Foi no dia 4 de outubro, dia de São Francisco, que estes dois me surpreenderam.

Antes da missa, houve um acolhimento. Um aspirante (um jovem que se prepara para ser sacerdote franciscano) percorria a Igreja entregando pequenas flores. A Igreja cantava "Irmãos, minhas irmãs, vamos cantar nesta manhã, pois renasceu mais uma vez a criação nas mãos de Deus . Irmã, flor que mal se abriu, fala do amor que não tem fim, água irmã que nos refaz e sai do chão cantando assim...". Abaixei-me para pegar a pequena flor que caiu do pequeno Francisco. Ele estava em uma cadeira de rodas. Sorria muito. Mexia-se como podia. Pouco. A doença roubara-lhe muitos movimentos. Mas a alegria que brotava dos seus olhos e o esforço para algo conseguir cantarolar deixava o pai orgulhoso. "É meu filho. Meu lindo filho". "Estou vendo". "Chama-se Francisco". "É um lindo nome". "Também me chamo Francisco. Meus santos pais souberam escolher".

Apenas sorri. O pai tinha as mãos grossas de um trabalhador acostumado às rudezas. Um chapéu ficava sobre o banco. Um pano grande também estava ali. Depois, vi que ele servia para cobrir a cabeça do filho para percorrem as ruas até a casa. "Moramos aqui perto. Francisco gosta muito de missa", justificou. O filho me olhava. Olhos lindos. Sons difíceis de serem ditos. Cabeça de um lado a outro, com esforço. Eu sorria apenas. A missa estava começando. Olhava para o altar e para os Franciscos. A flor caiu novamente. Eu abaixei para pegar. O pai, também. Ele me autorizou a fazer o gesto e eu coloquei novamente na cadeira do seu filho, próxima de suas mãos quase imóveis. Ele olhou para mim. Um olhar de gratidão. Olhamo-nos mais um pouco. Quis dizer al go. Ele, também. Decidimos que não era necessário. Era bom estarmos ali. Durante as músicas, dos seus olhos escorriam lágrimas. Olhos do filho. Olhos do pai.

É senso comum que é preciso melhorar a educação no Brasil. Aliás, precisará sempre. Os indicadores de quantidade e qualidade mostram que demos alguns saltos importantes. Mas falta muito. E esse muito tem que ser feito de forma responsável. Fórmulas mágicas não existem. Acompanhei com muita atenção a proposta de reforma do ensino médio. Trago algumas reflexões para ajudar o debate. A escolha de reformar o ensino médio por meio de Medida Provisória parece-me não ser o melhor caminho. É preciso envolver os sujeitos do processo educativo. Esqueceram a "Sua Excelência, o Professor". São os professores que, todos os dias, no chão da escola, realizam o ofício do ensinar e do aprender, da troca, da cumplicidade. São eles, portanto, que têm condições de sugerir e construir a melhor reforma. Os jovens também têm ideias e ideais. E, também, seus pais. E, também, a comunidade científica que se debruça sobre o tema.

Há outros aspectos. Artes e atividades físicas compõem currículos dos principais países em que a educação vem atingindo patamares de qualidade. Alunos não são máquinas em que programamos saberes e pronto. O saber é construído no dia a dia. O diálogo com outras áreas é essencial. Aprende-se português, por exemplo, também em filosofia, história, sociologia.

Seu nome era Néia. Só o publico porque ela me autorizou. Escrevi este artigo ainda no voo. E li para ela. Sorriu encabulada. Parece que gostou. Sentou-se ao meu lado. Eu tinha um livro na mão. Delicadamente, ela puxou conversa. Delicadamente, pediu desculpas no caso de estar me incomodando. Fechei o livro. Pessoas são mais importantes que livros, embora os livros nos ajudem a entender as pessoas.

"Tenho muito medo de avião" - disse-me com voz embargada, olhar suplicante, cabeça meneada. Eu disse que era comum as pessoas terem medo de avião, que eu também tinha um pouco, mas que havia me acostumado. E racionalizei dizendo qualquer coisa como que o avião era o meio de transporte mais seguro. Só perdia para o elevador. Ela fez uma pausa e diminuindo a tonalidade da voz, disse em confidência: "Tenho muito medo de elevador". "É mesmo?", eu disse e logo tentei amenizar meu espanto: "Sabe que meu pai tinha medo de escadas rolantes?!". Ela respondeu: "Eu também não gosto. Mas prefiro escadas rolantes a elevador. Em elevador, eu não entro".

O avião começava a desfilar pela pista. Ela foi ficando inquieta com a movimentação. Pediu-me autorização para pegar na minha mão. Eu consenti. Fechou os olhos. Prendeu a respiração. Fiquei em dúvida se puxava alguma conversa ou se a deixava ali, em seu silêncio, em sua oração, talvez, até que o avião atingisse altura. Ela mesma quebrou a pausa: "Já rezei". "Que ótimo! Então não vai acontecer nada". "Espero que não. É tanta gente pedindo coisa, né?" E soltou um sorriso faceiro. "Mas Deus é Deus. Ele consegue ouvir todo mundo". "Eu sei".

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