Havia uma penteadeira com algumas gavetas que guardavam algumas fotografias. Havia também alguns livros antigos e algumas agendas de papel. No chão, ao lado da penteadeira, algumas listas de telefone. Ana não sabia por que ainda não havia jogado fora. Eram acúmulos e acúmulos em uma casa pequena. “Pequena era a vida”, pensava ela. Tudo havia passado tão depressa. Olha alguns álbuns e se recorda de algumas datas. O pai era muito religioso. Livros de oração e de novenas também foram se acumulando. Joaquim já morrera há 20 anos. “Nossa!”, assusta-se ela. Ah, o tempo!

Vê livros antigos de antigas campanhas da fraternidade. Olha para o relógio e decide que vai à missa. O pai gostava de explicar o sentido da quarta-feira de cinzas. Iam todos. O pai, a mãe, os 2 irmãos e Ana. E voltavam com o sinal na testa.

Era ainda pequena quando o pai dizia que as cinzas significam a nossa fragilidade. "Um tombo, apenas, e nossa vida, aqui na terra, termina", era o exemplo que dava o pai. "Somos frágeis", insistia ele.

Recorda-se Ana de que a expressão que se usa nesses dias é algo como isso: "Lembra que és pó e ao pó retornarás". Ela não entendia direito a relação do pó com a fragilidade humana. Nem com a história do tombo. Quando criança, achava lindo tudo o que o pai dizia e sorria para ele. Na Quaresma, tempo que se inicia na quarta-feira de cinzas e que prepara a Páscoa, acostumavam-se a fazer algum tipo de sacrifício. Não comiam carne, não bebiam. E cada um escolhia algo de que gostava muito para deixar de comer por 40 dias. Ana escolhia o chocolate, depois se arrependia, mas seguia fazendo o tal do sacrifício. O pai explicava que era para sentir a falta que sentiam aqueles que não tinham alimentos. É disso que ela se lembra. Além de outros ensinamentos bonitos do pai.

O dia 30 de janeiro é o dia da saudade. Assim decidiram. Só não podem decidir que seja este o único dia em que se possa sentir saudade.

Rubem Alves dizia que "a saudade é nossa alma dizendo para onde ela quer voltar". Voltar ao tempo da inocência? Voltar ao lugar em que imaginávamos que todos fossem bons? Voltar à antiga fotografia, quando estava ela completa, quando ninguém havia partido? Voltar ao olhar que tínhamos, quando pela primeira vez nos apaixonamos? Voltar aos ditos envergonhados quando queríamos saber o que depois de algum tempo virou rotina?

A saudade tem o poder de perfumar a rotina? Um andar de bicicleta acompanhado. Depois de termos aprendido. Um nadar de rio. Um procurar quem surgiu e desapareceu. Um tentar entender o sentimento que nos assalta e que muda nosso estar no mundo.

Saudade da paixão. Da paixão cortante que nos fazia provar que estávamos vivos. Um banho de mar. Saudade da primeira vez que vimos a imensidão do mar. Suas águas caprichosas. O ir e vir. O trazer e o levar. O apagar. O recomeçar. Saudade do sol se espreguiçando e anunciando novidades ou de sua despedida. Sabe ele a hora de partir. E lá vem a noite e seus mistérios. Saudade dos anoiteceres acompanhados. A foto pode estar com alguma ausência, mas a memória a guarda como se guarda uma preciosidade.

Saudade de acreditar em amor. De acreditar em verdade. As mentiras foram chegando, uma a uma, e desmoronando sonhos e nos apresentando pesadelos. Saudade de uma noite de sono bom. Quando a preocupação que tínhamos era um jeito novo de brincar. Apenas isso. Saudade do colo da mãe. Saudade do choro do filho. Saudade das mãos do pai. Saudade do engatinhar. E os aniversários festivos. E os natais alegres. E as comidas feitas com temperos de conversas. Era bom estar na cozinha. Os calores nos aqueciam.

