Paulo e Fátima são namorados. Faz algum tempo. Conheceram-se em uma esquina em uma antiga viela na velha Portugal. Ele, brasileiro; ela, nascida no Porto. Viram-se pela primeira vez quando Paulo pedia uma informação. Ela o informou. Olharam-se com delicadeza e, depois de caminharem por algum tempo, resolveram não mais se despedir.

Paulo trabalha com turismo, Fátima é professora. O primeiro inverno na Europa não foi fácil para Paulo, carioca da Tijuca. Acostumado ao calor, precisou de roupas diferentes e do diferente jeito de Fátima para o necessário agasalhar.

Estavam agasalhados, os dois, no dia em que portugueses e brasileiros lotaram um tradicional teatro do Porto para aplaudir Chico Buarque de Holanda.

Chico começou sua Caravana na timidez habitual. O público foi ao delírio. Autor de letras que surpreendem pela diversidade de temas e de ditos poéticos, embaixador de um estilo de fazer da canção um grito de liberdade, de identidade, de amor. Conhece Chico a alma da mulher e a descreve com maestria. Percorre os sentimentos humanos de separação e de encontro, a gota d'água da desatenção ou o tempo da delicadeza.

A música, como tem de ser, foi tomando o ambiente. Mulheres e homens cantavam juntos. Chico sorria. Do seu jeito. De quem disfarça a genialidade. De quem compreende o ofício de levar sua Caravana além-mar.

Na terra de Camões e de Fernando Pessoa, Chico, um brasileiro, é ovacionado. Os gritos de gênio se misturam aos aplausos pedindo bis. Ele volta. Canta mais. Termina. O púbico quer ficar. Volta novamente e, novamente, emociona.

Era uma noite como outra qualquer. Nenhuma noite é como outra.

Era um bar em um lobby de hotel.

Era uma cantora que, no repertório, cantava sobre histórias de amor.

Estavam lá Jacob e alguns amigos. Falavam apenas nos intervalos. Quando cantava, a cantadora, ficavam fitos no seu enigmático feito de artista.

Nascida em Buenos Aires, a cantora gosta desses espaços menores. Gosta de cantar sussurrando e de dizer alguns ditos de amor. Jacob é um mestre na arte do amor. Conhece a alma humana e suas dores. Gosta de falar sobre a mente, seus dilemas, suas superações.Gosta também da amizade. Une pessoas e sonhos. Tudo leve como uma canção.

A cantora passa dos tangos espanhóis para as cantigas francesas. E, depois, solta uma brasileira.

Na plateia, um grande cantor, Leo, amigo de Jacob, resolve se levantar e cantar junto. "Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais". Leo e a cantora e os músicos prosseguem. Juntos.

Jacob observa. A mente humana é capaz de atos perversos, de ódios, de perseguições, de arrogância. Mas é capaz também de romantismos, de encantamentos, de amor. Andar devagar ajuda a compreender a marcha da vida e a contemplar os cenários que sempre nos surpreendem, se temos olhos de ver.

Os garçons conhecem Leo e param para ouvi-lo. "Todo mundo ama um dia, todo mundo chora". Parecem concordar com a cabeça.

Jacob recebe, em seu consultório. Lamúrias de amor e esperança. Quem sente dor quer o presente dos alívios. Quem chora quer voltar a perceber um luar, se possível acompanhado. Quem foi trocado, traído, sonha em prosseguir tocando em frente. "É preciso chuva para florir".

Jacob interrompe um pouco a atenção e comenta sobre a bela metáfora. Dois filhos de Jacob estão com ele. Olham para o sábio pai com orgulho. Ouvem a canção com entrega.

Amanhã será outro dia. Nenhum dia é como o outro.

Amanhã, os que estavam ali se lembrarão de que "cada um de nós compõe a sua história".

Terminam a canção.

Leo atende aos que pedem foto. Sorri, gentilmente. Sabe que a arte não combina com arrogâncias. É simples. Simples como o sábio Jacob. Simples como um caminhar pé ante pé ao destino que se quer chegar.

Dormi iluminado naquela noite. Havia luar.

Por: Gabriel Chalita (fonte:O Dia - RJ) | Data: 03/06/2018

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