Seu nome era Néia. Só o publico porque ela me autorizou. Escrevi este artigo ainda no voo. E li para ela. Sorriu encabulada. Parece que gostou. Sentou-se ao meu lado. Eu tinha um livro na mão. Delicadamente, ela puxou conversa. Delicadamente, pediu desculpas no caso de estar me incomodando. Fechei o livro. Pessoas são mais importantes que livros, embora os livros nos ajudem a entender as pessoas.

"Tenho muito medo de avião" - disse-me com voz embargada, olhar suplicante, cabeça meneada. Eu disse que era comum as pessoas terem medo de avião, que eu também tinha um pouco, mas que havia me acostumado. E racionalizei dizendo qualquer coisa como que o avião era o meio de transporte mais seguro. Só perdia para o elevador. Ela fez uma pausa e diminuindo a tonalidade da voz, disse em confidência: "Tenho muito medo de elevador". "É mesmo?", eu disse e logo tentei amenizar meu espanto: "Sabe que meu pai tinha medo de escadas rolantes?!". Ela respondeu: "Eu também não gosto. Mas prefiro escadas rolantes a elevador. Em elevador, eu não entro".

O avião começava a desfilar pela pista. Ela foi ficando inquieta com a movimentação. Pediu-me autorização para pegar na minha mão. Eu consenti. Fechou os olhos. Prendeu a respiração. Fiquei em dúvida se puxava alguma conversa ou se a deixava ali, em seu silêncio, em sua oração, talvez, até que o avião atingisse altura. Ela mesma quebrou a pausa: "Já rezei". "Que ótimo! Então não vai acontecer nada". "Espero que não. É tanta gente pedindo coisa, né?" E soltou um sorriso faceiro. "Mas Deus é Deus. Ele consegue ouvir todo mundo". "Eu sei".

Tenho 6 anos.

Meu nome é Gabriel. Minha mãe dizia que me deu esse nome para que eu fosse um anjo. Minha mãe morreu faz pouco tempo. Quando nasci, ela já estava com câncer. Antes de mim, veio uma irmãzinha que viveu quase nada. Logo depois, minha mãe foi percebendo um caroço no seio. O médico, que talvez não tivesse tido a devida atenção, disse que era por causa do leite que endurecera por causa da morte da minha irmã. Ela aceitou a explicação e prosseguiu.

Ficou grávida de mim. Agradeceu a Deus. Eu nasci. Um outro médico logo percebeu que o antigo caroço não era leite endurecido, mas um tumor maligno. Ela teve que tirar o seio. Eu começava a entender a dor, quando o câncer começou, tempos depois, a ocupar-se do seu pulmão.

Eu ficava triste com suas crises. Aprendi o que era balão de oxigênio. Aprendi a chorar contido para não incomodar ainda mais e para estar pronto para ajudá-la. Meu pai sempre foi muito nervoso. Agora, piorou.

Minha mãe morreu. E no dia do meu aniversário. Um mês depois, meu pai já estava namorando. Fiquei muito triste, mas não pude dizer nada. Tenho 6 anos. Ele diz que nada entendo da vida dos adultos. Que tenho que lhe obedecer. A namorada do meu pai também é nervosa. Fala pouco comigo. Às vezes, grita. Diz que eu não paro quieto. Ela desarrumou toda a casa. Mexeu até nas santas da minha mãe. Até na imagem do Anjo Gabriel. Não sei onde ela colocou. Perguntei e ela gritou alguma coisa que eu não entendi. Meu pai brigou comigo, quando chegou. Disse que eu não podia ficar maltratando a sua namorada. Eu não sei que história ela contou. Mas fui eu que fui maltratado. Fiquei quieto. Ou melhor, queria ter ficado quieto. Mas não aguentei e comecei a chorar. Ele ralhou comigo. Disse que homem não chora. Que estava na hora de eu deixar de ser criança. Tenho 6 anos, repito.

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