Amanhã, a esperança há de surpreender mais uma vez. É sempre assim. Depois do que se vive hoje, há um amanhã.

Um certo João explicou sobre ser uma voz que clamava no deserto. Naquele tempo. Nos tempos de hoje. O deserto das ausências. O egoísmo nos toma de assalto e fica. E é sobre nós e apenas sobre nós que nos debruçamos. O outro é apenas um dispensável a mais. O deserto das presenças erráticas. O outro me interessa quando interessa. Nada de amizades, mas de adulações e de descartes. Nada de amores, mas de expectativas. Nada de liberdade, mas de trancafiamentos.

O deserto de João se repete hoje. Mas, amanhã, é Natal. E o Menino vem novamente. Sem pretensões de imediatismos. A manjedoura é o coração humano. Metáfora dos sentimentos que nos acolhem. Pulsante coração. Capaz de irrigar desertos e afinar vozes para tempos mais plenos.

Sim, na plenitude dos tempos, nasceu o Menino. Assim está escrito nas Escrituras Sagradas. No tempo certo, para que os homens pudessem perceber os encontros e celebrar a permanência. O Menino nasceu e foi esperançar na carpintaria de José. Foi crescendo e fazendo crescer. Foi amando e ensinando a amar. Foi olhando e desconsertando os que se achavam consertados mesmo vivendo no deserto. Os pretensiosos sempre tiveram dificuldade de compreender a simplicidade do Menino.

O natal nos traz todos esses ingredientes. A fartura das mesas deveria vir depois. É de fartura de afetos que carecemos. De olhares que impeçam a invisibilidade, de ouvidos que espantem a surdez. Há gritos implorando por justiça, há gritos pedindo apenas atenção.

Desatentos, comemos e bebemos sem economia. E cobramos presentes. Presenças reais ficam para os que aprenderam a compreender, a sentir, a ver a estrela que continua a nos guiar para que saiamos do deserto.

Eduardo acabou de completar 7 anos. Com direito a festa, a música, a voluntários vestidos de personagens para entreter e dar alguma alegria ao menino.

Tudo em um hospital. Eduardo tem câncer e luta para reequilibrar o seu organismo e os seus pensamentos. A mãe, sempre presente, exerce a nobilíssima profissão de disfarçar a dor. Sorri o sorriso que encontra em algum esconderijo valente dentro dela e fala sobre o futuro como quem acredita nele. Acompanhados.

Há muitas crianças que conseguem vencer o embate e prosseguir. Eduardo tem um câncer mais agressivo. Não falam muito sobre isso. Não gastam tempo imaginando o tempo que resta. Apenas usufruir o tempo para viver, é isso o que combinaram sem precisar combinar.

Eduardo percebe as pausas da mãe. Por mais que uma cortina de esperança tente desfalcar a verdade, há algo que entra naquele quarto e que os põe a chorar. Algum dito mais carinhoso, algum incômodo na posição devido ao fato de o menino ficar deitado por muito tempo, alguma lembrança do que nunca aconteceu, não tiveram tempo para isso.

Dia desses, Eduardo soltou uma frase ao ser perguntado pela enfermeira se estava doendo, depois de tentativas tantas para encontrar uma veia na tão perfurada pele. Apesar da expressão dizer o contrário, ele foi enfático: "Os valentes suportam a dor". E sorriu o que pôde. E respirou fundo suportando tudo. A mãe também sorriu. E se levantou. E saiu do quarto como quem pede um vento milagroso, um solavanco em um sono, talvez. Poderia ser tudo um sonho, pensa ela com ela mesma. “Poderia acordar e ver o meu filho correndo e brincando e caindo e se lambuzando de alegria. Poderia fazer as contas para as formaturas, as festas, os centímetros de acréscimo a altura de um corpo menino. Poderia ser tudo isso”.

"Sempre há um relógio", foi a frase que Lucas ouviu quando visitara uma tia, que vivia em um asilo.

Lucas andava envolto em pensamentos pouco felizes. Vivia às turras com o tempo. Parece que a beleza ia se despedindo dia a dia. Sempre fora muito vaidoso. Corpo perfeito. Cabelos impecavelmente arranjados. Olhos pidonhos de reciprocidade. Era um sedutor o tal do Lucas. Bastava se interessar e ajustava o olhar e o exibir e o dizer galante na ânsia da conquista. Obtido o sucesso, vinha o cansaço. Era preciso novamente buscar outra presa. E, de sedução em sedução, o jovem ia usando seus dias. E as pessoas pelas quais se interessava.

Amores duradouros não o animavam. Relações sempre efêmeras. Ria quando um amigo dizia que ele era campeão de 100m. Prostrava-se, se necessário fosse, para envolver. Depois abria uma gaveta de dizeres prontos para justificar sua partida. Enganava. Mentia. Dizia "eu te amo" como quem diz "bom dia". Um "bom dia" não causa danos; um "eu te amo" pode ser demolidor. Preocupava-se pouco com o outro e o seus sentimentos. Era sobre ele mesmo o seu repertório escolhido. Mesmo em conversas, preferia fitar-se em algum espelho. Sua imagem o agradava. Ou não. Havia tanta necessidade de conquistar, de seduzir, de se compreender belo que a beleza não parecia suficiente para o seu próprio contentamento.

"Sempre há um relógio", dizia Eunice, a tia.

"Estou ouvindo o barulho", concordava Lucas, olhando em um espelho e reparando no cabelo que já ia se rarefazendo.

"Você gosta de espelho, não é?".

Lucas fingiu não ouvir a frase da tia.

"Eu também gostava".

O silêncio entre eles deu espaço a pensamentos.

"Perdi a única coisa que eu tinha, a juventude".

"Todos perderemos". Concordou Lucas.

"Não. Há outras conquistas. Conquistas que permanecem. Vidas significativas. Ah, não me esforcei para construir nada".

Lucas apenas pensava. Olhava para a tia. E olhava novamente para o espelho. Estava preocupado com os cabelos. E reparava que algumas rugas começavam a se engraçar.

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