Morreu o Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. Luiz Carlos Cancellier de Olivo não resistiu à dor da injustiça, não compreendeu a incompreendida ação contra sua dignidade e decidiu partir.

Morava ao lado da universidade. Vivia a vida da universidade. Foi acusado. Como tantos outros em tantas outras circunstâncias. Preso. Humilhado. Banido. Foi condenado? Não. Não pelo devido processo legal. Foi antecipadamente condenado, prematuramente condenado. Ele e tantos que se tornam vítimas de autoridades sem a maturidade necessária para o exercício do poder.

Há muitas manifestações de dor e de respeito ao reitor que partiu. Inclusive de setores da justiça. Dos que compreendem. Que lições podemos tirar? Os que o condenaram, antecipadamente, responderão por isso?

Há excelentes juízes e promotores e delegados e outras autoridades constituídas para fazer valer a justiça. Mas há tantos que embriagados pelo poder, pela síndrome do pequeno poder, pelos desequilíbrios de um aplauso fácil que não se contêm e se lançam ferozes contra a primeira vítima. E vão se alimentado do seu sangue e da sua dor. Tudo estampado nos jornais. Tudo apresentado pela "verdade fabricada" do noticiário televisivo. A perversa relação entre membros do ministério público e da polícia federal com a imprensa é caminho certo para a injustiça. Porque há excesso de pressa e ausência de cuidados. Por que é necessário dar entrevistas, divulgar fatos, vazar procedimentos no início de um processo investigatório? Onde está a cautela de quem deveria ter a responsabilidade de fazer valer o super princípio constitucional da dignidade da pessoa humana?

Um promotor de justiça que se lança com a fome dos urubus jamais cumprirá o seu dever. Devoradores ávidos, cegos pela própria necessidade de se alimentar do podre poder. Pena. A Constituição Federal de 1988 deu ao Ministério Público responsabilidades imensas. E, talvez, a maioria compreenda e assim aja. Mas os que se desviam causam um mal imenso ao país. Covardemente, sim, porque se escondem nos benefícios da instituição, atacam suas presas. E uma parte do judiciário prefere dar de ombros, lavar as mãos. Alguns por comodismo, outros por medo da imprensa. Triste imprensa que não se preocupa com a verdade, mas com a velocidade do que quer dizer. O fato? Importa menos que a versão, o preconceito.

A leveza da amizade contrasta com os delírios da paixão. A paixão é exigência; a amizade, não. A paixão é entorpecente, a amizade é suave. Se não for suave, deixou de ser amizade. Se for utilitária, deixou de ser amizade. Há amizades que duram toda uma vida. Há outras em que se percebe a necessidade do partir.

Em um mundo de aduladores e interesseiros, urge relembrarmos o ditame bíblico, "quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro". Tesouro mais nobre do que os nobres metais preciosos, que se perdem com o tempo. A amizade, a verdadeira, permanece.

Há quem diga que a paixão causa sensações bioquímicas. Sensações que perseguimos para encontrar a felicidade. Sensações que buscamos em remédios e drogas, em lembranças e esquecimentos. Lembrar a primeira dose de algo que não fez bem, que me picou, que me viciou, lembrar os delírios do que nem existiu. Esquecer e dormir. Dormir uma noite de paz sem os solavancos dos pensamentos. São, talvez, essas as sensações que buscam os que se acompanham de tantos medicamentos. Não. Não sou conhecedor suficiente para falar de tranquilizantes ou de outras pílulas. Nem dos vícios químicos. Nem é esse o meu intento aqui. Quero falar da amizade. Do prazer puro que brota da biologia das relações ao saber que há um amigo que virá ao meu encontro para fazer nada. Apenas para estar comigo. Sem planos de planificar algum empreendimento, sem interesses de amealhar alguns bens, sem necessidade de prazeres carentes do que é matéria. Apenas nós, meu amigo e eu, e uma brisa que nos relembre de que é bom estarmos ali. Ali onde? No lugar sagrado do encontro. No lugar em que podemos tirar os sapatos ou os chinelos e pisarmos sem receios.

Alzira trabalha em uma casa de família. Gosta do que faz. Trabalha na limpeza, na arrumação e, principalmente, na cozinha. Inventa receitas para agradar a família. Sonha, um dia, abrir um restaurante, mesmo que pequeno, para mostrar para mais gente o seu talento. Faz uma moqueca como ninguém. Sabe fazer à baiana e à capixaba. Faz todos os tipos de tortas e bolos. Enfeita até as saladas. O arroz com feijão tem algum segredo que ela não conta.

A patroa de Alzira a trata com muito carinho. Cada vez que há convidados para o almoço ou para o jantar, ela chama Alzira que recebe os aplausos como uma verdadeira chef de cozinha.

Alzira fica vendo, em seu celular, receitas de chefs famosos. Muda uma coisa aqui, outra ali. Concorda com o uso de alguns ingredientes; com outros, acredita que mistura o sabor, por isso muda. Faz do seu jeito e fica orgulhosa de ter a certeza de que sua receita melhora a original. E assim vai se surpreendendo e surpreendendo aos outros.

Alzira tem um filho de 6 anos, Mateus. Todos os dias senta com o menino e estuda junto com ele as lições da escola. Ela não pôde estudar como gostaria. O filho pode. O filho terá os caminhos mais abertos na vida, pensa ela. E, para isso, o estudo será o melhor companheiro. À noite, eles deitam juntos, e Alzira lê histórias para o filho. Ou inventa. Até que ele adormeça. Sonhando com palavras, personagens, vidas.

Em um dia de folga, Alzira estava indo com o filho na casa de uma amiga. Foi quando houve alguma confusão no ônibus em que estavam. E, então, ela viu que levaram o seu celular. O celular que ela mal havia começado a pagar.

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