A rede informacional vem mudando nossas formas de relacionamento. As românticas cartas deram lugar aos e-mails que deram lugar às mensagens em facebook, twitter, instagram, entre outros. Os pagamentos feitos em agências bancárias deram lugar à agilidade de transferências online. As pesquisas nas velhas enciclopédias foram perdendo espaços para o google. E outros tantos caminhos poderiam ser visitados. Na medicina. Nos laboratórios e na fabricação de remédios ou carros. Nas planilhas de custos. Nos projetos. Nas escrituras de livros ou de quaisquer outras informações. Na comunicação com o outro - facetime, whatsapp, messenger - e na relação com o conhecimento.

Mas essas conquistas trazem problemas. E muitos. Há um deles que vem chamando a atenção de pesquisadores do comportamento humano. O ódio na rede. O ódio na internet. Sempre ouve atiradores de pedras. Alguns se revestindo de poder religioso, outros na clandestinidade de algum grupo radical, outros no criminalidade pura de um nada puro jeito de se dar bem na vida. As pedras na internet, ou o ódio, são facilmente observáveis.

Desde criança, frequento a Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Um Santuário da Fé. Vou até lá para rezar, para visitar a casa da mãe, para dizer os meus agradecimentos e pedidos. Aparecida é bem próxima a Cachoeira Paulista, a cidade em que nasci. Fica no vale do Paraíba. Abençoado vale que repousa entre as serras do mar e da mantiqueira. Tenho saudade daquele chão. E de tantas pessoas boas que ali alimentaram minha fé.

Estou longe, mas perto. Nas lembranças e na presença, quando posso. Vou em família, muitas vezes. Minha mãe se emociona sempre. Meu pai que gostava tanto de ir, hoje, já não está mais por aqui. A Igreja é acolhedora. Pessoas chegam por todos os lados. Ônibus lotados, carros e até mesmo a pé. Peregrinos que caminham dias e dias por um milagre. Outros em agradecimento à graça alcançada. Chegam em busca de conforto, de abrigo, de colo sagrado. E é bonito de se ver os fiéis desfilando suas dores e seus sonhos.Fico observando a simplicidade das pessoas. Os olhos suplicantes. Os joelhos no chão. As canções que saem da alma.Uma mãe pedindo pela cura do filho. Um filho pedindo pela cura da mãe. Uma mulher dizendo que vai se submeter a uma cirurgia e lembrando que tem filhos para ver crescer. Um pai prometendo uma vela gigante se o filho for curado do câncer.

Foi no dia 4 de outubro, dia de São Francisco, que estes dois me surpreenderam.

Antes da missa, houve um acolhimento. Um aspirante (um jovem que se prepara para ser sacerdote franciscano) percorria a Igreja entregando pequenas flores. A Igreja cantava "Irmãos, minhas irmãs, vamos cantar nesta manhã, pois renasceu mais uma vez a criação nas mãos de Deus . Irmã, flor que mal se abriu, fala do amor que não tem fim, água irmã que nos refaz e sai do chão cantando assim...". Abaixei-me para pegar a pequena flor que caiu do pequeno Francisco. Ele estava em uma cadeira de rodas. Sorria muito. Mexia-se como podia. Pouco. A doença roubara-lhe muitos movimentos. Mas a alegria que brotava dos seus olhos e o esforço para algo conseguir cantarolar deixava o pai orgulhoso. "É meu filho. Meu lindo filho". "Estou vendo". "Chama-se Francisco". "É um lindo nome". "Também me chamo Francisco. Meus santos pais souberam escolher".

Apenas sorri. O pai tinha as mãos grossas de um trabalhador acostumado às rudezas. Um chapéu ficava sobre o banco. Um pano grande também estava ali. Depois, vi que ele servia para cobrir a cabeça do filho para percorrem as ruas até a casa. "Moramos aqui perto. Francisco gosta muito de missa", justificou. O filho me olhava. Olhos lindos. Sons difíceis de serem ditos. Cabeça de um lado a outro, com esforço. Eu sorria apenas. A missa estava começando. Olhava para o altar e para os Franciscos. A flor caiu novamente. Eu abaixei para pegar. O pai, também. Ele me autorizou a fazer o gesto e eu coloquei novamente na cadeira do seu filho, próxima de suas mãos quase imóveis. Ele olhou para mim. Um olhar de gratidão. Olhamo-nos mais um pouco. Quis dizer al go. Ele, também. Decidimos que não era necessário. Era bom estarmos ali. Durante as músicas, dos seus olhos escorriam lágrimas. Olhos do filho. Olhos do pai.

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