso que Orlando prefere as crianças.

"Vocês decidem. Mas eu proponho que escrevamos três sonhos para o mundo inteiro".

"Vovô eu gostei da parte do que a gente vai fazer".

"Então escreva, meu neto. O que importa é que as intenções sejam boas. Para o mundo ou para vocês mesmos, que fazem parte do mundo".

Os olhos ávidos daquelas crianças. o papel no colo, o movimentar das canetas, os pensamentos ainda próximos das límpidas nascentes. Era mais um ano que se despedia. Era mais um ano que nascia. Orlando olhava seus rebentos e uma dupla sensação o invadia. O temor pelo amanhã e a certeza de que algo bom vai acontecer. Papéis preenchidos, Orlando sugere que sejam guardados nos bolsos e que, depois, sejam entregues aos livros para que recebam aqueles pedidos ou propósitos ou sonhos. Nos encontros dos escritos, milagres nascem.

Os fogos já avisavam aos céus que um novo ano chegara. Os abraços, alguns sinceros, encontravam aconchego, e as crianças brincavam de felicidade na casa do velho Orlando.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 30/12/2018

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