Saudade das músicas de ontem, que nos resgatam tempos, que nos rasgam sentimentos. Até dos choros se pode ter saudade. Bob Marley disse sobre a saudade. que "é um sentimento que, quando não cabe no coração, escorre pelos olhos". Saudade do tempo que veio antes do endurecimento. Chorar era bom quando ainda não tínhamos vergonha de expressar os sentimentos.

"Estou satisfeito, muito obrigado", foi a resposta de Sergio quando insistiram que ele comesse mais um brigadeiro. Fernando, envolto em apetites, brincou, "Eu nunca estou satisfeito, sempre quero mais".

Falavam eles sobre brigadeiros. Falamos nós sobre a vida. O que significa estar satisfeito? O que significa nunca estar satisfeito?

Há pessoas que se alimentam do que é necessário, inclusive para o seu prazer. Há outras que, insatisfeitas, se lambuzam em desejos intermináveis. E se avolumam de descartáveis.Querem tudo em excesso. Os olhos não cessam de buscar o que falta. Sempre falta para quem não gasta algum tempo educando o olhar.

Há pessoas que vivem uma história de amor, mas não valorizam. O olhar quer uma outra história, mais perfeita talvez. Histórias perfeitas são ilusões dos que, como dissemos, não sabem olhar.

Há os que vivem em um lugar e gostariam de viver em outro. Não estão satisfeitos. Falta alguma coisa. No lugar? Ou em algum lugar dentro deles mesmos?

Há os que trabalham e lamentam pelo trabalho que fazem. Gostariam de outra coisa fazer. E, quando conseguem, prosseguem na trajetória da insatisfação.

Há os que escolhem uma viagem. E, no meio da viagem, conversam com alguém que está em outro lugar e que descreve o outro lugar como um paraíso. Insatisfeitos, lamentam a escolha. Poderiam estar onde não estão.

Há os que olham os amigos dos outros e desejam ter amigos assim. Não estão satisfeitos com os amigos que têm. Volta a tal da imperfeição.

Há os que sonham com o pai que não têm ou com um filho que pudesse ser diferente. Com pessoas ou coisas, estão sempre nos queixumes. ​O quarto poderia ser um pouco maior. O carro poderia ter um som mais potente.

Diante do espelho, as insatisfações prosseguem. Dez centímetros a mais de altura seria o ideal. Seria mesmo? Ou continuaria faltando algo? 5 quilos a menos faria toda a diferença. Faria mesmo? Ou a insatisfação continuaria cobrando outras medidas?

Fernando tinha apelido de "querêncio" quando era criança. Queria tudo. E encontrava alguém para dar. Os pais não gostavam de vê-lo insatisfeito. De satisfação em satisfação, Fernando não aprendeu a sorver o bom de ter o que se tem. O bom de celebrar o que se conquistou. O bom de compreender que o outro é o outro, e as coisas do outro dizem respeito ao outro, e as minhas coisas foram conquistas árduas que aumentam o meu valor.

​Sergio gosta da vida que tem. Com os solavancos que leva. Com as ausências, comuns em todas as vidas. Com o que amealhou de amigos e de bens. É assim que ele é. É assim que ele conseguiu lutar para prosseguir sem exigir mais que o necessário.

​Fernando come sem prestar atenção. E rapidamente engole um, dois, três brigadeiros. E continua a conversa, sem nada dizer. Sergio olha para o brigadeiro, alimenta-se com o que vê, e depois, calmamente, delicia-se com o seu sabor. Histórias banais de cotidianos ajudam a pensar em escolhas maiores, em posturas, em valores.

Antes de olhar para o lado e alimentar de desejos a vida que não temos, vale educar o olhar para as memórias e as possibilidades, para aquecer o presente de gratidões de ontem e de esperanças do amanhã. Sem ilusões. Apenas com sonhos. Com bons sonhos de satisfação.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia - RJ) | Data: 28/01/2018

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