O dia no Rio de Janeiro estava lindo. Hector era quem dirigia o carro. Monica olhou a paisagem e não economizou nos ditos nascidos de mais um espanto. É assim que ela define a cidade. Espanto, aqui, significa encantamento, êxtase, emoção. As imagens que vão desfilando pelos olhos surpreendem mesmo que sejam vistas todos os dias. Monica fez o comentário e, em forma de oração, externou sua crença. Deus existe. Deus caprichou em sua obra. É um Artista perfeito.

Hector ouviu os comentários, concordando com a cabeça. Durante um silêncio qualquer, ele resolveu desabafar. "Deus caprichou, mas o homem estragou". E prosseguiu comentando sobre a falta de cuidado com a cidade, sobre o abandono, sobre os desmandos que já são conhecidos.

Monica voltou ao que foi dito. "Deus caprichou, mas o homem estragou". Enquanto via o Rio de Janeiro, pensava nos problemas tantos que a atormentavam pelos estragos feitos pelos homens. Se a criação inspira a harmonia, o que significa tanta desavença? Palavras ditas sem cuidado, palavras que perfuram sentimentos e causam feridas. Se os dias se sucedem sem pressa, por que tanta briga com a demora pela cicatrização? O sofrimento tem sua razão de existir, pensava ela. Se há tanta beleza para ser contemplada, por que se perde tanto tempo com visões que desagradam, que desagregam?

Há um tecido de sentimentos reservado para o dia de hoje. Nele, encontram-se frases que lembram fases que marcam vidas. Mãe. Simplesmente assim, mãe.

Há filhos que, no dia de hoje, não podem abraçar a sua mãe. Já se foram. Já voltaram para o jardim sagrado de onde vieram. Deixaram o que tinham de deixar por aqui e partiram. Não há o colo embalante, não há um semblante sequer para aquecer os dias duros. Dureza de vida é essa a de viver sem mãe. Mas é assim que é. Dor e esperança. O amor não termina aqui. Encontros ainda surpreenderão os que, hoje, acham falta. Os que hoje fecham os barulhos e viajam pelo tempo bom.

Há filhos que, hoje, encontrarão suas mães. Alguns presentes serão entregues. Algumas palavras serão ditas. A refeição recheada de afetos.

Há mães que terão lágrimas por companheiras, lembrando dos filhos que partiram antes. Vida difícil. O justo era que estivessem todos juntos. Já não estão.

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