Acabei de celebrar os meus 30 anos de padre.

Meu Deus!, o tempo faz o que quer. Vai escapulindo do seu jeito e, quando percebemos, já se foi. Eu era um jovem de 24 anos quando chorei de emoção ao saber que ali entregava a minha vida para celebrar o Amor todos os dias, para acolher os calvários tantos que chegariam até mim, para transformar ódio em bondade. Quantas cerimônias de despedidas presidi, quantos abraços acolhedores em vidas despedaçadas pelas partidas. Poderia desfilar histórias de mães que enterraram filhos, de mulheres que disseram "adeus" aos maridos, de inconsoladas separações. Estava eu ali, presente. O consolo vem da oração e do afeto. Há momentos em que o melhor é apenas estar. Palavras ditas apressadas não encontram o berço preparado para o nascedouro. A morte e a vida são as matérias-primas de um padre. A fé nos alimenta, e as obras do viver nos garantem autenticidade.

Desde que me lembro de algo desejar, lembro-me do desejo de ser padre. Era muito menino quando, coroinha, tocava os sinos nas celebrações. Gostava de ajudar nas cerimônias, sofria com as dores dos dias santos que antecediam a Páscoa. Adolescente, levava a comunhão aos doentes, ensinava nas catequeses, compartilhava os textos bíblicos. No seminário, ouvia as canções sagradas, antigas ou novas, que nos levavam a um lugar de elevação. A primeira missa, os primeiros afazeres de um padre. As dúvidas. A certeza.

E foi com esse recordar que acordei no dia dos festejos. Uma linda missa. Amigos de tantas paróquias por onde passei. Bispos, padres, pastores. Sempre dialoguei muito bem com outras religiões.

E no almoço, momento das conversas livres, um sentimento estranho foi tomando conta de mim. Vi amigos padres animados com a possibilidade de andarem armados, ouvi discursos preconceituosos, percebi atitudes pouco bondosas com os que são ou pensam diferentes.

Ao meu lado, um pastor mais velho parecia viver as mesmas preocupações. Ficamos em silêncio, ouvindo os desatinos: "Tem que matar mesmo, esses bandidos não têm conserto". "Essa gente vem à Igreja pedir coisas, acha que é pronto-socorro". E uma das últimas pérolas foi: "Detesto pobre".

Uma tristeza foi me fazendo companhia. O velho pastor pegou na minha mão e disse, sem nada dizer, que era assim mesmo, que a nossa fé estava depositada em Deus e não nos homens, que foi isso que lemos nas Sagradas Escrituras e isso que aprendemos.

Os comentários na porta do teatro são instigantes:

"Eu brincava na rua ouvindo Nelson Gonçalves, tempo bom".

"É a mais linda voz que o Brasil já teve".

"As músicas que ele cantava eram músicas de verdade, tinham história. Uma letra melhor do que a outra".

Os cabelos brancos vão se misturando aos jovens que esperam a porta se abrir. Já sentados, um vídeo com o jovem Nelson Gonçalves inaugura a noite de emoção. Canta ele "Naquela mesa" e "A Volta do Boêmio". E a orquestra vai se ajeitando, e os dois jovens atores, Guilherme Logullo e Jullie, vão arrumando os seus camarins em cena. E cantam juntos "Quando eu me chamar saudade", no palco central. E revelam o medo de Nelson de ser esquecido.

Há um desfile de canções e de textos para trazer Nelson Gonçalves ao palco. Há um confessionário de dramas humanos, de corações partidos, de medos acumulados que contracenam com um coração que beija o alto, que contempla o luar e que não desiste de amar.

A diretora Tania Nardini preocupou-se com cada quadro. Tudo é pensado para o embate entre o Nelson razão e o Nelson emoção. Há até uma luta de boxe, foi ele um lutador de boxe, em que músicas com intenções diferentes brigam no ringue das decisões. Quem vence? Melhor assistir.

A direção musical de Tony Luchhesi é primorosa. Agrada aos românticos de todas as idades.

Loggulo, um dos mais notáveis artistas do musical brasileiro, mostra uma elegância ímpar no bailar dos diferentes ritmos cantados por Nelson. Do tango à valsa, passando por delicados movimentos de amor.

Jullie está à altura. A voz celestial em um corpo de menina que vive inteira o Nelson dos "nãos". Quantos "nãos" teve Nelson que enfrentar em sua vida de sonhador! Reprovado em concursos de calouros, criticado por Ari Barroso, foi ele persistente o suficiente para encontrar o seu lugar de iluminuras.

Logullo traz o Nelson brigando com um relógio, suplicando ao tempo que passe mais rapidamente. Viveu ele tempos de prisão. As drogas roubaram instantes preciosos de sua vida, e o próprio Nelson, em vida, fez questão de revelar o seu calvário para ajudar os outros a não caírem nas mesmas teias do horror.

O tempo da peça vai passando. A plateia vai passando do riso ao silêncio, do silêncio ao canto, do canto à emoção.

O final é surpreendente. Os aplausos pedem um pouco mais. Uma senhora diz que "Esses moços" lembra o seu marido que já partiu. Uma outra fala de um adeus e da música "Devolvi".Os jovens comentam sobre o amor. Uma menina olha para o seu namorado e revela "que bom que encontrei você".

O amor nos retira da multidão e nos dá o poder da unicidade. Faz toda diferença saber que alguém nos ama. E assim as pessoas vão saindo do teatro. Algumas cantarolando, outras abraçadas, outros brincando de olhar.

Em tempos de pouca atenção ao outro, de fragilidades das relações humanas é bom relembrar os que gastaram a vida alimentando de vida a vida das pessoas.

Viva Nelson Gonçalves, viva o artista brasileiro.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 13/01/2019

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