Maria é o seu nome. Moradora da Tijuca. Observadora do comportamento humano. Das mudanças que o tempo é capaz de proporcionar.

Tempo de vida, ela tem. No mês que vem, celebra 96 anos de idade. Maria tem gestos marcantes. Anda com cuidado. Já percebeu que a pressa traz tropeços dolorosos. Come vagarosamente. Sabe o valor de cada mastigar. De cada experimentar.

O café fumegante faz Maria esperar. Enquanto isso, corta, vagarosamente, o pão. E sorri o sorriso dos que amam a vida. Maria já teve suas perdas. Uma filha lhe foi tirada por um câncer apressado. Um genro se foi, prematuramente, por um coração que teimou em parar antes.

O marido, ah, sobre o marido, ela tece uma história na outra. "Miguel sempre fez minha vontade". E, enquanto molha o pão no café, emenda: "Claro que minhas vontades eram sempre boas para a família".

Fala do pai que já morreu há muito. Conta com detalhes os seus últimos dias. Os filhos, os setes filhos, estavam com ele. Conta que um demorou a chegar. E o pai esperou. Só adormeceu em seus braços para não mais acordar quando estava completo o álbum do amor.

Come um pedaço de pão. A conversa vai para os problemas de hoje. Maria apenas ouve. A filha fala das preocupações de ser mãe, da violência da cidade, do futuro. Maria ouve. Uma amiga diz sobre o mundo que está se perdendo. Maria, depois de um gole de café, participa da história. "Precisamos ter paciência. Aos poucos, tudo se ajeita". Um sorriso. E o prosseguir: "Oração, falar com Deus ajuda muito".

Eu observava as suas mãos. As marcas do tempo não tiraram a beleza. Observava o seu olhar enquanto os outros falavam. A atenção ao outro é prova de amor e de sabedoria. Observava o seu texto mesmo quando discordava do que alguém havia dito. Cuidadoso. Sinal de respeito.

Falamos sobre a formatura da neta. Certamente irá ao baile. Sim. "Os acontecimentos da vida devem ser celebrados". Quando falaram de doenças, ela não alimentou as importâncias. Elas vêm e vão. "Os remédios certos, a paciência e a fé em Deus ajudam muito". Depois, explicou que a ordem correta é, primeiramente, a fé em Deus.

Maria é uma mulher de fé. O seu apartamento é habitado por histórias lindas e por despedidas. Há pouco tempo, ela fez uma reforma. É preciso pintar as paredes. É preciso distribuir o que não se usa. Nada de acúmulos a não ser o aprendizado que o tempo pode nos proporcionar. Se estivermos atentos.

Estive atento naquele café. Na rua, os barulhos não nos dispersavam. Há barulhos por todos os lados.

Antes de me despedir, ela me pediu que voltasse sempre. Como pede sempre. Eu sempre volto. Porque aprendo. Porque compreendo o tempo da sabedoria. Porque amo estar ali.

Alguns jovens têm nenhuma paciência com os mais velhos. Desperdício. O entardecer nos confere espetáculos grandiosos. É o poder do dia antes das despedidas. Ontem mesmo fiquei mais uma vez extasiado diante de um pôr do sol nas montanhas dos meus sonhos.

Maria é o seu nome. Mora na Tijuca. Mora em muitos outros lugares e está pronta para ensinar. Feliz nome.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 01/07/2018

Páscoa vem de passagem.

Passagens interrompidas cheiram a escravidão. Páscoa é liberdade.

Passagens enterradas cheiram a morte. Páscoa é vida.

Foi assim nos idos de antigamente, quando um povo sonhava em sair de uma terra onde eram tratados com indignidades para experimentar, mesmo que no deserto, a sensação de irmandade. Os irmãos não se escravizam uns aos outros.

Foi assim, também, nos dias de Jesus. Pregaram na cruz o Pregador do Amor. O que houve? Não era Ele que curava os que de cura precisavam, que abraçava os que ninguém abraçava, que olhava com os olhos de amanhecer? Os paralíticos andavam, os leprosos sentiam-se acolhidos, os desesperançados amanheciam. Então, que mal fez Ele? Por que os gritos de "crucifica-o" abafaram as canções de liberdade? Escravos de opiniões alheias, afogados nos ódios dissipados por aqueles que tinham medo de perder algum poder, já não sabiam o que faziam.

E é assim, do alto da dor, que diz Jesus: "Pai, perdoa-os, eles não sabem o que fazem". E não sabiam mesmo. E não sabemos nós quando optamos por tudo o que nos restringe a liberdade ou a vida.

Os tempos são outros, mas as algemas persistem a nos enganar. Desconhecemos a passagem necessária que nos leva à montanha sagrada, que nos permite ouvir o sermão da humildade. Lá, em uma relva suave, os sentimentos poderiam ser suavizados. O Galileu falava de amor e de humildade, de perseguições e de justiça, de engodo e de verdade. É a verdade que nos liberta. Mas o que é a verdade? Como encontrá-la? Talvez esteja ela naquele ferido que aguarda alguém que desça de onde estiver e que dele cuide. Foi assim que Ele explicou quando falou da vida que não se encerra, quando desenhou a face do próximo. O bom samaritano. O próximo é quem cuida de mim. O amor ao próximo é o que me revela a verdade mais sagrada, a tal liberdade.

Havia uma penteadeira com algumas gavetas que guardavam algumas fotografias. Havia também alguns livros antigos e algumas agendas de papel. No chão, ao lado da penteadeira, algumas listas de telefone. Ana não sabia por que ainda não havia jogado fora. Eram acúmulos e acúmulos em uma casa pequena. “Pequena era a vida”, pensava ela. Tudo havia passado tão depressa. Olha alguns álbuns e se recorda de algumas datas. O pai era muito religioso. Livros de oração e de novenas também foram se acumulando. Joaquim já morrera há 20 anos. “Nossa!”, assusta-se ela. Ah, o tempo!

Vê livros antigos de antigas campanhas da fraternidade. Olha para o relógio e decide que vai à missa. O pai gostava de explicar o sentido da quarta-feira de cinzas. Iam todos. O pai, a mãe, os 2 irmãos e Ana. E voltavam com o sinal na testa.

Era ainda pequena quando o pai dizia que as cinzas significam a nossa fragilidade. "Um tombo, apenas, e nossa vida, aqui na terra, termina", era o exemplo que dava o pai. "Somos frágeis", insistia ele.

Recorda-se Ana de que a expressão que se usa nesses dias é algo como isso: "Lembra que és pó e ao pó retornarás". Ela não entendia direito a relação do pó com a fragilidade humana. Nem com a história do tombo. Quando criança, achava lindo tudo o que o pai dizia e sorria para ele. Na Quaresma, tempo que se inicia na quarta-feira de cinzas e que prepara a Páscoa, acostumavam-se a fazer algum tipo de sacrifício. Não comiam carne, não bebiam. E cada um escolhia algo de que gostava muito para deixar de comer por 40 dias. Ana escolhia o chocolate, depois se arrependia, mas seguia fazendo o tal do sacrifício. O pai explicava que era para sentir a falta que sentiam aqueles que não tinham alimentos. É disso que ela se lembra. Além de outros ensinamentos bonitos do pai.

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