Hoje é 27 de agosto, aniversário de Jamile.

Quem é Jamile? A mulher que me convidou para um café da tarde ao som de Beethoven e que me inspirou esta história.

Na mesa, havia dois castiçais. Velas. Não era necessário acendê-las. A luz do dia entrava pela janela aberta. E Jamile estava radiante. Queria brindar. Brindar o quê? A paixão. A paixão? Ora, fui seu confidente em tantas noites em que ela chorara a ausência de Lázaro. O homem por quem ela era apaixonada. Entre soluços e invenciones, ela descrevia Lázaro e o futuro que teriam juntos. Mudávamos de assunto e voltávamos para Lázaro. Ela descrevia um Lázaro que eu desconhecia, embora eu o conhecesse. Falava de suas falas. De seus textos demorados despejando amor. Com riqueza de detalhes, repetia os mesmos ditos. Eu ouvia. Cabe aos amigos ouvir. Ouvir é amar. Vez ou outra, eu a interrompia querendo mostrar a ela a luz de fora que iluminava a noite da cidade. Havia cidade. Mas ela não se permitia ver. Era ele o senhor absoluto dos seus pensamentos. E desejos.

Brigavam sem economias. E lá estava ela novamente absorta, brigando com os seus pensamentos, em diálogos imaginários, desculpando-se e culpando, na solidão voluntária a que se submetia. Nesses períodos, ela dizia o quanto ele era egoísta, o quando era distraído, o quanto era inerte em matéria de alguma mudança por amor.

Bem, mas ela queria brindar a paixão. Não entendi. Ela aumentou um pouco o volume da música. Acendeu as velas. Abriu a janela. Respirou fundo. Olhou para o longe e disse: "Brindemos o voo da paixão". Fiquei observando. Ela olhou-me com didatismo e explicou que eu havia dito, tantas vezes, que um dia ela acordaria e perceberia que a paixão é transitória. Que ela abriria a janela e saberia que aquele sentimento que a dominara, sem descanso, partiria, voaria.

"Pois bem, a paixão voou. Não quero mais. Olho para trás e vejo o quanto menti para mim mesma. Ele é avarento nas coisas e nos sentimentos. Embora tenha dito que me amava, jamais me amou. Mas o que ele sentia pouco importa,importa o que eu sinto, estou livre. Veja, eu sou capaz de ver a cidade. Há vida fora dos escombros onde eu me emaranhei".

Jamile falava a verdade. Foram meses de angústia tentando fazer o impossível para estar ao lado dele. E ele prometia futuros. E esquecia. Dizia lindas declarações e se enfurnava em outros lençóis. E ela sofria. Sofria olhando a luz acesa da janela de Lázaro e sabendo que outra mulher ria com ele os risos do anoitecer. Seu choro não o sensibilizou. Ele ouviu os lamentos de Jamile e mudou de assunto, mas não de atitude. Gostava de sentir-se desejado por muitas. Ela era apenas uma. Não bastava. Mas agora era hora de brindar a vida. Vida que segue. A paixão é fruto de um deus brincalhão, Eros, que flecha sem aviso os desavisados. Ela é boa? Certamente. Ela é má? Também. A flechada abre uma buraco imaginário, e a imaginação trabalha mais do que a realidade. Mentem os apaixonados para eles próprios. Mentem porque precisam imaginar o que imaginam ser um desfecho perfeito. Insistem no que percebem ser falho. Culpas por não tentar novamente. Choros ansiosos por não compreender as atitudes do outro. Se, um dia, Jamile chorou vendo a janela de Lázaro e imaginando o que era seu sendo de outra; hoje, diante de sua janela, ela sorri. Sorri e vê a cidade. Nossa, quanta vida há na cidade! Quantos Lázaros e Pedros e Felipes e outros vivem na cidade. Ela não os via.

Joana é uma mulher como tantas outras mulheres. Mãe, como tantas outras mães. Medrosa e corajosa. Alguns medos, ela não consegue explicar. Pensa sobre eles. Depois desiste. Tem medo de barata. Muito medo. Quando tenta racionalizar consegue até rir. "A barata que teria que ter medo de mim", pensa ela. "Ela é tão pequena!". Mas, quando vê uma barata, a razão se vai e fica ela com os seus pavores.

Tem medo de altura. Ah, tem medo de sapo, também. Fica tentando se lembrar se sofrera algum trauma na infância. "Sapo não faz mal a ninguém", diz ela para ela mesma. Tem outros medos. É tímida. Gostaria de ser mais corajosa.

Joana é mãe de João. Deu esse nome em homenagem ao santo e ao pai. E foi em uma festa de São João, na chácara de seu pai, que Joana experimentou a coragem mais corajosa de sua vida.

A festa acontecia em uma área aberta próxima de uma capela construída pelo pai de Joana. Amigos vieram de outras chácaras. Os enfeites eram as bandeirinhas de sempre. Havia comidas típicas, como em todas as festas de São João. E dança. E fogueira.

Não se sabe como, mas um fogo começou a consumir a casa principal da chácara. E ninguém viu. Joana sentiu alguma coisa estranha que, até hoje, ela não sabe explicar.

Era noite. O barulho era de alegria. Ela deixou a festa e foi ver o filho, bebê ainda, que dormia na casa. Foi quando viu o fogo. Não teve tempo de pensar em chamar outras pessoas. Nunca foi apegada a bens materiais. Se não houvesse ninguém na casa, ela, certamente, não teria a coragem que teve. Se tivesse algum dinheiro na casa, ela não entraria no fogo. Se pensasse nos seus vestidos ou em alguns quadros, ela também não entraria. Joana tem medo de fogo. Nunca gostou de brincar perto do fogo, nem nas festas de São João.

Mas João estava lá. Dentro do quarto. Dentro da casa. E ela entrou. Entrou como uma guerreira disposta a qualquer sacrifício para salvar o maior amor de sua vida. Se tivesse sapo ou barata, ela também entraria. O medo do fogo era justificado. O fogo queima, o fogo mata. Mas o motivo para enfrentar o fogo era maior do que o medo do fogo.

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