“Que dia é hoje?” - perguntou Eliane para sua nora. “Dia 17”. Eliane deu um sorriso. O sorriso de Eliane sempre foi muito bonito. “Dia 17”, repetiu ela e prosseguiu: “Um dia bom para morrer”.

Eliane lutava contra um câncer há algum tempo. O marido se foi assim. Vencido pela doença. Ela sabia que os dias por aqui estavam terminando. Mas continuou brindando a vida. Pediu ao filho uma viagem de navio. Lá foram eles e a cadeira de rodas, e as dores e o sorriso de Eliane. Pediu para sair do hospital para comprar um presente especial para a única neta. Sabia que não a veria crescer. E comprou uma jóia, um colar com um coração.

Eliane, no hospital, pediu à nora que ligasse para algumas amigas. Com as poucas forças que restavam, agradeceu uma a uma. E se despediu. Esperou os filhos chegarem. E, também, o único irmão. E sorrindo agradeceu. Depois adormeceu.

Ao longe, Talita viu um brilho diferente vindo do chão. Do mesmo chão que sustentava o engatinhar de seu primeiro filho, André. Olhou, novamente, e, de pronto, levantou-se. O menino já estava se aproximando do que brilhava.

"Cacos de vidro, são cacos de vidro!", disse e repetiu Talita para Vinicius, seu esposo.

"O que foi, meu amor?", perguntou ele da cozinha.

"Cacos de vidro. Ele podia ter se cortado. É muito perigoso!".

A mãe de Talita estava com o marido na cozinha. Ouviu a gritaria e veio acudir.

"Mãe, alguém quebrou alguma coisa aqui. Imagine o André todo machucado, todo cortado. Imagine se ele tivesse colocado na boca, se estivesse engolido".

"Calma, minha filha, não aconteceu nada! Você conseguiu protegê-lo".

"É, mas há alguém descuidado nesta casa".

A mãe de Talita pegou o neto no colo e começou a brincar com ele. "André, na sua vida, muitos cacos de vidro estarão no seu caminho. Nem sempre sua mãe estará por perto. Algumas vezes você poderá se cortar". "Não diga isso, mãe, vai traumatizar o meu filho!".

A avó continuou a brincadeira. Teve ela quatro filhos, Também se assustou com as primeiras quedas. Também se agitou querendo estancar cada dor. Mas, aos poucos, foi compreendendo que os cacos de vidro se multiplicam com o passar dos tempos. Há algumas vacinas para dores mais agudas. Há ensinamentos que nos trazem precaução, proteção e ação. Isto porque mesmo os precavidos e protegidos se cortam. E, cortados, precisam agir. Ou isso ou o sangue jorrado ganhará gosto, e uma vida será esvaziada. Ou isso ou a entrega pálida diante da primeira dor. De qualquer dor.

A mãe de Talita, avó de André, quis aproveitar a ocasião para trazer algum frescor em vidas ainda frescas. É bom ver pais se preocupando com filhos. É bom que se debrucem sobre o que faz bem e sobre o que faz mal. É esta a arte da educação, ensinar desde cedo a gostar das coisas corretas e a desgostar do que é errado. E, além disso, despertar o indispensável sentimento da bravura. Não da rabugice. Não da violência. A bravura que desenha na mente dos Andrés a necessidade de ficar em pé e de, se cortado, prosseguir, sem se entregar ao sangue ou à dor.

Gratidão ao ano que se despede.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as águas e suas espumas sobem até as areias e limpam e refrescam e anunciam que, em instantes, voltarão. É o mar e o seu ir-e-vir. É o mar e os seus trazidos, deixando e apagando marcas.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as montanhas percebem a chegada do novo. O sol vai se espreguiçando e ganhando forças. A luz do que esverdeia desenha a esperança que inspirará os novos poetas. Há animais que barulham aqui e acolá. Cada um fazendo o som que sabe.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as grandes cidades, que não dormiram, acordam. Há movimentos ininterruptos de gentes e de ruídos. Há luzes que se acendem e há luzes que se apagam como nos vagalumes lá no campo, como nos brilhos que se vê nos clarões de sol e mar.

Uma mãe ensina ao filho que é preciso agradecer. Diz isso com a responsabilidade de quem amansa os erráticos que estão por perto para ferir. Agradecer ao que recebeu de presente, agradecer à passagem que foi dada, agradecer ao alimento que faz crescer.

Um paciente, que teve uma mãe que o ensinou a agradecer, agradece ao médico o alívio da dor, o cuidado generoso, o conhecimento despejado como forma de ação. Ora um padre na Igreja. Fala da gratidão como um valor dos que sabem que a vida é dom, que dom é presente, que presente se recebe e se agradece e se cuida. Cuida da vida de tantos a professora que agradece aos alunos pelo privilégio da troca, dos encontros, dos crescimentos comuns. Ensinar a aprender é um dos ramos mais bonitos que brotam na árvore da vida.

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